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quarta-feira, 6 de março de 2019

Quando o entrudo saía à rua

Quando chegavam os dias em que se dizia que ninguém levava a mal, eles encontravam-se no sítio de sempre. Os mesmos de todos os anos com o juízo próprio de quem se acha muito adulto sem o ser. Eram novos. A idade era pouca e de adultos só tinham a altura como ouviam a dizer

- Parece que lhes põem adubo nos pés.

Nos dias que antecediam a tarde em que o  senhor Padre abria as portas da igreja para a quarta-feira de cinzas, um deles abria a porta de casa aos outros e faziam-se às roupas e aos trapos que encontravam. Tudo servia. Eram batas com a cor a desaparecer, fatos oleados que deviam estar no campo e não em brincadeiras de crianças, meias pela cabeça e pelas pernas. Roupa por cima de roupa até deformar o corpo. Cajado, ou pau que lhe fizesse vez, na mão.

Saiam em grupo, quando a noite já ia alta e a rua era iluminada por uns candeeiros de luz pálida e tímida. As suas sombras faziam dois de cada um e estendiam-se à sua frente. O cajado anunciava-os ao mesmo tempo que as portas trancavam-se por dentro.

Eles lá iam. Rua acima para fazer rua abaixo a seguir. Um a arrastar uma perna, outro a fazer que era manco e todos a disfarçar quem eram. Pelo menos enquanto se lembravam. De vez em quando lá havia um que, cansado de andar com o corpo dobrado e a bambolear, fazia-se ao passo normal até que alguém o chamava à razão.

Batiam às portas de punho fechado. Várias vezes a várias portas. Até que alguém, distraído das datas em que andavam, abria uma e eles entravam sem pedir autorização. Verdade seja dita que quem não fala não pode pedir e deles não se ouvia uma palavra que fosse. Entravam por ali dentro e faziam como se fosse sua a casa que era dos outros.

- Mas quem é este?

Tentavam uns e outros adivinhar quem eram aqueles. Sentiam-lhes as mãos. Viam-lhes o andar. Tentavam destapar a cara. Lançavam apostas sobre quem eram. Nunca ninguém as confirmava e eles faziam-se às ruas. Agarravam em quem se atravessava no seu caminho sem delicadezas. Ouviam-se os gritinhos e os risos ao longe e já se sabia

- Eles já andam por aí.

- Tu fecha a porta antes que eles entrem por aí dentro.

Mas nem todas estavam fechadas e nem todas as ruas estavam vazias. E eles percorriam uma por uma. Cajado a marcar o passo e cara tapada. Naqueles dias em que ninguém levava a mal, o entrudo saía à rua. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

3 anos a andar Lá pela Terra

Há dias em que se apaga tudo o que se escreveu antes. Há dias em que se escreve e fica tal e qual como está. Ainda há outros em que se escreve e rescreve, no computador, no telemóvel, no papel. Em que se escreve a azul e se emenda a vermelho até ficar. Há dias em que nem se sabe o que escrever. No meio disto tudo, são raros os dias em que não se escreve ou não se pensa nisto do Lá pela Terra. Em que uma expressão ou um comentário a que ninguém dá importância ficam gravados porque fazem parte de uma memória que se perde, de uma vida que os de hoje (eu incluída) não sabem o que foi. 

É assim que o Lá pela Terra se faz. Aos poucos. Com atenção, a aprender a saber ouvir e a ter certeza que esta coisa de pôr em palavras os ensinamentos que se ouvem pode ter dias complicados, mas vale a pena. Porque faz alguém lembrar-se das coisas que a avó dizia, porque faz uma avó contar aos netos como era no seu tempo. Porque, de vez em quando, há quem se sente ao pé de mim e me conte qualquer coisa que vem lá do passado e que são memórias já meio perdidas pelo passar do tempo, mas que lhes sabe bem recordar. Ou então, alivia-lhes a alma. 

E o que começou sem grande certeza daquilo que era, tornou-se num projecto que já me ensinou mais do que alguma vez pensei ser possível. São três anos de Lá pela Terra. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Quando o rei fazia anos

Da avó recebia um envelope com notas que ele passava à mãe sem lhe ligar grande importância. Os embrulhos que os pais lhe davam eram rasgados sem cerimónia com direito a espanto quando eram brinquedos e a um encolher de ombros quando aparecia mais uma camisola ou umas calças. Um obrigado dito com bom ar que era assim que o tinham ensinado e começava a espera pelo momento mais importante do dia.

O seu coração disparava quando, à hora marcada ou lá perto, que os miúdos não sabem que as horas são para cumprir, a campainha começava a tocar sem parar até ao ponto em que se tornava tão irritante que a porta da frente ficava encostada e acabava escancarada. E eles iam entrando, com energia a mais e paciência a menos, sem conseguir perceber que se podia falar sem ser a gritar ou com demasiada vontade de percorrer todos os cantos à casa. Não que lhes tivessem dado autorização.

O espaço não abundava. Eram casas pequenas, feitas a pensar nos que lá viviam e não naquelas dezenas que apareciam uma vez por ano. A sala de jantar, que costumava estar impecavelmente arrumada à espera das ocasiões que justificavam o uso da loiça que vinha do enxoval, estava virada do avesso. As cadeiras tinham desaparecido, o papel de embrulho estava espalhado sem grande critério, o cheiro a óleo quente começava a invadir a casa e a mãe, que andava metida naquela confusão há mais de uma semana, estava quase a dar em doida.

Eram mais de vinte, bem mais, os miúdos que o filho convidara e ela tinha preenchido à mão os convites que ele levara para a escola com um sorriso de orelha a orelha. Agora, só a imagem desse sorriso é que acalmava a antecipação do trabalho que ia ter noite dentro quando a casa estivesse vazia.

Os risos e os gritos vinham de todo o lado. Sabia que ia encontrar rissóis meio mordidos e restos de salame espalhados pela casa. Era possível que aquelas raspas verdes que faziam  as vezes de relva no bolo acabassem por se esconder em cantos que ela só ia encontrar na altura das limpezas. Isso e os bonecos que, pelas suas contas, já tinham desaparecido dois e ainda nem tinham cantado os parabéns.

- Venham já para dentro.

Dois deles, mais afoitos, brincavam à apanhada no meio da estrada sem olhar aos perigos.

