sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Natal a Servir

Antes da menina chegar vinda lá de Lisboa, chegava a mulher de todos os anos. Aquela que amassava as broas e os coscorões que iam à mesa na ceia de Natal e que adoçavam a boca da família. Só da família. Amassava sob o olhar atento da senhora e com a mão pronta da criada para ajudar. Era para trabalhar que ela lá estava. 

Miúda delgada que o corpo não conhecia comida que lhe enchesse as peles. Nem no Natal. A casa esperava a chegada da menina que vinha lá de Lisboa com a família. Eram eles que se lambuzavam com os doces que ela fazia. Ali, durante horas esquecidas. O fogão a lenha aceso o dia todo. O fogareiro a petróleo pronto para os escaldadinhos. O corpo dorido. 

Tinha sido a criada da menina que lhe tinha ensinado, mas era a sua mão doceira que encantava a família. A farinha e os ovos perfumados a limão e regados a aguardente. O óleo a borbulhar com o calor do fogareiro e ela ali, agachada, a queimar os braços enquanto virava os fritos. 

Mais um Natal. Mais um dia de trabalho que o corpo só descansa depois de tudo arrumado e limpo. Volta ao trabalho antes de perceber que descansou. Quando a senhora toca à sineta. Sete e meia da manhã em ponto. Era preciso estar de olho nas criadas de servir que já se sabe como são. 

E ela levantava-se, arrepiada com a corrente de ar frio que chegava lá de fora. Vestia a roupa de trabalho e lá ia ela. Na cozinha sentia-se o cheiro doce das broas que lhe moeram os braços. Ela não lhes tocava. Não tinha autorização para isso. Aquelas eram para a família. São para ela as olhar enquanto serve o jantar. Nada mais. 

Quando a menina voltar a Lisboa, a senhora vai guardar as que sobrarem. Fechadas à chave no armário da cozinha. Chave guardada onde só a senhora sabe. No próximo ano volta tudo a repetir-se e aí, só aí, a criada tem autorização de tocar nas broas que ajudou a amassar. As do ano anterior, perfumadas a bafio de doze meses e duras da madeira que as guardou. 

É a vida das que estão para todo o serviço. Só para o serviço. Até no Natal.


Texto publicado originalmente na Revista DADA de Dezembro de 2017

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Depois da época

E termina assim. A casa vazia depois de dois dias de barulho e correrias. As cadeiras que sobram para o dia-a-dia que ali se vive. A terra que diz adeus aos que já não se consideram seus. 

Foram para longe. Um longe que não se mede por quilómetros ou o que lhe valha, mas que vive no desinteresse que só esquecem quando se acendem as luzes da árvore e o bacalhau e as couves vão ao lume. 

Ouvem-se as brincadeiras dos mais novos que não conhecem aquelas ruas e que dali só sabem que é a terra. Assim, simples. Sem outro nome. Sem mais história ou amor. A terra, lá onde vivem os avós e aquelas pessoas que se dizem família, mas que eles não sabem quem são. 

Vai-se o Natal nos carros que partem sem olhar para trás porque para a frente é que fica o caminho. Na cidade, na vida que se mostra aos outros como se só aqueles que deixam a terra fossem gente digna de memória. Cheios de conhecimento na ponta dos dedos e de cabeça vazia de saber. 

Seguem com o corpo cheio de açúcar e óleo. O polvo e o bacalhau a brigar com o peru. Os movimentos presos com o excesso de comida dos últimos dias. 

- Mas para que é tanta comida? - dizem eles enquanto se servem uma e outra vez sem que tivessem dado um minuto que fosse para ajudar. É precioso o seu tempo, o dos outros é outra história. 

Dizem um adeus sem energia e um até já despachado. Esperam a visita nas avenidas movimentadas. Onde interessa. A aldeia fica para dali a um ano, quando o senhor de vermelho voltar a fazer uma visita. 

Ficam para trás as memórias e as histórias que são só suas e dos seus, mas que preferem que assim não seja. 

- Nem me lembres disso - dizem quando se fala da infância em tempos menos abundantes e de mais inocência. De pernas esfoladas e comportamentos que tinham o seu quê de palermas. 

Lá vão cheios das suas grandezas deixando para trás a certeza, que não chegam a conhecer, que diz que o melhor é aquilo que se esforçam por não recordar. 

É o Natal que devia ser todos os dias, mas que se escapa sem chegar a existir. Para os que assistem à partida ficam as casas mais vazias, os corações apertados de saudades, a distância a pesar nos dias que já são tão sós. 

Lá pela terra só sobram os que de lá não querem sair e que sabem tanto sem que os deixem mostrar. Foi-se o Natal, foi o que foi.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Lugar à mesa...de Natal

Mais um ano. O dia começa como todos os outros. Cedo. É assim para quem tem de alimentar a família. Não há dia santo que lhe valha, o trabalho está sempre à sua espera. E elas apresentam-se de bata vestida e lenço à cabeça. Sempre. 

O dia amanhece frio e a noite ainda não se foi por completo. Para espantar os arrepios acendem a lareira que dá outro alento à casa. O crepitar da lareira já garante meio sustento. Pegam no alguidar de barro, já marcado do uso, e deixam-no em cima do velho banco de madeira. Por baixo, uns panos feitos de restos para amparar as pancadas que o trabalho não é de brincadeiras. 

Juntam-se várias mãos. Diferentes gerações, o mesmo espírito, os mesmos braço feitos de força. Dois dedos de conversa e outros tantos de trabalho que assim, com companhia, até vai embalado.

Preparam as coisas a olho que as medidas só as usa quem não tem mãos treinadas. Deixa-se a margarina em banho-maria. Segue o resto para o alguidar. Um de farinha com fermento e outro tanto daquela que se encomendou ao padeiro. Sal. Açúcar nem vê-lo que a massa é assim mesmo. A raspa dos limões que se trouxe da vizinha, e da laranja que se foi buscar ao quintal. Mais o sumo que sempre adoça. 

Mete-se a cafeteira ao lume que o corpo pede o café, e as mãos vão ao trabalho. A manteiga derretida e é começar a juntar tudo. Com paciência e o seu quê de sabedoria. Um amassar com precisão que isto não se faz de qualquer maneira. É o saber que está pronto só de olhar. Passa a cafeteira para a borda da lareira enquanto se espera que a borra assente e verifica-se o tempero da massa. Quando está no ponto, passa para o balcão e é batida até o trabalho ser dado por feito. No meio de conversas e risos perdidos que a vida pode ser triste, mas ainda não levou a capacidade de sorrir. 

Massa estendida e o cheiro a cru a misturar-se com o café da borra. Óleo a aquecer na panela grande. O garfo próprio à espera. 

Cortam a massa sem hesitar e levam-na ao óleo quente. O borbulhar a crescer e o coscurão a ganhar forma. As bolhas da massa a rebentar. O cheiro a óleo quente e massa frita. Os braços a queimar. O açúcar e a canela prontos para o final. 

Ainda mal nasceu o dia e aqueles corpos já contam com horas de trabalho. O calor do lume a aquecer-lhes a cara. E uma travessa de coscorões pronta para a família e para quem quiser que comida é coisa que nunca se nega. 

Que venha a noite de Natal.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Não escapa uma

Ouvem-se as conversas cheias de certeza que a vida alheia é sempre certa na boca de quem a não vive. 

- É o que te digo. Vais rua acima e é tudo mulheres de má vida. Não escapa uma. Para baixo também há que se lhe diga.

Lá está. Sentença dada como se ali estivesse o pilar da retidão moral. Sem dúvidas. É assim e ponto final. Para os outros que quem tantas certezas não fala de si e muito menos dos seus. Se falasse diria que a sua porta era não na sua lenga-lenga. Não se esperava outra coisa. 

É o dedo espetado à vida alheia por uma língua afiada em relação a assuntos que não são seus. A pessoas que conhece a cara, a voz e as rotinas. Nada mais. Nenhum seu que nos seus não há maus exemplos nem pecadores. São pessoas com o amém na boca e a mão a bater no peito. Correctos. Como se quer. 

- Só digo a verdade - a sua pelo menos que a verdade dos outros conta pouco em situações destas. 

A sua está sempre contra os outros. Boca cheia para cuspir no caminho que os outros fazem.

Conversas de esquina e de bancos de igreja. De casa. Falam de boca cheia e visão bloqueada por palas que não deixam ver além das suas verdades. Se é que se podem chamar de verdades. 

- É só má vida, uma vergonha. 

Não tão grande como falar da vida alheia, mas isso são outros quinhentos e para esses não há razão que se aplique. Porque não se quer que assim seja. Porque olhar para dentro das paredes a que se chama casa implica olhar para os seus. Tal e qual como eles são. E quando se olha com atenção ainda se pode encontrar alguma coisa que não se queira ver. Com eles, os seus, não há mal dizer que entre. 

