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quarta-feira, 12 de junho de 2019

A esperteza

Saíam acompanhados do cheiro enjoativo a leite quente. Todas as manhãs, leite fervido com a nata espessa a vir ao de cima, e o que houvesse no naco de pão. Isso ou o pão embebido no leite para encher o estômago. Depois, faziam-se ao caminho com o aviso de sempre:

- Tomem conta das meninas

Era o tomavas, era o que era. Eles bem que abanavam a cabeça como se concordassem com o que lhes era dito, mas ainda estavam sob o olhar das mães e já se tinham esquecido. Elas que se valessem. 

Saíam todos juntos e mais se iam juntando pelo caminho. Perdia-se a conta aos miúdos que por ali nasciam a cada ano que passava. A cada porta, o aviso reforçado:

- Tomem conta das meninas - e eles a responder com o mesmo aceno calado.

Andavam todos pelas mesmas idades. A maioria ia descalço, tão habituados aos pés nus que nem sentiam as pedras, uns quantos tinham uma mala que levava quase nada e todos iam de bata branca que algumas faltas a professora não admitia. Eles eram todos mais altos do que elas, mas nem isso lhes pesava na consciência quando as deixavam para trás. Ainda se avistava a torre da igreja e já tinham acelerado o passo deixando para trás as meninas que deviam cuidar.
Elas, miuditas de idade e tamanho, não se preocupavam com aquele abandono premeditado. Era assim todos os dias, tão certo como as horas que o sino anunciava, e elas já não contavam com outra coisa. Aliás, até preferiam que assim fosse. Que eles se fizessem ao caminho, no passo apressado para chegar a lado nenhum, que elas ali ficavam, no seu passo miúdo e brincadeiras que não lhes interessavam a eles, tão adultos naquela meninice que não queriam assumir que ainda tinham.

Não demorou a que o barulho do motor se fizesse ouvir. Atrás delas, o roucar cavernoso denunciava a dificuldade em transpor aquela subida acentuada que só pernas novas aguentaram sem reclamar. 

- Mas vocês vão sozinhas?

E mais não era preciso para que elas subissem para o autocarro que trazia quem vinha do trabalho e levava quem ia pegar a seguir. O condutor já as conhecia e elas não se faziam rogadas à oferta de boleia que as levava rua acima, a passar os rapazes que as tinham deixado entregues a si mesmas. Da torre da igreja chegava o sinal. Eram 8.30 da manhã.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

As rotinas de Setembro

Os dias já estão a mingar. As manhãs pedem casacos de malha que o final do dia não suporta. É este veste e despe que os deixa doentes. Isso e as correrias que lhes empapa a testa em suor. Deviam ter juízo, mas naquelas cabeças não entra nada.

Ainda fico à porta a vê-los desaparecer na curva lá do fundo e, de vez em quando, grito 

- Portem-se como deve ser. 

Eu sei que devia estar calada, mas não me consigo conter. Eles lá seguem sem olhar para trás. Todos os avisos que lhes faço entram por um ouvido para logo a seguir saírem pelo outro. Sei bem o que ali vai. Tal como sei que o mais certo é voltarem com uma constipação ou um nariz cheio de ranho que limpam nas mangas da camisa por muito que eu avise que não se faz. Lá está, não ouvem. Ou não querem ouvir. 

- Se correres ainda os apanhas. 

Há sempre um que se atrasa, mas lá vai a correr rua abaixo, ao encontro dos outros com a mochila a saltitar às costas. Fazem sempre isto. Vão descendo e apanhando mais um e outro, quando chegam ao portão da escola já vão mais de dez a gritar, não sabem falar de outra maneira. Até cansa a cabeça.

Pelo menos vão felizes. Antes assim do que no meu tempo em que íamos com medo da professora, entrávamos em sentido, erguiamos a mão ao peito para cantar o hino e ficávamos de boca calada a seguir. Bastava um suspiro a irritar a senhora professora e éramos chamados a suspirar de pé em frente ao quadro. Depois é que era o elas. Ainda me arrepio só de lembrar. Mão esticada, "como deve ser" frizava a professora, e a régua a bater na palma com toda a força. Estalava. Doía a mão e a alma cá dentro. E era um calor tão grande que só atenuava quando agarravamos o metal frio das pernas das mesas. 

