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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que a vida ensina

"Não sei o que isso quer dizer. Se letrado é ter lido muitos livros isso não é cultura. Cultura é o que nós fazemos. Olhe, sabe, uma vez o Agostinho da Silva a seguir ao 25 de Abril convidaram-no para presidir à comissão contra o analfabetismo. Ele dizia "Meu filho, eu estou tão preocupado porque a maior parte das pessoas cultas que eu conheço são analfabetas". Por exemplo, saber fazer pasteis de bacalhau é uma forma de cultura tão importante como escrever um livro. "
António Lobo Antunes, in Jornal das 9
Entrevista completa aqui

Ela não tinha nada a oferecer. "Oh avó, tu não sabes nada", diziam-lhe os netos quando ela ficava espantada com a vida que eles levavam. Tentavam ser simpáticos. Uma festa no braço a acompanhar a observação, o compôr da manta que lhe aquecia as pernas. As palavras que lhe ficavam. “Não sabes nada”. 

Era verdade. A vida não lhe tinha dado nada que valesse a pena. Não se escreviam histórias sobre os seus dias, as suas lutas não tinham memória. Só lhe tinha calhado em sorte o trabalho, a casa, o marido, os filhos. Paridos e criados naquelas paredes que mal davam para dois, mas que tinham recebido seis. Dois deles perdidos quando ainda nem tinham aprendido a andar. Voltou a viver deixando parte de si enterrada naquele terreno de campas e flores murchas. Aprendera a suportar uma dor que não tinha sentido, que não era normal. Mas fizera os seus dias. Uns a seguir aos outros com uma cruz que lhe pesava a cada passo. Mas disso não falava. 

Os netos deixavam-lhe as frases caladas na garganta. As histórias que queria contar para quem não a ouvia. “Talvez tenham razão”, pensava ela, “ O que é que uma velha como eu, que mal sabe ler e que nunca viu nada para além do mar, tem para oferecer?” 

Esfregava as mãos. A pele marcada com rugas e calos, o resultado de uma vida de trabalho. As mesmas que amassavam o pão até ficar no ponto. Sem receitas nem medidas. A olho, a sentir. A textura, a humidade. O ar do forno a dar sinal de estar pronto para o pão. A intuição de quem faz aquilo desde que nasceu. 

Sabia qual o tempero dos fritos de Natal só de os cheirar. Se era preciso mais laranja ou se estavam a cortar no abafado. Os seus braços tinham uma força que não cabia no seu meio metro de altura. As estações anunciavam-se sem alarido. A mudança da cor do céu ao entardecer, o vento que soprava mais seco. A época de plantar para depois colher. Nunca lera um livro. A escola tinha terminado na terceira classe com uma enxada na mão. Para que é que ia perder tempo a ler quando o dinheiro faltava em casa. Sabia escrever o seu nome numa letra que já nem se usava. Nada mais. 

Não conhecia o mesmo que os netos. Nem que os filhos. Esses que tinham estudado fora com o trabalho daquelas mãos. Olhava-os com orgulho e com um quê de incredulidade ao ver neles tão pouco dela. Da sua história. Aqueles que eram parte de si, nunca saberiam contar qual tinha sido a sua vida. Não iriam entender o porquê de mal ler, de falar para si quando estava sozinha e se lembrava das angústias que a vida lhe tinha dado. 

Mas talvez eles tivessem razão e ela não soubesse nada. Talvez aquilo que a vida lhe tinha ensinado com os dias iguais, com o que lhe tinha roubado e com o que lhe tinha dado, não fosse nada além de banal. 

Mas, agora que olhava pela janela, sabia que amanhã ia chover e que os netos nunca iriam perceber como é que ela acertava sempre nestas coisas.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Trabalho fora de idade

A lei era diferente. Dizia que as crianças não podiam trabalhar, que o seu lugar era atrás das carteiras da escola com a bata branca vestida e respeito pela professora.

A realidade era outra. Era a que toda gente sabia, mas que fingia não ver. Olhos que não vêm... É o que dizem por aí. Eles lá sabem.

Ela era o que os olhos insistiam em fingir que não viam. Seis ou sete anos, não tinha mais. Pequena e delgada. Juravam que nem peso de gente tinha, se é que isso era possível. Honrava o nariz espevitado sem medo. Sabia onde ficava a escola, mas não lhe conhecia as salas de aula e nem reconhecia na professora a autoridade que diziam ter. Ela era diferente.

Quando se aproximou do capataz fê-lo sozinha. Sem sermão ensinado nem adulto que tratasse dos seus assuntos. 

- Quero trabalhar - disse com voz de criança, mas decidida.

O capataz, homem rude e de pele estragada, dobrou-se para a olhar. 

- Não podes - respondeu em tom de ordem.

Ela não se deu por vencida nem arrumou o assunto. Não ia para a escola que na sua casa não acreditavam nisso e, mesmo que acreditassem, faltava-lhes o dinheiro para cumprir as leis.

- Tiro as pedras da terra - propôs, mas completou com a sua sentença - Paga-me como as outras.

O homem tentou demovê-la. Explicou-lhe que havia quem chegasse sem aviso para garantir que as crianças estavam na escola e não ali. Crianças como ela.

A miúda, de cabelo solto e pés descalços, não desistiu, Ficou ali, a olhar para ele e só arredou pé quando teve a confirmação que podia voltar no dia seguinte. Voltou.  E no outro logo a seguir também. Todos os dias sem falta. Trabalhava tanto quanto as mais velhas. Cabelo tapado e avental à cintura. Sem cansaço.O corpo é novo, a energia não se esgota.

De vez em quando tinha de deixar o trabalho a meio e ir. O capataz, lá no alto, tirava o boné e levantava-o sem olhar para ela. Sem palavra. Ela largava as pedras no chão e corria descalça pelo terreno que tinha acabado de limpar. Voltava para casa. O lar onde devia estar sossegada e esperava que chegasse o dia seguinte para se apresentar ao trabalho.

Nessa altura já a ronda tinha terminado. Os que faziam cumprir as leis já tinham ido embora. Ela ficara. Sem ser descoberta. Sem conhecer números nem letras. Descalça a fazer-se mulher quando nem corpo tinha.