- Todos para a sala que vamos cantar os parabéns.

Chegavam aos poucos. Gritavam quando acendiam os foguetes. E quando começavam a cantar os parabéns. E quando a cantoria desafinada acabava em palmas e o aniversariante, acompanhado de mais uns quantos, soprava para cima do bolo.

Voltavam à brincadeira sem mostrarem grande interesse no bolo que entretanto já tinha perdido mais um jogador e uma baliza. Roubavam um rebuçado de fruta, bebiam um copo de sumol e voltavam às correrias até ser hora de voltar a casa, quando os pais tocavam à porta para os levar e eles pediam, com olhinhos tristes e ameaça de beicinho

- Só mais um bocadinho.

Quando a casa ficava vazia e o pequeno aniversariante dormia o sono dos justos, a noite já ia alta, mas ainda se adivinhava longa. Os pratos de plástico espalhados, o chão pegajoso da comida, o cheiro a cansaço misturado com comida doce.

Enquanto se dobrava para começar a arrumar as coisas e puxava para si a vassoura e a pá, ela repetia com os seus botões a mesma lenga-lenga de todos os anos.

- No próximo ano não faço nada disto.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O pecado

Falava-se, à boca pequena, do que tinha acontecido a uns e a outros. Histórias murmuradas, passadas e acrescentadas de boca em boca. Sempre a defender a verdade que não sabiam se aquilo que diziam tinha. Sempre a surgir quando havia rumor que mais um tinha ido assim. 

A família, que andava em línguas alheias contra a sua vontade, recolhia-se num luto carregado, encarava o chão à frente dos pés e fechava o semblante sem coragem de mostrar os olhos aos outros. Eram as perguntas que não chegavam a fazer, a pena que escondia um certo gozo de saber que na sua família não havia pecado assim. Pelo menos que tivesse sido descoberto. 

Não confirmavam nada e sabiam ainda menos, mas as conversas são como as cerejas e ao povo, entre o trabalho no campo e o copo na tasca, falta-lhe o que fazer. Da pasmaceira vêm as ideias que soltam a língua naquilo que defendem saber. 

- Esse pendurou-se - diziam quando passava o cortejo e sem ter posto os olhos em nada que o confirme. 

E havia sempre alguém que ia buscar um pai ou o avô que fizera o mesmo. Uma prima que era fraca de cabeça e se tinha ido antes de Deus a chamar. Como se a tristeza estivesse no sangue. Como se o pecado que tanto apregoavam saltasse de uma geração para a outra. Como se o julgamento sem direito a juíz fosse merecido. Um sem fim de julgamentos que isso é que eles gostam. Disso e de chamar os outros de pecadores, que já se sabe que só Deus é que põe e dispõe nestas coisas da vida. Quem não cumpre o que está escrito não merece o descanso. 

E as famílias calavam a tristeza. Não diziam nada para que o santo padre concedesse a última benção com a esperança que isso lhes desse descanso. A vergonha de algo que nem sabiam o que era. 

- Então o que é que aconteceu? - perguntavam os que queriam mais motivo de conversa 

- Morreu - respondiam a seco. 

A tristeza ficava com eles. Dentro de casa. Na cama vazia, no lugar a mais na mesa, na falta de entendimento no porquê de se ir assim. As perguntas eram engolidas para que ninguém soubesse das suas desgraças. Para que ninguém os julgasse menos do que os outros. 

A vergonha a enterrar a tristeza que levou os seus pela própria mão. O pecado a entrar em casa.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os dias das mulheres

A sua figura enganava quem, sem a conhecer, a tomava por frágil. Faziam sempre isso. Afinal era mulher, pequena e magra, não esperavam muito mais do que fragilidade. Era isso que lhe ficava bem. 

Ela, a trabalhar desde que se lembrava, assumia essa imagem que tinham dela. Fez isso tantas vezes que a tomou por real. Era tal como diziam. 

Uma miúda. Antes dos trinta já tinha dois filhos e o terceiro estava a caminho. Nada de extraordinário, algumas da sua idade já tinham mais bocas para alimentar. E ela, com dois, ainda se aguentava bem. Quando chegasse o terceiro ela logo via como se arranjava. 

Trabalhava no campo e no que conseguia arranjar. Era preciso pagar a comida que ia para a mesa. Mais o conduto, que as batatas e as couves vinham da parte de trás da casa. Mas o bocadinho do touchinho e o chouriço é que davam o sabor. O resto vinha do chão que ela e o marido semeavam. Os dois, por igual. Embora ele tivesse o dobro da sua altura e a força de uns quantos homens. 

Os pais, com o corpo desfeito do trabalho que não poupava ninguém e os bolsos vazios da reforma que nunca chegou, ocupavam o outro quarto da casa. Era responsabilidade dividida com os irmãos, mas ela era a mulher. E a mais nova. Tinha-lhe calhado a responsabilidade e ela, que sabia o que era esperado de cada um, nunca tinha criticado. Ela preparava-lhes a comida, a roupa, contava os trocos para que fossem ao médico. As suas contas nunca davam em somas. 

E depois eram os miúdos. Um sem fim de preocupações. Dois rapazes. Podia ser que ao terceiro viesse uma rapariga que a ajudasse ao fogão ou a passar um pano pelo chão daquela casa. Os seus joelhos já estavam calejados de tanto esfregar. Uma a limpar e tantos a sujar dava sempre em contas que nunca batiam certo.

Fazia os seus caminhos de cesta à cabeça. Costas o mais direitas possível que as dores já se tinham tornado rotina. E assim levava os seus avios e a comida que lhe confortava o estômago no campo.

Em casa, era o jantar que ia à mesa a horas certas quando todos já estavam sentados à sua espera. Sem um agradecimento nem sequer um elogio. Ela também não os queria. Obrigação não e para ser elogiada. 

Chegava à cama quando a noite já estava perto de terminar e deixava-se dormir o pouco a que tinha direito. Já nem sonhava. Só ficava ali, num limbo que mal chegava a descanso. A manhã seguinte era outro dia, em tudo igual ao que terminava e a todos os outros.

Quem olhava para ela achava-a frágil. Nunca a conseguiram ver como ela o merecia e ela nunca percebeu o quanto lhe deviam.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quem és tu?