Os sorrisos para os que se cruzam consigo escondem as facas afiadas que espetam nas suas costas.É o ser menor do que aquilo que se pensa. A pequenez das palavras que se escolhe para atirar aos outros.

Afastam-se das mentes que dizem ser pequenas, da terra que acreditam não ser suficientes para eles. Falam dos que ficam para trás com uma altivez que só quem se acha melhor do que os outros pode ter. Deixam a terra, mas as ruas da má língua ficam-lhes coladas ao corpo. Uma doença crónica de mal dizer e nariz empinado como sintomas.

Qualquer dia foge-lhes a boca para a verdade e dão os seus como iguais aos outros. Dignos de juízos de valor e pecadores. Tal e qual como os da porta ao lado. Nem mais nem menos. Feitos a papel químico. Qualquer dia não há mão a bater no peito que lhes valha e nada que os salve de quem desenrolou a língua para falar de boca cheia daquilo que não conhece. Vai-se a ver e, qualquer dia, são eles que andam de facas espetadas nas costas.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A água leva o que é seu

Já vinham marcados no calendário. Eram os dias difíceis. O céu carregava e cá em baixo o rio entrava pelo que era seu. Ou o que assim considerava. Certo como a mudança das estações. Vinham os dias frios, as fogueiras davam calor e logo a seguir aparecia a chuva. E ai se Deus a dava. Um peso de água que ninguém parava. Era ver chover e rezar. Nada mais. Pedir auxílio divino naquilo que o homem não tinha como controlar. Que alguém olhasse pelos que ali estavam.

Chovia dias a fio. Sem tréguas. O caudal galgava as margens que eram suas. A ponte desaparecia e ali ficavam eles. Do lado de lá. Isolados. À espera do que estava para vir e que já sabiam como era. Uma vida inteira daquilo. Conheciam a subida da água antes de começarem a andar.

O auxílio chegava mais tarde. Vinham os que lhes serviam de ponte. Ao longe, apareciam os barcos. Tão grandes que traziam dois homens. Um nos remos e outro na vara. Lá iam eles. Homens de corpo feito, braços de trabalho.

- Ai que me fico aqui - gritava uma com o medo de arriscar viagem.

O barco que parecia demasiado frágil. O medo a formar-se nos gritos. A morte a espreitar no rio.

- Se tem medo, fica - diziam os barqueiros que não levavam quem tremia. 


Eram as regras. Quem ficava pálido com a travessia ou quem clamava por auxílio superior, ficava. Os que tinham coragem faziam-se ao caminho. Homens de pés na água. Mulheres carregadas às costas. Meia-dúzia de cada vez, nunca mais e às vezes menos. Sem protecção que lhes valesse que não há lembrança de problemas de maior.

Seguem pelos terrenos alagados, pelo rio que dobrou em altura. O barco a fugir aos perigos, às correntes traiçoeiras. Os homens com os braços doridos do esforço. Barco cheio de corpos pesados. Remos de madeira a levá-los ao lado de lá.  Os músculos a ameaçar romper, o corpo a não denunciar fraqueza. Até o desembarque na outra margem. Sem abrandar.

Os passageiros faziam-se à terra firme. Deixavam uma moeda a quem os tinha levado na viagem sem bilhete que se pagava por gratidão. Pouco, que os tempos não davam para mais. Para o gasto e já era uma sorte. Para a bucha e o copo de três. 

Os barqueiros despediam-se e voltam a fazer-se ao rio. De lá para cá e de novo para lá.  O corpo sem descanso. Cansado como nunca tinha deixado de estar. Os bolsos sem dinheiro. O rio a subir a margem. As pessoas a precisarem de passar. Os pescadores a dar a mão.

Eram uns para os outros. O dia de amanhã só a Deus pertencia.  


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lá pelo Instagram...à porta de casa

Ainda se encontram os sacos pendurados à porta enquanto esperam que alguém os vá buscar. De manhã, pela fresca, deixam-nos ali. Pendurados no portão e na porta. Alguns com um recado lá dentro, mas, além disso, estão vazios. Sacos de pano pendurados na porta, protegidos por um saco de plástico se o tempo ameaçar chuva. Sempre as mesmas casas. Ainda hoje. Todos os dias. 

 São rituais que ficam. O conforto da garantia de pão fresco mesmo quando não há ninguém em casa para responder ao apito. A confiança nos clientes de sempre. Os gostos e as manias que se conhecem de cor ao final de uns quantos anos. 

O aviso ouve-se quando ainda não se vê a carrinha branca. A buzina a encher a rua. O mesmo ritmo. Mais ou menos à mesma hora que esta profissão não exige pontualidade suíça. Pára no sítio de sempre. 

Tempos houve, daqueles que eu ainda me lembro, que as mulheres se juntavam à espera. Ficavam de pé, encostadas ao muro, de batas traçadas e sacos de pano na mão. Trocavam dois dedos de conversa, juntava-se mais uma e outra e esperavam que viesse o padeiro. No sítio de sempre. 



Hoje a rua está vazia e ele anda de casa em casa a recolher sacos. Mal cozido para uns, quase pretos para outros. Num dos sacos um pedido para mais uns daqueles queques do costume. “Vai ter a visita da neta”, pensa ele que já os conhece. 

As contas ficam à espera de acerto. Os clientes são de confiança e o pão não se nega a ninguém. Lá para ao fim-de-semana, quando tiver mais do que sacos na porta à sua espera, acertam os trocos. Trocam dois dedos de conversa que também fazem falta. Um “Como está a família?” ou algo do género. Por agora, lá vai ele. Rua acima com a buzina a anunciar a sua chegada. Bata branca, carrinha a cheirar a farinha e a forno de pão. 

Para trás fica a rua vazia e os portões adornados com sacos de plástico. Papossecos e bolas, queques e mais uns bolos.

Lá ficam, à espera, até que alguém volte a casa.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Regatear na praça

Dentro da praça era uma mistura de cheiros e sons. O peixe fresco. O sangue da carne. O doce das frutas. Os gritos de quem tenta vender o que tem na banca. Demasiada gente na pressa das compras. O tilintar dos trocos que andam na bolsa, contados até ao último tostão. É preciso poupar e estar de olho nas balanças de quem vende.

E ela lá ia para o meio daquela confusão que já conhecia de cor. Palmo e meio de altura e pouco mais do que meia dúzia de anos de vida. Descalça, de cabelo arrumado num rolo debaixo do lenço e camisa abotoada até ao pescoço.

Na praça já a conheciam. O corpo miúdo escondia a sabedoria de quem tinha crescido antes do tempo. Regateava como ninguém. Era isso e apontar os defeitos do que via. Sem hesitação.

Entrava na praça de cesta vazia, um rol de pedidos e a ordem para despachar que havia muito para fazer em casa. E se era verdade que ela era precisa para tratar do trabalho, também era verdade que a senhora não confiava em mais ninguém para tratar do avio. Ninguém tinha o olho dela para a qualidade nem a língua para dar a volta ao preço. A senhora já tinha tentado arranjar outras, mas bastava uma viagem à praça para irem de volta para casa delas. Traziam o peixe com olhos de carneiro mal morto, era o que era. 


Era por isso que a senhora a mandava a ela. Conhecia o peixe só de lhe ver a cor e não admitia outro corte de carne que não fosse o mais tenro. E ai de quem a tentasse enganar que a gaiata era miúda, mas espevitada. 

- Ó menina, olhe que isto é do mais fresco que há.

- Então coma você e que lhe faça bom proveito.

Era a vida na praça. Um pregão atrás do outro e o olhar atento das criadas de cesta à cabeça. A confusão das pessoas que se perdiam por ali e o cansaço dos que ali andavam de pé ainda antes do sol nascer.

E ela, pequenina e miúda, enchia a cesta com o que lhe tinham encomendado. Moldava a rodilha com as mãos até a deixar como queria e metia-a por baixo da cesta que levava à cabeça.Um corpo de criança a acartar com o avio do dia e os tostões poupados a tilintar na bolsa que levava à cintura. Lá ia ela, rua acima. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Os registos de outros tempos

Foi sempre assim. Eram elas que desapareciam sem que se percebesse que era isso que estava a acontecer. O sobrenome que se esconde depois do casamento. Antigamente, perdia-se sem deixar certezas sobre se alguma vez tinha chegado a existir. 

As mulheres eram fantasmas. Ainda antes de entregarem o corpo à terra tornavam-se naturalmente invisíveis. Era o esperado. Ficavam presas a alcunhas que saltavam das bocas da aldeia para os registos que se faziam. Um só nome no baptismo. A alcunha como sobrenome nos seguintes. No casamento. Na morte. Nos nascimentos dos filhos que quando nasciam elas tinham a mesma sorte. 

