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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Vai lá gaibéu

Deixavam os mais velhos que já se aguentavam por si mesmos antes de precisarem de duas mãos para contar os aniversários, entregues aos cuidados dos avós e eles seguiam caminho com o mais novo. Era como era. 

- Escarrancha - dizia ela enquanto encaixava as pernas do miúdo nos ossos que lhe marcavam as ancas. O cheiro a leite já bebido e a suor acompanhava-os. 

Caminhavam com o som dos pés a raspar da estranha que um casal nunca tem muito a dizer ao outro. Ela de cesta à cabeça. Ele de saco ao ombro. Só quando se faziam acompanhar por outros como eles é que se ouviam as vozes. Iam como sempre, homens a abrir caminho e as mulheres no seu encalço. Todos em direcção ao trabalho que os esperava longe da casa que era sua. Saíam caros ao patrão que lhes devia os tostões da jorna, tecto e lenha, mas eles trabalhavam como se isso fosse a única coisa que tinham na vida. Era assim que pagavam o que recebiam. Não havia domingo nem dia santo que lhes pedisse descanso e nem sabiam de hora para se fazerem ao campo. Era quando capataz assim o dizia, mesmo que ainda não tivessem mais do que a lua para lhes alumiar os passos. 

Faziam-se ao campo descalças. Trabalhavam com água pelo meio da perna e saia enrolada à cintura. As pernas a engelhar, o frio a colar-se ao ossos. Guardadas por eles que passavam o dia com o cu a descansar no cabo da enxada e levavam o dobro em moedas. 

Os mais novos, que também os havia por ali, ficavam a atiçar o fogo que o almoço não tardava. Tinham idade para os bancos da escola, mas estavam destinados ao trabalho e cumpriam. Quando o sol determinava que era hora de descanso e o capataz aceitava tal determinação, lá esperavam os que voltavam. Todos à volta da panela, tão habituados à falta de conduto que nem sabiam que estavam com fome. Grão com couve num dia e couve com grão no outro. O cheiro do almoço a misturar-se com o pó da terra e o sal do suor. Colher mergulhada na panela que fazia as vezes de prato, pão partido à mão. Todos do mesmo. 

E dali voltavam para o trabalho. Nada mais que a vida que levavam, pele calejada a troco dos tostões que guardavam. Apareciam quando vinha o trabalho, levantavam-se quando os de lá se faziam ao descanso que quem não tem a casa sua a que voltar ao fim do dia prefere trabalhar para esquecer. Trabalho de gaibéu.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Dar água à cura

O nascer do sol dava a ordem para começar o trabalho. O capataz confirmava que assim era. Depois disso era trabalhar até dar. Até o sol desaparecer no horizonte. A benção dos dias curtos no Inverno era compensada com os dias de Verão que pareciam não terminar. Era preciso trabalhar quando era tempo disso. Enquanto o capataz dizia que assim era. 

Todos os dias eram de trabalho. Com chuva ou sol. 

Era assim que tinha de ser. Plantar e cuidar para mais tarde colher. Para ter comida na mesa que alimentasse as bocas que insistiam em aumentar. Era preciso olhar pelas vinhas ou aparecia o míldio que se pegava às folhas. Ou o mal branco que condenava a colheita. E lá ia o sustento. 

A água sufaltada já tinha sido preparada. Os homens e mulheres faziam o trabalho. Mangas arregaçadas, lenços à cabeça e a pele a queimar com o sol e o sulfato. Uma para cada homem. O auxílio. 

Lá iam eles de pulverizador às costas. Uma saca a proteger os ombros e o pescoço. Nada mais. 

Lá estavam elas de caneco pronto. 

Os homens faziam o caminho no meio daquela vinha a granel. Cepas dispersas e terreno incerto. Corpo dorido do peso que acartavam. 


-Água! Água! 