Aproximavam-se de cara tapada e roupas que escondiam as formas. Mudos e calados. Nem se sabia se era homem ou mulher que ali se escondia.  

- Quem és tu? - perguntava quem os via de cara tapada. 

- ‎Ah, esse é fulano - respondia logo quem sabia tanto como todos os outros. 

- ‎, este é beltrano. Conheço-o ao longe - garantia outro com tanta certeza quanto o anterior. 

Não se fazia o baile sem uns quantos assim, escondidos, a atentar o juízo dos outros que por ali estavam, mascarados com o que tinham encontrado. Tinham dado a volta aos baús das avós e aos armários das mães à procura do que lhes servisse o propósito. Dali apareciam as velhas e as matrafonas só para a galhofa e mais uns quantos piratas e princesas daqueles que levavam aquilo a sério. 

A sala a que se resumia a associação transformava-se em salão de baile com direito a palco para o conjunto e bar para os comes e bebes. A folia não se faz a seco nem de estômago vazio e a aldeia inteira queria espairecer as ideias.

Os pares enchiam a pista de dança enquanto o conjunto marcava o ritmo. O agarra aqui acompanhado do chega para lá. 

- É carnaval, ninguém leva a mal - isso é o que dizem, mas o respeito é muito bonito. 

Os cachopos, pouco dados a danças e bailaricos, tentavam entrar pela janela da sala que servia de armazém. Uns heróis, pensavam eles enquanto ignoravam que toda gente sabia o que eles andavam a fazer. A mocidade é sempre a mesma coisa e já todos tentaram roubar uma garrafinha de gasosa. Dava aquela sensação de ser quase adulto.

A noite não terminava sem que fosse anunciado o prémio da melhor máscara. Lá era entregue a cerveja como troféu quando o álcool já começava a aquecer o corpo. Festa sem uma pinga a mais nem soava ao mesmo. Que haja alegria durante a noite que de manhã voltam todos a ser aquilo que são. Sem máscaras que os escondam.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que a vida ensina

"Não sei o que isso quer dizer. Se letrado é ter lido muitos livros isso não é cultura. Cultura é o que nós fazemos. Olhe, sabe, uma vez o Agostinho da Silva a seguir ao 25 de Abril convidaram-no para presidir à comissão contra o analfabetismo. Ele dizia "Meu filho, eu estou tão preocupado porque a maior parte das pessoas cultas que eu conheço são analfabetas". Por exemplo, saber fazer pasteis de bacalhau é uma forma de cultura tão importante como escrever um livro. "
António Lobo Antunes, in Jornal das 9
Entrevista completa aqui

Ela não tinha nada a oferecer. "Oh avó, tu não sabes nada", diziam-lhe os netos quando ela ficava espantada com a vida que eles levavam. Tentavam ser simpáticos. Uma festa no braço a acompanhar a observação, o compôr da manta que lhe aquecia as pernas. As palavras que lhe ficavam. “Não sabes nada”. 

Era verdade. A vida não lhe tinha dado nada que valesse a pena. Não se escreviam histórias sobre os seus dias, as suas lutas não tinham memória. Só lhe tinha calhado em sorte o trabalho, a casa, o marido, os filhos. Paridos e criados naquelas paredes que mal davam para dois, mas que tinham recebido seis. Dois deles perdidos quando ainda nem tinham aprendido a andar. Voltou a viver deixando parte de si enterrada naquele terreno de campas e flores murchas. Aprendera a suportar uma dor que não tinha sentido, que não era normal. Mas fizera os seus dias. Uns a seguir aos outros com uma cruz que lhe pesava a cada passo. Mas disso não falava. 

Os netos deixavam-lhe as frases caladas na garganta. As histórias que queria contar para quem não a ouvia. “Talvez tenham razão”, pensava ela, “ O que é que uma velha como eu, que mal sabe ler e que nunca viu nada para além do mar, tem para oferecer?” 

Esfregava as mãos. A pele marcada com rugas e calos, o resultado de uma vida de trabalho. As mesmas que amassavam o pão até ficar no ponto. Sem receitas nem medidas. A olho, a sentir. A textura, a humidade. O ar do forno a dar sinal de estar pronto para o pão. A intuição de quem faz aquilo desde que nasceu. 

Sabia qual o tempero dos fritos de Natal só de os cheirar. Se era preciso mais laranja ou se estavam a cortar no abafado. Os seus braços tinham uma força que não cabia no seu meio metro de altura. As estações anunciavam-se sem alarido. A mudança da cor do céu ao entardecer, o vento que soprava mais seco. A época de plantar para depois colher. Nunca lera um livro. A escola tinha terminado na terceira classe com uma enxada na mão. Para que é que ia perder tempo a ler quando o dinheiro faltava em casa. Sabia escrever o seu nome numa letra que já nem se usava. Nada mais. 

Não conhecia o mesmo que os netos. Nem que os filhos. Esses que tinham estudado fora com o trabalho daquelas mãos. Olhava-os com orgulho e com um quê de incredulidade ao ver neles tão pouco dela. Da sua história. Aqueles que eram parte de si, nunca saberiam contar qual tinha sido a sua vida. Não iriam entender o porquê de mal ler, de falar para si quando estava sozinha e se lembrava das angústias que a vida lhe tinha dado. 

Mas talvez eles tivessem razão e ela não soubesse nada. Talvez aquilo que a vida lhe tinha ensinado com os dias iguais, com o que lhe tinha roubado e com o que lhe tinha dado, não fosse nada além de banal. 

Mas, agora que olhava pela janela, sabia que amanhã ia chover e que os netos nunca iriam perceber como é que ela acertava sempre nestas coisas.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A excursão

O autocarro parava sempre no mesmo sítio que assim não havia quem se perdesse. Era palavra passada de boca em boca e escrita numa folha de couve. 

Antes da hora marcada começava a agitação. Ainda o sol não tinha nascido por completo, já eles esperavam. Chegavam as crianças pela mão e as mulheres acompanhadas dos maridos. Apareciam todos bem arranjados dentro daquilo que os seus bolsos deixavam, e de cesta pronta debaixo do baço. Vinha cheia com o farnel que tinham preparado em casa que o que se quer é ser poupado. 

- Oh Maria, também vais? 