O seu nome associado ao nome da mãe. Lá ia a Maria, filha da Adelaide, que com o tempo se tornava a Maria Adelaide. Primeiro e último nome escrito na letra trabalhada do padre que registava o seu casamento. 

Só mulher. Sem história nem legado que se colasse ao nome que vinha do pai. Sem sobrenome que identificasse a família da mãe. Uma mulher sozinha naquele mundo de primas e primos que só se identificavam de cara, nunca por registo. Mas elas não sabiam ler. Sabiam lá o que estava ali escrito. E mesmo se soubessem que estava escrito assim, sem sobrenomes de herança, não era nada que lhes preocupasse. Eram todas Marias da Adelaide que, por sua vez, já tinham sido Adelaides da Glória. Era o que era. A identidade perdida para o futuro. Por muito que tivessem sido reconhecidas por todos os que viviam na sua altura. No tempo em que tinham vivida. Nada para além disso. 

Vidas que quase se tornaram anónimas para a eternidade. Do convívio da vida podre do dia-a-dia ficou a lembrança na memória de quem já morreu. Para os que vieram mais tarde, não se deixou mais do que um registo sem sobrenome, perdido no meio dos assentos de batizados onde só aparece o primeiro nome do rebento e o nome completo dos que o trouxeram ao mundo. 

As mulheres, essas, tinham direito ao nome pelo qual a terra as conhecia. Nada mais ficava escrito.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Dar água à cura

O nascer do sol dava a ordem para começar o trabalho. O capataz confirmava que assim era. Depois disso era trabalhar até dar. Até o sol desaparecer no horizonte. A benção dos dias curtos no Inverno era compensada com os dias de Verão que pareciam não terminar. Era preciso trabalhar quando era tempo disso. Enquanto o capataz dizia que assim era. 

Todos os dias eram de trabalho. Com chuva ou sol. 

Era assim que tinha de ser. Plantar e cuidar para mais tarde colher. Para ter comida na mesa que alimentasse as bocas que insistiam em aumentar. Era preciso olhar pelas vinhas ou aparecia o míldio que se pegava às folhas. Ou o mal branco que condenava a colheita. E lá ia o sustento. 

A água sufaltada já tinha sido preparada. Os homens e mulheres faziam o trabalho. Mangas arregaçadas, lenços à cabeça e a pele a queimar com o sol e o sulfato. Uma para cada homem. O auxílio. 

Lá iam eles de pulverizador às costas. Uma saca a proteger os ombros e o pescoço. Nada mais. 

Lá estavam elas de caneco pronto. 

Os homens faziam o caminho no meio daquela vinha a granel. Cepas dispersas e terreno incerto. Corpo dorido do peso que acartavam. 


-Água! Água! 


Gritavam a ordem. As mulheres, que esperavam lá atrás, respondiam. Caneco cheio de água sufaltada e lá iam elas. O mais depressa possível. Deitavam a água sem cerimónia no pulverizador e a saca ficava ensopada com o sulfato que se escapava. 

 Lá iam eles outra vez. 

Assim se protegia o que lhes ia dar pão para a mesa. Homens a percorrer o terreno. Mulheres a dar água. 

O tempo da apanha ia chegar. Dos cachos gulosos escondidos no meio das folhas. Os dias quentes de Setembro com as mulheres a percorrem a mesma vinha. Curvadas. O tempo das mãos aleijadas e dos pés doridos. Do calor que queimava. Dos cestos ao ombro. 

O corpo aguenta muito, mas dá sinal de si. Fica moído, calejado. 

Mas primeiro era preciso aguentar o sulfato. Era preciso curar os campos. Tratar primeiro para colher depois. E lá iam elas de caneco. 

Primeiro, era tempo de dar água à cura.



Texto publicado originalmente na Revista DADA de Outubro de 2017

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Azeitonas para a feira

Eram miúdos. Andavam todos pelas mesmas idades e nas suas cabeças só tinham a ideia de que a feira estava a chegar. Era o poço da morte e a banca dos tirinhos, mais o circo Mariani e um sem fim de coisas que os esperava sempre que Outubro começava a chegar ao fim e as mães preparavam-se para honrar os mortos.

Eles queriam feira, mas para isso era preciso dinheiro. A festa é bonita, mas os divertimentos têm bilhete e eles têm os bolsos vazios. E em tempos de vacas magras não podem esperar que alguém lhes dê uma moedinha para os carrosséis. As moedinhas são contadas até aos tostões.

Para pôr moedas nos bolsos, lá iam eles rua a cima de saca carregada de azeitonas. Acabadinhas de apanhar de árvores que não eram suas. Verdade seja dita, nem as ditas cujas eram deles nem os donos lhes tinham encomendado tal trabalho. Coisas de cachopos, é o que é.

Mas lá iam eles, esquecendo o pormenor que o conteúdo da saca não era seu, a caminho do lagar onde quem os recebia não perguntava quês ou porquês. Saca entregue e dinheiro recebido. Negócio feito e moedas no bolso. Era isso que interessava.

- 5 escudos para este dia...

Lá ficavam eles a contar os escudos e os tostões e a dividi-lo pelos dias da feira que é preciso fazer render o peixe. Se não for assim ainda gastam tudo de uma vez e depois como ficam? Não se foge ao resto da feira. 

Já se sente o sabor do pão com chouriço e o nervoso de ver as motas a rodar no poço. Venha de lá a feira que eles estão prontos. A contar os dias para a Feira dos Santos. 

Miúdos. Fazem-se ao caminho a pé que a distância não é assim tanta e não têm outra maneira de lá chegar. Lá vão eles, bem disposto e vestidos com a melhor roupa que têm, mesmo que alguma já tenha uns quantos remendos disfarçados. O caminho parece-lhes longo de mais porque o tempo que demoram a chegar é menos tempo que estão lá.

Já se avista ao longe. As lonas penduradas e o barulho. O cheiro a pão com chouriço a chamar para os comes e bebes que eles não trazem a cesta com a comida como os mais velhos. Os miúdos querem outras coisas e para este ano têm garantidos os trocos para feira. É tempo de festa.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O almoço da muca

A banda saía à rua de manhã cedo. Já o tempo estava frio e o casaco lá ajudava a compôr a farda. Iam dar os bons dias à população que abria a porta de casa só para os ver passar. Todos os anos a mesma coisa. Tão certo como o Natal ou a festa à Nossa Senhora. Vinha o Outono, as folhas deixavam as árvores e a banda desfilava no último fim-de-semana de Outubro.

-Lá iam eles em cumprimentos à aldeia. Tocavam o hino com o orgulho que só se tem naquilo que se vê crescer do nada. Naquilo em que se trabalha sempre que se pode para que se mantenha. Sem olhar ao tempo que se rouba à família. Sem pedir nada em troca. O bem de todos acima do pessoal. É para os outros, para os que ali estão e para os que ainda virão. Para que aquela casa abra as suas portas a muitos que ainda nem por aqui andam.

E a sala tornava-se pequena de mais para dar lugar a todos os que apareciam para o almoço. Mesas arrumadas ao lado umas das outras, cadeiras apertadas e que causavam um desconforto de que ninguém se queixava. Uma aldeia inteira e mais uns amigos a celebrar.

Da cozinha vinha o cheiro do almoço feito por quem nada recebia em ali estar. As mulheres dos directores, as mães, as tias e aqueles que só vinham ajudar. Panelões onde se cozinhava desde manhã cedo. As batas sujas e os pés doridos. O estômago em vazio que quem trabalha para alimentar os outros só come quando já pouco sobra. Os directores a servir à mesa. As tigelas da sopa, as travessas cheias de comida. O barulho dos talheres e as conversas gritadas a encher o espaço. A mesa dos músicos.

A festa que se prolongava pela tarde. A música que subia a palco. as marchas e os paso doble a animar o dia que já cheirava a frio. Os melhores do mundo aos ouvidos de quem os acompanhava. O beberete a receber a noite. A generosidade da população a encher uma mesa que dava de comer a quem se quisesse juntar. O frango assado que há coisas sem as quais os músicos não passam.

Chegava o final da festa e a sala que parecia tão apertada transformava-se num salão. Ficava quem ainda tinha de arrumar o que sobrava da festa. Limpar as mesas, arear os tachos, arrumar a loiça. Trinta por uma linha que, já diziam os antigos, quem quer festa sua-lhe a testa. 

E chegavam tarde a casa, mais uma vez. Prontos a cair na cama e com o cansaço a moer-lhes o corpo. O trabalho sem vencimento que lhes roubava horas à família e lhes acrescentava preocupações. O orgulho de ver a banda marchar rua acima. Mais um ano.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Desta condição

Não se escolhe como se nasce. Nem onde se nasce nem quem somos quando chegamos a este mundo. Não é preciso. É o sexo que decide quem somos. Homens e mulheres. Eles de um lado. Elas de outro. 

