quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O almoço da muca

A banda saía à rua de manhã cedo. Já o tempo estava frio e o casaco lá ajudava a compôr a farda. Iam dar os bons dias à população que abria a porta de casa só para os ver passar. Todos os anos a mesma coisa. Tão certo como o Natal ou a festa à Nossa Senhora. Vinha o Outono, as folhas deixavam as árvores e a banda desfilava no último fim-de-semana de Outubro.

-Lá iam eles em cumprimentos à aldeia. Tocavam o hino com o orgulho que só se tem naquilo que se vê crescer do nada. Naquilo em que se trabalha sempre que se pode para que se mantenha. Sem olhar ao tempo que se rouba à família. Sem pedir nada em troca. O bem de todos acima do pessoal. É para os outros, para os que ali estão e para os que ainda virão. Para que aquela casa abra as suas portas a muitos que ainda nem por aqui andam.

E a sala tornava-se pequena de mais para dar lugar a todos os que apareciam para o almoço. Mesas arrumadas ao lado umas das outras, cadeiras apertadas e que causavam um desconforto de que ninguém se queixava. Uma aldeia inteira e mais uns amigos a celebrar.

Da cozinha vinha o cheiro do almoço feito por quem nada recebia em ali estar. As mulheres dos directores, as mães, as tias e aqueles que só vinham ajudar. Panelões onde se cozinhava desde manhã cedo. As batas sujas e os pés doridos. O estômago em vazio que quem trabalha para alimentar os outros só come quando já pouco sobra. Os directores a servir à mesa. As tigelas da sopa, as travessas cheias de comida. O barulho dos talheres e as conversas gritadas a encher o espaço. A mesa dos músicos.

A festa que se prolongava pela tarde. A música que subia a palco. as marchas e os paso doble a animar o dia que já cheirava a frio. Os melhores do mundo aos ouvidos de quem os acompanhava. O beberete a receber a noite. A generosidade da população a encher uma mesa que dava de comer a quem se quisesse juntar. O frango assado que há coisas sem as quais os músicos não passam.

Chegava o final da festa e a sala que parecia tão apertada transformava-se num salão. Ficava quem ainda tinha de arrumar o que sobrava da festa. Limpar as mesas, arear os tachos, arrumar a loiça. Trinta por uma linha que, já diziam os antigos, quem quer festa sua-lhe a testa. 

E chegavam tarde a casa, mais uma vez. Prontos a cair na cama e com o cansaço a moer-lhes o corpo. O trabalho sem vencimento que lhes roubava horas à família e lhes acrescentava preocupações. O orgulho de ver a banda marchar rua acima. Mais um ano.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Desta condição

Não se escolhe como se nasce. Nem onde se nasce nem quem somos quando chegamos a este mundo. Não é preciso. É o sexo que decide quem somos. Homens e mulheres. Eles de um lado. Elas de outro. 

A eles tudo o que é grandioso. A força, a autoridade, o punho pesado que é desculpado pela condição de ser homem. De ser ele que representa a família. De se gabar de ser o ganha pão.

A elas a submissão. Os olhos no chão, as mãos trémulas, a obediência que é o que se quer de uma mulher. Que seja prendada, pura e que saiba o seu lugar. Não se pede mais. É a condição da mulher, a flor frágil que leva o mundo à frente, mas que se mantêm na sombra.

O homem entra em casa sem se desculpar pelas horas. O cheiro a vinho fermentado acompanha-o e confunde-se com  cheiro a suor seco e pó das terras.

Elas não o encaram, não o chama à razão que não é isso que se pede delas. 

- As mulheres têm de estar lá para eles. Só isso. Poupa o sorriso que não há pior do que uma mulher tonta. Fecha o colarinho da camisa e desce a bainha da saia que não és uma mulher da vida. Dá-te ao respeito. Depois não digas que falam de ti. Se não te dás ao respeito o que é que queres? - eram as ordens da mãe, da tia, do olhar reprovador da vizinha que lhes acompanhava o crescimento.

O trabalho demasiado cedo e o chegar a adulta antes de ser criança. Próprio da condição com que se nasce. O respeito, sempre o respeito. É ela que tem de fazer por isso que os homens vivem de instinto e são o que são. Não se controlam, são as mulheres que têm de se resguardar. De os deixar ser o que o instinto lhes pede. A ela só se exige que seja aquilo que deve.

O dever colado a esta coisa de ser mulher. Um sinal de nascença que mancha a pele e faz a cabeça tombar para a frente. O corpo cansado do dia de trabalho e que ainda tem de se fazer às vontades do homem. Aquele que as esperou no altar. Aquele que lhe fez o favor de a tornar mulher decente e honrada. A aliança a apertar mais do que os sacramentos de Deus.

Os pés descalços no terreno incerto, a cesta à cabeça, os braços à cintura. O trabalho ao lado dos homens. Não, nunca ao lado, sempre atrás. Em silêncio, na sombra. A tratar da casa, a parir filhos, a tratar dos pais e dos sogros.

