terça-feira, 26 de abril de 2016

O que nos move

Pai-nosso que estais no céu. 

Cheira a cera derretida e ouve-se o crepitar das velas que ainda ardem. Está frio, um desconforto que conforta quem procura aquela casa em busca de um alento que não encontra noutro lado. 

Elas cobrem a cabeça com o lenço de renda, delicado e tratado com o maior dos cuidados. Eles tiram o boné em sinal de respeito. Todos ajoelham em frente ao altar e fazem o sinal da cruz de cabeça baixa e a olhar o chão. 

Ouvem-se os murmúrios de rezas e de conversas trocadas. É a fé que move esta gente. Que reza antes de deitar e sempre que o coração pede. De joelhos, com o terço na mão, a correr o rosário que já se sabe de cor. 

Rogai por nós. 

Uma vida de culpa e remissão, uma confissão perpétua de pecados. A fé, a bíblia e Deus. Os sacramentos do santíssimo, a bênção do santo padre. 

Casam e baptizam os filhos. Vestem de festa no dia da comunhão. Acedem uma vela ou duas com pedidos de auxílio e de protecção. Aceitam o corpo de Deus que sacrificou o próprio filho para os salvar. 

Deus só nos dá aquilo que conseguimos aguentar.

É a certeza que Ele está lá, a ouvir, que os faz levantar no dia seguinte. Todos os dias que enfrentam fazem parte do plano que Deus guardou para eles. Batem com a mão no peito. 

Por minha culpa, minha tão grande culpa. 

Vem o domingo de ramos e a quarta-feira de cinzas. A Páscoa e a missa do Galo. As peregrinações a Fátima que deixam os pés em bolha e o cumprir promessas de joelhos no sítio onde Nossa Senhora se apresentou aos pastorinhos que a esperavam. 

É a fé que nos move na certeza de que Deus tem um plano superior para nós e que nada falha os seus desígnios. A espera pelo descanso divino quando Ele decidir levar-nos.

Perdoai-nos Senhor.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O ar do forno

Há uma bola de massa crua que tanto repousou durante uma semana que se transformou em fermento. A superfície ficou seca e áspera, o interior mole como quando foi guardada. Amanhã vem outra para o seu lugar. Hoje mistura-se esta com parte da farinha. 

Vai-se buscar o alguidar de barro já partido e marcado de tanto trabalho. Deita-se parte da farinha e a bola de uma semana e mistura-se num piscar de olhos. Sem grande ciência ou tempo a perder. Misturar e deixar repousar. 

O maior segredo é sempre uma junção de persistência com paciência. 

Quando o novo dia nasce, encontra o forno a aquecer. Ramos finos que vão queimando no forno de pedra que alimenta uma família e quem mais precisar. Fecha-se a porta e deixa-se o ar do forno chegar onde queremos que chegue. 


A massa está a descansar. Foi amassada até a respiração ficar pesada e os braços começarem a doer. De lenço na cabeça e bata já gasta, a mulher deu tudo por tudo para transformar a farinha em pão do bom. Até a massa chegar ao ponto. 

Depois, quando já repousou o que tinha a repousar e quando o fogo já chegou onde devia chegar, é cortar a massa à mão e moldar o pão com direito a bênção e oração. As mãos brancas da farinha formam pães e roscas para dar aos mais pequenos. Uma bola de massa crua fica a repousar para a semana seguinte que esta vida é feita de rotinas. Outras levam chouriço daquele que tinha ficado a secar na chaminé lá de casa.

Depois é esperar. A massa vai crescendo no forno. Já se adivinha a manteiga a derreter e o vapor do pão quente a queimar-nos a pele.

Começa a cheirar a pão quente e já se adivinha o pão estaladiço por fora e o interior branco e macio.  Para aproveitar o forno que ainda está quente, prepara-se um tabuleiro de sardinhas regadas a azeite e temperadas com cebola. 

Sai o pão a escaldar e entra o tabuleiro com o almoço. As rotinas cumpridas com o rigor que passa de geração para geração.

Parte-se o pão sem cerimónia nem faca. À mão. Meter faca em pão quente é tirar a força a quem o amassou e isso é coisa que não se quer. Daqui a uma semana começa tudo outra vez e não são corpos fracos que conseguem fazer pão. 

Não há nada que se compare à memória do cheiro a pão quente a encher a casa. A manteiga a escorrer pelas mãos e o sabor do pão amassado com a força de quem alimenta os que são seus. 

Parte-se quente, à mão e ficamos à espera que passe a semana.