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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O frio que o corpo aguenta

O cobertor que a cobria durante a noite, não tinha peso para afastar o frio que chegava no Inverno. Quando era hora de acordar, o corpo levantava-se dormente. Por aquela altura, o dia podia amanhecer de céu limpo, mas a verdade é que o sol nem pelo meio-dia prometia calor. Era assim Janeiro, mês em que o que faltava em dinheiro sobrava em gelo. 

Era esse frio que agora lhe entrava pelo corpo e cercava os ossos prendendo-lhe os movimentos. Uma dor fina a que já se habituara a ter como companhia nos dias frios, alastrava-se pelo interior do seu corpo começando quando os pés tocavam no chão e abrindo caminho pelo corpo de miúda até à nuca voltando a descer num arrepio discreto. A roupa não ajudava a acalmar o frio. Saia e meia até ao joelho que as regras da casa ditavam que calças era para os homens e as contas não deixavam folga para collants. Casaco de malha abotoado até cima como abafo. Nada mais. Tão eficaz como o cobertor, mas o corpo habitua-se. O que seria dele se assim não fosse. 

Fazia o caminho com os sapatos de solas pouco mais que meias, mãos roxas e nariz vermelho. O frio caía sem que fosse visto, mas sentia-se o vento a cortar as faces e a queimar por dentro a cada inspiração. O caminho tornava-se longo, os passos custavam, a nuvem branca que lhe saía pela boca embaciava o caminho. Uma provação que era esquecida quando, ao fundo da estrada, a curva abria para o campo que no dia anterior era verde. 

Uma camada fina de gelo cobria tudo o que conseguia ver. Era o mais próximo que estava de ver neve tal e qual como a imaginava: um campo branco a prolongar-se até onde a vista deixava e que lhe aquecia o corpo que só conhecia gelado.

Deixava-se ficar pelo tempo que podia. O corpo a gelar e ela sem o sentir, o calor da imagem da neve a dar-lhe alento. Diziam que Deus dava o frio conforme o corpo aguentava. Ela acreditava que Ele dava-lhe o vislumbre da neve naquele campo de gelo para a compensar do gelo que vivia no seu corpo.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Lugar à mesa...de Natal

Mais um ano. O dia começa como todos os outros. Cedo. É assim para quem tem de alimentar a família. Não há dia santo que lhe valha, o trabalho está sempre à sua espera. E elas apresentam-se de bata vestida e lenço à cabeça. Sempre. 

O dia amanhece frio e a noite ainda não se foi por completo. Para espantar os arrepios acendem a lareira que dá outro alento à casa. O crepitar da lareira já garante meio sustento. Pegam no alguidar de barro, já marcado do uso, e deixam-no em cima do velho banco de madeira. Por baixo, uns panos feitos de restos para amparar as pancadas que o trabalho não é de brincadeiras. 

Juntam-se várias mãos. Diferentes gerações, o mesmo espírito, os mesmos braço feitos de força. Dois dedos de conversa e outros tantos de trabalho que assim, com companhia, até vai embalado.

Preparam as coisas a olho que as medidas só as usa quem não tem mãos treinadas. Deixa-se a margarina em banho-maria. Segue o resto para o alguidar. Um de farinha com fermento e outro tanto daquela que se encomendou ao padeiro. Sal. Açúcar nem vê-lo que a massa é assim mesmo. A raspa dos limões que se trouxe da vizinha, e da laranja que se foi buscar ao quintal. Mais o sumo que sempre adoça. 

Mete-se a cafeteira ao lume que o corpo pede o café, e as mãos vão ao trabalho. A manteiga derretida e é começar a juntar tudo. Com paciência e o seu quê de sabedoria. Um amassar com precisão que isto não se faz de qualquer maneira. É o saber que está pronto só de olhar. Passa a cafeteira para a borda da lareira enquanto se espera que a borra assente e verifica-se o tempero da massa. Quando está no ponto, passa para o balcão e é batida até o trabalho ser dado por feito. No meio de conversas e risos perdidos que a vida pode ser triste, mas ainda não levou a capacidade de sorrir. 

Massa estendida e o cheiro a cru a misturar-se com o café da borra. Óleo a aquecer na panela grande. O garfo próprio à espera. 

Cortam a massa sem hesitar e levam-na ao óleo quente. O borbulhar a crescer e o coscurão a ganhar forma. As bolhas da massa a rebentar. O cheiro a óleo quente e massa frita. Os braços a queimar. O açúcar e a canela prontos para o final. 

Ainda mal nasceu o dia e aqueles corpos já contam com horas de trabalho. O calor do lume a aquecer-lhes a cara. E uma travessa de coscorões pronta para a família e para quem quiser que comida é coisa que nunca se nega. 

Que venha a noite de Natal.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A água leva o que é seu

Já vinham marcados no calendário. Eram os dias difíceis. O céu carregava e cá em baixo o rio entrava pelo que era seu. Ou o que assim considerava. Certo como a mudança das estações. Vinham os dias frios, as fogueiras davam calor e logo a seguir aparecia a chuva. E ai se Deus a dava. Um peso de água que ninguém parava. Era ver chover e rezar. Nada mais. Pedir auxílio divino naquilo que o homem não tinha como controlar. Que alguém olhasse pelos que ali estavam.

Chovia dias a fio. Sem tréguas. O caudal galgava as margens que eram suas. A ponte desaparecia e ali ficavam eles. Do lado de lá. Isolados. À espera do que estava para vir e que já sabiam como era. Uma vida inteira daquilo. Conheciam a subida da água antes de começarem a andar.

O auxílio chegava mais tarde. Vinham os que lhes serviam de ponte. Ao longe, apareciam os barcos. Tão grandes que traziam dois homens. Um nos remos e outro na vara. Lá iam eles. Homens de corpo feito, braços de trabalho.

- Ai que me fico aqui - gritava uma com o medo de arriscar viagem.

O barco que parecia demasiado frágil. O medo a formar-se nos gritos. A morte a espreitar no rio.

- Se tem medo, fica - diziam os barqueiros que não levavam quem tremia. 


Eram as regras. Quem ficava pálido com a travessia ou quem clamava por auxílio superior, ficava. Os que tinham coragem faziam-se ao caminho. Homens de pés na água. Mulheres carregadas às costas. Meia-dúzia de cada vez, nunca mais e às vezes menos. Sem protecção que lhes valesse que não há lembrança de problemas de maior.

Seguem pelos terrenos alagados, pelo rio que dobrou em altura. O barco a fugir aos perigos, às correntes traiçoeiras. Os homens com os braços doridos do esforço. Barco cheio de corpos pesados. Remos de madeira a levá-los ao lado de lá.  Os músculos a ameaçar romper, o corpo a não denunciar fraqueza. Até o desembarque na outra margem. Sem abrandar.

Os passageiros faziam-se à terra firme. Deixavam uma moeda a quem os tinha levado na viagem sem bilhete que se pagava por gratidão. Pouco, que os tempos não davam para mais. Para o gasto e já era uma sorte. Para a bucha e o copo de três. 

Os barqueiros despediam-se e voltam a fazer-se ao rio. De lá para cá e de novo para lá.  O corpo sem descanso. Cansado como nunca tinha deixado de estar. Os bolsos sem dinheiro. O rio a subir a margem. As pessoas a precisarem de passar. Os pescadores a dar a mão.

Eram uns para os outros. O dia de amanhã só a Deus pertencia.