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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Não vos livro da fome

- Livro-vos da guerra… 

Lá nisso o homem estava certo. Não houve guerra que entrasse pela porta. Os homens continuaram por casa, os rapazes lá iam andando na vida deles e não eram deixadas moças por casar nem mães de colo vazio. Tudo uma grande verdade, mas a realidade era outra coisa. Era eu a levantar-me ainda antes do dia raiar e fazer-me ao caminho. E se eu era nova. Nova e miudinha que também nunca cresci muito. Mas como estava a dizer, lá ia eu, a pé, dez quilómetros para lá e outros tantos para cá, sem sapatos e com a senha bem guardada na mão fechada com toda a força que tinha. 

Não havia açúcar, farinha, azeite ou pão que nos chegasse à mesa de outra forma. Tudo era dado em troca de um bocado de papel como aquele que eu levava. Mas nós éramos oito em casa e a senha dava direito a um pão. Só. O que é isso para uma família tão grande? Ainda por cima quando o meu estômago já reclamava quando eu saía de casa e um pão não chegava nem a meio do caminho? Vocês sabem lá o que é viver com aquela fome que parece que já faz parte de nós e que nos atormenta a cada passo. Foi por isso que me fiz esperta. 

Sempre que chegava a minha vez, mostrava a senha tal como a minha mãe me tinha dito. Em troca recebia um pão. Tudo certo, mas com a confusão do racionamento e da distribuição, havia dias em que ninguém recebia a minha senha e lá casa eram oito bocas à espera de algo que lhes acalmasse o estômago. Foi aí que veio a esperteza. Depois de recebido o pão, dava meia volta, escondia-o numa árvore fora dos olhares mais atentos e voltava para a fila com ar de menina bem-comportada e roxa de fome. Voltava a mostrar a senha, recebia outro pão e lá ficava com o papelinho outra vez. E repetia a história. Pão guardado na árvore e eu na fila com olhar de menina bem-comportada. 

Não fiquem com esse ar de quem nunca faria tal coisa e que eu quebrei todas as leis morais que conhecem. Os tempos eram difíceis e a fome é uma tortura que só sabe quem passa por ela. Sim, às vezes lá era descoberta e levava uma reprimenda de tal tamanho que me fazia companhia no caminho de volta, mas levava os braços cheios de pão e podia comer logo meio sem me sentir culpada. Que isto de dizer estarmos livres da guerra é muito bonito, mas só quem passou por ela é que sabe que aqueles tempos não tinham nada de liberdade. 

- ...mas não vos livro da fome. 

Lá isso não livrou. Pobreza já sabíamos o que era, que numa vida inteira não se conhecia outra coisa, mas aquilo foi ainda pior. A pobreza deu lugar à miséria, a estômagos que roncavam por hábito e a uma sardinha que, quando existia, era dividida por todos os que se sentavam à mesa. Abençoados os caçulas que tinham direito ao rabo da dita, pouca sorte a dos mais velhos que chupavam as espinhas. Por isso fiz-me esperta. E querem que vos diga? Não me arrependo.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O não para ser mulher

O tamanho era pouco. Nascera nos dias pequenos, era o que costumavam dizer-lhe por graça quando percebiam que tinha deixado de crescer por volta dos sete anos. Ou então crescia tão devagar que era preciso deixar passar muitos mais para se perceber a diferença.  

- Já és uma mulherzinha. 

Estava a chegar aos doze. Doze anos sem altura que o confirmasse, mas com sentença associada. Mulher. O que era bom de saber era quando tinha sido menina porque disso ninguém a tinha avisado. Nunca se tinham virado para ela com a mesma autoridade de agora, para lhe dizer que era uma menina e agora era isto. Mulher. 

Talvez tivesse sido criança quando embalava os irmãos e ainda mal tinha feito os cinco anos. Ou quando, com oito aniversários contados, os preparava para a escola transformando o vazio da cozinha em pão para lhes dar pela manhã. Talvez o tivesse sido na altura em que não tinha tempo para brincar, mas a roupa estava estendida ao sol, imaculada. 

- As mulheres de respeito não andam a rir assim. Isso são as que não têm juízo.

Dez anos e tinha dado uma gargalhada vinda lá bem de dentro no meio da rua. Não o voltou a fazer que ninguém quer que pensem que lhe falta juízo embora saiba que não é o seu caso, mas mais vale prevenir os comentários.

- Já és uma mulherzinha.

Foi o que lhe disseram quando a puxaram pelo braço e a tiraram da corrida que fazia com os outros rapazes e que estava a dois passos de ganhar. 

- As mulheres não correm. 

E ela parou. Porque era mulher embora ainda se sentisse criança e o ser mulher tinha regras. Muitas. Todos os dias mais uma. Ela cumpri-as todas. Uma por outra, adicionando novas. Não ria, não corria, não chegava a casa depois do sol se pôr, não se esquecia de preparar o jantar, não usava saia acima do joelho, não falava com homens na rua, não ficava sozinha com eles sequer, não dançava, não mostrava as pernas, não respondia, não tirava os olhos do chão, não... 

- Não queres ser uma vadia, pois não? 

Não queria. Só queria ser mulher porque diziam que já o era. Era por isso que juntava mais um não à lista.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Oferendas a quem precisava

A bata tinha sido lavada e passada com tal pormenor que sentia os braços dormentes, mas estava impecável. Sem ruga e com um branco capaz de cegar quem apanhasse pelo caminho. Vestiu o filho enquanto o repreendia pelas diabruras que ainda não tinha feito, e entregou-lhe o saco com o feijão que tinha conseguido recolher. Pegou no mais novo pela mão e, de mala quase vazia no braço e roupa de Domingo, saiu com o mais velho dois passos à sua frente. 

A rua tinha ares de festa de Agosto com a aldeia toda reunida na praça e vestidos do mais apresentável que conseguiam. A carroça estava pronta, enfeitada com o rigor que a ocasião pedia e carregada do que um e outro foi dando. Abóboras, batatas, sacas de arroz e tudo o que os quintais tinham. Davam tudo do pouco que tinham. E o burro puxava com esforço que nos animais a idade também tinha algo a dizer. 

Quando chegavam ao destino, juntavam-se todas as aldeias com as carroças e os burros cansados, os mais velhos nos mesmos preparos e os mais novos com os ouvidos cheios de avisos. 

