quarta-feira, 24 de maio de 2017

Benzer a menina

A menina quebrou. Sentou-se e deixou-se ficar. Não disse uma palavra que fosse e nem se mexeu como era seu costume.

Ali estava. Quieta e calada como nunca a tinham visto. Logo ela que parecia ter energia desde que acordava até fechar os olhos. Agora abria a boca num desespero sonolento que não dava em sono por muito que estivesse metida na cama. Parecia fora do mundo e de si.

Encostaram a mão à testa e espreitaram pela boca aberta. Não havia justificação para a apatia que lhe dominava o corpo. Nem febre nem garganta inflamada.. Perguntavam-lhe o que lhe doía e a resposta era sempre a mesma: "Nada" e nada justificava aquele quebranto que a invadia e preocupava quem a  via assim.

Foi aí que a mãe, deixando a avó de olho na criança, saiu porta fora com destino definido, mas sem dizer ao que ia. Bateu à porta que já conhecia e do lado de lá respondeu-lhe uma voz que já conhecia a ansiedade de quem lhe batia à porta.

- É a menina - disse assim que abriram a porta.

E do lado de lá a porta abriu-se sem que se ouvisse mais perguntas. Não era preciso mais nada além do que já se sabia, o porquê de ali estar estava mais do que explicado.

Começou sem mais demora. O prato com a água e o azeite pronto e a reza que era impossível de entender. Uma ladainha quase cantada .

- Está muito atacada. Está atravessada -  dizia no meio das rezas enquanto o azeite dançava com a água.

E a mãe voltava à filha. A ser o colo daquela pasmaceira em que tinha ficado presa e a esperar que aquele quebranto passe.

Passa mais tarde, sem aviso prévio, tal como apareceu. Num momento está desfalecida na cama e no outro corre pela casa. E a mãe benze-se enquanto respira de alívio, nada daquilo lhe parece normal.

- Ontem só melhorou ao final do dia.

- Foi a última vez que a benzi - respondem.

E a mãe, de coração mais descansado, pensa que foi na mesma altura que o quebranto deixou a sua casa. Abençoada água a dançar com o azeite ao som da ladainha da reza.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ouvi dizer que

As conversas perdem-se. No café e na rua, na esquina da casa ou no quintal quando a vizinha passa para dizer olá. Fala-se do que se sabe e do que se imagina. Diz-se que há quem sonhe de noite e que conte de dia. Seja ou  não verdade, seja assim mesmo ou só aproximado.

- Ouvi dizer que...

Mas será que ouviu mesmo ou acha que ouviu e fala só porque não quer estar calada? Afinal, o silêncio é sempre dificil de lidar e há sempre mais qualquer coisa a dizer. Se não houver, é arranjar.

- Já viste aquele que...

Viu sim senhor e até tem opinião formada sobre aquilo que não chegou a ver. É assim que se fazem as coisas.  Conta-se o que se ouviu da boca de alguém que sabia tanto como nós e acrescenta-se uma opinião feita de preconceitos.

Espreita-se pela janela da casa e aproveita-se que o cortinado ficou mal fechado para espreitar para a privacidade que não nos pertence. 

-Sabias que tem o quarto com...

Não se imagina, mas fica para ouvir que enquanto falam dos outros pode ser que se esqueçam de nós. Fala-se com sussurros e a espreitar por cima do ombro, não vá estar alguém a  ouvir. Braços cruzados no peito, cabeça descaída e lábios junto ao ouvido. 

- Aquilo é uma vergonha...

É sempre. É o vizinho que não tem o carro no sítio do costume quando já passou a hora de estar em casa, são os outros que gritavam uns com os outros, é aquela que abriu a porta aquele.

- Aquilo não anda nada bem...

Naquelas bocas nunca andou. Para aquelas bocas tudo o que se passou atrás daquelas portas foi sempre uma desgraça.

- Ainda no outro dia a encontrei...

E é quase certo que fazia tudo errado: falava com homens que não eram seus, aliviava luto antes de tempo ou corria sem pudores quando toda gente sabe que há coisas que não ficam bem.

- Está tão magra...

O certo é ter alguma doença que nem imagina que existe. Deus nos livre que esteja magra só por estar ou que engorde sem estar desmazelada. Há coisas que são para cumprir e na língua de quem fala à socapa é tudo como se acha que é. A verdade perdeu-se sem que a sua existência chegasse a ser importante.

- Quem é?

