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quarta-feira, 9 de maio de 2018

A 13 de Maio

O vento fresco das noites de Primavera entra no corpo dos que aguardam ordem de marcha. Do outro lado da rua, a carrinha espera de bagageira aberta para que guardem as tralhas que não conseguem levar às costas. Já está tudo preparado quando o relógio da igreja dá o sinal de meia noite.

- Vamos a isto. 

Homens e mulheres avançam de noite. Consigo não levam mais do que uma garrafa de àgua e um terço. Têm de se poupar porque o caminho é longo e o corpo, mesmo habituado às piores provações, não aguenta tudo. É a devoção que os acompanha e lhes dá alento quando as bolhas massacram os pés e as silvas arranham a roupa. Caminham no meio do nada. Na borda da estrada, pelos terrenos baldios, por sítios que só quem faz aquilo todos os anos sabe que vai dar ao destino que os espera. 

Chegam ao sítio combinado e o carro já lá está. De bagageira aberta e a abarrotar com os pertences de cada um. Nessa altura, não importa se é madrugada ou se o sol já vai alto. Estendem as mantas ao lado umas das outras e dão-se ao descanso naquele leito mal arranjado em cima de pedras e ervas. Tapam-se com um cobertor que, para chegar ao pescoço, deixa os pés à mostra e não engana o frio. 

Fazem os seus dias assim. A caminhar noite dentro na direcção que as suas crenças os levam. A almejar por descanso. O peito cheio com a fé que trazem desde do primeiro choro. Naquele caminho que lhes moí o corpo e com as bolhas a latejar nos pés, pagam as promessas que fizeram, os pedidos que Nossa Senhora ouviu e aos quais acudiu quando o desespero chegou. É a fé que os move.  

- Obrigadinha, mas ê na quero - dizem quando alguém lhes oferece uma fatia de pão de ló. 

- Mas olhe, tá bom. 

Partilham a comida que há, o dinheiro é pouco e é preciso encher o estômago para que a força não se vá. Ainda há muito caminho para andar e o corpo não pode dar em fraqueza. Com sorte, conseguem parar num restaurante lá mais para a frente. 

Quando avistam Fátima esquecem as dificuldades e as dores. Chegam cansados e suados da provação que foi fazer o caminho, mas de alma cheia com o dever cumprido. 

Ajoelham-se em frente à imagem que lhes ampara os passos e a vida. Deixam-se ficar ali. A murmurar as rezas que sabem de cor e a agradecer a bencão de ter Nossa Senhora a olhar pelos seus. Prometem voltar todos os anos, desde que as pernas aguentem e o corpo deixe. Mesmo sem promessa a cumprir. Só para a visitar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Aos que já não estão

Depois do trato em vida vem o acompanhamento na morte. 

O descanso eterno de uns leva ao cumprimento terreno das tradições que não interessam a quem já não está e que lava a alma de quem fica. 

No dia de finados, a romaria é ao cemitério. Novos e velhos, com mais ou menos dores nos ossos, lá vão eles até à última morada, que um dia também será sua, visitar os seus que já se foram. Cumpre-se todos os anos, a missa, a ida ao cemitério, o pesar por aqueles que ainda nos fazem tanta falta. 

Levam as flores nos braços e um saco com a tesoura, a faca, a vassoura pequena e uns quantos trapos. É o lavar da casa, é a visita a quem já não responde às perguntas. 


Quando chegam à campa dão um beijo na fotografia dos seus, cravada no mármore frio, e conversam com eles. Contam-lhes que os netos estão bem, que a filha anda com umas dores estranhas, que o trabalho tem dias para esquecer. 

Tiram as flores velhas da jarra, já estão amarelas e secas, e arranjam as que trouxeram. Cortam os pés, põem verdura e fazem o melhor que sabem. 

