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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Quando o mundo chegava a casa

Chegou a casa resvés com a hora de jantar. Antes que a mãe percebesse que já ali estava, esgueirou-se para o cubículo que lhe servia de quarto e guardou os livros debaixo do colchão. Trazia-os escondidos na camisola. Uma solução tão prática quanto discreta. 

Apressou-se a arrumar o tesouro que era só seu durante aquele mês e sentou-se à mesa como todos os dias, mas com a inquietação a massacrar-lhe as pernas. O pouco jantar engolido à pressa para se recolher no quarto o mais cedo possível. Todos os meses a mesma história no dia em que a carrinha parava na praça da aldeia. A excitação das portas que se abriam, o coração apertado por não poder dedicar todo o seu tempo ao mundo que se escondia naquelas páginas. 

Depois de dar o jantar por terminado e quando os pais já dormiam o sono dos justos, lia às escondidas. Lá por casa os livros não eram tidos em boa conta, era por isso que aproveitava a calma da noite para gastar as velas que surripiava da gaveta da cozinha. A mãe, quando encontrava tais preparos, ainda olhava para o lado algumas vezes, achando que aquilo era mania que lhe passava, mas de vez em quando perdia o temperamento. Levantava a voz e dava-lhe uns safanões para que levantasse a cabeça do meio daquelas páginas e encarasse a vida que se queria. Mandriagem naquela casa é que ela não permitia. O corpo era para trabalhar e nunca se tinha visto trabalho que viesse de cabeças que sonhavam com o que não era seu. 

Nessas horas de fúria só podia rezar para que os livros escapassem às mãos que levavam tudo à frente. Nos piores dias, quando a raiva lhe deixava as faces em brasa, as folhas ficavam espalhadas pelo chão do quarto. Sem se saber onde começava e onde acabava a história e sem capa que lhe desse alguma cor. 

“Não percebem”, era o dizia para si enquanto apanhava as folhas e fazia o livro. De novo. A esconder os remendos que o deixavam inteiro e a esperar que o revisor deixasse passar. Até podia ser que nem reparasse que o livro não voltava da mesma maneira que tinha ido. Só não podia voltar de mãos vazias para casa. Nem queria que assim fosse.


Na continuação do texto "Quando o mundo chegava" publicado em Fevereiro de 2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quando o mundo chegava

O dia anunciava-se como se fosse de festa, mesmo que não houvesse sinal de foguetes no ar nem a banda estivesse preparada para sair. À beira da estrada que levava ao resto do mundo, mesmo no centro da pequena aldeia, juntavam-se miúdos e graúdos. Uns sentados nos degraus, outros de pé e mais uns quantos a sofrer com a ansiedade pelo que tardava em chegar. O coração apertado com o pensamento “E se não vierem hoje?”. 

O dia estava marcado no cartão que lhes tinha sido entregue no mês anterior e correspondia ao dia que o calendário marcava, mas e se não viessem? 

- Já aí vem - gritava um seguido pelo burburinho de mais uns quantos. 

Já se ouvia o motor ainda antes de se avistar a camioneta que trazia os livros. Lá vinha ele com os seus dois ocupantes nos bancos da frente e o mundo inteiro bem guardado na parte de trás. 

- Ora bons dias - cumprimentavam os senhores enquanto abriam as portas do fundo.

Na fila da frente, uma rapariguita de pouca altura e nariz demasiado espevitado para a idade, esperava a sua vez de entrar.

- Vê lá o que escolhes - diziam-lhe os senhores à laia de piada quando recebiam os livros do mês anterior e os confirmavam. Já lhe conheciam o gosto pelos livros que não eram para ela. Há idades para tudo, é o que dizem. Ela acha que há gostos para tudo e a idade não passa de um número que diz muito pouco. 

Percorre as prateleiras cheias de livros. Estão ali tantos e são tão poucos os que pode levar. Procura os que já tinha escolhido da última vez e arruma-os debaixo do braço antes que mais alguém os escolha. É por isso que faz sempre por ser a primeira. Basta chegar mais tarde e já outro leva os melhores.

Entrega-os ao senhor que encontra todos os meses e assiste, impaciente, à calma com que ele preenche o seu cartão. Cinco livros escolhidos que não chegam para ocupar um mês demasiado comprido. Com sorte consegue que rendam até meio. Com sorte. 

- Daqui a um mês tens de os devolver - dizem-lhe. 

Como se ela não soubesse, mas durante um mês eram seus. Tratados com todos os cuidados e mais alguns que não há dinheiro para pagar estragos e aquelas páginas são o seu maior tesouro. O dela e o de todos aqueles que de mês a mês esperam que a carrinha chegue. Sempre no mesmo sítio. Esperam pelo mundo. Um mundo que não acreditam que lhes pertença, mas que todos os meses chega nas costas de um carrinha.