Filha de X, casada com Y, viveu para lá do sol posto e sem filhos. Um sem fim de referências até que algo sirva de identificação.

São as conversas que nascem nas cabeças, que crescem nas ruas, que saltam de boca em boca e que pelo caminho perdem a verdade que nem chegaram a ter.

Espreita-se a vida alheia, fala-se de boca cheia e esconde-se a vida própria que ninguém quer que as suas amarguras andem por aí espalhadas nas conversas de uns e de outros.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Lugar à mesa

O pão já está duro e seco, já se perdeu a conta aos dias que esteve esquecido no saco do pão, mas ainda está bom e nos dias que correm não se pode desperdiçar um naco de pão, mesmo que esteja seco.

Partem-se fatias do que restou e começa ali o próximo manjar que conforta as barrigas que chegam cheias de fome e que dá alento ao corpo cansado.

A receita passa de geração em geração, sem papel onde esteja escrita. É uma arte que as mãos conhecem de cor, sem necessidade de guias ou cábulas. 

As batatas já cozem às rodelas, os alhos já foram descascados e arranjados. 

Solta-se o aroma do azeite a aquecer no velho tacho. Há pouca coisa que desperta tantas memórias como o cheiro dos tachos a queimar no bico do fogão. O refogado e a sopa a borbulhar, o óleo a aquecer ou o pão a cozer, tudo desperta recordações sem pedir licença. O pão duro que já ninguém quer transforma-se em refeição que nos leva para outros tempos.

A batata cozida e o pão desfeito, o cheiro a azeite quente a alho. O tacho ao lume com aquela pasta esbranquiçada a borbulhar.

Ao lado, o óleo quente pronto a receber o peixe envolto em farinha. As azeitonas à espera na mesa.

Serve-se a manja, rica em tudo o que dizem que nos faz mal, com uma concha bem cheia. O prato a ficar cheio com aquela pasta, o calor a embaciar a vista de quem espera para começar a comer. Uma mão cheia de azeitonas que se largam no prato. As postas de peixe, ainda  a ferver, desfeitas com as mãos, sem cerimónia. 

A comida envolve-se no prato, troca-se o garfo pela colher e saboreia-se o pão e a batata misturada com o peixe e a frescura da azeitona. Um prato de manja e peixe frito, aquece a alma e conforta o estômago.

As tradições mais antigas chegam à mesa de hoje e trazem-nos o calor e a sabedoria de outros tempos. O pão duro, esquecido no saco de pano transforma-se no manjar que nos mata a fome.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O regresso às origens

Ofereceram-lhe uma sachola que lhe chegava à cintura. Uma miniatura comparada com a enxada que os adultos levavam para o terreno e que ainda tinha restos de lama seca.

Ela, miudita com excesso de energia, seguia-os sem saber se as folhas verdes que cresciam no meio da lama eram  ervas ou legumes. 

Era  daquela terra  que  vinha  o  alimento para a família. Aquelas couves que se transformavam em cozido e aquele feijão-verde que acabava numa terrina de sopa de pão. Era a alimentação saudável antes de ser moda, o biológico antes da palavra andar na boca de uns e de outros.

São as mãos calejadas da família que tratam a terra, que arrancam as ervas e limpam as pedras, para que dê o fruto que mata a fome. É um acto de amor na rudeza daquela vida.

As cebolas penduram-se no tecto depois de colhidas, as batatas acumulam-se num barracão sem luz, as favas são arranjadas em alguidares no degrau da porta. 

Comida sem corantes nem conservantes, sem açúcar adicionado e com o mínimo de gordura. Tal como defendem os livros e as teorias hoje em dia. Natural. Um prato de couves cozidas em água e sal e que confortam o estômago quando ainda estamos na hora do lanche.

A vida dura da qual muitos fugiram torna-se a regra na boca dos que defendem o regresso às origens, à simplicidade. O campo invade a cidade sem que os prédios se desfaçam.

E para a menina que ofereceram a sachola, aquela é a vida que conhece.

Os sabores são mais intensos, o cheiro da hortelã solta-se só com o vento e o piri-piri é uma ameaça quando a boca fala o que não deve.

A horta existe, as mãos calejadas é trabalho, os botins são para estar carregados de lama. Uma vida calma e cheia de trabalho. Os frutos arrancados da árvore e esfregados na roupa, os legumes  que sabem a terra,  a menina  que  corre na  horta que se tornou no seu recreio pessoal.  

A  vida saúdavel  e  pura sem  rótulos  da moda  ou das redes sociais.