O cortejo seguia caminho pelas ruas estreitas para acomodar tanta gente e sob o olhar atento de quem os olhava de cima, lá das varandas enfeitadas por colchas bordadas pelas mãos que tinham sido pagas. 

A banda dava o embalo e o tilintar das moedas que caiam na manta que os bombeiros levavam faziam a vez de ferrinhos. Se era para dar para os que mais necessitados, os agradecidos lá encontravam mais uma moeda ou duas. 

Os que mais tinham e davam trabalho aos outros que contavam tostões para oferecer ali, apresentavam-se de carros cheios do que havia. 

- É para se redimirem - dizia quem nunca deixava a má língua por mãos alheias. 

E ali, rua abaixo em direcção ao destino a ofertar, ia um concelho inteiro. A dar o que tinha e a inventar outro tanto para oferecer que uma pessoa tem pouco, mas nunca se nega uma mão a quem tem menos.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quando o entrudo saía à rua

Quando chegavam os dias em que se dizia que ninguém levava a mal, eles encontravam-se no sítio de sempre. Os mesmos de todos os anos com o juízo próprio de quem se acha muito adulto sem o ser. Eram novos. A idade era pouca e de adultos só tinham a altura como ouviam a dizer

- Parece que lhes põem adubo nos pés.

Nos dias que antecediam a tarde em que o  senhor Padre abria as portas da igreja para a quarta-feira de cinzas, um deles abria a porta de casa aos outros e faziam-se às roupas e aos trapos que encontravam. Tudo servia. Eram batas com a cor a desaparecer, fatos oleados que deviam estar no campo e não em brincadeiras de crianças, meias pela cabeça e pelas pernas. Roupa por cima de roupa até deformar o corpo. Cajado, ou pau que lhe fizesse vez, na mão.

Saiam em grupo, quando a noite já ia alta e a rua era iluminada por uns candeeiros de luz pálida e tímida. As suas sombras faziam dois de cada um e estendiam-se à sua frente. O cajado anunciava-os ao mesmo tempo que as portas trancavam-se por dentro.

Eles lá iam. Rua acima para fazer rua abaixo a seguir. Um a arrastar uma perna, outro a fazer que era manco e todos a disfarçar quem eram. Pelo menos enquanto se lembravam. De vez em quando lá havia um que, cansado de andar com o corpo dobrado e a bambolear, fazia-se ao passo normal até que alguém o chamava à razão.

Batiam às portas de punho fechado. Várias vezes a várias portas. Até que alguém, distraído das datas em que andavam, abria uma e eles entravam sem pedir autorização. Verdade seja dita que quem não fala não pode pedir e deles não se ouvia uma palavra que fosse. Entravam por ali dentro e faziam como se fosse sua a casa que era dos outros.

- Mas quem é este?

Tentavam uns e outros adivinhar quem eram aqueles. Sentiam-lhes as mãos. Viam-lhes o andar. Tentavam destapar a cara. Lançavam apostas sobre quem eram. Nunca ninguém as confirmava e eles faziam-se às ruas. Agarravam em quem se atravessava no seu caminho sem delicadezas. Ouviam-se os gritinhos e os risos ao longe e já se sabia

- Eles já andam por aí.

- Tu fecha a porta antes que eles entrem por aí dentro.

Mas nem todas estavam fechadas e nem todas as ruas estavam vazias. E eles percorriam uma por uma. Cajado a marcar o passo e cara tapada. Naqueles dias em que ninguém levava a mal, o entrudo saía à rua. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O trato da roupa

- Quando chegar quero tudo feito. 

E saía. Sem beijo ou desejo de bom dia, fazia-se ao caminho com o olhar da filha a acompanhá-la da porta de casa. Via a mãe mingar, de cesta à cabeça, até desaparecer para lá do que os seus olhos alcançavam. Só aí voltava a casa. Esperava-a o trabalho que as paredes acumulavam e que nunca estava feito. Ela, feita mulher quando nem tinha idade de escola, fez-se ao que era sua obrigação, sem se ouvir queixume. 

Subiu para o tijolo que lhe dava o que faltava em altura, e mergulhou as mãos na água do tanque que guardava em si o frio da noite e esfregou a roupa. Os nós dos dedos a doer, a carne a ficar vermelha e ela sem dar tréguas ao sabão. As mãos a esfregar uma na outra a roupa que cheirava a trabalho e que mergulhavam na água dando-lhe umas quantas voltas até que o sabão desaparecia. 

Com a ajuda de um galho escolhido de propósito para o efeito, levantava o arame pesado da roupa encharcada em água antes de voltar para dentro. Sem parar para respirar. Sem dar descanso aos braços ou às pernas. Ou os corpos novos aguentavam muito ou a cabeça esquecia a dor.

Dentro da cozinha, o fogão confortava aquilo que a escassa roupa negava. Em cima da mesa de madeira onde almoçavam e agora transformava em tábua, esticou o lençol de sempre. Encheu o ferro com brasas acesas e fechou-o à espera que ganhasse calor. Esticou a roupa bem esticadinha, com a mão a percorrer o tecido de ponta a ponta sem deixar passar um vinco que fosse e ferro quente lá em cima para dar o calor. O peso era tal que os seus fracos ossos davam sinais de fraqueza, mas não havia nada que vergasse. Para um lado e para o outro, mais força de braços que calor de brasas e quando já estava o trabalho quase terminado, lá se escapava uma cinza. Coisa pouca, mas o suficiente para não haver sacudidela ou sopro que a safasse. A camisa lavava, quase passada, e um borrão logo ali à vista. 

- Antes assim que fagulha. 

Dizia para si que ali ninguém a ouvia, enquanto encolhia os ombros e voltava ao tanque. O ferro ainda quente, o corpo tão habituado a estar dormente que nem sabia que é assim que está e o trabalho a fazer-se. Até que chegue a noite. Foram as ordens que deixaram.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O frio que o corpo aguenta

O cobertor que a cobria durante a noite, não tinha peso para afastar o frio que chegava no Inverno. Quando era hora de acordar, o corpo levantava-se dormente. Por aquela altura, o dia podia amanhecer de céu limpo, mas a verdade é que o sol nem pelo meio-dia prometia calor. Era assim Janeiro, mês em que o que faltava em dinheiro sobrava em gelo. 