Gritavam a ordem. As mulheres, que esperavam lá atrás, respondiam. Caneco cheio de água sufaltada e lá iam elas. O mais depressa possível. Deitavam a água sem cerimónia no pulverizador e a saca ficava ensopada com o sulfato que se escapava. 

 Lá iam eles outra vez. 

Assim se protegia o que lhes ia dar pão para a mesa. Homens a percorrer o terreno. Mulheres a dar água. 

O tempo da apanha ia chegar. Dos cachos gulosos escondidos no meio das folhas. Os dias quentes de Setembro com as mulheres a percorrem a mesma vinha. Curvadas. O tempo das mãos aleijadas e dos pés doridos. Do calor que queimava. Dos cestos ao ombro. 

O corpo aguenta muito, mas dá sinal de si. Fica moído, calejado. 

Mas primeiro era preciso aguentar o sulfato. Era preciso curar os campos. Tratar primeiro para colher depois. E lá iam elas de caneco. 

Primeiro, era tempo de dar água à cura.



Texto publicado originalmente na Revista DADA de Outubro de 2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A apanha

Com o final dos dias quentes vinham as carrinhas. Já eram esperadas. As carrinhas e as mulheres que levavam e traziam. O trabalho de campo esperava-as. O pó, o calor, os músculos doridos. Todos os anos esperavam pela carrinha que as levava de manhã cedo e as devolvia ao final do dia-

Eram mulheres de trabalho. Bata traçada, relógio pendurado na alça, lenço atado à volta da cabeça. As pernas escondidas pelas calças grossas e os pés metidos nos sapatos de trabalho. Sujos de pó, às vezes já a romper do esforço.

Levavam uma cesta com o almoço. Um bocadinho de conduto para enganar a fome enquanto aproveitavam para descansar à beira de uma sombra qualquer. Devia ser assim.

De manhã cedo juntavam-se no sítio combinado e esperavam pela carrinha que as vinha buscar. Mulheres e miúdas. Umas com vida daquilo, habituadas à dureza do campo. Outras à espera de juntar uns trocados. Talvez para gastar nuns devaneios, a maior parte das vezes para compensar o orçamento lá de casa. Esperava-as o trabalho da época. Duro. Seco. Áspero.

Estavam o dia inteiro fora. Nos dias mais quentes e mesmo naqueles em que o São Pedro lhes pregava uma partida. Era trabalho e o trabalho era para ser cumprido. Não se queixavam. Pelo menos as mais velhas. Era essa a sua vida, só conheciam o trabalho de todos os dias. Não se queixavam. Não sabiam que podiam.


Ao final do dia, a carrinha voltava e lá as trazia. Sentadas na parte de trás da carrinha de caixa aberta. Os bancos corridos davam a falsa ilusão de conforto e elas lá estavam. Aos solavancos. Agarradas onde conseguiam. Conversas perdidas no cansaço de um dia de trabalho. Era Verão, o calor entrava-lhes na pele, cansava-lhes o corpo. As conversas ali, a caminho de casa, eram deitadas para o ar sem se preocuparem com o que era falado. Enganavam o tempo. Procuravam chegar mais rápido ao seu destino.

Cheiravam a trabalho. Uma mistura de suor, pesticidas e terra seca. O pó entranhava-se nas suas roupas, nos seus cabelos, nas unhas que se tornavam escuras. Tinham um ar cansado, o andar torcido denunciava os músculos doridos. 

Desciam da carrinha com destreza. Cumprimentavam quem as esperava. Descansavam o corpo enquanto se encostavam a uma parede tapada pela sombra.  A cesta esquecida aos pés que apoiavam o peso do corpo alternadamente. Uma espécie de descanso. As mãos apoiadas nas ancas.

Amanhã voltavam ao trabalho. O campo ainda tinha muito tomate para dar e o corpo ainda tinha muito para aguentar. O trabalho de todos os dias. A carrinha à espera. O corpo que se queixava. A boca que se calava.