Os bancos da escola, esses nunca conheceu.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nas carteiras da escola

Eles já iam a caminho da escola. Cabelos empapados em suor de andar aos pontapés numa bola de trapos. Cansados. Elas ainda esperavam enquanto eles iam indo. 

Esperavam à porta. Todos os dias. Fosse dia de sol ou estivessem num Inverno intenso. Pequeninas e de nariz arrebitado. Bata branca para todas e sapatos só para algumas. Tal como os meninos. Mas elas, bem comportadas e sorridentes, esperavam a professora para a acompanhar à escola. 

Os livros e os cadernos iam dentro das malas que levavam pela mão. Nem sempre de grande qualidade, mas serviam o propósito a que se propunham. Pelo menos para quem tinha cadernos para guardar e livros para ler. Havia uns quantos que entravam de mãos a abanar e olhar malandro que baixavam assim que passavam a porta. Era preciso cumprir as regras.

Respeito era o que se pretendia. Os professores eram a autoridade e os meninos obedeciam. Os meninos e as meninas. Podiam estar separados e elas podiam ganhar em comportamento, mas as regras eram iguais. Dos dois lados do muro. Sem excepção. Quem ousava pisar o risco tinha a régua à sua espera. Ou a cana. Usadas sem dó nem piedade ou arrependimento que lhes valesse. O que se quer é rigidez sem discussão ou reclamação. Era assim e mais nada. Ponto final.

E lá se sentavam dois a dois nas cadeiras de madeira, altas de mais para as suas pernas que ficavam a baloiçar. Atenção ao quadro, à professora. Aprender a ler e a escrever. Saber o nome dos rios e cognome dos reis. Isso e a tabuada. Tudo na ponta da língua sem hesitação na hora da responder. Não havia tempo para hesitações ou respostas ao lado.

- Dona Josefina.

Chamavam a professora com toda a delicadeza, mas pelas costas inventavam-lhe nomes menos próprios. A professora era exemplar nos castigos, eles eram exemplares nas alcunhas. Olho por olho. De tal maneira que anos mais tarde vão lembrar-se da alcunha, mas o nome perdeu-se para sempre.

No recreio as meninas saltam ao eixo e os rapazes espreitam do outro lado do muro. As pernas das meninas dão sempre azo a curiosidade. Depois entram na sala e rezam como mandam os bons costumes. Cantam o hino de mão ao peito e voz colocada como manda a devoção à pátria.

Amanhã há um deles que vai faltar, mas ninguém vai dar por isso. É normal. A escola é obrigatória, mas o dinheiro do trabalho é essencial. Faltam outro e outro logo a seguir. Um dia nem a professora que os controla na missa de Domingo se vai lembrar do aluno em falta.

A escola continua lá. Com  a cana à espera de quem pisa o risco. Com as meninas a acompanhar a professora. Com os meninos a espreitar para o outro lado do muro. Continua tudo lá até ser hora de levar o pão para casa.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Lugar à mesa da avó

As galinhas eram criadas no quintal da casa. Um galinheiro feito com meia dúzia de tábuas e mais umas redes. Não era preciso muito mais do que isso para guardar umas quantas galinhas. Eram alimentadas pela família que, sem ensino que os guiasse, tratavam delas com a sabedoria da terra. Davam de comer, tiravam os ovos e sabiam a altura certa para as matar.

Cortava-se o pescoço à galinha e tiravam-se as penas em água quente. Era assim que começava a refeição criada lá em casa.

A galinha, preparada com o rigor que se põe nestas coisas, ia ao lume numa panela de água com uma bocadinho de chouriço. Daquele vermelho e saboroso. Coisa pouca que o dinheiro não é muito e só se quer que dê sabor. Ia tudo a ferver em medidas feitas a olho. Aquela panela dava para alimentar a família e a partir daí era a mão que mandava no tempero.

O cheiro à carne cozida enchia o pequeno barracão mal iluminado que fazia as vezes de cozinha. O chouriço dava um tom avermelhado à água que começava a borbulhar.

Quando a galinha estava pronta era pôr num tabuleiro de ir ao forno. Quando o forno ainda era a lenha e demorava o seu tempo até chegar ao calor certo. Cozer o arroz no caldo que sobrava da cozedura e deixar o acompanhamento pronto em mais um tabuleiro. O chouriço era cortado em rodelas e espalhado por cima do arroz. O pitéu estava pronto. Arroz de forno e frango corado. 

A pele saía tostada do forno, o arroz vinha guloso com a gordura do chouriço a ferver. O cheiro era daqueles que confortava a alma. O reconhecimento de comida que é nossa.

Juntava-se a neta à mesa. Com as pernas a baloiçar na cadeira e o cabelo em desalinho de tanto correr. 

- O que é almoço? - perguntava com aquela voz de criança.

- Já vais ver - diziam sem desvendar mais nada.

E ela esperava. Com o cheiro já a dar-lhe água na boca.

Os tabuleiros vinham para a mesa a escaldar. Embrulhados em rodilhas que protegiam as mãos que os carregavam.

- Arroz da avó - gritava a neta com excitação. Era o seu prato, feito para ela.

E ficava para sempre baptizado como o arroz da avó. Mesmo quando era a mãe a prepará-lo em casa com o mesmo carinho. O arroz que a avó preparava com todo o rigor e sem receita. Passado de mão em mão e executado sem dúvida quando se cozia uma galinha e se levava ao forno a corar.

Frangainho quando dizem aos mais novos quando os tentam convencer a comer mais uma garfada do almoço. 

Frangainho do campo, corado em forno de lenha com arroz da avó a acompanhar.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A fotografia

Era sempre assim quando chegava o Verão. O tempo quente trazia de volta quem pertencia ali. Vinham da cidade. Para onde se tinham mudado e onde a vida lhes sorria um bocadinho mais do que aos que tinham ficado para trás.

Voltavam para abraçar os seus. Rever aquelas caras que se esbatiam com o tempo. Às vezes era difícil recordar a expressão daquela vizinha que os vira nascer. Começava a faltar o nome à outra que costumava vender o azeite que a mãe lhes pedia para ir buscar. A distância era culpada. 

