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quarta-feira, 3 de maio de 2017

O regresso às origens

Ofereceram-lhe uma sachola que lhe chegava à cintura. Uma miniatura comparada com a enxada que os adultos levavam para o terreno e que ainda tinha restos de lama seca.

Ela, miudita com excesso de energia, seguia-os sem saber se as folhas verdes que cresciam no meio da lama eram  ervas ou legumes. 

Era  daquela terra  que  vinha  o  alimento para a família. Aquelas couves que se transformavam em cozido e aquele feijão-verde que acabava numa terrina de sopa de pão. Era a alimentação saudável antes de ser moda, o biológico antes da palavra andar na boca de uns e de outros.

São as mãos calejadas da família que tratam a terra, que arrancam as ervas e limpam as pedras, para que dê o fruto que mata a fome. É um acto de amor na rudeza daquela vida.

As cebolas penduram-se no tecto depois de colhidas, as batatas acumulam-se num barracão sem luz, as favas são arranjadas em alguidares no degrau da porta. 

Comida sem corantes nem conservantes, sem açúcar adicionado e com o mínimo de gordura. Tal como defendem os livros e as teorias hoje em dia. Natural. Um prato de couves cozidas em água e sal e que confortam o estômago quando ainda estamos na hora do lanche.

A vida dura da qual muitos fugiram torna-se a regra na boca dos que defendem o regresso às origens, à simplicidade. O campo invade a cidade sem que os prédios se desfaçam.

E para a menina que ofereceram a sachola, aquela é a vida que conhece.

Os sabores são mais intensos, o cheiro da hortelã solta-se só com o vento e o piri-piri é uma ameaça quando a boca fala o que não deve.

A horta existe, as mãos calejadas é trabalho, os botins são para estar carregados de lama. Uma vida calma e cheia de trabalho. Os frutos arrancados da árvore e esfregados na roupa, os legumes  que sabem a terra,  a menina  que  corre na  horta que se tornou no seu recreio pessoal.  

A  vida saúdavel  e  pura sem  rótulos  da moda  ou das redes sociais.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O ar do forno

Há uma bola de massa crua que tanto repousou durante uma semana que se transformou em fermento. A superfície ficou seca e áspera, o interior mole como quando foi guardada. Amanhã vem outra para o seu lugar. Hoje mistura-se esta com parte da farinha. 

Vai-se buscar o alguidar de barro já partido e marcado de tanto trabalho. Deita-se parte da farinha e a bola de uma semana e mistura-se num piscar de olhos. Sem grande ciência ou tempo a perder. Misturar e deixar repousar. 

O maior segredo é sempre uma junção de persistência com paciência. 

Quando o novo dia nasce, encontra o forno a aquecer. Ramos finos que vão queimando no forno de pedra que alimenta uma família e quem mais precisar. Fecha-se a porta e deixa-se o ar do forno chegar onde queremos que chegue. 


A massa está a descansar. Foi amassada até a respiração ficar pesada e os braços começarem a doer. De lenço na cabeça e bata já gasta, a mulher deu tudo por tudo para transformar a farinha em pão do bom. Até a massa chegar ao ponto. 

Depois, quando já repousou o que tinha a repousar e quando o fogo já chegou onde devia chegar, é cortar a massa à mão e moldar o pão com direito a bênção e oração. As mãos brancas da farinha formam pães e roscas para dar aos mais pequenos. Uma bola de massa crua fica a repousar para a semana seguinte que esta vida é feita de rotinas. Outras levam chouriço daquele que tinha ficado a secar na chaminé lá de casa.

Depois é esperar. A massa vai crescendo no forno. Já se adivinha a manteiga a derreter e o vapor do pão quente a queimar-nos a pele.

Começa a cheirar a pão quente e já se adivinha o pão estaladiço por fora e o interior branco e macio.  Para aproveitar o forno que ainda está quente, prepara-se um tabuleiro de sardinhas regadas a azeite e temperadas com cebola. 

Sai o pão a escaldar e entra o tabuleiro com o almoço. As rotinas cumpridas com o rigor que passa de geração para geração.

Parte-se o pão sem cerimónia nem faca. À mão. Meter faca em pão quente é tirar a força a quem o amassou e isso é coisa que não se quer. Daqui a uma semana começa tudo outra vez e não são corpos fracos que conseguem fazer pão. 

Não há nada que se compare à memória do cheiro a pão quente a encher a casa. A manteiga a escorrer pelas mãos e o sabor do pão amassado com a força de quem alimenta os que são seus. 