A eles tudo o que é grandioso. A força, a autoridade, o punho pesado que é desculpado pela condição de ser homem. De ser ele que representa a família. De se gabar de ser o ganha pão.

A elas a submissão. Os olhos no chão, as mãos trémulas, a obediência que é o que se quer de uma mulher. Que seja prendada, pura e que saiba o seu lugar. Não se pede mais. É a condição da mulher, a flor frágil que leva o mundo à frente, mas que se mantêm na sombra.

O homem entra em casa sem se desculpar pelas horas. O cheiro a vinho fermentado acompanha-o e confunde-se com  cheiro a suor seco e pó das terras.

Elas não o encaram, não o chama à razão que não é isso que se pede delas. 

- As mulheres têm de estar lá para eles. Só isso. Poupa o sorriso que não há pior do que uma mulher tonta. Fecha o colarinho da camisa e desce a bainha da saia que não és uma mulher da vida. Dá-te ao respeito. Depois não digas que falam de ti. Se não te dás ao respeito o que é que queres? - eram as ordens da mãe, da tia, do olhar reprovador da vizinha que lhes acompanhava o crescimento.

O trabalho demasiado cedo e o chegar a adulta antes de ser criança. Próprio da condição com que se nasce. O respeito, sempre o respeito. É ela que tem de fazer por isso que os homens vivem de instinto e são o que são. Não se controlam, são as mulheres que têm de se resguardar. De os deixar ser o que o instinto lhes pede. A ela só se exige que seja aquilo que deve.

O dever colado a esta coisa de ser mulher. Um sinal de nascença que mancha a pele e faz a cabeça tombar para a frente. O corpo cansado do dia de trabalho e que ainda tem de se fazer às vontades do homem. Aquele que as esperou no altar. Aquele que lhe fez o favor de a tornar mulher decente e honrada. A aliança a apertar mais do que os sacramentos de Deus.

Os pés descalços no terreno incerto, a cesta à cabeça, os braços à cintura. O trabalho ao lado dos homens. Não, nunca ao lado, sempre atrás. Em silêncio, na sombra. A tratar da casa, a parir filhos, a tratar dos pais e dos sogros.

A vida cansada quando se acabou de nascer. A sentença de se nascer assim quando isso não se escolhe. A condição de ser mulher.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Lugar à mesa escaldada

Fazia -se a vida a sopas e sem direito a descanso. Sopas de sustento, é claro. Com tudo o que o corpo se habituou a ter para aguentar o trabalho que o espera. Mas a verdade é que o corpo está habituado a pouco alimento e muito trabalho.

Na despensa, que não era mais do que um pano em cima do balcão da cozinha, aguardava o bacalhau. Um posta alta conservada em sal. Duro e seco. Era o conduto para o almoço. aquele que se levava para o campo protegido por panos e rodilhas para manter a ilusão que tinha sido acabado de fazer.

Um panela tosca e batida de tanto uso ia ao lume cheia com água do caneco. A posta de bacalhau era lá mergulhada e deixavam-na estar. O lume alto a envolver o metal da panela. O deixar passar o tempo. Era aguardar até a água começar a borbulhar e o cheiro a bacalhau cozido encher a pequena cozinha.

Nessa altura tiravam a posta para um prato e deixavam-na de lado. À espera. Baixavam o lume da panela e continuavam. Os alhos eram deitados ao caldo. Cortados sem precisão num trabalho de quem já nem sente o cheiro entranhado na pele. Deita-se um fio de azeite que mancha a água com apontamentos esverdeados.

O pão, guardado num pano que já fora uma camisa de Inverno, estava seco. Tão duro que não havia dente que entrasse com ele. As mãos calejadas desfaziam-no em pedaços consideráveis e deitavam-no às água que tinha voltado a borbulhar.

Só mais um passo antes de desligar o fogo e dar o comer por terminado. Os coentros eram migados à mão, sem cerimónia, e juntavam-se à sopa. O aroma a ervas frescas e alho quente inundavam a casa. Um manjar das pequenas coisas. Feito de nada e a saber a tudo.

A posta de bacalhau, já fria, voltava ao caldo. Nada mais que aquilo. Sopa escaldada que aquecia o corpo e confortava o estômago habituado ao vazio.

Tudo pronto no termo de metal, fechado com rigor e envolvido nos panos grossos. 

Lá vai a moça. Almoço dentro da cesta e cesta à cabeça num equilíbrio que nasceu com ela.

O dia mal começou a clarear, mas o almoço já a espera.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Trabalho fora de idade

A lei era diferente. Dizia que as crianças não podiam trabalhar, que o seu lugar era atrás das carteiras da escola com a bata branca vestida e respeito pela professora.

A realidade era outra. Era a que toda gente sabia, mas que fingia não ver. Olhos que não vêm... É o que dizem por aí. Eles lá sabem.

Ela era o que os olhos insistiam em fingir que não viam. Seis ou sete anos, não tinha mais. Pequena e delgada. Juravam que nem peso de gente tinha, se é que isso era possível. Honrava o nariz espevitado sem medo. Sabia onde ficava a escola, mas não lhe conhecia as salas de aula e nem reconhecia na professora a autoridade que diziam ter. Ela era diferente.

Quando se aproximou do capataz fê-lo sozinha. Sem sermão ensinado nem adulto que tratasse dos seus assuntos. 

- Quero trabalhar - disse com voz de criança, mas decidida.

O capataz, homem rude e de pele estragada, dobrou-se para a olhar. 

- Não podes - respondeu em tom de ordem.

Ela não se deu por vencida nem arrumou o assunto. Não ia para a escola que na sua casa não acreditavam nisso e, mesmo que acreditassem, faltava-lhes o dinheiro para cumprir as leis.

- Tiro as pedras da terra - propôs, mas completou com a sua sentença - Paga-me como as outras.

O homem tentou demovê-la. Explicou-lhe que havia quem chegasse sem aviso para garantir que as crianças estavam na escola e não ali. Crianças como ela.

A miúda, de cabelo solto e pés descalços, não desistiu, Ficou ali, a olhar para ele e só arredou pé quando teve a confirmação que podia voltar no dia seguinte. Voltou.  E no outro logo a seguir também. Todos os dias sem falta. Trabalhava tanto quanto as mais velhas. Cabelo tapado e avental à cintura. Sem cansaço.O corpo é novo, a energia não se esgota.

De vez em quando tinha de deixar o trabalho a meio e ir. O capataz, lá no alto, tirava o boné e levantava-o sem olhar para ela. Sem palavra. Ela largava as pedras no chão e corria descalça pelo terreno que tinha acabado de limpar. Voltava para casa. O lar onde devia estar sossegada e esperava que chegasse o dia seguinte para se apresentar ao trabalho.

Nessa altura já a ronda tinha terminado. Os que faziam cumprir as leis já tinham ido embora. Ela ficara. Sem ser descoberta. Sem conhecer números nem letras. Descalça a fazer-se mulher quando nem corpo tinha.

Os bancos da escola, esses nunca conheceu.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Se faz é porque faz, se não faz...

E lá fizeram. A custo. Saiu-lhes do corpo o trabalho para deixar aquilo tudo de pé de dar um orgulho às pessoas. É isso que se pretende. Dar uma alegria às pessoas que andam tão tristes. Mas não é fácil.

O calor é muito  e o trabalho não pára. É preciso deixar tudo pronto. É preciso que não falte nada. Mas o tempo corre contra quem põe as mãos na massa e as coisas nem sempre andam tão rápido como se pretende. Coisas da vida. Faz-se o melhor que se pode e não se pode pedir mais, não é?

- Achas que aquilo tem algum jeito?

Há sempre conversas. E sempre com o seu quê de desagradável. Nada está bem. Nada é tal e qual como devia ser. Porque se esqueceram de A ou de B. Porque decidiram fazer aquela tal coisa que ninguém percebeu. Há sempre uma razão. Qualquer coisa que não ficou bem ou que simplesmente não ficou como alguém, fora de todo aquele trabalho, queria que ficasse.

- Mas olha que aquilo dá trabalho. Já fizeste?

- Mas tu achas? Deus me livre de tal coisa.

Não fizeram. Nunca fazem. Mas sabem falar porque, já diziam os antigos, falar é fácil e trabalhar faz calos. Assim como assim, é preferível falar. E nisso são os melhores. Falam a olhar de cima, no descanso de quem não mexeu uma palha. São sempre os que estão mais descansados que mais coisas têm a dizer. O cansaço ocupa o corpo e a cabeça, o santo descanso deixa a língua mais solta.