- Que vos sirva de lição. 

Não servia. Quantas réguas se partiram assim e quantas canas da Índia foram substituídas ao canto da sala? Perdi-lhes a conta. 

Pelo menos os de agora vão divertidos. Saem de casa agasalhados e calçados e voltam umas duas horas depois da hora de saída. Não é que o caminho seja longo, é a conversa que é muita e a brincadeira não acaba. Mas digo e repito, antes assim.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nas carteiras da escola

Eles já iam a caminho da escola. Cabelos empapados em suor de andar aos pontapés numa bola de trapos. Cansados. Elas ainda esperavam enquanto eles iam indo. 

Esperavam à porta. Todos os dias. Fosse dia de sol ou estivessem num Inverno intenso. Pequeninas e de nariz arrebitado. Bata branca para todas e sapatos só para algumas. Tal como os meninos. Mas elas, bem comportadas e sorridentes, esperavam a professora para a acompanhar à escola. 

Os livros e os cadernos iam dentro das malas que levavam pela mão. Nem sempre de grande qualidade, mas serviam o propósito a que se propunham. Pelo menos para quem tinha cadernos para guardar e livros para ler. Havia uns quantos que entravam de mãos a abanar e olhar malandro que baixavam assim que passavam a porta. Era preciso cumprir as regras.

Respeito era o que se pretendia. Os professores eram a autoridade e os meninos obedeciam. Os meninos e as meninas. Podiam estar separados e elas podiam ganhar em comportamento, mas as regras eram iguais. Dos dois lados do muro. Sem excepção. Quem ousava pisar o risco tinha a régua à sua espera. Ou a cana. Usadas sem dó nem piedade ou arrependimento que lhes valesse. O que se quer é rigidez sem discussão ou reclamação. Era assim e mais nada. Ponto final.

E lá se sentavam dois a dois nas cadeiras de madeira, altas de mais para as suas pernas que ficavam a baloiçar. Atenção ao quadro, à professora. Aprender a ler e a escrever. Saber o nome dos rios e cognome dos reis. Isso e a tabuada. Tudo na ponta da língua sem hesitação na hora da responder. Não havia tempo para hesitações ou respostas ao lado.

- Dona Josefina.

Chamavam a professora com toda a delicadeza, mas pelas costas inventavam-lhe nomes menos próprios. A professora era exemplar nos castigos, eles eram exemplares nas alcunhas. Olho por olho. De tal maneira que anos mais tarde vão lembrar-se da alcunha, mas o nome perdeu-se para sempre.

No recreio as meninas saltam ao eixo e os rapazes espreitam do outro lado do muro. As pernas das meninas dão sempre azo a curiosidade. Depois entram na sala e rezam como mandam os bons costumes. Cantam o hino de mão ao peito e voz colocada como manda a devoção à pátria.

Amanhã há um deles que vai faltar, mas ninguém vai dar por isso. É normal. A escola é obrigatória, mas o dinheiro do trabalho é essencial. Faltam outro e outro logo a seguir. Um dia nem a professora que os controla na missa de Domingo se vai lembrar do aluno em falta.

A escola continua lá. Com  a cana à espera de quem pisa o risco. Com as meninas a acompanhar a professora. Com os meninos a espreitar para o outro lado do muro. Continua tudo lá até ser hora de levar o pão para casa.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Hora do recreio

Mal se ouve a campainha, abafada pelos gritos e pelas correrias dos que deixam os livros e saem à procura dos minutos brincadeira que lhes são devidos.
Vão ficando por aqui e por ali, espalhados pelo recreio limitado pelos muros da escola. São grupos que se formam em cada espaço livre e começa a ouvir-se as suas cantigas que entram até no ouvido mais distraído.

"Aqui vai o lenço / Aqui fica o lenço"
Em frente à porta forma-se uma roda. Um anda à volta da roda de lenço n amão à procura da vitimo onde o vai largar. No meio, há outro que não tira o olho daquele bocado de tecido à espera da sua oportunidade. Andam assim a roubar lugar uns aos outros com uns quantos encontrões pelo meio e uma cantiga repetida vezes sem conta.