Parte-se quente, à mão e ficamos à espera que passe a semana.

sábado, 5 de março de 2016

Água e Hortelã

Para lá do portão feito à mão com tábuas que sobravam disto e daquilo, ou do sítio onde devia estar um portão para o qual o dinheiro não chegava, há um outro mundo onde o trabalho começa antes do sol nascer. Seja dia de temporal ou haja aviso de seca.

A terra castanha e enlameada é trabalhada até estar pronta para receber as sementes e as regas. Um quadrado de terreno não pode ser desperdiçado. Antes pouco do que nada, que o pouco ainda alimenta e o nada deixa-nos de estômago vazio.

Homens de enxada às costas e mulheres com baldes à cabeça. O dia começa cedo. Trabalham na horta de casa, antes de partirem em romaria para os terrenos dos senhores, que lavram até ser noite. Os homens de boné e calças grossas. As mulheres de avental e lenço enrolado na cabeça. Eles de enxada. Elas de cesta à cabeça. Tal como em casa. 

É naquele terreno que chamam de seu, por muito ou pouco que desse, que se tira parte do sustento para a família. Não há dinheiro para gastar naquilo que se pode poupar. O descanso só vem nos dias santos. Nos dias que pertencem à fé não se trabalha que é assim que manda a tradição. Por respeito. 

Planta-se tudo o que o terreno permitir. Medem-se os canteiros ao milímetro. Guita de um lado ao outro e o rigor das medições de esquadro e régua feitas pelo olho treinado de quem faz aquilo desde que nasceu. Quando a horta começa a rebentar a obra de arte aparece em todo o seu esplendor. 

O feijão-verde trepa pelas canas que estão espetadas na terra. As batatas começam a florir. O tomate vai espreitando, vermelho e gordo, debaixo das folhas verdes e viçosas. 

E chega a época da colheita. De revirar as terras e colher o fruto do trabalho e da espera de tantos meses. Os barracões ficam cheios de batatas. Dos tectos pendem cachos de cebolas entrelaçadas umas nas outras. Apanha-se a couve para juntar às misturadas que iam alimentar a família naquela noite. E na outra a seguir. .

Que Deus nos dê água e um tranquinho de hortelã, a horta mata a fome de quem a semeia.




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O repolho da sala de jantar

Lá estava ele no centro da mesa da sala de jantar dos avós. Verde, com folhas viçosas e tão brilhante que quase que nos feria a vista. Provavelmente tinha sido oferecido por algum filho que, tentado por outras modas e modernices, achava que aquele repolho já não ficava bem em cima dos móveis lá de casa. O seu destino, como era de esperar, era a casa dos avós.

Todas as casas tinham um repolho daqueles. Em cima da mesa de casa de jantar, a enfeitar a cristaleira ou em cima do móvel da cozinha. Na versão repolho, couve-flor ou qualquer outro legume que fosse aparecendo.

O engraçado é que nunca me lembro de ver o tal do repolho cumprir as funções que lhe eram destinadas. Havia repolhos de enfeitar ou repolhos que serviam para guardam tudo o que não se sabia por onde andava, mas não me lembro de ver repolhos cheios de sopa como era suposto. Talvez porque nunca se sabia onde estava a concha que tinha vindo com o tal do repolho.

Era uma concha branca que, a julgar pelo buraco na tampa, devia ficar com o cabo espetado do lado de fora do dito legume. Mas nunca ficava. Muitas vezes desaparecia sem ninguém se aperceber que alguma vez tinha existido, mas na maior parte das vezes acabava partida no chão. Porque é certo que aquilo era um repolho, mas era tão frágil que não resistia às investidas dos filhos e netos que achavam que aquele era o brinquedo que lhes faltava ou que era ali que estavam aquelas pilhas que ninguém conseguia encontrar.


Com o passar do tempo, desapareceram os repolhos. Danificados pelas mãos menos habilidosas dos mais novos ou já sem graça porque ninguém tinha paciência para olhar para o mesmo objecto durante tantos anos seguidos. Agora, os netos e filhos que brincaram com a decoração da casa andam à procura deles outra vez. É vintage, como tudo o resto que anda por aí a voltar.

Para mim era um poço sem fundo, onde encontrava papeis cheios de letras que eu não percebia, as pilhas para as minhas bonecas ou uns botões que ninguém sabia a que casaco pertencia. Não sei se eram essas as funções que o Bordalo Pinheiro tinha pensado para o dito do repolho, mas a verdade é que ele era muito eficiente a cumpri-las.