Vinham visitar os irmãos. Conhecer os sobrinhos. Dar um beijo à mãe que já estava a perder as forças.

- É a idade, filho - dizia enquanto lhe dava uma palmadinha da face - Os teus miúdos, como estão?

Estavam bem. Crescidos e reguilas como se quer para as crianças daquela idade. 

Os irmão trabalhavam no campo e o sol ainda ia alto. A hora da despega estava longe, era preciso saber esperar que voltassem depois do dia de trabalho. Os visitantes, filhos daquela terra, percorriam aquelas ruas que tinham sido suas enquanto cumprimentavam as vizinhas de sempre. As mesmas pessoas  com os anos a marcar-lhes o corpo. A levar-lhes a vista e a toldar a memória.

A vida ali ainda era sua. Aqueles caminhos ainda lhes pertenciam. Mesmo que a vivessem longe. 

Ao final da tarde, quando o dia de trabalho tinha sido dado por terminado, os irmão apareciam. Viam-nos ao cimo da estrada com o grupo de trabalho que os acompanhava. Descalços. Elas de cesta à cabeça. Eles de enxada ao ombro. cansados do dia e a limpar o suor que lhes escorria pela testa.

- Oh irmã - gritavam aos seus que se aproximavam.

E ali, no meio da rua, se faziam os cumprimentos. Sem cerimónia que não era todos os dias que os seus voltavam a casa. E os olhos demoravam no outro, para reconhecer as feições. Para perceber o que tinha mudado num ano. Um só ano e tanta coisa diferente.

- Bons olhos te vejam.

E os miúdos corriam de um lado para o outro. Os primos da cidade com os do campo. Enquanto os mais velho pegavam numa manta das antigas e a estendiam à sombra das árvores grandes. Ali no meio do campo. A família reunida debaixo das oliveiras, os miúdos de um lado para o outro e os mais velhos a matar as saudades.

- Agora fiquem todos aí - dizia o irmão que tinha vindo lá de longe.

E eles ali ficavam. Sentados no chão. Com a mãe lá ao fundo, já com o peso dos anos a fazer-se sentir. Os irmãos sentados no chão com os filhos mais novos ao colo. Os filhos mais velho sentados a uma ponta da manta. Uns descalços que o dinheiro não dá para tudo.

E fica aquele quadro imortalizado na fotografia que o filho estrangeiro tira. A família reunida numa tarde Verão. Com aquele calor que traz de volta a casa aqueles que um dia se aventuraram no mundo.



quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os meninos da colónia

Tão pequenos e lá vão eles de mala na mão. Lá dentro não levam mais do que um sabonete e as poucas mudas de roupa que o dinheiro permite. Mesmo assim, já levam mais umas só caso seja preciso. Entram na camioneta que os leva lá para longe, para umas semanas de férias. Lá vão eles, miúdos pequenos a deixar os pais e os irmãos na terra e a partir a caminho da praia. 

Quando lá chegam, são levados para o banho. Entregam-lhes o bibe que é a farda oficial. Azul aos quadrados branco para os meninos, vermelho aos quadrados brancos para as meninas. Têm direito a um fato de banho que será seu nos próximos dias. 

- Temos de arranjar maneira de sair daqui - pensam alguns deles quando a saudade da família fala mais forte. Nem o azul do mar é capaz de sossegar aqueles corações pequeninos que nunca ficaram longe dos seus.

Não arranjam como sair, mas não deixam de pensar nisso todos os dias.

Fazem o caminho até ao mar em fila indiana, muito bem alinhados uns atrás dos outros. Muitos deles pisam areia daquela pela primeira vez. Não é como a terra lá da aldeia que suja os pés quando jogam à bola. É mais áspera. Quando chegam à beira mar encontram umas pedras muito polidas que escondem conchas que eles nunca tinham visto.

E ficam ali na areia todos juntos. Cercados por paus de madeira e cordas que marcam o espaço onde devem ficar. Não podem sair dali. Só podem ir à água quando assim lhes for dito e nem todos podem ir. Muitos já ouviram falar no mar, outros já não são novatos nestas andanças, mas a sensação da brisa do mar, húmida e salgada, a refrescar-lhes a cara é sempre única.

Ali estão os meninos tão pequeninos e já com tanto para contar.

Têm direito a lanche na praia. As senhoras chegam com as cestas à cabeça cheias de pão para o lanche. Um para cada um, para matar a fome que o ar da praia dá.

Quando chega a hora de voltar, lá vão eles todos juntos, em fila indiana, a subir a rua. quando chega a hora da refeição o refeitório fica cheio com as vozes miudinhas. Lá pelo meio, há um que vai cantarolando para entreter os restantes. É o espetáculo a que têm direito. No prato levam comida que lhes parece estranha, que às vezes não lhes sabe tão bem como as sopas que a mãe fazia, mas que comem para confortar o estômago que já reclama por alimento.

Quando a noite chega, recolhem às camas à hora certa. O relógio dá o sinal para recolher e cada um deita-se na cama que lhes foi atribuída. Estão marcadas com um número que passa a ser o seu. 

Assim se passam os dias com vontade de voltar para casa. Se tiverem sorte, pode ser que uma excursão traga caras conhecidas para os visitar. 

- Olha quem está aqui - dizem as visitas inesperadas quando os encontram sentados na areia no espaço marcado pelas cordas.

E assim se mata um bocadinho da saudade que aperta aqueles corações.

Dias de praia. Com mar e sol. Com os colegas da sua idade, uns mais sabidos do que outros, que é assim a vida.

Depois voltam a casa. Quando os seus dias de férias terminarem. Fica o bibe e o fato de banho para trás, a cama desfeita com o número que era seu. Voltam à sua terra e aos seus e o coração fica cheio. Na mala levam o que restou do sabonete, as roupas desarrumadas e uma casinha de barro para oferecer aos pais. 