- ‎Ia lá ficar em casa. 

Meia dúzia de "olá. Estás bom?" e lá ficavam a dar à língua enquanto esperavam. Era para entreter. Assim que o autocarro parava, arrumavam o farnel e subiam à procura dos lugares. Os mais novos só paravam no banco do fundo enquanto os outros se iam arrumando onde calhava. O importante era ir que a vida não lhes dava muitas oportunidades de fugir aos caminhos de todos os dias. 

Aquilo era trabalho casa e vice-versa e não há alma que aguente. E assim lá iam eles. Animados. Faziam o caminho até à capital ou até onde os quisessem levar. O que era importante era ir e que não fosse para ver desgraças. Para isso já bastava a vida de todos os dias. A viagem passava entre cantorias e conversas que nunca chegavam a acabar. Falava-se de tudo e de todos. 

Quando a fome dava sinal, servia-se o farnel num qualquer canto que desse para estender a manta. O pão-de-ló e o frango corado mais umas pataniscas e uns pastéis. Uma pessoa é remediada, mas ainda enche o estômago. Mais um bocadinho de pão e um gole de vinho. Voltam quando o sol já se foi. Com um dos bonés a passar de banco em banco a recolher uns trocados que o motorista bem merece.

Amanhã voltam ao mesmo. Às preocupações e ao trabalho que a folia é boa, mas é só de vez em quando. 

- Oh Manela, na próxima também vamos? 

Então não? Nem a excursão se fazia se ficassem em terra.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ser o que se é

Era diferente. Sempre tinha sido. Não se lhe conhecia outra maneira de ser que não fosse fora do habitual. Fora do lhe era esperado. Era esperado de todos, mas havia quem não cumprisse. Quem fugisse do caminho que lhe estava destinado. Era assim que se tornava alvo do olhar de todos os que lhe cruzavam o caminho. Mesmo dos que já lhe conheciam a exuberância. 

- São as vaidades. 

Era o que diziam. As vaidades, a mania, o querer mostrar-se. A explicação nunca era simpática nem compreensiva. Não era o que procuravam. A verdade é que ou são como todos ou assim são. Não há outra opção. São regras daquelas que nunca chegaram a estar escritas. 

Mas continuava a ser diferente, mesmo com dedos apontados e olhares reprovadores. Mesmo que as conversas se continuassem a fazer ouvir nas suas costas. 

Comentava-se a vergonha que era tudo aquilo. A roupa que só se via na cidade. O chapéu em vez do boné. O vermelho da má fama nas unhas. Um sem fim de coisas que não eram permitidas. A voz dela que se ouvia à distância como se tivesse algo de importante a dizer e ele que parecia tão frágil que ninguém acreditava que nascera homem. 

- Mas é assim que uma pessoa se comporta? - os outros sempre com a preocupação na vida que não era sua. 

A culpa era dos diferentes, daquela mania de se ser o que é e não os que os outros querem. A falta de respeito pela mentalidade que oprime quem não vive refém dela. 

- Olha que as pessoas vão falar - diziam quando aconselhavam precaução, quando tentavam mostrar o caminho que tinham por certo. 

- Já não o fazem? 

- É melhor não dar mais razões. 

A culpa colada a quem nada fez. O esconder daquilo que se é. O ser tudo, desde que o tudo seja o que os outros querem. Até ao dia. Quando o julgamento se torna demasiado duro, quando se procura viver em vez de não fazer mais do que sobreviver. O dizer adeus sem o acompanhar de até um dia. 

Um dia fazem a estrada sem volta e deixam para trás as vozes que nunca se calam. 

- Nunca mais se viu por aqui - é o que dizem dos que foram enquanto apontam o dedo a mais um.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O nascer do novo ano

A banda dava sinal de alvorada assim que o dia amanhecia. Ano novo recebido com o bombo a marcar tempo e os músicos, mal protegidos do frio, a marchar rua abaixo e rua acima. Não era tempo de grandes alegrias e muito menos de festejos. Era só mais um mês que começava com o nascer de um novo dia. Mas este tinha direito a música e quando a banda toca há outro alento para o corpo. 

As pessoas apareciam às portas. Roupa de trazer todos os dias que a boa está guardada para os dias do senhor. Palmas a acompanhar as marchas e umas cantigas improvisadas. Os vizinhos que se encontravam à porta e falavam do mesmo de sempre.

- Então e o seu home

- Tá lá praquele lado - diziam elas indicando a direcção com um gesto largo e com o ar de que a pergunta nem se punha.

Juntavam-se una quantos ali no sítio do costume. Só os homens e os miúdos. Todos à roda do tronco que ainda ardia a bom ver. Fazia mais de uma semana que aquele fogo aquecia os corpos e puxava à conversa e à pinga. Alimentado a lenha que se apanhava por aqui e por ali e que aquecia as noites que gelavam os campos. Deixavam o chouriço a assar, o pão cortado com o velho canivete para acompanhar, o toucinho a pingar a gordura para o lume. Os bonés já a inclinar. O corpo a aquecer que o ano amanhece frio e o vinho só dá calor até certo ponto. Falam da vida de língua afiada, mas se lhes perguntarem dizem que só as mulheres é que falam assim. Pudera, os homens são sempre homens.

As mulheres estão recolhidas em casa com os miúdos de mama agarrados às saias e as miúdas agarradas ao trabalho que é de novas que aprendem. Há lá tempo para brincadeiras. Nem se sabe bem o que isso. Nem bonecas se encontram, quanto mais. É saber onde está o sabão e andar de olho vivo nos irmãos. 

O novo dia é só mais um dia. Em casa que o tempo não deixa ir para o campo. Que se ouça uma modinha que pelo menos isso anima e o corpo balança a tentar acompanhar o ritmo. Discreto que não se quer falatório.

Lá veio mais um ano. Se não for melhor, que pelo menos seja igual ao que passou que a esse, e às suas manhas, já há quem conheça. 

Venha o novo ano. Dias iguais a todos os outros, trabalho a moer o corpo e as preocupações a moer a cabeça. Que se bata umas palmas quando passa a banda, sempre alivia as cruzes que se carregam.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Depois da época

E termina assim. A casa vazia depois de dois dias de barulho e correrias. As cadeiras que sobram para o dia-a-dia que ali se vive. A terra que diz adeus aos que já não se consideram seus. 

