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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Quando Agosto traz a banda à rua

E eis que Agosto anuncia o seu fim com direito a cheiro a pólvora e incenso, bailaricos que nunca terminam e ruas cheias de carros que só aparecem naquela altura. Principalmente ao Domingo, quando o cheiro dos guisados feitos pelas mãos que os embalaram, trazem meio mundo de volta a juntar-se aos que andam por ali durante todo o ano. 

O dia começa com os foguetes a rebentar em seco, sem dó nem piedade pelos que ainda tentam acertar as horas de sono, a anunciar que o sol já vai alto e que é tempo do corpo se fazer ao caminho. As noites de festa são longas para os que a aproveitam e ainda mais para os que a fazem, mas a alvorada não se importa com as horas a que os corpos caíram na cama. 

Em casa, naquelas casas em que o último domingo de Agosto cumpre a rotina de todos anos, dá-se um jeito à farda e escova-se o chapéu. Pega-se na pasta e no instrumento que espera à porta e segue-se o caminho até ao sítio do costume. Aquele que já se conhece só por ouvir os próprios passos e onde se encontram os de sempre. Olhos ensonados, corpos conservados no álcool da última noite e os mesmos atrasos, os mesmos esquecimentos. 

- Não tenho essa música. 

- Há por aí um chapéu a mais? 

Arranja-se sempre qualquer coisa. O desenrasque de última hora que vem com esta coisa de se nascer português. Quando se ouve o bombo a anunciar a chegada da bandeira da padroeira para abençoar os que lhe abrem a pota, já vai longe a lembrança da alvorada. O sol começa a aquecer o dia, a queimar a pele e a obrigar a humedecer os lábios numa água que muitos garantem que devia ser de cevada. A piada batida de todos os anos. A paragem na casa de uns e de outros para descansar as pernas e confortar os estômagos sempre animados pelas lembranças de outros anos. De outros peditórios. Daqueles que já não estão ali. A sensação de casa quando se percorrem os mesmos caminhos e se abrem as mesmas portas de mesas prontas a recebê-los a todos, sem distinção entre eles. 

No caminho, confunde-se o cheiro do refogado que espera as famílias com as marchas tocadas rua abaixo e rua acima. As bolsas a irem de porta em porta. As pessoas que param para os ver passar e que se deixam ficar de mãos acima dos olhos que o sol tolda a visão e eles gostam de os ver passar. 

- Por este andar o peditório termina e já a procissão está a sair. 

Todo os anos as mesmas queixas. Tão iguais que já nem se sabe se são verdadeiras ou se é só a força do hábito a falar mais alto. As horas que passam demasiado rápido, os passos que não se apressam. 

A festa de Agosto, de fé para uns e de folia para outros, a cumprir a tradição de todos os anos. A banda a dar música à aldeia que sai à rua.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A festa que era Agosto

As mãos estavam dormentes de cortar papelinhos de todas as cores. Feitos um a um, com todo o preceito, e transformados em pequenas bandeirolas presas a um fio. Agora que Agosto chegava ao fim, cruzavam as ruas de um lado ao outro. Era isso e as folhas de palmeira pregadas às varolas que anunciavam a chegada da festa.

Durante aquele tempo em que a animação chegava à aldeia as noites, animadas pelos conjuntos de dois ou três que se juntavam, faziam-se em bailaricos, conversas de esquinas, mãos afoitas, mães atentas e homens metidos em copos que depressa ficavam vazios. Dias que eram santos no calendário de quem os vivia, mas onde se misturava o pagão sem que daí viesse mal. Eram os tempos em que as ruas se transformam em rebuliço e as enxadas ficava encostadas à parede. 

Todas as manhãs, os foguetes davam sinal de alvorada numa aldeia que nem chegava a adormecer. Uns porque a festa faz-se enquanto o álcool não evapora outros porque tal romaria lhes sai do corpo que já não sabe o que é cama. Os gastos de uns atenuam a preocupação dos outros que isto de estar em festa é bonito, mas as contas parecem ser um poço sem fundo. Se tudo correr pelo melhor e os santos estiverem por eles, pode ser que fique paga ao Domingo à noite e consigam respirar de alívio nos últimos dois dias. 

No mesmo Domingo em que os santos vinham à rua acompanhados do tocar incessante dos sinos. A aldeia já os esperava de roupa nova, costurada no quintal a aproveitar a luz do dia, lágrimas nos olhos, reza nos lábios e terço a rodar nos dedos. O mesmo que é guardado no recolher da procissão quando todos se viram para o coreto à espera das primeiras notas da banda para dar início à festa que não tem hora para acabar. Ouvem-se os pasodobles e as marchas acompanhados de palmas e cantorias. 