Os meninos estão de volta na mesma camioneta que os levou.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Tardes de Verão

No Verão parecia que  as horas duravam muito mais do que os sessenta minutos que lhes eram destinados. Três meses de férias em que o calor conseguia entrar pelas janelas fechadas e que convidava o corpo a molengar pelos sofás.

O dia começava quando a hora de almoço já estava a chegar. O dia anterior tinha terminado tarde porque em tempo de férias não há quem queira deitar cedo. Férias são férias e os miúdos são todos iguais. 

A meio da tarde, quando o calor ainda se sente, mas já se começam a sentir as tréguas, alguém bate à porta.

- Vamos? - perguntam assim que a porta se abre.

- 'Bora - respondem do outro lado. 

Não há molenguice que entre naquele corpo nem calor que assuste. Fazem-se à estrada de bicicleta na mão e com uma garrafa de água na mochila. Seguem caminho a bater às portas do costume. 

Não têm telemóveis e ninguém sabe para onde vão. Sabem só que saíram tal como é costume nestes dias de férias numa tentativa de combater a monotonia dos dias de Verão. Foram sem destino.

- Seguiram lá para cima - diria alguém se perguntassem pelas bicicletas que saíram todas juntas.

Fazem-se à estrada sem saber para onde vão e sem parar de falar. Há sempre qualquer coisa para contar.

Percorrem as estradas que já conhecem e aventuram-se por outras que não sabem bem onde vão dar. Partem rumo à aldeia vizinha e seguem para a outra que vem logo a seguir. Sem parar de pedalar.

- Mas esta estrada não tem fim?

Não há bussolas nem GPS. Nada que lhes indique o caminho além das tabuletas com os nomes das terras que lhes são familiares. Vão para onde querem. Decidem virar só porque acham que o caminho por ali é mais bonito ou mais aventureiro.

Passam nas aldeias mais pequenas que a sua e cumprimentam os mais velhos que se sentam à beira da estrada a ver quem passa. Não os conhecem.

- Não consigo subir aquilo.

Levam a bicicleta pela mão quando faltam as forças nas pernas. Param uns minutos e partilham a água, contam os trocos para ver se podem comprar mais uma no café da próxima terra. Pode ser que esteja fresca.

Fazem o caminho de volta quando o sol começa a descer e o tempo refresca. Caras vermelhas e respiração ofegante, corpo queimado do sol.

Param à porta de casa. Bicicletas deixadas caídas no passeio enquanto se sentam a recuperar do cansaço. Os seus risos ouvem-se à distância, os seus gritos chegam onde não as conseguem ver.

Despedem-se quando a mãe aparece a dar sinal que é hora de jantar. Pegam nas bicicletas e separam-se de volta às suas casas. Cabelo em desalinho e corpo a colar.

- Até amanhã!

- Eu passo pela tua casa!

Não é preciso mais nada. O dia seguinte está combinado.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ai meu rico santo

Os dias longos anunciavam o Verão que estava mesmo a chegar. Tempo quente e noites cada vez mais curtas a chamar os vizinhos para a rua. 

Metiam-se as comemorações dos dias santos nos quais não se trabalha que tal coisa é pecado. Dia santo é descanso e devoção, dias de santos é tradição.

A fogueira preparava-se todos os anos no mesmo sítio onde sempre tinha sido. Lá no largo já todos a esperavam. Troncos grossos prontos a arder noite dentro com o fogo a iluminar as conversas e a noite de folia. Estão todos convidados mesmo sem convite formal. Já se sabe que é assim, todos os anos igual.

Quando o sol começa a fugir e a noite quente começa avança, já a fogueira arde em labaredas que metem respeito. O ar fica impregnado com o aroma a rosmaninho que se lança ao fogo e que desperta as memórias das noites de santos que por ali se vivem desde que se nasceu.

Há sempre música e qualquer coisa que acalme o estômago. Juntam-se homens e mulheres, novos e velhos. 

- Ai malandro.

Os miúdos saltam a fogueira sem medo num ritual de passagem em que parecem mostrar que já cresceram mais do que aparentam. Lá vão eles, atrás uns dos outros a saltar troncos que se desfazem em cinzas e com as labaredas a morder as pernas.

É uma noite para esquecer os dias sempre iguais e as tristezas que a vida dá. Para se rezar a Santo António e beijar a medalha de São João enquanto se roga um pedido. É dia de santos, é noite de festa.

O sino da igreja dá o sinal de meia-noite. Um dia que finda e outro que principia e as meninas que agarram na alcachofra fechada que colheram nessa tarde. Ao som das doze badaladas avançam para a fogueira e queimam a planta na fogueira. 

- Ai meu rico santinho - pensam para si enquanto guardam as alcachofras chamuscadas das labaredas.

Levam-nas consigo para casa, escolhem uma jarra e deixam-nas em água durante a noite. Ficam em cima da cómoda, mesmo aos pés da cama, e esperam pela manhã. Deitam-se de coração esperançoso que o amanhecer faça florescer a alcachofra chamuscada. Se assim for, o amor que aquece o seu coração é seu para a vida, mas se não florescer é porque não está destinado a acontecer. 

É a alcachofra que abençoa o casamento que se ambiciona.

Mais um ano de festejos, de pedidos a Santo António e saltos corajosos à fogueira. Mais um ano de corações apaixonados a confiar no que alcachofra tem para contar. 

Viva Santo António. Viva São João.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Hora do recreio

Mal se ouve a campainha, abafada pelos gritos e pelas correrias dos que deixam os livros e saem à procura dos minutos brincadeira que lhes são devidos.
Vão ficando por aqui e por ali, espalhados pelo recreio limitado pelos muros da escola. São grupos que se formam em cada espaço livre e começa a ouvir-se as suas cantigas que entram até no ouvido mais distraído.

"Aqui vai o lenço / Aqui fica o lenço"
Em frente à porta forma-se uma roda. Um anda à volta da roda de lenço n amão à procura da vitimo onde o vai largar. No meio, há outro que não tira o olho daquele bocado de tecido à espera da sua oportunidade. Andam assim a roubar lugar uns aos outros com uns quantos encontrões pelo meio e uma cantiga repetida vezes sem conta.