Era esse frio que agora lhe entrava pelo corpo e cercava os ossos prendendo-lhe os movimentos. Uma dor fina a que já se habituara a ter como companhia nos dias frios, alastrava-se pelo interior do seu corpo começando quando os pés tocavam no chão e abrindo caminho pelo corpo de miúda até à nuca voltando a descer num arrepio discreto. A roupa não ajudava a acalmar o frio. Saia e meia até ao joelho que as regras da casa ditavam que calças era para os homens e as contas não deixavam folga para collants. Casaco de malha abotoado até cima como abafo. Nada mais. Tão eficaz como o cobertor, mas o corpo habitua-se. O que seria dele se assim não fosse. 

Fazia o caminho com os sapatos de solas pouco mais que meias, mãos roxas e nariz vermelho. O frio caía sem que fosse visto, mas sentia-se o vento a cortar as faces e a queimar por dentro a cada inspiração. O caminho tornava-se longo, os passos custavam, a nuvem branca que lhe saía pela boca embaciava o caminho. Uma provação que era esquecida quando, ao fundo da estrada, a curva abria para o campo que no dia anterior era verde. 

Uma camada fina de gelo cobria tudo o que conseguia ver. Era o mais próximo que estava de ver neve tal e qual como a imaginava: um campo branco a prolongar-se até onde a vista deixava e que lhe aquecia o corpo que só conhecia gelado.

Deixava-se ficar pelo tempo que podia. O corpo a gelar e ela sem o sentir, o calor da imagem da neve a dar-lhe alento. Diziam que Deus dava o frio conforme o corpo aguentava. Ela acreditava que Ele dava-lhe o vislumbre da neve naquele campo de gelo para a compensar do gelo que vivia no seu corpo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Pão, por Deus

Era certo e sabido que o início do mês era anunciado pelas vozes nas ruas acompanhadas dos risos que só pertenciam a quem ainda tinha idade para os dar sem ser repreendido por não se saber comportar. Da rua chegava o cheiro a chuva e a humidade entrava pelo nariz colando-se aos pulmões e obrigando as velhas a aconchegar o xaile de lã e os velhos a deitar abaixo um copo de três. 

Encostadas ao canto da janela, meio escondidas à vista de toda gente, elas espreitavam só com um olho por detrás da cortina branca. E lá viam os mais novos chegar com as bochechas vermelhas e pele a brilhar. Corriam rua acima, a tropeçar nuns e a empurrar outros, todos na ânsia de ser o primeiro a chegar. 

- Bolinho para o santinho - vinham com a lenga lenga debaixo da língua, ensinada pelos que antes deles fizeram o mesmo, e ficavam com o saco de remendos aberto à frente de quem abria a porta. À espera. 

- Esta casa cheira a broa. Aqui mora gente boa - a pobreza que os recebia dava-lhes o que tinha. 

As broas cozidas no dia anterior que se desfaziam em migalhas no fundo do saco. As romãs gordas apanhadas da árvore que era de todos. Dois tostões quando os havia. Uma mão cheia de castanhas. Se tivessem sorte, lá aparecia um rebuçado daqueles que se colavam ao dentes e demoravam descolar. 

Sem mostrar cansaço nem intenção de abrandar, os miúdos continuavam o caminho das casas com pouco mais de metro e meio de altura, com o saco a ganhar peso. Só acalmavam quando batiam à porta da casa grande. Aí, cumpriam o que já sabiam. 

Abriam-lhes a porta e eles entravam na sala onde a devoção era parte presente e esperavam. Sacos fechados, cabeça para baixo e o cheiro a eucalipto a acompanhar a reza que murmuravam. Os senhores no seu porte direito, cruz ao peito e roupa sem remendos, esperavam pelo Amen final para retribuir com o pão que lhes pediam antes de os mandar embora com uma benção mal amanhada. 

Todos os anos. A mesma ronda. De ano para ano os miúdos a transformarem-se nas velhas atrás das janelas, os mais novos a trautear a mesma cantiga. O início de Novembro, quando o frio entrava nos ossos sem que a braseira fosse capaz de os aquecer, a ser recebido com os sacos abertos. Algumas portas que só tinham mãos fechadas. 

- Esta casa cheira unto. Aqui vive algum defunto - e a palavra a passar de boca em boca a marcar os que não davam a quem pedia pão. 

- Pão, por Deus.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

As rotinas de Setembro

Os dias já estão a mingar. As manhãs pedem casacos de malha que o final do dia não suporta. É este veste e despe que os deixa doentes. Isso e as correrias que lhes empapa a testa em suor. Deviam ter juízo, mas naquelas cabeças não entra nada.

Ainda fico à porta a vê-los desaparecer na curva lá do fundo e, de vez em quando, grito 

- Portem-se como deve ser. 

Eu sei que devia estar calada, mas não me consigo conter. Eles lá seguem sem olhar para trás. Todos os avisos que lhes faço entram por um ouvido para logo a seguir saírem pelo outro. Sei bem o que ali vai. Tal como sei que o mais certo é voltarem com uma constipação ou um nariz cheio de ranho que limpam nas mangas da camisa por muito que eu avise que não se faz. Lá está, não ouvem. Ou não querem ouvir. 

- Se correres ainda os apanhas. 

Há sempre um que se atrasa, mas lá vai a correr rua abaixo, ao encontro dos outros com a mochila a saltitar às costas. Fazem sempre isto. Vão descendo e apanhando mais um e outro, quando chegam ao portão da escola já vão mais de dez a gritar, não sabem falar de outra maneira. Até cansa a cabeça.

Pelo menos vão felizes. Antes assim do que no meu tempo em que íamos com medo da professora, entrávamos em sentido, erguiamos a mão ao peito para cantar o hino e ficávamos de boca calada a seguir. Bastava um suspiro a irritar a senhora professora e éramos chamados a suspirar de pé em frente ao quadro. Depois é que era o elas. Ainda me arrepio só de lembrar. Mão esticada, "como deve ser" frizava a professora, e a régua a bater na palma com toda a força. Estalava. Doía a mão e a alma cá dentro. E era um calor tão grande que só atenuava quando agarravamos o metal frio das pernas das mesas. 

- Que vos sirva de lição. 

Não servia. Quantas réguas se partiram assim e quantas canas da Índia foram substituídas ao canto da sala? Perdi-lhes a conta. 