Mas depois há o outro lado. Quando ninguém se chega à frente para fazer. Porque estão fartos de ouvir o que disseram dos outros, porque acham que é preferível ficar quieto do que andar no meio do fogo cruzado. E não se faz. As ruas ficam vazias, as coisas não acontecem.  Mas as conversas continuam a crescer pelos cantos.

- É impressionante como deixam morrer tudo.

 Esta gente nova que só pensa nela e já não sente amor pela terra.

É o que eles pensam e vão comentando uns com os outros. Há sempre qualquer coisa para dizer, mas nem sempre é bom. A maior partes das vezes não é.

É o diz que disse. O dizer só porque apetece falar.

E vive-se assim, no meio de conversas deitadas ao ar com críticas que nem se sabe bem de onde aparecem. Se faz é porque faz. Se não faz é porque não faz. Não é assim tão difícil.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Enxoval na hora da sesta

O trabalho do campo era feito de rotinas. Horas que se cumpriam. O início quando o sol iluminava a terra, o fim quando ele desaparecia e o capataz autorizava. A sesta depois de almoço. Quando o sol quente ensopava os lenços das mulheres com o suor e o corpo ficava pesado.

Duas horas de descanso que eram compensadas no fim tardio para o dia de trabalho. Não havia benesse que não fosse paga com o cansaço do corpo. Mas a sesta dava-lhes um novo fôlego.

Os trabalhadores deixavam os campos e procuravam as sombras das árvores. Os homens esticavam-se em cima de uma manta e deixavam que o sono os encontrasse. Boné a tapar a cara e um ressonar que embala o trabalho das mulheres.

Elas sentavam-se por ali perto. Todas juntas, abrigadas debaixo de uma árvore. Um pano por cima da cabeça para as proteger do sol. Não se deixavam levar pelo sono que tinham obrigações que as esperavam. Levavam a trouxa consigo e de lá de dentro tiravam o trabalho que as acompanhava. Era para si que o faziam. Para si e para as filhas. Para a prima que estava de casamento marcado. Para a outra que ainda era nova, mas ia lá chegar.

O enxoval era responsabilidade da mulher. Era ela que dava à casa o que ela precisava Só uma mulher sabe o que é. Os panos e os lençóis, as camisas de dormir e os naperons, o saco que guarda o pão. As mantas feitas dos tecidos que tinham sobrado já nem se sabia bem do quê. O que era importante era ter. Mostrar que podiam ser pobres, mas que eram cuidadas. Que tinham as suas coisas. Mesmo que feitas por elas que não havia dinheiro para mandar fazer fora.

E as mães e as tias juntavam-se debaixo da árvore quando chegava a hora da sesta e metiam as mãos ao trabalho. As agulhas e os tecidos saíam das trouxas. Lá estavam elas. Rodeadas de linhas e dedicadas ao trabalho. Bordado atrás de bordado. Ponto atrás de ponto.

- Fazes assim: dois abertos, dois fechados e três paus. A primeira fiada é assim.

Trocavam ideias e sabedoria. Trocavam conversas sobre a vida. Mais a dos outros do que as suas. Toda gente tem uma opinião sobre o que se passa na casa dos outros. Ninguém quer que a sua seja tema de conversa.

- Já tenho isto mal.

E desfaziam se fosse preciso. Pernas esticadas e pés descalços a aparecer por baixo das saias. O trabalho em cima do colo para não sujar. Agulha a trabalhar afincadamente e o trabalho quase a ficar pronto. 

- Está feito.

Mais um para guardar na mala onde se acumulava o enxoval. Não faltava muito para que a filha o levasse com ela. Faltava pouco mais para que fosse a sua vez de fazer as coisas para a filha que ainda não tinha chegado.

O capataz dava o descanso por terminado e ninguém faltava à chamada. Os homens guardavam a manta que lhes tinha aconchegado o corpo. As mulheres recolhiam o trabalho na trouxa. Lá voltavam eles, com o sol ainda a queimar e o corpo já marcado do cansaço.

A sesta voltava no dia seguinte. O enxoval lá as esperava.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Lugar à mesa do forno

O pão que alimentava a família durante a semana era a desculpa para acender o forno. Lá se recolhiam os galhos para queimar. Lá se preparava o forno até ficar com o ar que se pretendia. Lá se amassava a massa até ser tempo de a deixar descansar.

A massa entrava no forno. A sabedoria sabia quanto tempo tempo esperar. Cá fora cortavam o chouriço de sangue comprado no talho do senhor que se conhece desde sempre. A massa que sobrava era envolvida no chouriço gordo que a tingia de vermelho. Era deitado ao forno. O cheiro do chouriço misturava-se com o do pão caseiro. Guloso.

Num tabuleiro esperavam as sardinhas. Pequeninas e gordinhas como se querem. É assim que são saborosas, que pingam o pão que serve de prato na refeição. Mas lá estavam elas. Deitadas no tabuleiro e cobertas de cebolas. Regadas abundantemente com o azeite que as azeitonas lá de casa tinham dado.

Iam ao forno quando o pão já estava pronto e repousava no tabuleiro de madeira. Entravam as sardinhas e ali ficavam. No meio do forno à porta fechada. Envolvidas pelo calor e o cheiro da madeira que crepitava lá dentro, das cinzas que se iam acumulando.

Cá fora, adiantava-se trabalho enquanto se esperava. Guardava-se a bola em massa que ia servir para a semana seguinte. Tapava-se o pão para que não ficasse duro antes de tempo. Esticava-se uma toalha tosca em cima da mesa para que a família se sentasse ao jantar. Podiam ser pobrezinhos, mas cuidavam dos seus. 

As sardinhas deixavam o forno e perfumavam a casa. Tostadinhas, a misturar o cheiro do mar com o campo que vinha da lenha. A família reunida à mesa. As sardinhas divididas por todos. Podiam ter de dividir uma por três, podiam lutar pela cabeça ou pelo lombo. É assim que contam as histórias que se ouvem, mas também contam que não há sardinhas iguais. Que se recorda com saudade do sabor da sardinha que se desfazia depois de sair do forno.

- Partíamos o pão à mão para acompanhar a sardinha. Não há outro sabor igual.

É o que dizem.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nas carteiras da escola

Eles já iam a caminho da escola. Cabelos empapados em suor de andar aos pontapés numa bola de trapos. Cansados. Elas ainda esperavam enquanto eles iam indo. 

Esperavam à porta. Todos os dias. Fosse dia de sol ou estivessem num Inverno intenso. Pequeninas e de nariz arrebitado. Bata branca para todas e sapatos só para algumas. Tal como os meninos. Mas elas, bem comportadas e sorridentes, esperavam a professora para a acompanhar à escola. 

Os livros e os cadernos iam dentro das malas que levavam pela mão. Nem sempre de grande qualidade, mas serviam o propósito a que se propunham. Pelo menos para quem tinha cadernos para guardar e livros para ler. Havia uns quantos que entravam de mãos a abanar e olhar malandro que baixavam assim que passavam a porta. Era preciso cumprir as regras.

Respeito era o que se pretendia. Os professores eram a autoridade e os meninos obedeciam. Os meninos e as meninas. Podiam estar separados e elas podiam ganhar em comportamento, mas as regras eram iguais. Dos dois lados do muro. Sem excepção. Quem ousava pisar o risco tinha a régua à sua espera. Ou a cana. Usadas sem dó nem piedade ou arrependimento que lhes valesse. O que se quer é rigidez sem discussão ou reclamação. Era assim e mais nada. Ponto final.

E lá se sentavam dois a dois nas cadeiras de madeira, altas de mais para as suas pernas que ficavam a baloiçar. Atenção ao quadro, à professora. Aprender a ler e a escrever. Saber o nome dos rios e cognome dos reis. Isso e a tabuada. Tudo na ponta da língua sem hesitação na hora da responder. Não havia tempo para hesitações ou respostas ao lado.

- Dona Josefina.

Chamavam a professora com toda a delicadeza, mas pelas costas inventavam-lhe nomes menos próprios. A professora era exemplar nos castigos, eles eram exemplares nas alcunhas. Olho por olho. De tal maneira que anos mais tarde vão lembrar-se da alcunha, mas o nome perdeu-se para sempre.

No recreio as meninas saltam ao eixo e os rapazes espreitam do outro lado do muro. As pernas das meninas dão sempre azo a curiosidade. Depois entram na sala e rezam como mandam os bons costumes. Cantam o hino de mão ao peito e voz colocada como manda a devoção à pátria.

Amanhã há um deles que vai faltar, mas ninguém vai dar por isso. É normal. A escola é obrigatória, mas o dinheiro do trabalho é essencial. Faltam outro e outro logo a seguir. Um dia nem a professora que os controla na missa de Domingo se vai lembrar do aluno em falta.