"Que linda falua que lá vem, lá vem / É uma falua que vem de Belém"
Uma fila de meninos percorre a escola até chegar aos dois barqueiros que os esperam. A fila lá passa por baixo dos braços que se transformam em ponte. Vão cantarolando que a falua vem de longe e que há filhos pequeninos para sustentar. Uma tristeza sem fim transformada em alegria na voz daquelas crianças. No fim, há um que fica para trás. Banana ou morango?

"Chega à noite acende uma fogueira / Logo a seguir toca o violão" 
Mesmo na porta da escola juntam-se dois grupos de costas uns para os outros. Estão aos saltinhos enquanto cantam que já conhecem bem as manhas de alguém que não se sabe bem quem é. Antes de voltar tudo ao mesmos, há dois, um dois que dançam enquanto se ouve um iupi iupi ai ai. Coisas de miúdos.

Lá ao fundo, ouve-se o barulho da corda a bater no chão de terra. Duas meninas dão a volta à corda com toda a força que têm enquanto uma ganha balanço para entrar. Salta com os dois pés e com um de cada vez. Faz mais uns malabarismos pelo meio e consegue ganhar à corda. Sem tropeçar. Entra outra e ali ficam, quase sincronizadas, até que a corda se enrola nos pés de uma delas e é altura de dar a vez a mais alguém. "Próximo!"

"É golo! Gooooooooolo!"
Vem lá de longe, por detrás da escola. Miúdos transpirados e cheios de pó, correm de um lado para o outro atrás da bola enquanto gritam por falta para um árbitro que não existe. A bola já viu melhores dias e os sapatos estão marcados de tantos chutos, mas a verdade é que a baliza está mesmo ali e o guarda-redes nem vai perceber por onde é que ela passou antes de ouvir os gritos de #Golo!"

Volta-se a ouvir a campainha. É hora de voltar aos cadernos e aos livro. Lá vão eles, vermelhos de tanta correria, a falar pelos cotovelos que a excitação do recreio não acalma com essa facilidade. Fica a corda esquecida no chão e a bola parada ao fundo da baliza.

Cai o silêncio no recreio que fica à espera que o próximo toque lhe devolva a vida.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Soprar as velas

São mais de vinte a correr por todo o lado numa casa onde não abunda espaço. Vieram todos: os colegas da sala de aula e os outros meninos da escola. São todos amigos, daqueles que jogam à bola no recreio e que saltam à corda ou brincam à linda falua que vem lá de Belém.

Agora estão ali, a falar excessivamente alto e a correr de um lado para o outro enquanto desarrumam tudo o que encontram pelo caminho. Afinal um deles faz anos e isso é só mais uma desculpa para se juntarem todos em corridas sem fim e jogos das escondidas. 

A mesa cheia de comida não lhes desperta interesse. São os rissóis e os pães com fiambre e queijo, as tortas dancake de chocolate e as que têm recheio de morango, os bolos de aniversário com bonecos e campos de futebol. Eles passam e petiscam, roubam uns sugos ou uns caramelos de fruta que estão espalhados pela mesa e seguem caminho. Há muita brincadeira à espera.

Depois o tempo passa, os meninos pequenos crescem e as correrias da festa dão lugar à música que toca na rádio e onde se aproveita a balada da moda para trocar uns passos de dança com aquela menina a quem já se piscou o olho e com algum incentivo por parte dos pais que acham sempre piada aos miúdos de meio metro a fingir que são adultos.

Vai chegar uma altura em que as festas já nem se fazem em casa com os pais e as avós a deitarem um olho aos miúdos, mas por enquanto ainda estão ali a gritar, vermelhos e transpirados de tanto correr. A casa fica vazia quando a noite já apareceu. Os pais passam para ir buscar os filhos e ficam copos e guardanapos espalhados pelos cantos e um aniversariante muito cansado de tanto brincar.

Foi um dia em grande, cheio de tudo o que é bom e que deixou recordações que daí a uns anos vão servir para entrar em conversas que começam com um "No meu tempo". Nesse tempo onde tudo era sempre melhor mesmo que não fosse bem assim.





quarta-feira, 8 de março de 2017

Pão numa mão

As crianças são só crianças. É a vida a seguir o caminho que deve seguir, todos nós nascemos para trazer mais vida. É isso que se ouve na homilia de Domingo. Mas é só isso que as crianças são. 

Os mais novos não comem à mesa com os mais velhos e não se metem nos assuntos dos adultos. As crianças são só isso, crianças e devem comportar-se como tal. A vida dos adultos não lhes serve nem é da sua conta. 

Se precisarem de levar umas palmadas, levam-nas. As crianças têm de aprender que nem tudo é como elas querem. Existem regras e saber estar e o ser criança não lhes perdoa a má educação. 

Pão numa mão e cachaporra na outra. Ditado tão antigo como a vida e cumprido à risca. As crianças alimentam-se e educam-se da maneira que for preciso. São outros tempos, em que as crianças não têm voz. Têm regras e deveres e nem o direito de brincar em paz e sossego lhes é atribuído. 

Algumas, as que nascem menos abonadas, tornam-se adultos ainda as feições são de bebé. É o cuidar da casa e dos irmãos mais novos que lhes é atribuído, mesmo que para isso tenham de faltar à escola. Afinal há prioridades na vida. Quando não há irmãos mais velhos são os avós e os tios que olham por eles enquanto os pais trabalham. 

O amor aos filhos é assim, diferente na forma de mostrar. Está na educação rígida e nos castigos cumpridos à risca. É afastar as crianças quando os assuntos são de adultos porque elas não percebem nada da vida. É ordenar que lavem a roupa quando nem chegam bem ao tanque. Ser criança tem obrigações sem direitos que as aliviem. 

São outros tempos e outros pensamentos. Outras maneiras de viver. Os filhos são a obrigação de cada um de trazer mais vida à terra. E eles devem sentir-se agradecidos a quem os trouxe ao mundo. 

As crianças são só crianças sem direito a sê-lo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Nem por um tostão

Qualquer canto e pedaço de chão lhes serviam como terreno de brincadeira. 