Pelo menos os de agora vão divertidos. Saem de casa agasalhados e calçados e voltam umas duas horas depois da hora de saída. Não é que o caminho seja longo, é a conversa que é muita e a brincadeira não acaba. Mas digo e repito, antes assim.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Quando o rei fazia anos

Da avó recebia um envelope com notas que ele passava à mãe sem lhe ligar grande importância. Os embrulhos que os pais lhe davam eram rasgados sem cerimónia com direito a espanto quando eram brinquedos e a um encolher de ombros quando aparecia mais uma camisola ou umas calças. Um obrigado dito com bom ar que era assim que o tinham ensinado e começava a espera pelo momento mais importante do dia.

O seu coração disparava quando, à hora marcada ou lá perto, que os miúdos não sabem que as horas são para cumprir, a campainha começava a tocar sem parar até ao ponto em que se tornava tão irritante que a porta da frente ficava encostada e acabava escancarada. E eles iam entrando, com energia a mais e paciência a menos, sem conseguir perceber que se podia falar sem ser a gritar ou com demasiada vontade de percorrer todos os cantos à casa. Não que lhes tivessem dado autorização.

O espaço não abundava. Eram casas pequenas, feitas a pensar nos que lá viviam e não naquelas dezenas que apareciam uma vez por ano. A sala de jantar, que costumava estar impecavelmente arrumada à espera das ocasiões que justificavam o uso da loiça que vinha do enxoval, estava virada do avesso. As cadeiras tinham desaparecido, o papel de embrulho estava espalhado sem grande critério, o cheiro a óleo quente começava a invadir a casa e a mãe, que andava metida naquela confusão há mais de uma semana, estava quase a dar em doida.

Eram mais de vinte, bem mais, os miúdos que o filho convidara e ela tinha preenchido à mão os convites que ele levara para a escola com um sorriso de orelha a orelha. Agora, só a imagem desse sorriso é que acalmava a antecipação do trabalho que ia ter noite dentro quando a casa estivesse vazia.

Os risos e os gritos vinham de todo o lado. Sabia que ia encontrar rissóis meio mordidos e restos de salame espalhados pela casa. Era possível que aquelas raspas verdes que faziam  as vezes de relva no bolo acabassem por se esconder em cantos que ela só ia encontrar na altura das limpezas. Isso e os bonecos que, pelas suas contas, já tinham desaparecido dois e ainda nem tinham cantado os parabéns.

- Venham já para dentro.

Dois deles, mais afoitos, brincavam à apanhada no meio da estrada sem olhar aos perigos.

- Todos para a sala que vamos cantar os parabéns.

Chegavam aos poucos. Gritavam quando acendiam os foguetes. E quando começavam a cantar os parabéns. E quando a cantoria desafinada acabava em palmas e o aniversariante, acompanhado de mais uns quantos, soprava para cima do bolo.

Voltavam à brincadeira sem mostrarem grande interesse no bolo que entretanto já tinha perdido mais um jogador e uma baliza. Roubavam um rebuçado de fruta, bebiam um copo de sumol e voltavam às correrias até ser hora de voltar a casa, quando os pais tocavam à porta para os levar e eles pediam, com olhinhos tristes e ameaça de beicinho

- Só mais um bocadinho.

Quando a casa ficava vazia e o pequeno aniversariante dormia o sono dos justos, a noite já ia alta, mas ainda se adivinhava longa. Os pratos de plástico espalhados, o chão pegajoso da comida, o cheiro a cansaço misturado com comida doce.

Enquanto se dobrava para começar a arrumar as coisas e puxava para si a vassoura e a pá, ela repetia com os seus botões a mesma lenga-lenga de todos os anos.

- No próximo ano não faço nada disto.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Quinze dias em Agosto

No dia anterior, já a agitação falava mais alto do que qualquer discernimento. Era a casa em alvoroço entre a correria dos mais velhos e a euforia dos mais novos. As roupas acumulavam-se nas camas, as mercearias enchiam a mesa e os armários da casa de banho estavam abertos sem que se encontrasse as toalhas que era para levar.

Agosto tinha cheiro a praia e a férias. Era altura de trocar a casa de todo o ano por outra. Mais pequena, com uma cozinha e sala que dava em quarto, mas que parecia de riquezas que não tinha. Alugada semanas antes, trazia consigo a certeza de duas semanas com o mar e o sol, se se dignasse a aparecer, por vizinhos. 

Ainda nos preparativos e com a hora da partida cada vez mais próxima, fecha-se uma mala com a roupa de vestir e outra com a de servir. Mais um cobertor que o mar traz uma maresia fria durante a noite. A cesta fica cheia com cebolas, batatas e mais qualquer coisa que é melhor levar do que estragar. 

O carro parece pouco para tanta mala. Quando se fecham as portas e se dá a volta à chave, vai meia vida ali metida e a outra meia só fica porque não há onde a levar. 

O caminho feito em curva e contracurva demora a passar, mas quando se avista o destino, mesmo que encoberto, é como chegar ao paraíso prometido. O cheiro a sal a invadir os pulmões e o sol a queimar as faces. As ondas a chamar pelos mais novos que se perdem nas horas de uma digestão que não compreendem e nos avisos que as mães insistem em repetir. 

Duas semanas esticadas até ao último minuto. Os bolsos com moedas para gelados e bolachas americanas. Os dias que queriam que nunca acabassem e quinze dias a render como se fossem trinta. O corpo cansado de tanto nadar e as mãos pegajosas dos gelados que iam buscar às máquinas e escorriam pelo cone. Os mergulhos quando a praia já estava vazia e o voltar a casa embrulhados em toalhas no embalo dos braços dos pais. Um sem fim de rotinas que se viviam todos os anos como o momento mais extraordinário. 

 As melhores férias do mundo.



Texto publicado na edição de Agosto de 2018 da Revista DADA

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O raio dos cachopos

Lá fora cheirava a terra seca do calor e dentro do barracão era o aroma do feijão a começar a cozer que enchia a casa. Já a água borbulhava e as hortaliças estavam a ser arranjadas quando ela se lembrou do que lhe estava em falta. Não era muito que aquela casa não sabia o que era fartura, mas era o essencial para levar o jantar à mesa.

Sem poder deixar as panelas sem quem lhe deitasse o olho, chamou o filho e entregou-lhe por boca a lista do que era preciso comprar. Mandou-o ir à loja de mãos vazias que no final do mês fazia contas, mas com o alerta feito em voz séria:

- É ir e voltar, nada de te perderes.