Foram para longe. Um longe que não se mede por quilómetros ou o que lhe valha, mas que vive no desinteresse que só esquecem quando se acendem as luzes da árvore e o bacalhau e as couves vão ao lume. 

Ouvem-se as brincadeiras dos mais novos que não conhecem aquelas ruas e que dali só sabem que é a terra. Assim, simples. Sem outro nome. Sem mais história ou amor. A terra, lá onde vivem os avós e aquelas pessoas que se dizem família, mas que eles não sabem quem são. 

Vai-se o Natal nos carros que partem sem olhar para trás porque para a frente é que fica o caminho. Na cidade, na vida que se mostra aos outros como se só aqueles que deixam a terra fossem gente digna de memória. Cheios de conhecimento na ponta dos dedos e de cabeça vazia de saber. 

Seguem com o corpo cheio de açúcar e óleo. O polvo e o bacalhau a brigar com o peru. Os movimentos presos com o excesso de comida dos últimos dias. 

- Mas para que é tanta comida? - dizem eles enquanto se servem uma e outra vez sem que tivessem dado um minuto que fosse para ajudar. É precioso o seu tempo, o dos outros é outra história. 

Dizem um adeus sem energia e um até já despachado. Esperam a visita nas avenidas movimentadas. Onde interessa. A aldeia fica para dali a um ano, quando o senhor de vermelho voltar a fazer uma visita. 

Ficam para trás as memórias e as histórias que são só suas e dos seus, mas que preferem que assim não seja. 

- Nem me lembres disso - dizem quando se fala da infância em tempos menos abundantes e de mais inocência. De pernas esfoladas e comportamentos que tinham o seu quê de palermas. 

Lá vão cheios das suas grandezas deixando para trás a certeza, que não chegam a conhecer, que diz que o melhor é aquilo que se esforçam por não recordar. 

É o Natal que devia ser todos os dias, mas que se escapa sem chegar a existir. Para os que assistem à partida ficam as casas mais vazias, os corações apertados de saudades, a distância a pesar nos dias que já são tão sós. 

Lá pela terra só sobram os que de lá não querem sair e que sabem tanto sem que os deixem mostrar. Foi-se o Natal, foi o que foi.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Não escapa uma

Ouvem-se as conversas cheias de certeza que a vida alheia é sempre certa na boca de quem a não vive. 

- É o que te digo. Vais rua acima e é tudo mulheres de má vida. Não escapa uma. Para baixo também há que se lhe diga.

Lá está. Sentença dada como se ali estivesse o pilar da retidão moral. Sem dúvidas. É assim e ponto final. Para os outros que quem tantas certezas não fala de si e muito menos dos seus. Se falasse diria que a sua porta era não na sua lenga-lenga. Não se esperava outra coisa. 

É o dedo espetado à vida alheia por uma língua afiada em relação a assuntos que não são seus. A pessoas que conhece a cara, a voz e as rotinas. Nada mais. Nenhum seu que nos seus não há maus exemplos nem pecadores. São pessoas com o amém na boca e a mão a bater no peito. Correctos. Como se quer. 

- Só digo a verdade - a sua pelo menos que a verdade dos outros conta pouco em situações destas. 

A sua está sempre contra os outros. Boca cheia para cuspir no caminho que os outros fazem.

Conversas de esquina e de bancos de igreja. De casa. Falam de boca cheia e visão bloqueada por palas que não deixam ver além das suas verdades. Se é que se podem chamar de verdades. 

- É só má vida, uma vergonha. 

Não tão grande como falar da vida alheia, mas isso são outros quinhentos e para esses não há razão que se aplique. Porque não se quer que assim seja. Porque olhar para dentro das paredes a que se chama casa implica olhar para os seus. Tal e qual como eles são. E quando se olha com atenção ainda se pode encontrar alguma coisa que não se queira ver. Com eles, os seus, não há mal dizer que entre. 

Os sorrisos para os que se cruzam consigo escondem as facas afiadas que espetam nas suas costas.É o ser menor do que aquilo que se pensa. A pequenez das palavras que se escolhe para atirar aos outros.

Afastam-se das mentes que dizem ser pequenas, da terra que acreditam não ser suficientes para eles. Falam dos que ficam para trás com uma altivez que só quem se acha melhor do que os outros pode ter. Deixam a terra, mas as ruas da má língua ficam-lhes coladas ao corpo. Uma doença crónica de mal dizer e nariz empinado como sintomas.

Qualquer dia foge-lhes a boca para a verdade e dão os seus como iguais aos outros. Dignos de juízos de valor e pecadores. Tal e qual como os da porta ao lado. Nem mais nem menos. Feitos a papel químico. Qualquer dia não há mão a bater no peito que lhes valha e nada que os salve de quem desenrolou a língua para falar de boca cheia daquilo que não conhece. Vai-se a ver e, qualquer dia, são eles que andam de facas espetadas nas costas.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lá pelo Instagram...à porta de casa

Ainda se encontram os sacos pendurados à porta enquanto esperam que alguém os vá buscar. De manhã, pela fresca, deixam-nos ali. Pendurados no portão e na porta. Alguns com um recado lá dentro, mas, além disso, estão vazios. Sacos de pano pendurados na porta, protegidos por um saco de plástico se o tempo ameaçar chuva. Sempre as mesmas casas. Ainda hoje. Todos os dias. 

 São rituais que ficam. O conforto da garantia de pão fresco mesmo quando não há ninguém em casa para responder ao apito. A confiança nos clientes de sempre. Os gostos e as manias que se conhecem de cor ao final de uns quantos anos. 

O aviso ouve-se quando ainda não se vê a carrinha branca. A buzina a encher a rua. O mesmo ritmo. Mais ou menos à mesma hora que esta profissão não exige pontualidade suíça. Pára no sítio de sempre. 

Tempos houve, daqueles que eu ainda me lembro, que as mulheres se juntavam à espera. Ficavam de pé, encostadas ao muro, de batas traçadas e sacos de pano na mão. Trocavam dois dedos de conversa, juntava-se mais uma e outra e esperavam que viesse o padeiro. No sítio de sempre. 