Meninas para um lado e meninos para o outro que elas não jogam à bola e eles não querem saltar à corda. De qualquer maneira, fica sempre melhor se cada qual estiver no lado que lhe compete. 

- Aqui vai o lenço, aqui fica o lenço. 

Os rapazes dão chutos numa bola de trapos, tão fraca que a cada pontapé parece desfazer-se. 

- É golo! Não estejas a roubar. 

Roubando ou não, a contagem dos pontos vai-se perdendo como os trapos vão caindo e deixando a bola mais magra. Eles estão suados, cabelo em desalinho, camisa por fora das calças e pés descalços e sujos de pó. Mesmo assim não perdem o fôlego e há sempre tempo para mais um remate. 

- Que linda falua que lá vem, lá vem. 

Elas, as meninas que se querem bem comportadas, juntam-se em roda, nas brincadeiras com lengalengas que lhes animam os dias. Não têm bonecas nem brinquedos, só a imaginação e um bocado de corda para saltar. Uma em cada ponta a rodar e outra a saltar até não conseguir mais. 

- Olha que não há travões. 

E aí vão eles rua abaixo sem ligar aos buracos. Os carrinhos de rolamentos, feitos em casa com a ajuda de um e de outro, são postos à prova naquele terreno acidentado. Ouvem-se os gritos de euforia e os de vitória, de vez em quando também se ouve um grito de alguém que ficou com os joelhos esfolados ou aterrou de cabeça. 

São tão novos e têm tão pouco. São tão felizes com esse pouco que têm. Conseguem rir como de o mundo fosse deles. Como se todas as possibilidades estivessem ali naquele pião que conseguiram pôr a rodar na palma da mão. 

- Eu peço ao senhor barqueiro que me deixe passar. Tenho filhos pequeninos não os posso sustentar. 

O sol começa a pôr-se. Amanhã há mais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O pão do burro

Os miúdos juntam-se em grupo e lá vão eles ao caminho. Os mais novos têm uns dez anos, os mais velhos não têm muito mais. A partir de uma certa idade, o trabalho é mais certo do que o estudo e só vão à escola quando tem mesmo de ser. 

- Só era preciso saber escrever o nome e fazer contas – explicam. 

Vão a caminho da aldeia do lado porque a deles já não tem escola que os acolha e naqueles tempos não há pais que os levem ou que se certifiquem que eles chegaram bem e o conceito de autocarro escolar é algo desconhecido. Vão a pé, mas lá vão eles. Rapazes e raparigas que estão separados na escola, mas fazem o caminho lado a lado. Vão sozinhos, sem adulto que olhe por eles. 

- Os tempos eram outros – é o que se vai ouvir daí a uns anos. 

Se eram.

- E toda gente andava a pé, nunca estávamos sozinhos – continuam. 

Os rapazes feitos homens assumem o papel de guarda-costas das raparigas. As malas levam os livros de quem tem a sorte de os ter e um pão guardado para o lanche ou para quando a fome der sinal. 

Mais tarde, quando a escola fechar portas, fazem o caminho de volta sem que ninguém lhes controle a hora de chegada. Os rapazes, mais impacientes, aceleram o passo e não esperam pelas raparigas. 

- Elas paravam em todo o lado – é o que vão defender quando contarem esta história. 

E as raparigas fazem o caminho sozinhas que naquele tempo não existiam perigos como os de hoje. Os rapazes já vão tão longe que nem se ouvem. 

 O burro espera por elas no sítio do costume. As raparigas tiram o pão da mala, muito bem guardado dentro do saco de pano que a avó costurou, e servem o jantar ao burro antes de seguir viagem. 

Deus as livre de chegar a casa com um pão esquecido na mala. A comida é sagrada e é pecado não a aproveitar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

À cabeça da mesa

Ouvem-se as oito badaladas dadas pelo relógio da igreja. 

O miúdo, apanhado de surpresa com a hora avançada, corre na direcção de casa. São oito horas. O sino continua a tocar. Corre o mais rápido que pode, sem abrandar por nada. 

Entra em casa e senta-se à mesa quando se ouve o último sinal da hora. São oito horas e ele sentou-se na mesa a tempo, mas sem conseguir fugir ao olhar reprovador do pai. 

- O jantar está na mesa às oito. 

Sem falta. Às oito horas a mesa está posta, o jantar terminado e a família tem de estar sentada à mesa. Quem não está a horas, não janta nem tem direito a comer seja o que for até ao dia seguinte. 

O miúdo não responde e baixa os olhos. Regras são regras e ele sabe disso, mas a brincadeira deixou-o distraído. ~

O homem da casa, de pele queimada pelo sol e mãos marcadas pelo trabalho, senta-se no topo da mesa. Homem de poucas palavras e mão pesada, todos o são. O sentimento, por muito que exista, não deve ser mostrado. 

A mulher levanta-se e serve-o. Primeiro ele: o pai, o marido, o homem da casa. É para ele que se guarda o melhor pedaço de carne, quando a há. É a ele que se enche o prato com a sopa antes de todos os outros. É assim que tem de ser. É ele que anda trabalhar desde que o sol nasce até que ele se põe. Ela também trabalha, mas deve-lhe obediência. 

Os outros esperam. Em silêncio. Divide-se o que sobra pelos filhos. Uma sardinha alimenta mais bocas do que aquelas que se julgavam possíveis. 

Primeiro está o homem.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O cheiro das ruas

Eram outros tempos. Aqueles dias em que o sol do meio-dia iluminava a rua com uma luz tão clara que obrigava a fechar os olhos. 

A rua tinha o alcatrão em mau estado, o que não se possa dizer que seja muito diferente dos tempos de agora, e só duas ou três casas é que tinham um primeiro andar. Todas tinham um quintal com direito a um barracão com a cozinha onde comia a família. A cozinha de casa era para as visitas. 

Ao meio-dia, a rua começava a ganhar vida mesmo que não se visse uma pessoa que fosse. 

Vindo dos quintais, ouvia-se o som do garfo a raspar na velha frigideira gasta de tanto ser areada. A telefonia tocava um fadinho ou outro, daqueles que faziam chorar as pedras da calçada, e as mulheres de lenço à cabeça e bata vestida, faziam o almoço para os netos que vinham da escola, os filhos que almoçavam ali ou os homens que vinham do trabalho. 