Ele assentiu com a cabeça e fez-se ao caminho que a loja não ficava longe, mas até lá era sempre a subir. Não chegou a avistar a porta onde o Sr. João pendurava os abanos e encostava os sacos de adubo. Ainda ouvia a mãe de volta das panelas quando os outros apareceram. Cachopos como ele. Meia dúzia de palmos de altura, pés descalços e um certo ar de traquinice. 

Chamaram-no de peito cheio e ele não se negou. Esquecido das ordens que levava de casa, fez-se aos quintais dos vizinhos no encalce dos outros que passavam de horta em horta sem olhar a quem pertencia, enchendo o bolso com a fruta que estava mais à mão e rindo de peito cheio.

Só pararam quando avistaram a vinha. Agachados no meio das silvas e dos arbustos, deitaram o olho ao terreno. Quando se certificaram que não havia vivalma ali por perto, fizeram sinal uns aos outros e correram o mais depressa que conseguiram enquanto desabotoavam a camisa e as calças. Os tímidos ainda deixaram as cuecas, mas os mais afoitos entravam na água sem nada que lhes tapasse as vergonhas.

O tanque que dava água à vinha refrescava-lhes o corpo em tempos como aquele em que sol brilhava alto e o suor corria em bica. Era um descanso que só terminava quando o capataz, que nem sabiam de onde aparecia, os ameaçava de punho fechado e corria na direcção dos miúdos. E eles, mais ligeiros que o outro, saltavam do tanque, agarravam a roupa que tinha ficado pendurada nos ramos e faziam-se à estrada que os levara até ali.

Era assim, de cabelo em desalinho e roupa encharcada, mas sem as compras que lhe tinham pedido que ele voltava a casa. A mãe, que sabia bem os caminhos por onde ele andava, esperava-o de chinelo na mão e mesa vazia.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O miúdo das entregas

Ainda era miudito embora a altura trocasse as voltas a quem tentava adivinhar quantos anos levava. Devia andar nos bancos da escola, mas era a bicicleta com que fazia o trabalho que lhe competia, que o esperava todos os dias. Dava-lhe folga aos fim-de-semana e nada mais. E ele, cumpridor, nunca lhe falhava a espera. 

Cabeça no sítio, sorriso na cara e olhar de quem fecha os olhos ao que de menos bom lhe marca os dias. Miudito, mas responsável. O dinheiro é difícil de ganhar e, se não tiver cuidado, desaparece antes de lhe sentir o peso. Vinte tostões para aqui outros dez para ali e, quando dá por ele, já foi e não trouxe nada que se veja. 

Entrava na loja ainda o dia mal tinha amanhecido. De olhos cansados e a engolir o bocejo. O cheiro a petróleo e um sem fim de perfumes a entrar pelas narinas e a despertá-lo da noite mal dormida numa cama que nem era digna de tal nome. 

Agarrava-se ao trabalho que lhe ocupava o tempo enquanto o som estridente do telefone não ditava outro destino. Nunca se negava. Lá para o meio da manhã chegavam os telefonemas com os pedidos que ele já conhecia tão bem que o patrão dizer-lhe a quem se destinavam não era mais do que uma formalidade. 

Agarrava no embrulho que lhe estendiam, arrumava-o na bicicleta enquanto ouvia qual o rumo que o esperava e saltava para o selim. Seguia viagem sem mais conversas ou dúvidas. Fosse no calor dos primeiros dias de primavera ou a fugir à chuva de Outubro. Pedalava com o vigor que só estava reservado aos que ainda contavam poucos anos de vida. As ruas na cabeça e nem sombra de dúvida em relação ao caminho a seguir. Esquerda, em frente, direita e ali está a porta que o esperava. 

Em frente ao destino e de embrulho debaixo do braço, tocava à campainha e esperava quem o viesse receber. Sorriso em lugar de cumprimento e o avio entregue nas mãos de quem dele precisava. Meia volta e seguia pelo mesmo caminho. Todos os dias até ser hora de fechar portas. Quando saía de costas, a deixar os espólio da loja bem arranjado no chão, para chamar o gosto de quem passava na rua. 

Dava o dia por encerrado quando ouvia a chave a dar a volta na fechadura e sentia o corpo a acusar o cansaço sem lhe quebrar o sorriso e a piada na ponta da língua. Mais um dia, menos um, cada qual que contasse como bem entendesse que ele ia para casa. Com sorte ainda havia um resto de chouriço a que chamar de jantar.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Tornar a casa

Cresceram de pés descalços no quintal de casa. Com enxada na mão mais por divertimento do que a mando e tendo galinhas a correrem à sua volta. Livres. De sorriso que dava em gargalhada sem que fosse preciso muito.

Mas esse crescer já foi há tanto tempo que nem há calendário que o lembre. Foi o que foi e a memória não se lembra de tudo. Entretanto já se passou a vida, já as borbulhas deram em rugas e dores nas costas. Passou a vida, veio a idade. Já a morada mudou para a grande cidade,  ou para os arredores que por lá ficam, e foi-se o código postal que memorizaram antes de saber ler. A criança deu em homem, o pensamento quis mais do que a terra que os acompanhou desde da primeira hora.

Voltam porque assim tem de ser, porque os pais se recusam a ir dali. Almoçam com um pé na porta e de olho no carro estacionado na direcção da saída.

- Nem me quero lembrar desses tempos - deixam escapar quando alguém conta histórias de tempos já idos.

Preferem esquecer que se fizeram gente ali, numa aldeia que tinha pouco e que foi esse pouco que fez o muito que são hoje. Que em tempos, lancharam com as frutas desviadas do quintal do vizinho porque as casas eram feitas sem muros e os mais novos tinham sempre direito a livre passagem.

- Mas porque é que continuas aqui? - perguntam com ar incrédulo aos que decidiram ficar na terra de sempre.

Os outros, habituados ao ar de quem pensa saber mais, respondem com um sorriso discreto e nada mais dizem. Os que vão levam a certeza que aquele gesto não é mais do que a confirmação de que queriam mais do que têm. Os que ficam sabem que é melhor deixar a conversa por ali e responder com um sorriso que deixa o outro a acreditar exactamente naquilo que quer.

Para quem não quer perceber, não há como explicar que ali, a terra quente do sol cheira a vida.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Quando o mundo chegava a casa

Chegou a casa resvés com a hora de jantar. Antes que a mãe percebesse que já ali estava, esgueirou-se para o cubículo que lhe servia de quarto e guardou os livros debaixo do colchão. Trazia-os escondidos na camisola. Uma solução tão prática quanto discreta. 

