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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Ao que chamava casa

Fechou os olhos com o primeiro trovão e antes que terminasse o sinal da cruz já o relâmpago iluminava a casa. Rezou para dentro, lábios a moverem-se sem se ouvir um som e o coração apertado com o prenúncio de temporal. 

Por cima da sua cabeça não havia tecto, os barrotes e as telhas estavam ali para quem os quisesse ver. A única protecção entre os seus e a intempérie que se anunciava lá fora eram as filas de telhas, algumas delas soltas, que deixavam entrar o que fosse que andasse lá por fora. 

Aquilo a que chamava de casa não era mais do que um barracão mal arranjado. Um divisão ampla que os acomodava e em que se fazia uma parede a cada ano e só quando o dinheiro assim deixava. Quando não havia nenhum imprevisto que lhe levasse os trocos que eram poupados com devoção. 

Mas o dinheiro ainda não tinha chegado para pôr o tecto. Uma parede para o quarto que era seu e a perspectiva de uma para os filhos, mas nada de tecto. Era isso que lhe apertava o coração agora que ouvia o vento levantar e assobiar entre as frestas das telhas. Ao desconforto dos ossos que arrefecem acrescentava o medo pelo que estava para vir.

Quando o cheiro a terra húmida entrou em casa chamou os filhos para cima da cama de ferro que mal acomodava um corpo e ali ficaram. Junto uns aos outros com o corpo a denunciar o frio e sem saberem o que era um lençol, mas de pés secos. Quando o céu ameaçou desfazer-se em cima deles, começou a ouvir-se correr pelo corredor. A água entrava pela porta da frente e, aproveitando a inclinação da casa feita sem rigor de medidas, seguia caminho até sair pelas traseiras. O vermelho que marcava o chão ganhava profundidade num tom mais escuro, mais interior, empapado na lama que entrava. A enchente lavava a casa por dentro e a humidade atacava o corpo dos que se abrigavam no calor dos outros. 

Lá fora, o vento levantava numa fúria que tentava arrastar o que se metia no caminho. Lá dentro, só havia paredes e essas mantinham-se de pé. Com dificuldade, mas de pé. 

Levantaram-se quando o assobio amainou, mas a humidade ainda se colava à pele. Com a água a bater no artelho deram a volta ao pouco que chamavam seu só para ter certeza que ainda o tinham. 

- Para o ano temos tecto - prometeu-lhes enquanto guardava para si as refeições que isso lhe ia roubar. “Que não me falte água e hortelã”, pediu para os seus botões.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Uns pelos outros

O trabalho fazia-se aos poucos. Quando chegava o fim-de-semana ou o calendário marcava dia feriado. Como era por boa vontade, até em dias santos estavam prontos a arregaçar as mangas. Só era preciso força de vontade para a coisa acontecer e isso eles tinham para dar e vender. Já lhes estava no sangue. 

Era sempre assim. Quando um precisava, apareciam todos. A troco de nada. Ou melhor, a troco de umas quantas cervejas e mais umas conversas que nunca se sabia como começavam. 

Conheciam-se desde miúdos. Nascidos no mesmo ano, primos ou amigos dos irmãos uns dos outros. Não havia justificação para a amizade. Tinham crescido juntos, só isso. Por isso, quando um deles anunciava intenções de subir ao altar, os outros juntavam-se para construir a casa. Era dar empreitada para as fundações e para erguer as paredes que eles tratavam do resto. Depois disso ainda havia tanto para tratar. 

Cada qual tinha o seu ofício e os que não o tinham também davam uma mão que havia sempre trabalho para mais um. O electricista e o pedreiro, o canalizador e o estucador. Até o que trabalhava mais bem vestido. Todos eles sabiam o que era dar serventia. Todos eles apareciam quando era preciso. 

- Por este andar ainda te casas antes do reboco estar terminado - diziam em tom de graçola. Toda gente sabia que quem casa precisa de casa, mas uma piada vinha sempre a calhar. 

Eles lá continuavam até a chave estar na porta. Sempre que havia dias livres e que o tempo deixava. 

Começavam cedo que o corpo nem sabia ficar deitado até tarde e por ali ficavam até ser noite. Almoçavam juntos que a noiva e a família tratavam de lhes dar sustento. Toda gente sabe que de barriga vazia não se trabalha. Uma carne para dar força, um pão de ló para adoçar a boca, um copo para ajudar a engolir. 

- Ó pá, tu cala-te - diziam quando lhes perguntavam quanto queriam receber. 

Estavam ali para ajudar o outro que já os tinha ajudado a eles ou que também ia aparecer quando fosse a sua vez de fazer casa. 

Eram uns pelos outros e nem se falava mais nisso. Era por isso que ali estavam. Uns pelos outros. Para o que fosse preciso.