Cheirava a refogado com azeite feito no lagar lá da terra, com as azeitonas que a família inteira tinha apanhado. A cebola a ficar translúcida e o toque do alho e do louro. 

- Não comas o louro que te rasga a garganta! 

O borbulhar do óleo quente. As batatas cortadas em palitos e metidas dentro de água, à espera. A carne cozinhada com tempo e com uma perícia que nasce com a pessoa. É preciso ter mão para a cozinha. Ainda não há chefs, só cozinheiras. 

A feijoca a cozer para a sopa, com o toque dos enchidos e da carne de uma qualidade que já não se encontra. Um cheiro rico e gordo, guloso. 

Uma rotina cumprida em todas as casas. Um cheiro que enche a rua vazia e que anuncia a chegada do resto da família para se sentarem à mesa, com o pão ao lado para raspar o fundo da frigideira antes de voltar a ser areada. 

As memórias fogem com o tempo. As caras ficam confusas e perdem-se nomes, mas o cheiro a refogado a invadir uma rua vazia vai sempre levar ao sol do meio-dia numa rua de alcatrão esburacado onde se espera que a família chegue para almoçar.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Vai e Vem

O dia começava cedo e o calor  já se fazia sentir. Era Verão, não se podia esperar outra coisa, mas falar da temperatura é uma coisa comum. Se está calor, mesmo nos meses em que é suposto assim ser, há sempre uma referência ao ar que sufoca e ao sol que queima.

Mas naqueles dias não havia calor que assustasse. Era o tempo dele e o destino era a praia.

 Juntavam-se todos no ponto de encontro à espera. Novos e mais velhos, crianças e avós. Cestas cheias de toalhas e protectores solares. A geleira com o almoço, o lanche e mais qualquer coisa para confortar o estômago. Os sacos com os brinquedos essenciais que muitas vezes voltavam para casa com menos um pá que tinha ficado enterrada na areia. Pequenos problemas na vida dos mais novos que pouco se preocupavam com eles, nada conseguia perturbar aqueles dias de mar e areia. Tanta areia que quando chegavam a casa parecia que a praia tinha vindo com eles.

O autocarro chegava, o ponto de encontro ficava vazio. Começava a viagem que parecia sempre mais longa do que a realidade. A vontade era chegar o mais depressa possível.

Havia dias em que o tempo trocava as volta aos visitantes. O calor da partida transformava-se em nuvens à escada e, de vez em quando, uma chuva ameaçava o dia. Os mais velhos vestiam uns casacos aos mais novos que, mesmo com a chuva a cair, ficavam pela areia a construir castelos e tartarugas de areia.

Mas ao meio-dia, o sol voltava. Os toldos protegiam do calor, a água gelada pedia banhos demorados e mergulhos dignos dos jogos olímpicos e o lanche ficava mais para mais tarde. Todos eram amigos, todos partilhavam brinquedos e histórias. Os que tinham feito a viagem juntos e os amigos que se faziam com a barraca ao lado.

Os dias eram aproveitados ao segundo. Com gritaria, risos, jogos de futebol improvisados e sestas dentro da barraca. O tempo passava sempre rápido de mais e quando ainda parecia que estava a começar, já o sol começava a desaparecer.

- Já está na hora?

Já estava. O autocarro esperava para fazer o caminho de volta, os mais novos adormeciam nos bancos porque a viagem era longa e os mais velhos pensavam no que tinham de preparar para o dia seguinte. Mais sacos para arranjar, mais uma viagem para fazer. 

Com alguma sorte, o sol começava a espreitar logo de manhã.
                 


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Para todo o serviço

Às vezes ainda nem tinham metro e meio de altura. Pequeninas e miudinhas, lá entravam elas na casa dos senhores de trouxa na mão.

Eram novas. Dez, onze anos, se tanto. Deixavam a casa dos pais, onde os filhos faziam mais falta a trabalhar do que a estudar, e entravam em casa dos patrões. Uma casa maior do que a que estavam habituadas e onde tinham tantos deveres que lhes perdiam a conta. 

Miúdas franzinas transformadas em criadas de servir. Muitas delas nem conheciam os bancos da escola, trabalhavam desde sempre. 

Aprendiam a regatear na praça, quando a senhora confiava o suficiente nelas para as mandar às compras. Lá iam, de cesta à cabeça e pés descalços, não importava se chovia ou fazia sol. Enceravam o chão. De joelhos. Cozinhavam os melhores manjares que sabiam. Comiam o que encontravam. 

Vestiam o traje de gala sempre que o jantar assim obrigava. A farda preta impunha o peso da idade que elas ainda não tinham. No avental branco não havia um único vinco e acentuava a cintura fina. Serviam os senhores e os convidados, carregavam com jarros de prata de peso insuportável e nunca perdiam a compostura. Eram para todo o serviço, fosse ele qual fosse. 

Dormiam depois de todos já estarem deitados. Quando já tinham deixado o fogão a brilhar, quando a casa cheirava a limpeza e não havia nada fora do sítio devido. 

Já os patrões dormiam o terceiro sono quando elas subiam as escadas até ao sótão para descansar. Acordavam quando a casa ainda estava em silêncio para preparar mais um dia. Os mesmos deveres à sua espera. 

Passavam os dias iguais sem que dessem por isso. Esperavam que chegasse o domingo e que não houvesse surpresas. Se corresse tudo como era suposto, tinham a tarde toda só para si.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

De pequenino

A pobreza é uma coisa que já se dá por garantida. Poucos são aqueles que têm mais do que o mínimo para sobreviver e a maior parte trabalha de sol a sol para comprar farinha para cozer pão. 

Os filhos aparecem quando Deus assim entende e o pouco que há estica mais um bocadinho. Depois aparece a má sorte que leva um ou outro. Não há família que não tenha conhecido a dor de enterrar aqueles que não tiveram tempo de crescer. 