A vida cansada quando se acabou de nascer. A sentença de se nascer assim quando isso não se escolhe. A condição de ser mulher.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Lugar à mesa escaldada

Fazia -se a vida a sopas e sem direito a descanso. Sopas de sustento, é claro. Com tudo o que o corpo se habituou a ter para aguentar o trabalho que o espera. Mas a verdade é que o corpo está habituado a pouco alimento e muito trabalho.

Na despensa, que não era mais do que um pano em cima do balcão da cozinha, aguardava o bacalhau. Um posta alta conservada em sal. Duro e seco. Era o conduto para o almoço. aquele que se levava para o campo protegido por panos e rodilhas para manter a ilusão que tinha sido acabado de fazer.

Um panela tosca e batida de tanto uso ia ao lume cheia com água do caneco. A posta de bacalhau era lá mergulhada e deixavam-na estar. O lume alto a envolver o metal da panela. O deixar passar o tempo. Era aguardar até a água começar a borbulhar e o cheiro a bacalhau cozido encher a pequena cozinha.

Nessa altura tiravam a posta para um prato e deixavam-na de lado. À espera. Baixavam o lume da panela e continuavam. Os alhos eram deitados ao caldo. Cortados sem precisão num trabalho de quem já nem sente o cheiro entranhado na pele. Deita-se um fio de azeite que mancha a água com apontamentos esverdeados.

O pão, guardado num pano que já fora uma camisa de Inverno, estava seco. Tão duro que não havia dente que entrasse com ele. As mãos calejadas desfaziam-no em pedaços consideráveis e deitavam-no às água que tinha voltado a borbulhar.

Só mais um passo antes de desligar o fogo e dar o comer por terminado. Os coentros eram migados à mão, sem cerimónia, e juntavam-se à sopa. O aroma a ervas frescas e alho quente inundavam a casa. Um manjar das pequenas coisas. Feito de nada e a saber a tudo.

A posta de bacalhau, já fria, voltava ao caldo. Nada mais que aquilo. Sopa escaldada que aquecia o corpo e confortava o estômago habituado ao vazio.

Tudo pronto no termo de metal, fechado com rigor e envolvido nos panos grossos. 

Lá vai a moça. Almoço dentro da cesta e cesta à cabeça num equilíbrio que nasceu com ela.

O dia mal começou a clarear, mas o almoço já a espera.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Trabalho fora de idade

A lei era diferente. Dizia que as crianças não podiam trabalhar, que o seu lugar era atrás das carteiras da escola com a bata branca vestida e respeito pela professora.

A realidade era outra. Era a que toda gente sabia, mas que fingia não ver. Olhos que não vêm... É o que dizem por aí. Eles lá sabem.

Ela era o que os olhos insistiam em fingir que não viam. Seis ou sete anos, não tinha mais. Pequena e delgada. Juravam que nem peso de gente tinha, se é que isso era possível. Honrava o nariz espevitado sem medo. Sabia onde ficava a escola, mas não lhe conhecia as salas de aula e nem reconhecia na professora a autoridade que diziam ter. Ela era diferente.

Quando se aproximou do capataz fê-lo sozinha. Sem sermão ensinado nem adulto que tratasse dos seus assuntos. 

- Quero trabalhar - disse com voz de criança, mas decidida.

O capataz, homem rude e de pele estragada, dobrou-se para a olhar. 

- Não podes - respondeu em tom de ordem.

Ela não se deu por vencida nem arrumou o assunto. Não ia para a escola que na sua casa não acreditavam nisso e, mesmo que acreditassem, faltava-lhes o dinheiro para cumprir as leis.

- Tiro as pedras da terra - propôs, mas completou com a sua sentença - Paga-me como as outras.

O homem tentou demovê-la. Explicou-lhe que havia quem chegasse sem aviso para garantir que as crianças estavam na escola e não ali. Crianças como ela.

A miúda, de cabelo solto e pés descalços, não desistiu, Ficou ali, a olhar para ele e só arredou pé quando teve a confirmação que podia voltar no dia seguinte. Voltou.  E no outro logo a seguir também. Todos os dias sem falta. Trabalhava tanto quanto as mais velhas. Cabelo tapado e avental à cintura. Sem cansaço.O corpo é novo, a energia não se esgota.

De vez em quando tinha de deixar o trabalho a meio e ir. O capataz, lá no alto, tirava o boné e levantava-o sem olhar para ela. Sem palavra. Ela largava as pedras no chão e corria descalça pelo terreno que tinha acabado de limpar. Voltava para casa. O lar onde devia estar sossegada e esperava que chegasse o dia seguinte para se apresentar ao trabalho.

Nessa altura já a ronda tinha terminado. Os que faziam cumprir as leis já tinham ido embora. Ela ficara. Sem ser descoberta. Sem conhecer números nem letras. Descalça a fazer-se mulher quando nem corpo tinha.

Os bancos da escola, esses nunca conheceu.