"Que linda falua que lá vem, lá vem / É uma falua que vem de Belém"
Uma fila de meninos percorre a escola até chegar aos dois barqueiros que os esperam. A fila lá passa por baixo dos braços que se transformam em ponte. Vão cantarolando que a falua vem de longe e que há filhos pequeninos para sustentar. Uma tristeza sem fim transformada em alegria na voz daquelas crianças. No fim, há um que fica para trás. Banana ou morango?

"Chega à noite acende uma fogueira / Logo a seguir toca o violão" 
Mesmo na porta da escola juntam-se dois grupos de costas uns para os outros. Estão aos saltinhos enquanto cantam que já conhecem bem as manhas de alguém que não se sabe bem quem é. Antes de voltar tudo ao mesmos, há dois, um dois que dançam enquanto se ouve um iupi iupi ai ai. Coisas de miúdos.

Lá ao fundo, ouve-se o barulho da corda a bater no chão de terra. Duas meninas dão a volta à corda com toda a força que têm enquanto uma ganha balanço para entrar. Salta com os dois pés e com um de cada vez. Faz mais uns malabarismos pelo meio e consegue ganhar à corda. Sem tropeçar. Entra outra e ali ficam, quase sincronizadas, até que a corda se enrola nos pés de uma delas e é altura de dar a vez a mais alguém. "Próximo!"

"É golo! Gooooooooolo!"
Vem lá de longe, por detrás da escola. Miúdos transpirados e cheios de pó, correm de um lado para o outro atrás da bola enquanto gritam por falta para um árbitro que não existe. A bola já viu melhores dias e os sapatos estão marcados de tantos chutos, mas a verdade é que a baliza está mesmo ali e o guarda-redes nem vai perceber por onde é que ela passou antes de ouvir os gritos de #Golo!"

Volta-se a ouvir a campainha. É hora de voltar aos cadernos e aos livro. Lá vão eles, vermelhos de tanta correria, a falar pelos cotovelos que a excitação do recreio não acalma com essa facilidade. Fica a corda esquecida no chão e a bola parada ao fundo da baliza.

Cai o silêncio no recreio que fica à espera que o próximo toque lhe devolva a vida.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O pão do burro

Os miúdos juntam-se em grupo e lá vão eles ao caminho. Os mais novos têm uns dez anos, os mais velhos não têm muito mais. A partir de uma certa idade, o trabalho é mais certo do que o estudo e só vão à escola quando tem mesmo de ser. 

- Só era preciso saber escrever o nome e fazer contas – explicam. 

Vão a caminho da aldeia do lado porque a deles já não tem escola que os acolha e naqueles tempos não há pais que os levem ou que se certifiquem que eles chegaram bem e o conceito de autocarro escolar é algo desconhecido. Vão a pé, mas lá vão eles. Rapazes e raparigas que estão separados na escola, mas fazem o caminho lado a lado. Vão sozinhos, sem adulto que olhe por eles. 

- Os tempos eram outros – é o que se vai ouvir daí a uns anos. 

Se eram.

- E toda gente andava a pé, nunca estávamos sozinhos – continuam. 

Os rapazes feitos homens assumem o papel de guarda-costas das raparigas. As malas levam os livros de quem tem a sorte de os ter e um pão guardado para o lanche ou para quando a fome der sinal. 

Mais tarde, quando a escola fechar portas, fazem o caminho de volta sem que ninguém lhes controle a hora de chegada. Os rapazes, mais impacientes, aceleram o passo e não esperam pelas raparigas. 

- Elas paravam em todo o lado – é o que vão defender quando contarem esta história. 

E as raparigas fazem o caminho sozinhas que naquele tempo não existiam perigos como os de hoje. Os rapazes já vão tão longe que nem se ouvem. 

 O burro espera por elas no sítio do costume. As raparigas tiram o pão da mala, muito bem guardado dentro do saco de pano que a avó costurou, e servem o jantar ao burro antes de seguir viagem. 

Deus as livre de chegar a casa com um pão esquecido na mala. A comida é sagrada e é pecado não a aproveitar.