Apressou-se a arrumar o tesouro que era só seu durante aquele mês e sentou-se à mesa como todos os dias, mas com a inquietação a massacrar-lhe as pernas. O pouco jantar engolido à pressa para se recolher no quarto o mais cedo possível. Todos os meses a mesma história no dia em que a carrinha parava na praça da aldeia. A excitação das portas que se abriam, o coração apertado por não poder dedicar todo o seu tempo ao mundo que se escondia naquelas páginas. 

Depois de dar o jantar por terminado e quando os pais já dormiam o sono dos justos, lia às escondidas. Lá por casa os livros não eram tidos em boa conta, era por isso que aproveitava a calma da noite para gastar as velas que surripiava da gaveta da cozinha. A mãe, quando encontrava tais preparos, ainda olhava para o lado algumas vezes, achando que aquilo era mania que lhe passava, mas de vez em quando perdia o temperamento. Levantava a voz e dava-lhe uns safanões para que levantasse a cabeça do meio daquelas páginas e encarasse a vida que se queria. Mandriagem naquela casa é que ela não permitia. O corpo era para trabalhar e nunca se tinha visto trabalho que viesse de cabeças que sonhavam com o que não era seu. 

Nessas horas de fúria só podia rezar para que os livros escapassem às mãos que levavam tudo à frente. Nos piores dias, quando a raiva lhe deixava as faces em brasa, as folhas ficavam espalhadas pelo chão do quarto. Sem se saber onde começava e onde acabava a história e sem capa que lhe desse alguma cor. 

“Não percebem”, era o dizia para si enquanto apanhava as folhas e fazia o livro. De novo. A esconder os remendos que o deixavam inteiro e a esperar que o revisor deixasse passar. Até podia ser que nem reparasse que o livro não voltava da mesma maneira que tinha ido. Só não podia voltar de mãos vazias para casa. Nem queria que assim fosse.


Na continuação do texto "Quando o mundo chegava" publicado em Fevereiro de 2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quando o mundo chegava

O dia anunciava-se como se fosse de festa, mesmo que não houvesse sinal de foguetes no ar nem a banda estivesse preparada para sair. À beira da estrada que levava ao resto do mundo, mesmo no centro da pequena aldeia, juntavam-se miúdos e graúdos. Uns sentados nos degraus, outros de pé e mais uns quantos a sofrer com a ansiedade pelo que tardava em chegar. O coração apertado com o pensamento “E se não vierem hoje?”. 

O dia estava marcado no cartão que lhes tinha sido entregue no mês anterior e correspondia ao dia que o calendário marcava, mas e se não viessem? 

- Já aí vem - gritava um seguido pelo burburinho de mais uns quantos. 

Já se ouvia o motor ainda antes de se avistar a camioneta que trazia os livros. Lá vinha ele com os seus dois ocupantes nos bancos da frente e o mundo inteiro bem guardado na parte de trás. 

- Ora bons dias - cumprimentavam os senhores enquanto abriam as portas do fundo.

Na fila da frente, uma rapariguita de pouca altura e nariz demasiado espevitado para a idade, esperava a sua vez de entrar.

- Vê lá o que escolhes - diziam-lhe os senhores à laia de piada quando recebiam os livros do mês anterior e os confirmavam. Já lhe conheciam o gosto pelos livros que não eram para ela. Há idades para tudo, é o que dizem. Ela acha que há gostos para tudo e a idade não passa de um número que diz muito pouco. 

Percorre as prateleiras cheias de livros. Estão ali tantos e são tão poucos os que pode levar. Procura os que já tinha escolhido da última vez e arruma-os debaixo do braço antes que mais alguém os escolha. É por isso que faz sempre por ser a primeira. Basta chegar mais tarde e já outro leva os melhores.

Entrega-os ao senhor que encontra todos os meses e assiste, impaciente, à calma com que ele preenche o seu cartão. Cinco livros escolhidos que não chegam para ocupar um mês demasiado comprido. Com sorte consegue que rendam até meio. Com sorte. 

- Daqui a um mês tens de os devolver - dizem-lhe. 

Como se ela não soubesse, mas durante um mês eram seus. Tratados com todos os cuidados e mais alguns que não há dinheiro para pagar estragos e aquelas páginas são o seu maior tesouro. O dela e o de todos aqueles que de mês a mês esperam que a carrinha chegue. Sempre no mesmo sítio. Esperam pelo mundo. Um mundo que não acreditam que lhes pertença, mas que todos os meses chega nas costas de um carrinha.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que a vida ensina

"Não sei o que isso quer dizer. Se letrado é ter lido muitos livros isso não é cultura. Cultura é o que nós fazemos. Olhe, sabe, uma vez o Agostinho da Silva a seguir ao 25 de Abril convidaram-no para presidir à comissão contra o analfabetismo. Ele dizia "Meu filho, eu estou tão preocupado porque a maior parte das pessoas cultas que eu conheço são analfabetas". Por exemplo, saber fazer pasteis de bacalhau é uma forma de cultura tão importante como escrever um livro. "
António Lobo Antunes, in Jornal das 9
Entrevista completa aqui

Ela não tinha nada a oferecer. "Oh avó, tu não sabes nada", diziam-lhe os netos quando ela ficava espantada com a vida que eles levavam. Tentavam ser simpáticos. Uma festa no braço a acompanhar a observação, o compôr da manta que lhe aquecia as pernas. As palavras que lhe ficavam. “Não sabes nada”. 

Era verdade. A vida não lhe tinha dado nada que valesse a pena. Não se escreviam histórias sobre os seus dias, as suas lutas não tinham memória. Só lhe tinha calhado em sorte o trabalho, a casa, o marido, os filhos. Paridos e criados naquelas paredes que mal davam para dois, mas que tinham recebido seis. Dois deles perdidos quando ainda nem tinham aprendido a andar. Voltou a viver deixando parte de si enterrada naquele terreno de campas e flores murchas. Aprendera a suportar uma dor que não tinha sentido, que não era normal. Mas fizera os seus dias. Uns a seguir aos outros com uma cruz que lhe pesava a cada passo. Mas disso não falava. 

Os netos deixavam-lhe as frases caladas na garganta. As histórias que queria contar para quem não a ouvia. “Talvez tenham razão”, pensava ela, “ O que é que uma velha como eu, que mal sabe ler e que nunca viu nada para além do mar, tem para oferecer?” 

