terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Levas uma maquia

Juntavam-se num qualquer degrau ou esquina, enroladas numas mantas quentes ou nuns lenços escuros e tinham conversa para dias inteiros. Não fosse a sopa ao lume, o feijão de molho ou o homem que estava quase a chegar e lá ficavam elas a saltitar de conversa em conversa sem nunca abandonar os seus lugares.

Viam o sol subir e a aldeia a ganhar fôlego. O grupo de miúdas que passava com risos meio escondidos e uma voz um bocadinho mais alta do que era suposto.

 - Não há nada que alumie estas almas – diziam elas, as que ficavam à esquina. Mais velhas e criadas sobre outras regras e bons costumes que não incluíam licença para falar mais do que o estritamente necessário.

 Não entravam na taberna que isso era território dos homens e mulher decente não entrava lá. O ambiente pouco próprio, o cheiro a vinho, a desgraça alheia e a própria.

 - Oh Manel, vai lá ver se o teu pai anda pela taberna – e lá ia o miúdo, lingrinhas e esperto, a correr rua abaixo em direcção à casa escura e a cheirar a destilaria, à procura do homem da casa que já devia ter despegado do campo, mas que não dera sinal de vida.

Elas ficavam, sentadas no degrau da casa a fingir que arranjavam favas ou ervilhas, e falavam do que sabiam e do que não sabiam. Da vida da vizinha e da filha do outro que veio da cidade e não sabia estar com as regras mandavam. As regras que só elas e as pessoas que viviam naquele pedaço de terra conheciam. As meninas não andam sozinhas, não falam com os homens, não andam em gargalhadas. As meninas a sério, das que se querem para casar, sabem ser o mais invisíveis possível e viver caladas na desgraça que pode ser a vida.

 - Vou mas é terminar o jantar – e lá voltava ela para o lume e a sopa, para o feijão a demolhar e a roupa que era preciso arranjar.

A conversa podia esperar, o marido é que não podia chegar a casa sem que ela já estivesse por lá. De repente, lá entrava o miúdo pela casa dentro, sem pedir licença ou fazer-se avisar.

- O pai não está na taberna.

E crescia a preocupação nela, num sofrimento que era ponto assente na sua vida. O sol que já mal se via, a sopa que já estava pronta e o homem que não tinha meio de entrar em casa.

O barulho do copo a partir-se no chão devolve-a à realidade em que o filho, a sofrer de bichos-carpinteiros, foi parar ao chão com um copo partido ao lado e um joelho feito num belo oito.

 - Tu mete-te com juízo ou levas uma maquia tão grande que voltas a baldear.

O miúdo calou-se, não fosse a coisa sobrar para seu lado e baldear a sério com uma maquia daquelas que ele bem conhecia. Só se ouvia a sopa a borbulhar no lume enquanto se esperava que a porta desse entrada ao homem da casa.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Arroz Doce e Coscorões

Os pratos do almoço ainda estão em cima da mesa quando se começa a ouvir a algazarra. Sem direito a aviso, os miúdos invadem a rua com os seus risos e passos apressados. Tempo é dinheiro e é preciso despachar, há muito mais à espera. 

São uns dez. Todos a tentar equilibrar um prato muito bem tapado com um pano daqueles bonitos. Com alguma sorte ainda é um dos que têm um picot à volta, feito com todo o rigor e dedicação que o trabalho merece. 

Lá vem um a descer a rua a correr. Traz o prato vazio debaixo do braço e o pano dobrado em quatro com todo os cuidados. Está pronto para a próxima ronda. Pisca o olho aos colegas em ar de provocação e segue caminho. Ouvem-se gritos de protesto. Uns risos logo a seguir. Toca a apressar mais o passo ou perde-se o negócio. 

- Eu fico por aqui. 

Batem à porta e esperam. Do outro lado ouvem-se passos. Assim que a porta abre entregam o prato ao destinatário sem hesitar. 

- Então e quem é que se casa? 


E eles, com o recado na ponta da língua, explicam o que os traz por ali e quem os mandou. O arroz-doce é passado para um novo prato, com todos os cuidados para não partir, e os coscorões são guardados. 

- Não há arroz doce como o dos casamentos – comentam os da casa enquanto provam o que ficou agarrado aos dedos e procuram a carteira. 

Uma nota para os noivos e umas moedas para o miúdo que as guarda no bolso. Mete o prato já lavado debaixo do braço, arruma o pano e despede-se apressado que ainda há muita entrega para fazer. Assim que chega à porta é vê-lo a correr rua fora.

Já não me lembro da última vez que os vi a encher as ruas de prato na mão. Ou a contar o dinheiro ao final do dia. Já não se anuncia casamentos assim. Com direito a arroz-doce e coscorões. Hoje, nem a travessa chega a casa da madrinha da noiva. 

- Mudam-se os tempos – ouve-se dizer num suspiro saudosista.