A escola continua lá. Com  a cana à espera de quem pisa o risco. Com as meninas a acompanhar a professora. Com os meninos a espreitar para o outro lado do muro. Continua tudo lá até ser hora de levar o pão para casa.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A apanha

Com o final dos dias quentes vinham as carrinhas. Já eram esperadas. As carrinhas e as mulheres que levavam e traziam. O trabalho de campo esperava-as. O pó, o calor, os músculos doridos. Todos os anos esperavam pela carrinha que as levava de manhã cedo e as devolvia ao final do dia-

Eram mulheres de trabalho. Bata traçada, relógio pendurado na alça, lenço atado à volta da cabeça. As pernas escondidas pelas calças grossas e os pés metidos nos sapatos de trabalho. Sujos de pó, às vezes já a romper do esforço.

Levavam uma cesta com o almoço. Um bocadinho de conduto para enganar a fome enquanto aproveitavam para descansar à beira de uma sombra qualquer. Devia ser assim.

De manhã cedo juntavam-se no sítio combinado e esperavam pela carrinha que as vinha buscar. Mulheres e miúdas. Umas com vida daquilo, habituadas à dureza do campo. Outras à espera de juntar uns trocados. Talvez para gastar nuns devaneios, a maior parte das vezes para compensar o orçamento lá de casa. Esperava-as o trabalho da época. Duro. Seco. Áspero.

Estavam o dia inteiro fora. Nos dias mais quentes e mesmo naqueles em que o São Pedro lhes pregava uma partida. Era trabalho e o trabalho era para ser cumprido. Não se queixavam. Pelo menos as mais velhas. Era essa a sua vida, só conheciam o trabalho de todos os dias. Não se queixavam. Não sabiam que podiam.


Ao final do dia, a carrinha voltava e lá as trazia. Sentadas na parte de trás da carrinha de caixa aberta. Os bancos corridos davam a falsa ilusão de conforto e elas lá estavam. Aos solavancos. Agarradas onde conseguiam. Conversas perdidas no cansaço de um dia de trabalho. Era Verão, o calor entrava-lhes na pele, cansava-lhes o corpo. As conversas ali, a caminho de casa, eram deitadas para o ar sem se preocuparem com o que era falado. Enganavam o tempo. Procuravam chegar mais rápido ao seu destino.

Cheiravam a trabalho. Uma mistura de suor, pesticidas e terra seca. O pó entranhava-se nas suas roupas, nos seus cabelos, nas unhas que se tornavam escuras. Tinham um ar cansado, o andar torcido denunciava os músculos doridos. 

Desciam da carrinha com destreza. Cumprimentavam quem as esperava. Descansavam o corpo enquanto se encostavam a uma parede tapada pela sombra.  A cesta esquecida aos pés que apoiavam o peso do corpo alternadamente. Uma espécie de descanso. As mãos apoiadas nas ancas.

Amanhã voltavam ao trabalho. O campo ainda tinha muito tomate para dar e o corpo ainda tinha muito para aguentar. O trabalho de todos os dias. A carrinha à espera. O corpo que se queixava. A boca que se calava.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Pés descalços

O chão era duro, mas os pés estavam habituados. Já não se arrepiavam com o frio nem sentiam o calor queimar. As solas dos pés não estranhavam os buracos e o chão irregular nem as pedras que iam aparecendo.

Era assim que as coisas eram. Andava-se descalço porque não havia dinheiro para comprar sapatos e mesmo se houvesse algum que sobrasse das contas que se faziam era mais importante guardar para a comida ou para ir ao médico. Os sapatos podiam esperar. E esperavam.

Faziam quilómetros com os pés nus metidos no pó da estrada. As silvas a furar a sola do pé. Dura e sem sensibilidade. Nunca tinham experimentados uns sapatos. Viam as senhoras ou alguma prima mais folgada a usá-los, mas na sua casa não havia espaço para esse luxo. Outras prioridades.

E cresciam de pés descalços. Os pés que os levavam a todo o lado e que percorriam estrada e mais estrada sem denunciar o cansaço.

- Vamos à cidade? - dizia uma em tom de convite. Era a feira, aquela que faziam todos os anos e que juntava os arredores e mais uns quantos.

- Sei lá, nem tenho sapatos.

E então uma prima emprestava uns que tinha lá por casa. Já gastos e usados, mas que serviam a sua função. Eram um número acima do seu. Chinelavam. Magoavam os pés habituados a andar à solta. Mas lá iam elas, orgulhosas dos seus pés tapados num desconforto que não conheciam.

Quando compravam o primeiro par era uma festa. Eram caros. Ganhavam cem escudos a servir na casa das senhoras. Eram as primeiras a acordar e as últimas a deitar para ganhar aquilo. Se comprassem uns sapatos ficavam logo sem dinheiro. Era preciso saber esperar. Poupar os trocados que sobravam dos gastos do mês. Esperar que dessem para um par de sapatos como as senhoras usavam.

Já eram quase mulheres quando os compravam. Crescidas e de corpo feito. Mulheres de trabalho de sol e sol e mãos calejadas. Compravam os sapatos que eram o seu número. Gastavam os cem escudos que tanto lhes tinha custado juntar.

Caminhavam sem que se ouvisse o chinelar, mas o desconforto continuava a fazer-lhes companhia. Lá iam elas, com o som do salto no chão a marcar o passo. A bolha a começar a aparecer no calcanhar.

Chegavam a casa e tiravam os sapatos. Ainda mal tinham passado a porta e já iam de pés no chão e sapatos na mão. Guardavam-nos a um canto, com cuidado. Quem pouco tem sabe o quanto vale. E lá iam elas descalças pela casa e pelo terreno, tratar da vida. Sempre de pés descalços. Os sapatos ficavam para a rua e para as cerimónias. Para o Domingo e dias santos. 

Para o resto dos dias, para a vida de sempre, os pés podiam andar como sempre andaram. Descalços.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Quem faz a festa para o ano?

O Domingo é o dia sagrado. O dia abençoado da festa. Sai a procissão e a terra veste-se a rigor que nos dias santos e alumiados temos de estar no nosso melhor. O vestido bonito, os sapatos que magoam ligeiramente os pés, o fato bonito para os senhores estarem apresentáveis.

Chegam os visitantes, os que vêm ver a família e os outros que chegam em devoção pela Senhora que abençoa a festas. As ruas estão cheias. Os sinos dão os sinais de que a procissão está a sair.

- Já se sabe se há comissão? - perguntam enquanto esperam para ver os andores.

A procissão segue caminho. Ouvem-se as rezas e os cânticos. A banda toca as músicas que já sabe de cor. O passo arrastado preenche os momentos de silêncio. O terço pende das mãos dos devotos. As varandas estão decoradas, as famílias juntam-se à porta de casa. Segue-se o cortejo até voltar ao largo. Os foguetes a rebentar sem parar e a santa a recolher à igreja.

A população acompanha-a. Olhos curiosos. Ocupam os bancos vagos, ficam em pé quando não há outra solução. Apertam-se mais um bocadinho para caber mais alguém. A igreja fica cheia, o padre dá a benção final.

Do altar chegam as notícias que esperavam. É tempo de anunciar os festeiros do próximo ano. A aldeia assiste em expectativa. Dizem os nomes escolhidos pela comissão deste ano. A tradição é simples: oito nomes, quatro casais casados pela igreja que nunca fizeram a festa.

Quem está dentro da igreja passa a novidade de boca em boca até chegar ao largo onde as pessoas se juntam à espera.

- Já sabes? Quem faz a festa para o ano é...

E passa a novidade de boca em boca até chegar à próxima comissão. Está cumprida a tradição. Que se oiçam os vivas pela festa do próximo ano. E que amanhã a aldeia marche atrás da banda até que seja feita a entrega da bandeira ao juíz do ano que vem. Festa é festa e o povo quer é a rua iluminada e a música a tocar o dia inteiro.

Até para o ano, quando a procissão recolher e a igreja encher com os ouvidos atentos à espera de saber quem é que faz a festa no ano seguinte.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Lá pelo Instagram #2

Agosto 2017 | Pouca Terra

Os dia começam cedo. O despertador toca quando o sono ainda está pesado e o corpo ainda pede cama. Mas tem de ser. Viver fora da grande cidade tem os seus quês e porquês. Alguns dos porquês será a procura de uma explicação para se fazer isto quando implica acordar demasiado cedo, apanhar demasiados transportes e ter de lidar com demasiados atrasos. Muitos porquês. Demasiados.