São as mesmas palmas que no dia seguinte seguem com a banda atrás da bandeira de Nossa Senhora. Fazem o caminho para a entregar aos festeiros seguintes que a esperam de mesa posta e porta aberta. A aldeia em festa com a perspectiva de mais um ano de arraial e a bandeira a trocar de mãos entre vivas daqueles que ali foram só para ver. Há sempre qualquer coisa para ver e comentar mais tarde. 

E o início do fim vinha com o jogo que juntava os solteiros e os casados. Os últimos com mais barriga que os primeiros. Sem limite de idade, só o estado civil a servir de regra para saber para que lado do campo é que alguém ia. Ficavam coxos e com nódoas negras e alguns arfavam ao final de vinte minutos de jogo que a idade não perdoava, mas falava mais alto a vontade de cumprir a tradição. Todos os anos a mesma tradição. 

A rua a ganhar vida com as decorações e a música. O largo a transformar-se em arraial. A festa que era Agosto.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Meu rico Santo

Todos os anos a mesma coisa. Os dias longos a terminar em noites quentes anunciavam a chegada da época de devoção onde o trabalho dava lugar à folia. Chegavam os santos que traziam os vizinhos para a rua de fogueira preparada para aquecer uma noite que não conhecia frio. 

Lá no largo, no mesmo sítio de sempre, já todos a esperavam. Os troncos grossos preparados para arder noite dentro e as conversas a crescerem ali à volta. Apareciam todos e nenhum tinha sido convidado. Traziam um chouriço e um toucinho, mais um pão e uma garrafa de vinho e tudo o mais que se conseguia arranjar nas despensas quase vazias. 

A fogueira em labaredas que metem respeito e o ar a cheirar ao rosmaninho que lhe deitam. Está dado o início para a festa acompanhada de um bom bailarico que puxa até pelos pés mais preguiçosos. 

- Ai malandro - gritam uns e outros enquanto os mais novos saltam à fogueira só para mostrar que já são homens. Ou que acham que são. 

Naquela noite o que se quer é esquecer os dias sempre iguais e as tristezas que a vida dá. Para se rezar a Santo António e beijar a medalha de São João enquanto se roga um pedido. É dia de santos, noite de festa. 

O sino da igreja dá o sinal de meia-noite e as meninas casadoiras avançam para a fogueira. Alcachofra passada pelas labaredas que a tradição nunca se enganou e todas querem ter direito à benção. 

Levam-nas para casa. Chamuscadas e a cheirar a fogo recente. Escolhem a melhor jarra e deixam-nas em água à espera que chegue a manhã. Deitam-se de coração esperançoso que o amanhecer a faça florescer. Se assim for, o amor que aquece o seu coração é para a vida, sinal de que a alcachofra abençoa o casamento que se ambiciona. É a flor que diz se aquele é o moço que será o seu homem. 

Um ano a almejar aquele dia que dita a sorte do coração. Que se roga a Santo António pela benção do santo padre e que se confia que a alcachofra guarda a vida de quem a queimou. 

Viva Santo António. E São João que está mesmo a chegar. 



Texto publicado na Revista DADA de Junho de 2018 e adaptado do texto "Meu Rico Santo" publicado neste blogue em Junho de 2017

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A 13 de Maio

O vento fresco das noites de Primavera entra no corpo dos que aguardam ordem de marcha. Do outro lado da rua, a carrinha espera de bagageira aberta para que guardem as tralhas que não conseguem levar às costas. Já está tudo preparado quando o relógio da igreja dá o sinal de meia noite.

- Vamos a isto. 

Homens e mulheres avançam de noite. Consigo não levam mais do que uma garrafa de àgua e um terço. Têm de se poupar porque o caminho é longo e o corpo, mesmo habituado às piores provações, não aguenta tudo. É a devoção que os acompanha e lhes dá alento quando as bolhas massacram os pés e as silvas arranham a roupa. Caminham no meio do nada. Na borda da estrada, pelos terrenos baldios, por sítios que só quem faz aquilo todos os anos sabe que vai dar ao destino que os espera. 

Chegam ao sítio combinado e o carro já lá está. De bagageira aberta e a abarrotar com os pertences de cada um. Nessa altura, não importa se é madrugada ou se o sol já vai alto. Estendem as mantas ao lado umas das outras e dão-se ao descanso naquele leito mal arranjado em cima de pedras e ervas. Tapam-se com um cobertor que, para chegar ao pescoço, deixa os pés à mostra e não engana o frio. 

Fazem os seus dias assim. A caminhar noite dentro na direcção que as suas crenças os levam. A almejar por descanso. O peito cheio com a fé que trazem desde do primeiro choro. Naquele caminho que lhes moí o corpo e com as bolhas a latejar nos pés, pagam as promessas que fizeram, os pedidos que Nossa Senhora ouviu e aos quais acudiu quando o desespero chegou. É a fé que os move.  

- Obrigadinha, mas ê na quero - dizem quando alguém lhes oferece uma fatia de pão de ló. 