Hoje a rua está vazia e ele anda de casa em casa a recolher sacos. Mal cozido para uns, quase pretos para outros. Num dos sacos um pedido para mais uns daqueles queques do costume. “Vai ter a visita da neta”, pensa ele que já os conhece. 

As contas ficam à espera de acerto. Os clientes são de confiança e o pão não se nega a ninguém. Lá para ao fim-de-semana, quando tiver mais do que sacos na porta à sua espera, acertam os trocos. Trocam dois dedos de conversa que também fazem falta. Um “Como está a família?” ou algo do género. Por agora, lá vai ele. Rua acima com a buzina a anunciar a sua chegada. Bata branca, carrinha a cheirar a farinha e a forno de pão. 

Para trás fica a rua vazia e os portões adornados com sacos de plástico. Papossecos e bolas, queques e mais uns bolos.

Lá ficam, à espera, até que alguém volte a casa.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O almoço da muca

A banda saía à rua de manhã cedo. Já o tempo estava frio e o casaco lá ajudava a compôr a farda. Iam dar os bons dias à população que abria a porta de casa só para os ver passar. Todos os anos a mesma coisa. Tão certo como o Natal ou a festa à Nossa Senhora. Vinha o Outono, as folhas deixavam as árvores e a banda desfilava no último fim-de-semana de Outubro.

-Lá iam eles em cumprimentos à aldeia. Tocavam o hino com o orgulho que só se tem naquilo que se vê crescer do nada. Naquilo em que se trabalha sempre que se pode para que se mantenha. Sem olhar ao tempo que se rouba à família. Sem pedir nada em troca. O bem de todos acima do pessoal. É para os outros, para os que ali estão e para os que ainda virão. Para que aquela casa abra as suas portas a muitos que ainda nem por aqui andam.

E a sala tornava-se pequena de mais para dar lugar a todos os que apareciam para o almoço. Mesas arrumadas ao lado umas das outras, cadeiras apertadas e que causavam um desconforto de que ninguém se queixava. Uma aldeia inteira e mais uns amigos a celebrar.

Da cozinha vinha o cheiro do almoço feito por quem nada recebia em ali estar. As mulheres dos directores, as mães, as tias e aqueles que só vinham ajudar. Panelões onde se cozinhava desde manhã cedo. As batas sujas e os pés doridos. O estômago em vazio que quem trabalha para alimentar os outros só come quando já pouco sobra. Os directores a servir à mesa. As tigelas da sopa, as travessas cheias de comida. O barulho dos talheres e as conversas gritadas a encher o espaço. A mesa dos músicos.

A festa que se prolongava pela tarde. A música que subia a palco. as marchas e os paso doble a animar o dia que já cheirava a frio. Os melhores do mundo aos ouvidos de quem os acompanhava. O beberete a receber a noite. A generosidade da população a encher uma mesa que dava de comer a quem se quisesse juntar. O frango assado que há coisas sem as quais os músicos não passam.

Chegava o final da festa e a sala que parecia tão apertada transformava-se num salão. Ficava quem ainda tinha de arrumar o que sobrava da festa. Limpar as mesas, arear os tachos, arrumar a loiça. Trinta por uma linha que, já diziam os antigos, quem quer festa sua-lhe a testa. 

E chegavam tarde a casa, mais uma vez. Prontos a cair na cama e com o cansaço a moer-lhes o corpo. O trabalho sem vencimento que lhes roubava horas à família e lhes acrescentava preocupações. O orgulho de ver a banda marchar rua acima. Mais um ano.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Desta condição

Não se escolhe como se nasce. Nem onde se nasce nem quem somos quando chegamos a este mundo. Não é preciso. É o sexo que decide quem somos. Homens e mulheres. Eles de um lado. Elas de outro. 

A eles tudo o que é grandioso. A força, a autoridade, o punho pesado que é desculpado pela condição de ser homem. De ser ele que representa a família. De se gabar de ser o ganha pão.

A elas a submissão. Os olhos no chão, as mãos trémulas, a obediência que é o que se quer de uma mulher. Que seja prendada, pura e que saiba o seu lugar. Não se pede mais. É a condição da mulher, a flor frágil que leva o mundo à frente, mas que se mantêm na sombra.

O homem entra em casa sem se desculpar pelas horas. O cheiro a vinho fermentado acompanha-o e confunde-se com  cheiro a suor seco e pó das terras.

Elas não o encaram, não o chama à razão que não é isso que se pede delas. 

- As mulheres têm de estar lá para eles. Só isso. Poupa o sorriso que não há pior do que uma mulher tonta. Fecha o colarinho da camisa e desce a bainha da saia que não és uma mulher da vida. Dá-te ao respeito. Depois não digas que falam de ti. Se não te dás ao respeito o que é que queres? - eram as ordens da mãe, da tia, do olhar reprovador da vizinha que lhes acompanhava o crescimento.

O trabalho demasiado cedo e o chegar a adulta antes de ser criança. Próprio da condição com que se nasce. O respeito, sempre o respeito. É ela que tem de fazer por isso que os homens vivem de instinto e são o que são. Não se controlam, são as mulheres que têm de se resguardar. De os deixar ser o que o instinto lhes pede. A ela só se exige que seja aquilo que deve.

O dever colado a esta coisa de ser mulher. Um sinal de nascença que mancha a pele e faz a cabeça tombar para a frente. O corpo cansado do dia de trabalho e que ainda tem de se fazer às vontades do homem. Aquele que as esperou no altar. Aquele que lhe fez o favor de a tornar mulher decente e honrada. A aliança a apertar mais do que os sacramentos de Deus.

Os pés descalços no terreno incerto, a cesta à cabeça, os braços à cintura. O trabalho ao lado dos homens. Não, nunca ao lado, sempre atrás. Em silêncio, na sombra. A tratar da casa, a parir filhos, a tratar dos pais e dos sogros.

A vida cansada quando se acabou de nascer. A sentença de se nascer assim quando isso não se escolhe. A condição de ser mulher.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Trabalho fora de idade

A lei era diferente. Dizia que as crianças não podiam trabalhar, que o seu lugar era atrás das carteiras da escola com a bata branca vestida e respeito pela professora.

A realidade era outra. Era a que toda gente sabia, mas que fingia não ver. Olhos que não vêm... É o que dizem por aí. Eles lá sabem.

