quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As férias dos Senhores

A praia era destino de férias para quem não tinha vida difícil todo o ano. Para quem se levantava de manhã e encontrava a mesa do pequeno-almoço pronta, os vestidos engomados e a casa a cheirar a pão quente. Como se tudo acontecesse com o estalar de dedos. 

Para os senhores, as senhoras, as meninas e alguns doutores, as férias de Verão faziam-se à beira-mar. Para cuidar das dores nos ossos, para melhorar a circulação, para que as meninas respirassem melhor. As maleitas de um ano inteiro atenuavam-se naquelas semanas com vista para o mar sem fim. 

Com eles iam as criadas, as que nem nas férias tinham direito a descanso. Mudavam de casa, de ares, mas nunca de obrigações e deveres. Só o cheiro a maresia as fazia acreditar que os dias não eram exactamente iguais aos outros todos.

Tinham os mesmos deveres. A cozinha era o seu espaço, a lide da casa a sua obrigação. Tal como todos os outros dias. 

Quando o relógio marcava a hora, lá iam elas. Vestidas como todos os dias, de farda e avental engomado, lenço apertado e o cesto com o almoço equilibrado em cima da sogra que lhes protegia a cabeça. Iam descalças pela areia até chegar aos senhores que esperavam o repasto. 

- Oh menino, venha para aqui. 

Gritavam para os mais pequenos que corriam à beira-mar e teimavam em não voltar. 

Preparavam a mesa para os senhores e para os meninos. Almoçavam ali, com o mar a bater lá ao fundo, a areia a fazer cócegas nos pés e o sol a queimar a pele. A família protegida debaixo de pano, as criadas à espera que terminassem o almoço para fazerem o caminho de volta para casa. 

O mar estava ali tão perto que, muito de vez em quando, elas até acreditavam que estavam em descanso dos dias sempre iguais.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Onde vais?

É ponto assente de ano para ano. A festa sai à rua com direito a procissão, música e vinho para matar a sede. O mesmo fim-de-semana, marcado não se sabe bem quando. 

Há roupa nova para estrear quando os santos saírem à rua. Há quem os acompanhe descalça, a pagar as promessas que vão sendo feitas pelo filho que ainda não voltou da guerra, pela filha que precisa de uma cura. 

Matam-se coelhos e galinhas, põe-se a mesa com o melhor que se consegue arranjar. Junta-se a família inteira numa casa que não tem espaço nem para metade. É festa, valha-nos a boa vontade. 

As flores transbordam dos andores. Ouve-se o terço rezado pelas ruas. A banda acompanha os passos dos fiéis. Há quem chore quando se ouvem os sinos e começa a procissão. Há quem não consiga conter as lágrimas. Por si, pelos seus, seja lá pelo que for. 

Imaculada, Rainha dos céus. 

Cantam em devoção. De lenços na cabeça e terço nas mãos, em passo lento e sofrido. 

Recolhem os andores com uma chuva de foguetes e o toque ininterrupto de sinos. Parece que o mundo acaba ali, mas está só a começar. 

Chega a noite depois de a procissão recolher. Os lenços deixam as cabeças e há quem comece a trocar as palavras. O conjunto toca no palco improvisado e um rapaz ou outro tenta a sua sorte e convida uma menina para dançar. As mães estão atentas a qualquer tentativa de desonra, mas até o soldado mais competente se distrai. 


Bebe-se demais. Rouba-se uns beijos atrás da igreja. Promete-se porrada da grossa ao outro que acha que é mais do que o que os rodeiam. O vinho fala sempre mais alto e não passa um ano que seja sem que alguém volte para casa com um olho deitado abaixo. 

A festa segue, ano após ano. Ruas enfeitadas, santos a arejar, roupas novas, sapatos de solas imaculadas e vinho do bom. 

Donde é que vens? 

Venho da festa. Se Deus quiser, para o ano há mais.