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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

As lágrimas que alimentam

A cama onde ele tinha morrido já tinha sido feita de lavado com o que havia por casa. O morto ali estava. Deitado, imóvel, de olhos fechados e pronto para se fazer à última morada. Foi-se sob o olhar da mulher e das filhas que, tal como quando se chega ao mundo, ninguém o deve abandonar sozinho. Velaram-lhe as últimas horas e trataram dele quando o frio começava a subir pelo corpo. A notícia não tardou a passar de boca em boca. Preparou-se o talhão que lhe estava destinado e avisou-se o padre para que lhe desse a última benção. Até lá, velavam o corpo que já não era quem tinha sido. 

Ela chegou vestida de preto. Saia pesada e xaile a cobrir-lhe a cabeça. Deixou-se ficar ao lado do morto, no sítio que lhe competia por profissão, com os olhos meio fechados a encarar o chão e a cabeça apoiada na mão que guardava o lenço de luto. Murmurava lamentos finos envolvidos num choro miúdo. Remoía as palavras da sua ladainha numa dor que era tão bem fingida que, quem não a conhecesse, tomava por sua. 

"Iremos os dois no seu caixão. Eu já sofri tantas penas no mundo", um dizer repetido tantas vezes que se tornara uma melodia de defuntos. Mordia o lenço que trazia na mão. Limpava com ele as lágrimas, a boca e assoava a tristeza que murmurava. Passava os dedos marcados pela cor do campo, pela cara e fungava entre cada refrão que entoava. Chorava a morte como quem trabalha o campo ou prega um botão numa camisa. 

Quando a paga o permitia, ouvia-se um grito. A cabeça que ia para trás numa súplica que trespassava o corpo dos que assistiam e as pernas que ameaçavam perder a força. A reza a nosso Senhor que se perdia no meio do lamento. 

Assim ficava até que o corpo encontrava o descanso na humidade da terra. Era aí que ela voltava-lhe costas e fazia-se ao seu caminho com o saco de trigo que lhe era devido e a limpar as lágrimas de carpideira. Que viesse o próximo que este fim é a única coisa que se tem por certo nesta vida.