Ela era o que os olhos insistiam em fingir que não viam. Seis ou sete anos, não tinha mais. Pequena e delgada. Juravam que nem peso de gente tinha, se é que isso era possível. Honrava o nariz espevitado sem medo. Sabia onde ficava a escola, mas não lhe conhecia as salas de aula e nem reconhecia na professora a autoridade que diziam ter. Ela era diferente.

Quando se aproximou do capataz fê-lo sozinha. Sem sermão ensinado nem adulto que tratasse dos seus assuntos. 

- Quero trabalhar - disse com voz de criança, mas decidida.

O capataz, homem rude e de pele estragada, dobrou-se para a olhar. 

- Não podes - respondeu em tom de ordem.

Ela não se deu por vencida nem arrumou o assunto. Não ia para a escola que na sua casa não acreditavam nisso e, mesmo que acreditassem, faltava-lhes o dinheiro para cumprir as leis.

- Tiro as pedras da terra - propôs, mas completou com a sua sentença - Paga-me como as outras.

O homem tentou demovê-la. Explicou-lhe que havia quem chegasse sem aviso para garantir que as crianças estavam na escola e não ali. Crianças como ela.

A miúda, de cabelo solto e pés descalços, não desistiu, Ficou ali, a olhar para ele e só arredou pé quando teve a confirmação que podia voltar no dia seguinte. Voltou.  E no outro logo a seguir também. Todos os dias sem falta. Trabalhava tanto quanto as mais velhas. Cabelo tapado e avental à cintura. Sem cansaço.O corpo é novo, a energia não se esgota.

De vez em quando tinha de deixar o trabalho a meio e ir. O capataz, lá no alto, tirava o boné e levantava-o sem olhar para ela. Sem palavra. Ela largava as pedras no chão e corria descalça pelo terreno que tinha acabado de limpar. Voltava para casa. O lar onde devia estar sossegada e esperava que chegasse o dia seguinte para se apresentar ao trabalho.

Nessa altura já a ronda tinha terminado. Os que faziam cumprir as leis já tinham ido embora. Ela ficara. Sem ser descoberta. Sem conhecer números nem letras. Descalça a fazer-se mulher quando nem corpo tinha.

Os bancos da escola, esses nunca conheceu.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Se faz é porque faz, se não faz...

E lá fizeram. A custo. Saiu-lhes do corpo o trabalho para deixar aquilo tudo de pé de dar um orgulho às pessoas. É isso que se pretende. Dar uma alegria às pessoas que andam tão tristes. Mas não é fácil.

O calor é muito  e o trabalho não pára. É preciso deixar tudo pronto. É preciso que não falte nada. Mas o tempo corre contra quem põe as mãos na massa e as coisas nem sempre andam tão rápido como se pretende. Coisas da vida. Faz-se o melhor que se pode e não se pode pedir mais, não é?

- Achas que aquilo tem algum jeito?

Há sempre conversas. E sempre com o seu quê de desagradável. Nada está bem. Nada é tal e qual como devia ser. Porque se esqueceram de A ou de B. Porque decidiram fazer aquela tal coisa que ninguém percebeu. Há sempre uma razão. Qualquer coisa que não ficou bem ou que simplesmente não ficou como alguém, fora de todo aquele trabalho, queria que ficasse.

- Mas olha que aquilo dá trabalho. Já fizeste?

- Mas tu achas? Deus me livre de tal coisa.

Não fizeram. Nunca fazem. Mas sabem falar porque, já diziam os antigos, falar é fácil e trabalhar faz calos. Assim como assim, é preferível falar. E nisso são os melhores. Falam a olhar de cima, no descanso de quem não mexeu uma palha. São sempre os que estão mais descansados que mais coisas têm a dizer. O cansaço ocupa o corpo e a cabeça, o santo descanso deixa a língua mais solta.

Mas depois há o outro lado. Quando ninguém se chega à frente para fazer. Porque estão fartos de ouvir o que disseram dos outros, porque acham que é preferível ficar quieto do que andar no meio do fogo cruzado. E não se faz. As ruas ficam vazias, as coisas não acontecem.  Mas as conversas continuam a crescer pelos cantos.

- É impressionante como deixam morrer tudo.

 Esta gente nova que só pensa nela e já não sente amor pela terra.

É o que eles pensam e vão comentando uns com os outros. Há sempre qualquer coisa para dizer, mas nem sempre é bom. A maior partes das vezes não é.

É o diz que disse. O dizer só porque apetece falar.

E vive-se assim, no meio de conversas deitadas ao ar com críticas que nem se sabe bem de onde aparecem. Se faz é porque faz. Se não faz é porque não faz. Não é assim tão difícil.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nas carteiras da escola

Eles já iam a caminho da escola. Cabelos empapados em suor de andar aos pontapés numa bola de trapos. Cansados. Elas ainda esperavam enquanto eles iam indo. 

Esperavam à porta. Todos os dias. Fosse dia de sol ou estivessem num Inverno intenso. Pequeninas e de nariz arrebitado. Bata branca para todas e sapatos só para algumas. Tal como os meninos. Mas elas, bem comportadas e sorridentes, esperavam a professora para a acompanhar à escola. 

Os livros e os cadernos iam dentro das malas que levavam pela mão. Nem sempre de grande qualidade, mas serviam o propósito a que se propunham. Pelo menos para quem tinha cadernos para guardar e livros para ler. Havia uns quantos que entravam de mãos a abanar e olhar malandro que baixavam assim que passavam a porta. Era preciso cumprir as regras.

Respeito era o que se pretendia. Os professores eram a autoridade e os meninos obedeciam. Os meninos e as meninas. Podiam estar separados e elas podiam ganhar em comportamento, mas as regras eram iguais. Dos dois lados do muro. Sem excepção. Quem ousava pisar o risco tinha a régua à sua espera. Ou a cana. Usadas sem dó nem piedade ou arrependimento que lhes valesse. O que se quer é rigidez sem discussão ou reclamação. Era assim e mais nada. Ponto final.

E lá se sentavam dois a dois nas cadeiras de madeira, altas de mais para as suas pernas que ficavam a baloiçar. Atenção ao quadro, à professora. Aprender a ler e a escrever. Saber o nome dos rios e cognome dos reis. Isso e a tabuada. Tudo na ponta da língua sem hesitação na hora da responder. Não havia tempo para hesitações ou respostas ao lado.