Esfregava as mãos. A pele marcada com rugas e calos, o resultado de uma vida de trabalho. As mesmas que amassavam o pão até ficar no ponto. Sem receitas nem medidas. A olho, a sentir. A textura, a humidade. O ar do forno a dar sinal de estar pronto para o pão. A intuição de quem faz aquilo desde que nasceu. 

Sabia qual o tempero dos fritos de Natal só de os cheirar. Se era preciso mais laranja ou se estavam a cortar no abafado. Os seus braços tinham uma força que não cabia no seu meio metro de altura. As estações anunciavam-se sem alarido. A mudança da cor do céu ao entardecer, o vento que soprava mais seco. A época de plantar para depois colher. Nunca lera um livro. A escola tinha terminado na terceira classe com uma enxada na mão. Para que é que ia perder tempo a ler quando o dinheiro faltava em casa. Sabia escrever o seu nome numa letra que já nem se usava. Nada mais. 

Não conhecia o mesmo que os netos. Nem que os filhos. Esses que tinham estudado fora com o trabalho daquelas mãos. Olhava-os com orgulho e com um quê de incredulidade ao ver neles tão pouco dela. Da sua história. Aqueles que eram parte de si, nunca saberiam contar qual tinha sido a sua vida. Não iriam entender o porquê de mal ler, de falar para si quando estava sozinha e se lembrava das angústias que a vida lhe tinha dado. 

Mas talvez eles tivessem razão e ela não soubesse nada. Talvez aquilo que a vida lhe tinha ensinado com os dias iguais, com o que lhe tinha roubado e com o que lhe tinha dado, não fosse nada além de banal. 

Mas, agora que olhava pela janela, sabia que amanhã ia chover e que os netos nunca iriam perceber como é que ela acertava sempre nestas coisas.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Trabalho fora de idade

A lei era diferente. Dizia que as crianças não podiam trabalhar, que o seu lugar era atrás das carteiras da escola com a bata branca vestida e respeito pela professora.

A realidade era outra. Era a que toda gente sabia, mas que fingia não ver. Olhos que não vêm... É o que dizem por aí. Eles lá sabem.

Ela era o que os olhos insistiam em fingir que não viam. Seis ou sete anos, não tinha mais. Pequena e delgada. Juravam que nem peso de gente tinha, se é que isso era possível. Honrava o nariz espevitado sem medo. Sabia onde ficava a escola, mas não lhe conhecia as salas de aula e nem reconhecia na professora a autoridade que diziam ter. Ela era diferente.

Quando se aproximou do capataz fê-lo sozinha. Sem sermão ensinado nem adulto que tratasse dos seus assuntos. 

- Quero trabalhar - disse com voz de criança, mas decidida.

O capataz, homem rude e de pele estragada, dobrou-se para a olhar. 

- Não podes - respondeu em tom de ordem.

Ela não se deu por vencida nem arrumou o assunto. Não ia para a escola que na sua casa não acreditavam nisso e, mesmo que acreditassem, faltava-lhes o dinheiro para cumprir as leis.

- Tiro as pedras da terra - propôs, mas completou com a sua sentença - Paga-me como as outras.

O homem tentou demovê-la. Explicou-lhe que havia quem chegasse sem aviso para garantir que as crianças estavam na escola e não ali. Crianças como ela.

A miúda, de cabelo solto e pés descalços, não desistiu, Ficou ali, a olhar para ele e só arredou pé quando teve a confirmação que podia voltar no dia seguinte. Voltou.  E no outro logo a seguir também. Todos os dias sem falta. Trabalhava tanto quanto as mais velhas. Cabelo tapado e avental à cintura. Sem cansaço.O corpo é novo, a energia não se esgota.

De vez em quando tinha de deixar o trabalho a meio e ir. O capataz, lá no alto, tirava o boné e levantava-o sem olhar para ela. Sem palavra. Ela largava as pedras no chão e corria descalça pelo terreno que tinha acabado de limpar. Voltava para casa. O lar onde devia estar sossegada e esperava que chegasse o dia seguinte para se apresentar ao trabalho.

Nessa altura já a ronda tinha terminado. Os que faziam cumprir as leis já tinham ido embora. Ela ficara. Sem ser descoberta. Sem conhecer números nem letras. Descalça a fazer-se mulher quando nem corpo tinha.

Os bancos da escola, esses nunca conheceu.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nas carteiras da escola

Eles já iam a caminho da escola. Cabelos empapados em suor de andar aos pontapés numa bola de trapos. Cansados. Elas ainda esperavam enquanto eles iam indo. 

Esperavam à porta. Todos os dias. Fosse dia de sol ou estivessem num Inverno intenso. Pequeninas e de nariz arrebitado. Bata branca para todas e sapatos só para algumas. Tal como os meninos. Mas elas, bem comportadas e sorridentes, esperavam a professora para a acompanhar à escola. 

Os livros e os cadernos iam dentro das malas que levavam pela mão. Nem sempre de grande qualidade, mas serviam o propósito a que se propunham. Pelo menos para quem tinha cadernos para guardar e livros para ler. Havia uns quantos que entravam de mãos a abanar e olhar malandro que baixavam assim que passavam a porta. Era preciso cumprir as regras.

Respeito era o que se pretendia. Os professores eram a autoridade e os meninos obedeciam. Os meninos e as meninas. Podiam estar separados e elas podiam ganhar em comportamento, mas as regras eram iguais. Dos dois lados do muro. Sem excepção. Quem ousava pisar o risco tinha a régua à sua espera. Ou a cana. Usadas sem dó nem piedade ou arrependimento que lhes valesse. O que se quer é rigidez sem discussão ou reclamação. Era assim e mais nada. Ponto final.

E lá se sentavam dois a dois nas cadeiras de madeira, altas de mais para as suas pernas que ficavam a baloiçar. Atenção ao quadro, à professora. Aprender a ler e a escrever. Saber o nome dos rios e cognome dos reis. Isso e a tabuada. Tudo na ponta da língua sem hesitação na hora da responder. Não havia tempo para hesitações ou respostas ao lado.

- Dona Josefina.

Chamavam a professora com toda a delicadeza, mas pelas costas inventavam-lhe nomes menos próprios. A professora era exemplar nos castigos, eles eram exemplares nas alcunhas. Olho por olho. De tal maneira que anos mais tarde vão lembrar-se da alcunha, mas o nome perdeu-se para sempre.