O comboio faz parte do meu dia-a-dia. O banco onde me sento sempre no caminho de ida. A hipótese de ficar de pé quando volto. O livro que vai guardado para enganar o tempo que demora a passar. Os nervos quando se percebe que a hora de partida não vai ser cumprida. É uma rotina. Já sabemos a linha, a hora e o sítio onde a porta fica quando o comboio pára. Já conhecemos as caras que nos acompanham diariamente, mesmo que o seu nome seja um mistério. Vamos conhecendo a história. Os telefonemas que se fazem, os livros que se vão lendo, os pequenos pormenores que deixam cada um irritado. Cada qual com o seu.

Os olhos fixos nos telemóveis, na janela, nos livros ou fechados a recuperar da noite mal dormida. O comboio, a rotina de todos os dias. Três horas por dia.

Pouca Terra

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Não havia bolos

Não havia bolos. Nem se sabia o que era isso. O que havia era para a carne e mesmo assim mal chegava. Comprava-se um bocadinho de chouriço e de toucinho para dar para uma sopa, uma posta de bacalhau que na altura era em conta. Nada mais do que isso. Nem se pensava em tal coisa.

Fazer bolos como agora se faz agora? Porque apetece qualquer coisinha doce ou algo que dê conforto? Ora sabíamos lá o que era isso. E quando não se sabe, não se sente falta. E o conforto era dormir com o estômago a dar horas, mas a dormir o corpo aguenta muita fome.

Era por isso que não havia nada destas coisas. Nem pão-de-ló. Verdade seja dita, nem se sabia o que era isso. Apareceu uma vez, uma senhora que fazia essas coisa, mas nem eu que era criada de servir na casa dos senhores aprendi essas culinárias. Não, os senhores eram ricos, mas não eram desgovernados. Onde é que já se viu essa coisa de fazer um bolo sem razão?

Naquela altura isso não existia. Agora sabe bem, lá isso sabe, mas naquela altura? Nem bem nem mal. Não se pensava nessas coisas. Como é que posso explicar? Não era uma necessidade. E se o que tínhamos mal chegava para as necessidades (Deus sabe as vezes que só se bebia um café da borra ao jantar) não ia chegar para gastar em açúcar e farinha.

Acho que a receita só apareceu por aí uma vez quando vieram uns amigos de um senhor cá visitá-lo. Eles vinham lá de Lisboa e a senhora fez um pão-de-ló para lhes oferecer. Foi assim que ele apareceu por cá, mas mesmo assim não despertou muito interesse.

Achavam que era algo supérfluo, sabes? E naquele tempo ligava-se muito ao que os vizinhos diziam (ainda hoje isso acontece) e ninguém queria ter má fama. Gastar dinheiro em bolos, mesmo que fosse um simples pão-de-ló, era ser desgovernada e isso não ficava bem a ninguém. Nem às meninas ricas.

Por isso dá cá mais um fatia. Vá lá que mal não me faz e se fizer logo se vê. Já viste a idade que eu tenho? A suficiente para comer uma fatia de bolo sem sentir um peso na consciência. Dá lá isso, vá. É que no meu tempo não havia bolos. 




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Lá pelo Instagram #1

Agosto de 2017 | Venda à beira da estrada

Dizem as más línguas (e acredito que as boas também) que o melhor melão do país vem do Ribatejo. A caminho de Almeirim uma placa dizia algo nesse sentido. "Vende-se aqui o melhor melão de Almeirim". Se não era assim era muito parecido. Era uma placa de madeira escrita à mão. Com o encanto que têm todas aquelas coisas que são feitas com dedicação. 

Eu, um bocadinho teimosa como sempre, não parei nessa banca. Nem na seguinte. Só a terceira é que me convenceu a fazer inversão de marcha e parar o carro. Porquê a terceira? Porque me apeteceu. Porque tinha um casal já com uma certa idade e que, sem placas que indicassem que o seu melão era o melhor, tinham ares de gente dedicada.

Parei o carro e pedi uma melancia e um melão. O senhor ainda me pediu para escolher o melão, mas eu nem tentei. Além de não ter habilidade para escolhas dessas nem gosto da dita fruta. O mais certo era a escolha dar para o torto. E para dar para o torto mais valia ser o senhor escolher que tinha mais anos daquilo que eu.

Pesou os dois. Numa daquelas balanças que nunca percebi bem como funcionam. Antiga. Com dois pesos e mais um sem fim de acertos que tinham de ser feitos até chegar ao peso certo. 

Disse-me o total e eu paguei. Desejei-lhe um bom dia e ele disse-me "Boa viagem". A simpatia deixa-nos sempre bem dispostos. 

E eu voltei para casa com um melão e uma melancia no carro. E eu nem gosto de melão. Agora estão ali em cima da mesa à espera. Vamos lá ver se a escolha foi acertada.

Venda à beira da estrada

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Por ti levo o ano inteiro a sonhar

Eram outros tempos, aqueles em que Agosto trazia o calor e os emigrantes de volta a casa. Apareciam os carros de matrícula estrangeira com muitos quilómetros feitos e um porta-bagagem a abarrotar com as malas. Vinha a família inteira de volta a casa durante um mês. Bendito Agosto que trazia de volta os que tinham partido em busca do que lhes faltava por ali. Maldito que só os deixava ficar um mês e os trinta e um dias sabiam a pouco. 

Todos os anos era assim. Em Agosto a aldeia ganhava vida. O país recebia os seus. 

Os filhos voltavam aos braços dos pais. Traziam os seus próprios filhos nascidos lá fora. Ouviam-se os gritos de alegria da mãe que abraçava a filha que foi lá para longe. Puxava-se um banco para o genro que tem as pernas dormentes das horas na estrada. 

- Estás magrinha, não andas a comer como deve ser. 

Fazia-se a mesa ali com um chouriço e um queijo. Um copo de vinho para ajudar a descer o pão caseiro. Os miúdos andavam por ali a correr no quintal depois de uns quantos beijos repenicados daquela avó que os vê menos vezes do que queria. 

- Os pequenos estão tão grandes. 

O coração quase que explodia com a felicidade de ter os seus tão perto. As lágrimas estavam perto de saltar cá para fora. 

Os emigrantes voltavam às suas casas. Abriam-se as janelas que estavam fechadas um ano inteiro para arejar. Estavam de volta ao seu lar. Aquele país que os tinha acolhido ainda não era seu. Falavam numa mistura de língua materna com umas palavras de outra língua qualquer. Muitos não os entendiam, tentavam explicar por gestos e aproximação. 

Percorriam as ruas, entravam no café onde iam quando eram mais novos.  

- Ó tempo que não te via. 

Reencontravam os amigos. Faziam um almoço com aqueles que os acompanharam nas tropelias de crianças. Mostravam aos filhos aquelas ruas onde tinham crescido. Os miúdos acompanhavam-nos, mas aquelas ruas não eram suas como foram dos seus pais. Aquele país corre-lhes no sangue, mas não tiveram de o abandonar e viver com essa dor que acalma uma vez por ano. Nasceram longe. O português soa-lhes aos avós, mas quando falam as palavras parecem fugir. 

Vivem um ano inteiro num mês que passava tão rápido. Quando davam por ela era hora de voltar a fechar as portas, de dar um abraço apertado aos pais. Era tempo de voltar à estrada e ao trabalho que os esperava lá longe. 

Um dia iam voltar para ali. Para aquela casa que tinham construído para si. Um dia, Agosto seria o ano inteiro. Por agora, tinham mais um ano para sonhar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Lugar à mesa da avó

As galinhas eram criadas no quintal da casa. Um galinheiro feito com meia dúzia de tábuas e mais umas redes. Não era preciso muito mais do que isso para guardar umas quantas galinhas. Eram alimentadas pela família que, sem ensino que os guiasse, tratavam delas com a sabedoria da terra. Davam de comer, tiravam os ovos e sabiam a altura certa para as matar.

Cortava-se o pescoço à galinha e tiravam-se as penas em água quente. Era assim que começava a refeição criada lá em casa.

A galinha, preparada com o rigor que se põe nestas coisas, ia ao lume numa panela de água com uma bocadinho de chouriço. Daquele vermelho e saboroso. Coisa pouca que o dinheiro não é muito e só se quer que dê sabor. Ia tudo a ferver em medidas feitas a olho. Aquela panela dava para alimentar a família e a partir daí era a mão que mandava no tempero.

O cheiro à carne cozida enchia o pequeno barracão mal iluminado que fazia as vezes de cozinha. O chouriço dava um tom avermelhado à água que começava a borbulhar.

Quando a galinha estava pronta era pôr num tabuleiro de ir ao forno. Quando o forno ainda era a lenha e demorava o seu tempo até chegar ao calor certo. Cozer o arroz no caldo que sobrava da cozedura e deixar o acompanhamento pronto em mais um tabuleiro. O chouriço era cortado em rodelas e espalhado por cima do arroz. O pitéu estava pronto. Arroz de forno e frango corado. 