O dinheiro não se multiplica da mesma maneira que os filhos vão aparecendo, é preciso ginástica e imaginação. Uma sardinha alimenta quatro bocas, uma sopa serve de refeição completa. A vida não é fácil, mas é o que se tem. 

São os caçulas que têm a sorte de conhecer os bancos da escola. Enquanto os mais velhos trabalham no que aparece, os mais novos aprendem a somar quando o que mais fazem é subtrair e escrevem o nome que poucas vezes assinam. Se a coisa correr bem, fazem a quarta classe, depois disso a escola está reservada aos mais afortunados. 

Um dia chegam a casa e, sem que nada o fizesse prever, são avisados do fim. 

- Amanhã já não vais à escola. 

A sentença foi lida sem direito a recurso. Não há discussão possível nem tentativa de ganhar mais um dia. Arrumam-se os sonhos e acorda-se para a vida adulta. Seja lá o que for que ela lhes reserva. 

Não se pergunta pelo trabalho. Há sempre um capataz à procura de alguém. Não importa a idade, ali há lugar para todos. Os que ainda não têm corpos de adulto também têm o que fazer. Está a chegar a época das plantações e é preciso apanhar a pedra que anda pelos campos. Há uma família abastada que precisa de uma criada de servir. 

- Tem de ser. 

De manhã, é ver os mais pequenos a caminharem descalços em direcção oposta à escola. São mais uns trocados que entram em casa e que pagam a conta que se ficou a dever na loja. 

A vida não é fácil, mas é de pequenino que se começa a perceber como ela é.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O ar do forno

Há uma bola de massa crua que tanto repousou durante uma semana que se transformou em fermento. A superfície ficou seca e áspera, o interior mole como quando foi guardada. Amanhã vem outra para o seu lugar. Hoje mistura-se esta com parte da farinha. 

Vai-se buscar o alguidar de barro já partido e marcado de tanto trabalho. Deita-se parte da farinha e a bola de uma semana e mistura-se num piscar de olhos. Sem grande ciência ou tempo a perder. Misturar e deixar repousar. 

O maior segredo é sempre uma junção de persistência com paciência. 

Quando o novo dia nasce, encontra o forno a aquecer. Ramos finos que vão queimando no forno de pedra que alimenta uma família e quem mais precisar. Fecha-se a porta e deixa-se o ar do forno chegar onde queremos que chegue. 


A massa está a descansar. Foi amassada até a respiração ficar pesada e os braços começarem a doer. De lenço na cabeça e bata já gasta, a mulher deu tudo por tudo para transformar a farinha em pão do bom. Até a massa chegar ao ponto. 

Depois, quando já repousou o que tinha a repousar e quando o fogo já chegou onde devia chegar, é cortar a massa à mão e moldar o pão com direito a bênção e oração. As mãos brancas da farinha formam pães e roscas para dar aos mais pequenos. Uma bola de massa crua fica a repousar para a semana seguinte que esta vida é feita de rotinas. Outras levam chouriço daquele que tinha ficado a secar na chaminé lá de casa.

Depois é esperar. A massa vai crescendo no forno. Já se adivinha a manteiga a derreter e o vapor do pão quente a queimar-nos a pele.

Começa a cheirar a pão quente e já se adivinha o pão estaladiço por fora e o interior branco e macio.  Para aproveitar o forno que ainda está quente, prepara-se um tabuleiro de sardinhas regadas a azeite e temperadas com cebola. 

Sai o pão a escaldar e entra o tabuleiro com o almoço. As rotinas cumpridas com o rigor que passa de geração para geração.

Parte-se o pão sem cerimónia nem faca. À mão. Meter faca em pão quente é tirar a força a quem o amassou e isso é coisa que não se quer. Daqui a uma semana começa tudo outra vez e não são corpos fracos que conseguem fazer pão. 

Não há nada que se compare à memória do cheiro a pão quente a encher a casa. A manteiga a escorrer pelas mãos e o sabor do pão amassado com a força de quem alimenta os que são seus. 

Parte-se quente, à mão e ficamos à espera que passe a semana.

sábado, 5 de março de 2016

Água e Hortelã

Para lá do portão feito à mão com tábuas que sobravam disto e daquilo, ou do sítio onde devia estar um portão para o qual o dinheiro não chegava, há um outro mundo onde o trabalho começa antes do sol nascer. Seja dia de temporal ou haja aviso de seca.

A terra castanha e enlameada é trabalhada até estar pronta para receber as sementes e as regas. Um quadrado de terreno não pode ser desperdiçado. Antes pouco do que nada, que o pouco ainda alimenta e o nada deixa-nos de estômago vazio.

Homens de enxada às costas e mulheres com baldes à cabeça. O dia começa cedo. Trabalham na horta de casa, antes de partirem em romaria para os terrenos dos senhores, que lavram até ser noite. Os homens de boné e calças grossas. As mulheres de avental e lenço enrolado na cabeça. Eles de enxada. Elas de cesta à cabeça. Tal como em casa. 

É naquele terreno que chamam de seu, por muito ou pouco que desse, que se tira parte do sustento para a família. Não há dinheiro para gastar naquilo que se pode poupar. O descanso só vem nos dias santos. Nos dias que pertencem à fé não se trabalha que é assim que manda a tradição. Por respeito. 

Planta-se tudo o que o terreno permitir. Medem-se os canteiros ao milímetro. Guita de um lado ao outro e o rigor das medições de esquadro e régua feitas pelo olho treinado de quem faz aquilo desde que nasceu. Quando a horta começa a rebentar a obra de arte aparece em todo o seu esplendor. 

O feijão-verde trepa pelas canas que estão espetadas na terra. As batatas começam a florir. O tomate vai espreitando, vermelho e gordo, debaixo das folhas verdes e viçosas. 

E chega a época da colheita. De revirar as terras e colher o fruto do trabalho e da espera de tantos meses. Os barracões ficam cheios de batatas. Dos tectos pendem cachos de cebolas entrelaçadas umas nas outras. Apanha-se a couve para juntar às misturadas que iam alimentar a família naquela noite. E na outra a seguir. .

Que Deus nos dê água e um tranquinho de hortelã, a horta mata a fome de quem a semeia.