Vão buscar o caneco de plástico azul e enchem-no de água que deitam sobre o mármore frio. Varrem a sujidade, arrancam as ervas que insistiam em ir aparecendo, passam com o pano para que fique a brilhar. 

Ajeitam o ramo de flores e voltam a colocar no sítio devido e ficam ali, a olhar para a pedra e para a fotografia de quem já tiveram ao seu lado. Doí-lhes a alma com uma saudade que o tempo não cura nem atenua, só ensina a suportar. 

Despedem-se como nos despedimos de um amigo que encontramos no café. 

- Até para a semana, se Deus quiser. 

O coração vai apertado e a alma lavada com o dever cumprido.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A Paixão

Faz-se a vida como é suposto. Foi assim que um dia, alguém disse que tinha de ser. Sem discussão. 

Ouvem-se os sinais de missa. Veste-se o melhor fato, aperta-se o botão junto ao pescoço e veste-se um casaquinho. Elas cobrem a cabeça com um lenço de renda, eles tiram o boné assim que entram em terreno sagrado. 

São os baptizados e as comunhões, os crismas e as profissões de fé. O Manel que dá a alegria à família e segue para o seminário. A Laurinda que só muda de casa vestida de branco e abençoada pelo santo Padre. 

São os mais novos que servem na igreja. A reza que é feita de olhos no chão. As velas que se vão gastando. A Quarta-feira de cinzas e o Domingo de ramos. A missa do Galo para abençoar o Natal, o jejum da quaresma. Não se come carne à sexta, não se cai em tentação. 

A confissão feita de joelhos num desfiar de pecados que não são mais do que a vida tal como ela é. Vinte avé-marias para limpar as culpas e o terço rezado antes de deitar. 

A extrema-unção para os acompanhar na vida eterna e abençoar a partida para o outro mundo onde nos espera quem já não está connosco. A luz que nos recebe, que nos perdoa dos pecados e nos torna merecedores da protecção divina. 

Que o Senhor vos acompanhe.

terça-feira, 26 de abril de 2016

O que nos move

Pai-nosso que estais no céu. 

Cheira a cera derretida e ouve-se o crepitar das velas que ainda ardem. Está frio, um desconforto que conforta quem procura aquela casa em busca de um alento que não encontra noutro lado. 

Elas cobrem a cabeça com o lenço de renda, delicado e tratado com o maior dos cuidados. Eles tiram o boné em sinal de respeito. Todos ajoelham em frente ao altar e fazem o sinal da cruz de cabeça baixa e a olhar o chão. 

Ouvem-se os murmúrios de rezas e de conversas trocadas. É a fé que move esta gente. Que reza antes de deitar e sempre que o coração pede. De joelhos, com o terço na mão, a correr o rosário que já se sabe de cor. 

Rogai por nós. 

Uma vida de culpa e remissão, uma confissão perpétua de pecados. A fé, a bíblia e Deus. Os sacramentos do santíssimo, a bênção do santo padre. 

Casam e baptizam os filhos. Vestem de festa no dia da comunhão. Acedem uma vela ou duas com pedidos de auxílio e de protecção. Aceitam o corpo de Deus que sacrificou o próprio filho para os salvar. 

Deus só nos dá aquilo que conseguimos aguentar.

É a certeza que Ele está lá, a ouvir, que os faz levantar no dia seguinte. Todos os dias que enfrentam fazem parte do plano que Deus guardou para eles. Batem com a mão no peito. 

Por minha culpa, minha tão grande culpa. 

Vem o domingo de ramos e a quarta-feira de cinzas. A Páscoa e a missa do Galo. As peregrinações a Fátima que deixam os pés em bolha e o cumprir promessas de joelhos no sítio onde Nossa Senhora se apresentou aos pastorinhos que a esperavam. 

É a fé que nos move na certeza de que Deus tem um plano superior para nós e que nada falha os seus desígnios. A espera pelo descanso divino quando Ele decidir levar-nos.

Perdoai-nos Senhor.