A pele saía tostada do forno, o arroz vinha guloso com a gordura do chouriço a ferver. O cheiro era daqueles que confortava a alma. O reconhecimento de comida que é nossa.

Juntava-se a neta à mesa. Com as pernas a baloiçar na cadeira e o cabelo em desalinho de tanto correr. 

- O que é almoço? - perguntava com aquela voz de criança.

- Já vais ver - diziam sem desvendar mais nada.

E ela esperava. Com o cheiro já a dar-lhe água na boca.

Os tabuleiros vinham para a mesa a escaldar. Embrulhados em rodilhas que protegiam as mãos que os carregavam.

- Arroz da avó - gritava a neta com excitação. Era o seu prato, feito para ela.

E ficava para sempre baptizado como o arroz da avó. Mesmo quando era a mãe a prepará-lo em casa com o mesmo carinho. O arroz que a avó preparava com todo o rigor e sem receita. Passado de mão em mão e executado sem dúvida quando se cozia uma galinha e se levava ao forno a corar.

Frangainho quando dizem aos mais novos quando os tentam convencer a comer mais uma garfada do almoço. 

Frangainho do campo, corado em forno de lenha com arroz da avó a acompanhar.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A fotografia

Era sempre assim quando chegava o Verão. O tempo quente trazia de volta quem pertencia ali. Vinham da cidade. Para onde se tinham mudado e onde a vida lhes sorria um bocadinho mais do que aos que tinham ficado para trás.

Voltavam para abraçar os seus. Rever aquelas caras que se esbatiam com o tempo. Às vezes era difícil recordar a expressão daquela vizinha que os vira nascer. Começava a faltar o nome à outra que costumava vender o azeite que a mãe lhes pedia para ir buscar. A distância era culpada. 

Vinham visitar os irmãos. Conhecer os sobrinhos. Dar um beijo à mãe que já estava a perder as forças.

- É a idade, filho - dizia enquanto lhe dava uma palmadinha da face - Os teus miúdos, como estão?

Estavam bem. Crescidos e reguilas como se quer para as crianças daquela idade. 

Os irmão trabalhavam no campo e o sol ainda ia alto. A hora da despega estava longe, era preciso saber esperar que voltassem depois do dia de trabalho. Os visitantes, filhos daquela terra, percorriam aquelas ruas que tinham sido suas enquanto cumprimentavam as vizinhas de sempre. As mesmas pessoas  com os anos a marcar-lhes o corpo. A levar-lhes a vista e a toldar a memória.

A vida ali ainda era sua. Aqueles caminhos ainda lhes pertenciam. Mesmo que a vivessem longe. 

Ao final da tarde, quando o dia de trabalho tinha sido dado por terminado, os irmão apareciam. Viam-nos ao cimo da estrada com o grupo de trabalho que os acompanhava. Descalços. Elas de cesta à cabeça. Eles de enxada ao ombro. cansados do dia e a limpar o suor que lhes escorria pela testa.

- Oh irmã - gritavam aos seus que se aproximavam.

E ali, no meio da rua, se faziam os cumprimentos. Sem cerimónia que não era todos os dias que os seus voltavam a casa. E os olhos demoravam no outro, para reconhecer as feições. Para perceber o que tinha mudado num ano. Um só ano e tanta coisa diferente.

- Bons olhos te vejam.

E os miúdos corriam de um lado para o outro. Os primos da cidade com os do campo. Enquanto os mais velho pegavam numa manta das antigas e a estendiam à sombra das árvores grandes. Ali no meio do campo. A família reunida debaixo das oliveiras, os miúdos de um lado para o outro e os mais velhos a matar as saudades.

- Agora fiquem todos aí - dizia o irmão que tinha vindo lá de longe.

E eles ali ficavam. Sentados no chão. Com a mãe lá ao fundo, já com o peso dos anos a fazer-se sentir. Os irmãos sentados no chão com os filhos mais novos ao colo. Os filhos mais velho sentados a uma ponta da manta. Uns descalços que o dinheiro não dá para tudo.

E fica aquele quadro imortalizado na fotografia que o filho estrangeiro tira. A família reunida numa tarde Verão. Com aquele calor que traz de volta a casa aqueles que um dia se aventuraram no mundo.



sábado, 22 de julho de 2017

Lá pela terra por outras paragens

Quando digo que vivo numa aldeia a 60km de Lisboa, perguntam-me muitas vezes se há cinema por lá. Não percebo o porquê, mas é das primeiras perguntas.

Foi assim que começou este blogue, porque escrevi um texto sobre esta coisa de viver fora da capital e alguém me disse "Porque é que não começas um blogue?". E eu comecei.

Depois continuei a escrever sobre as histórias que vou ouvindo. Aquelas histórias que a avó conta de tempos que não conheço ou que os senhores partilham à mesa do café. Gosto de cidades pequenas, de aldeias perdidas por aí onde ainda se vive de maneira diferente. Onde ainda se saboreia as pequenas coisas e onde se percebe que todos nós temos algo para ensinar. Gosto destas histórias de tempos antigos e de vidas longe das avenidas movimentadas e dos prédios altos.


Agora os textos deste blogue vão aparecer na Revista Dada. Na versão online e na versão em papel. Textos diferentes, mas sempre sobre esta coisa de viver lá pela terra.

Estou muito contente por ver os meus textos, que têm tanto deste concelho onde nasci, publicados numa revista de cá.

A rubrica online está aqui. A revista sai no início do próximo mês. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os meninos da colónia

Tão pequenos e lá vão eles de mala na mão. Lá dentro não levam mais do que um sabonete e as poucas mudas de roupa que o dinheiro permite. Mesmo assim, já levam mais umas só caso seja preciso. Entram na camioneta que os leva lá para longe, para umas semanas de férias. Lá vão eles, miúdos pequenos a deixar os pais e os irmãos na terra e a partir a caminho da praia. 

Quando lá chegam, são levados para o banho. Entregam-lhes o bibe que é a farda oficial. Azul aos quadrados branco para os meninos, vermelho aos quadrados brancos para as meninas. Têm direito a um fato de banho que será seu nos próximos dias. 

- Temos de arranjar maneira de sair daqui - pensam alguns deles quando a saudade da família fala mais forte. Nem o azul do mar é capaz de sossegar aqueles corações pequeninos que nunca ficaram longe dos seus.

Não arranjam como sair, mas não deixam de pensar nisso todos os dias.

Fazem o caminho até ao mar em fila indiana, muito bem alinhados uns atrás dos outros. Muitos deles pisam areia daquela pela primeira vez. Não é como a terra lá da aldeia que suja os pés quando jogam à bola. É mais áspera. Quando chegam à beira mar encontram umas pedras muito polidas que escondem conchas que eles nunca tinham visto.

E ficam ali na areia todos juntos. Cercados por paus de madeira e cordas que marcam o espaço onde devem ficar. Não podem sair dali. Só podem ir à água quando assim lhes for dito e nem todos podem ir. Muitos já ouviram falar no mar, outros já não são novatos nestas andanças, mas a sensação da brisa do mar, húmida e salgada, a refrescar-lhes a cara é sempre única.

Ali estão os meninos tão pequeninos e já com tanto para contar.

Têm direito a lanche na praia. As senhoras chegam com as cestas à cabeça cheias de pão para o lanche. Um para cada um, para matar a fome que o ar da praia dá.

Quando chega a hora de voltar, lá vão eles todos juntos, em fila indiana, a subir a rua. quando chega a hora da refeição o refeitório fica cheio com as vozes miudinhas. Lá pelo meio, há um que vai cantarolando para entreter os restantes. É o espetáculo a que têm direito. No prato levam comida que lhes parece estranha, que às vezes não lhes sabe tão bem como as sopas que a mãe fazia, mas que comem para confortar o estômago que já reclama por alimento.

Quando a noite chega, recolhem às camas à hora certa. O relógio dá o sinal para recolher e cada um deita-se na cama que lhes foi atribuída. Estão marcadas com um número que passa a ser o seu. 

Assim se passam os dias com vontade de voltar para casa. Se tiverem sorte, pode ser que uma excursão traga caras conhecidas para os visitar. 

- Olha quem está aqui - dizem as visitas inesperadas quando os encontram sentados na areia no espaço marcado pelas cordas.

E assim se mata um bocadinho da saudade que aperta aqueles corações.

Dias de praia. Com mar e sol. Com os colegas da sua idade, uns mais sabidos do que outros, que é assim a vida.

Depois voltam a casa. Quando os seus dias de férias terminarem. Fica o bibe e o fato de banho para trás, a cama desfeita com o número que era seu. Voltam à sua terra e aos seus e o coração fica cheio. Na mala levam o que restou do sabonete, as roupas desarrumadas e uma casinha de barro para oferecer aos pais. 

Os meninos estão de volta na mesma camioneta que os levou.