- Dona Josefina.

Chamavam a professora com toda a delicadeza, mas pelas costas inventavam-lhe nomes menos próprios. A professora era exemplar nos castigos, eles eram exemplares nas alcunhas. Olho por olho. De tal maneira que anos mais tarde vão lembrar-se da alcunha, mas o nome perdeu-se para sempre.

No recreio as meninas saltam ao eixo e os rapazes espreitam do outro lado do muro. As pernas das meninas dão sempre azo a curiosidade. Depois entram na sala e rezam como mandam os bons costumes. Cantam o hino de mão ao peito e voz colocada como manda a devoção à pátria.

Amanhã há um deles que vai faltar, mas ninguém vai dar por isso. É normal. A escola é obrigatória, mas o dinheiro do trabalho é essencial. Faltam outro e outro logo a seguir. Um dia nem a professora que os controla na missa de Domingo se vai lembrar do aluno em falta.

A escola continua lá. Com  a cana à espera de quem pisa o risco. Com as meninas a acompanhar a professora. Com os meninos a espreitar para o outro lado do muro. Continua tudo lá até ser hora de levar o pão para casa.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A apanha

Com o final dos dias quentes vinham as carrinhas. Já eram esperadas. As carrinhas e as mulheres que levavam e traziam. O trabalho de campo esperava-as. O pó, o calor, os músculos doridos. Todos os anos esperavam pela carrinha que as levava de manhã cedo e as devolvia ao final do dia-

Eram mulheres de trabalho. Bata traçada, relógio pendurado na alça, lenço atado à volta da cabeça. As pernas escondidas pelas calças grossas e os pés metidos nos sapatos de trabalho. Sujos de pó, às vezes já a romper do esforço.

Levavam uma cesta com o almoço. Um bocadinho de conduto para enganar a fome enquanto aproveitavam para descansar à beira de uma sombra qualquer. Devia ser assim.

De manhã cedo juntavam-se no sítio combinado e esperavam pela carrinha que as vinha buscar. Mulheres e miúdas. Umas com vida daquilo, habituadas à dureza do campo. Outras à espera de juntar uns trocados. Talvez para gastar nuns devaneios, a maior parte das vezes para compensar o orçamento lá de casa. Esperava-as o trabalho da época. Duro. Seco. Áspero.

Estavam o dia inteiro fora. Nos dias mais quentes e mesmo naqueles em que o São Pedro lhes pregava uma partida. Era trabalho e o trabalho era para ser cumprido. Não se queixavam. Pelo menos as mais velhas. Era essa a sua vida, só conheciam o trabalho de todos os dias. Não se queixavam. Não sabiam que podiam.


Ao final do dia, a carrinha voltava e lá as trazia. Sentadas na parte de trás da carrinha de caixa aberta. Os bancos corridos davam a falsa ilusão de conforto e elas lá estavam. Aos solavancos. Agarradas onde conseguiam. Conversas perdidas no cansaço de um dia de trabalho. Era Verão, o calor entrava-lhes na pele, cansava-lhes o corpo. As conversas ali, a caminho de casa, eram deitadas para o ar sem se preocuparem com o que era falado. Enganavam o tempo. Procuravam chegar mais rápido ao seu destino.

Cheiravam a trabalho. Uma mistura de suor, pesticidas e terra seca. O pó entranhava-se nas suas roupas, nos seus cabelos, nas unhas que se tornavam escuras. Tinham um ar cansado, o andar torcido denunciava os músculos doridos. 

Desciam da carrinha com destreza. Cumprimentavam quem as esperava. Descansavam o corpo enquanto se encostavam a uma parede tapada pela sombra.  A cesta esquecida aos pés que apoiavam o peso do corpo alternadamente. Uma espécie de descanso. As mãos apoiadas nas ancas.

Amanhã voltavam ao trabalho. O campo ainda tinha muito tomate para dar e o corpo ainda tinha muito para aguentar. O trabalho de todos os dias. A carrinha à espera. O corpo que se queixava. A boca que se calava.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Quem faz a festa para o ano?

O Domingo é o dia sagrado. O dia abençoado da festa. Sai a procissão e a terra veste-se a rigor que nos dias santos e alumiados temos de estar no nosso melhor. O vestido bonito, os sapatos que magoam ligeiramente os pés, o fato bonito para os senhores estarem apresentáveis.

Chegam os visitantes, os que vêm ver a família e os outros que chegam em devoção pela Senhora que abençoa a festas. As ruas estão cheias. Os sinos dão os sinais de que a procissão está a sair.

- Já se sabe se há comissão? - perguntam enquanto esperam para ver os andores.

A procissão segue caminho. Ouvem-se as rezas e os cânticos. A banda toca as músicas que já sabe de cor. O passo arrastado preenche os momentos de silêncio. O terço pende das mãos dos devotos. As varandas estão decoradas, as famílias juntam-se à porta de casa. Segue-se o cortejo até voltar ao largo. Os foguetes a rebentar sem parar e a santa a recolher à igreja.

A população acompanha-a. Olhos curiosos. Ocupam os bancos vagos, ficam em pé quando não há outra solução. Apertam-se mais um bocadinho para caber mais alguém. A igreja fica cheia, o padre dá a benção final.

Do altar chegam as notícias que esperavam. É tempo de anunciar os festeiros do próximo ano. A aldeia assiste em expectativa. Dizem os nomes escolhidos pela comissão deste ano. A tradição é simples: oito nomes, quatro casais casados pela igreja que nunca fizeram a festa.

Quem está dentro da igreja passa a novidade de boca em boca até chegar ao largo onde as pessoas se juntam à espera.

- Já sabes? Quem faz a festa para o ano é...

E passa a novidade de boca em boca até chegar à próxima comissão. Está cumprida a tradição. Que se oiçam os vivas pela festa do próximo ano. E que amanhã a aldeia marche atrás da banda até que seja feita a entrega da bandeira ao juíz do ano que vem. Festa é festa e o povo quer é a rua iluminada e a música a tocar o dia inteiro.

Até para o ano, quando a procissão recolher e a igreja encher com os ouvidos atentos à espera de saber quem é que faz a festa no ano seguinte.