No recreio as meninas saltam ao eixo e os rapazes espreitam do outro lado do muro. As pernas das meninas dão sempre azo a curiosidade. Depois entram na sala e rezam como mandam os bons costumes. Cantam o hino de mão ao peito e voz colocada como manda a devoção à pátria.

Amanhã há um deles que vai faltar, mas ninguém vai dar por isso. É normal. A escola é obrigatória, mas o dinheiro do trabalho é essencial. Faltam outro e outro logo a seguir. Um dia nem a professora que os controla na missa de Domingo se vai lembrar do aluno em falta.

A escola continua lá. Com  a cana à espera de quem pisa o risco. Com as meninas a acompanhar a professora. Com os meninos a espreitar para o outro lado do muro. Continua tudo lá até ser hora de levar o pão para casa.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Lugar à mesa da avó

As galinhas eram criadas no quintal da casa. Um galinheiro feito com meia dúzia de tábuas e mais umas redes. Não era preciso muito mais do que isso para guardar umas quantas galinhas. Eram alimentadas pela família que, sem ensino que os guiasse, tratavam delas com a sabedoria da terra. Davam de comer, tiravam os ovos e sabiam a altura certa para as matar.

Cortava-se o pescoço à galinha e tiravam-se as penas em água quente. Era assim que começava a refeição criada lá em casa.

A galinha, preparada com o rigor que se põe nestas coisas, ia ao lume numa panela de água com uma bocadinho de chouriço. Daquele vermelho e saboroso. Coisa pouca que o dinheiro não é muito e só se quer que dê sabor. Ia tudo a ferver em medidas feitas a olho. Aquela panela dava para alimentar a família e a partir daí era a mão que mandava no tempero.

O cheiro à carne cozida enchia o pequeno barracão mal iluminado que fazia as vezes de cozinha. O chouriço dava um tom avermelhado à água que começava a borbulhar.

Quando a galinha estava pronta era pôr num tabuleiro de ir ao forno. Quando o forno ainda era a lenha e demorava o seu tempo até chegar ao calor certo. Cozer o arroz no caldo que sobrava da cozedura e deixar o acompanhamento pronto em mais um tabuleiro. O chouriço era cortado em rodelas e espalhado por cima do arroz. O pitéu estava pronto. Arroz de forno e frango corado. 

A pele saía tostada do forno, o arroz vinha guloso com a gordura do chouriço a ferver. O cheiro era daqueles que confortava a alma. O reconhecimento de comida que é nossa.

Juntava-se a neta à mesa. Com as pernas a baloiçar na cadeira e o cabelo em desalinho de tanto correr. 

- O que é almoço? - perguntava com aquela voz de criança.

- Já vais ver - diziam sem desvendar mais nada.

E ela esperava. Com o cheiro já a dar-lhe água na boca.

Os tabuleiros vinham para a mesa a escaldar. Embrulhados em rodilhas que protegiam as mãos que os carregavam.

- Arroz da avó - gritava a neta com excitação. Era o seu prato, feito para ela.

E ficava para sempre baptizado como o arroz da avó. Mesmo quando era a mãe a prepará-lo em casa com o mesmo carinho. O arroz que a avó preparava com todo o rigor e sem receita. Passado de mão em mão e executado sem dúvida quando se cozia uma galinha e se levava ao forno a corar.

Frangainho quando dizem aos mais novos quando os tentam convencer a comer mais uma garfada do almoço. 

Frangainho do campo, corado em forno de lenha com arroz da avó a acompanhar.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A fotografia

Era sempre assim quando chegava o Verão. O tempo quente trazia de volta quem pertencia ali. Vinham da cidade. Para onde se tinham mudado e onde a vida lhes sorria um bocadinho mais do que aos que tinham ficado para trás.

Voltavam para abraçar os seus. Rever aquelas caras que se esbatiam com o tempo. Às vezes era difícil recordar a expressão daquela vizinha que os vira nascer. Começava a faltar o nome à outra que costumava vender o azeite que a mãe lhes pedia para ir buscar. A distância era culpada. 

Vinham visitar os irmãos. Conhecer os sobrinhos. Dar um beijo à mãe que já estava a perder as forças.

- É a idade, filho - dizia enquanto lhe dava uma palmadinha da face - Os teus miúdos, como estão?

Estavam bem. Crescidos e reguilas como se quer para as crianças daquela idade. 

Os irmão trabalhavam no campo e o sol ainda ia alto. A hora da despega estava longe, era preciso saber esperar que voltassem depois do dia de trabalho. Os visitantes, filhos daquela terra, percorriam aquelas ruas que tinham sido suas enquanto cumprimentavam as vizinhas de sempre. As mesmas pessoas  com os anos a marcar-lhes o corpo. A levar-lhes a vista e a toldar a memória.

A vida ali ainda era sua. Aqueles caminhos ainda lhes pertenciam. Mesmo que a vivessem longe. 

Ao final da tarde, quando o dia de trabalho tinha sido dado por terminado, os irmão apareciam. Viam-nos ao cimo da estrada com o grupo de trabalho que os acompanhava. Descalços. Elas de cesta à cabeça. Eles de enxada ao ombro. cansados do dia e a limpar o suor que lhes escorria pela testa.

- Oh irmã - gritavam aos seus que se aproximavam.

E ali, no meio da rua, se faziam os cumprimentos. Sem cerimónia que não era todos os dias que os seus voltavam a casa. E os olhos demoravam no outro, para reconhecer as feições. Para perceber o que tinha mudado num ano. Um só ano e tanta coisa diferente.

- Bons olhos te vejam.

E os miúdos corriam de um lado para o outro. Os primos da cidade com os do campo. Enquanto os mais velho pegavam numa manta das antigas e a estendiam à sombra das árvores grandes. Ali no meio do campo. A família reunida debaixo das oliveiras, os miúdos de um lado para o outro e os mais velhos a matar as saudades.

- Agora fiquem todos aí - dizia o irmão que tinha vindo lá de longe.

E eles ali ficavam. Sentados no chão. Com a mãe lá ao fundo, já com o peso dos anos a fazer-se sentir. Os irmãos sentados no chão com os filhos mais novos ao colo. Os filhos mais velho sentados a uma ponta da manta. Uns descalços que o dinheiro não dá para tudo.

E fica aquele quadro imortalizado na fotografia que o filho estrangeiro tira. A família reunida numa tarde Verão. Com aquele calor que traz de volta a casa aqueles que um dia se aventuraram no mundo.