- Mas olhe, tá bom. 

Partilham a comida que há, o dinheiro é pouco e é preciso encher o estômago para que a força não se vá. Ainda há muito caminho para andar e o corpo não pode dar em fraqueza. Com sorte, conseguem parar num restaurante lá mais para a frente. 

Quando avistam Fátima esquecem as dificuldades e as dores. Chegam cansados e suados da provação que foi fazer o caminho, mas de alma cheia com o dever cumprido. 

Ajoelham-se em frente à imagem que lhes ampara os passos e a vida. Deixam-se ficar ali. A murmurar as rezas que sabem de cor e a agradecer a bencão de ter Nossa Senhora a olhar pelos seus. Prometem voltar todos os anos, desde que as pernas aguentem e o corpo deixe. Mesmo sem promessa a cumprir. Só para a visitar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Aos que já não estão

Depois do trato em vida vem o acompanhamento na morte. 

O descanso eterno de uns leva ao cumprimento terreno das tradições que não interessam a quem já não está e que lava a alma de quem fica. 

No dia de finados, a romaria é ao cemitério. Novos e velhos, com mais ou menos dores nos ossos, lá vão eles até à última morada, que um dia também será sua, visitar os seus que já se foram. Cumpre-se todos os anos, a missa, a ida ao cemitério, o pesar por aqueles que ainda nos fazem tanta falta. 

Levam as flores nos braços e um saco com a tesoura, a faca, a vassoura pequena e uns quantos trapos. É o lavar da casa, é a visita a quem já não responde às perguntas. 


Quando chegam à campa dão um beijo na fotografia dos seus, cravada no mármore frio, e conversam com eles. Contam-lhes que os netos estão bem, que a filha anda com umas dores estranhas, que o trabalho tem dias para esquecer. 

Tiram as flores velhas da jarra, já estão amarelas e secas, e arranjam as que trouxeram. Cortam os pés, põem verdura e fazem o melhor que sabem. 

Vão buscar o caneco de plástico azul e enchem-no de água que deitam sobre o mármore frio. Varrem a sujidade, arrancam as ervas que insistiam em ir aparecendo, passam com o pano para que fique a brilhar. 

Ajeitam o ramo de flores e voltam a colocar no sítio devido e ficam ali, a olhar para a pedra e para a fotografia de quem já tiveram ao seu lado. Doí-lhes a alma com uma saudade que o tempo não cura nem atenua, só ensina a suportar. 

Despedem-se como nos despedimos de um amigo que encontramos no café. 

- Até para a semana, se Deus quiser. 

O coração vai apertado e a alma lavada com o dever cumprido.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quentes e boas

No S. Martinho, vai à adega e prova o vinho. É o que se ouve dizer por aí.

A uma adega qualquer, nestes dias não é preciso convite. O que é preciso é sorte para encontrar uma que esteja aberta.

Tempos houve em que as adegas abriam os portões e ficavam à espera de quem quisesse entrar. Sem convites ou publicidade, era a tradição da porta aberta a quem viesse por bem.

Os homens juntavam-se, as mulheres ficavam recolhidas em casa. Boné aos quadrados na cabeça e copo de vidro na mão. Dos pequenos, é assim que pede o vinho.

Provava-se o vinho novo que ainda estava guardado em pipas. Das de madeira que enchiam aquele espaço em que o cheiro a álcool parecia estar colado às paredes a quem por lá passava. Juntavam-se amigos e conhecidos para cumprir o ritual de devoção a um santo.

Fazia-se a fogueira numa lata que andava por ali perdida. Era Novembro, o tempo estava frio e o vinho ainda demorava a fazer efeito. A fogueira ficava mesmo ali, no meio da adega. Aquecia os convivas do vento que entrava pelo telhado e pelas frestas da parede. Mais um copo de vinho que a fogueira começava a pegar.

Cortavam-se castanhas com os canivetes que andavam no bolso e o assador ia ao fogo. Era ver os homens a aquecerem-se na fogueira improvisada enquanto esperavam que o petisco ficasse pronto. Novos e velhos, sem distinção, Em dias de festa, o vinho era para todos.

Ouvia-se o abrir da torneira de madeira. Com esforço. Era só mais um copo de água-pé que era da boa. Tão boa que arde na garganta e aquece o corpo. É nova. Alguns começavam a ter dificuldade em manter-se em pé e o equilíbrio ia-lhes fugindo a cada copo que deitavam abaixo.

Queimavam-se as mãos enquanto se provavam as castanhas acabadas de sair do lume. Quentes e boas, como se quer. As vozes, arrastadas pelo peso do vinho, falavam de outros tempos tão antigos que se perdem na memória.

A noite terminava quando já nem se sabia que horas eram. A adega cheia de fumo e os corpos quentes da prova do vinho. Abriam-se os portões enquanto se bebia o último copo.

Só mais um. Para dar força para o caminho.