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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Quando a caça enchia a mesa

Era tempo dele. De se ouvir os tiros a ecoar pelos campos sem se saber bem de onde chegava. Dos homens sairem cedo e das mulheres os esperarem no trabalho de todos os dias. Era tempo da carne entrar em casa sem se contar os trocos que ficavam em falta.

Quando as espingardas se calavam, lá faziam o caminho de volta. O cão, um rafeiro que chegava de língua de fora que só recolhia quando baixava o focinho para cheirar o chão, vinha à frente a anunciar o retorno. O dono, de botins feitos lama e boné na mão enquanto limpava o suor da cara, vermelha, seguia-o. Em silêncio e de espingarda no braço. No cinto, os cartuchos chocalhavam a cada passo. 

Alertada pelo som que se aproximava acompanhado do ranger do portão improvisado, a mulher espera-o para receber o resultado da manhã de caça. Uma mão na cintura e outra na parede do barracão que lhe serve de cozinha. Sem falar, como sempre, agarra nos coelhos que o marido lhe estende e leva-os consigo deixando-o sozinho a desvencilhar-se da lama e tralha que carrega. 

De mangas arregaçadas, ela faz-se ao trabalho. Uma precisão cirúrgica, própria de quem quase nasceu a fazer aquilo. Desfaz-se da pele do animal e com as mãos nuas descobre os chumbos que lhe ditaram a sentença naquela manhã. O cabelo protegido por um qualquer pano que se aproveitou de uma camisa velha e as mãos a descobrir aquilo que a escuridão da cozinha não deixa que os olhos vejam.

Desfeito de miudezas e do pouco que não se aproveita, o que resta do coelho é preparado para a ceia. Panela ao lume e sangue a aguardar para dar cor ao arroz. Cor e sabor próprio de carne alimentada no campo. O cheiro a subir com o calor da comida a borbulhar e o garrafão do marido a esvaziar como remédio para a canseira. 

A caça traz para a mesa a carne que o dinheiro não consegue comprar. O coelho feito à caçador ou tostado no mesmo forno onde cresce o pão. O pombo transformado em canja que enche a barriga dos mais novos. As barrigas confortadas com a carne brava que não conheceu gaiolas. 

Uma noite de fartura para os estômagos tão habituados a não ter nada que já nem reclamam. É o tempo em que se ouve os tiros pelos campos.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Não há desgoverno

No poupar é que está o ganho. Já os antigos diziam que as mulheres não podiam ser desgovernadas e eles respeitavam. Em sabedoria desta não se mexe. Aproveita daqui, poupa dali, corta nem se sabe bem onde e quando se dá por ela já se tem um avio por meio daquilo que não se fez. Gastar é só no que se deve que ninguém sabe o dia de amanhã e o corpo aguenta muita fome, mas há um dia que quebra. Sem saber ler nem escrever eram exímias na arte de somar em vez de sumir. 

- Comida não se deita fora. 

Lá resmungavam enquanto arrebanhavam o bacalhau que tinha ficado no prato. Uma posta em que ninguém tinha tocado, mais um bocadinho do lombo que alguém, com a mania que era rico, tinha deixado de lado juntavam-se ao que havia.

- Até é pecado estragar - ainda para mais quando o dinheiro faltava e a conta da loja do costume não tinha fim à vista. 

E lá juntavam tudo, fosse cozido só com sal ou feito no refogado da sopa. Depois de desfiado nem se sabia de onde vinha e com o tempero do refogado ganhava sabor. A fome falava mais alto que outras esquisitices. 

Elas metiam as mãos ao trabalho. O bacalhau sem espinhas e desfiado juntava-se à batata cozida. Mais a cebola e o ovo. Tudo misturado com o tempero para dar sabor. E no final o molho de salsa apanhada na horta de casa. Já andava o cheiro no ar e ainda nem o lume estava aceso. 

Era preciso arte para aquilo. Meter comida ao lume qualquer um faz, agora para cozinhar é preciso saber. Era preciso ter mão para fazer um manjar daquilo que alguém não quis. Depois eram duas colheres na luta uma com a outra até a massa desaparecer. O óleo já quente a ganhar vida quando a recebia. A atenção para os virar antes que ficassem queimados pela metade. Os pastéis de bacalhau a sair douradinhos e a crepitar. O cheiro a óleo quente e a massa quente chamavam pelo estômago. O melhor petisco feito com o que tinha sido deixado de lado. 

- Isto aqui não se estraga nada que não somos ricos.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Lugar à mesa...de Natal

Mais um ano. O dia começa como todos os outros. Cedo. É assim para quem tem de alimentar a família. Não há dia santo que lhe valha, o trabalho está sempre à sua espera. E elas apresentam-se de bata vestida e lenço à cabeça. Sempre. 

O dia amanhece frio e a noite ainda não se foi por completo. Para espantar os arrepios acendem a lareira que dá outro alento à casa. O crepitar da lareira já garante meio sustento. Pegam no alguidar de barro, já marcado do uso, e deixam-no em cima do velho banco de madeira. Por baixo, uns panos feitos de restos para amparar as pancadas que o trabalho não é de brincadeiras. 

Juntam-se várias mãos. Diferentes gerações, o mesmo espírito, os mesmos braço feitos de força. Dois dedos de conversa e outros tantos de trabalho que assim, com companhia, até vai embalado.

Preparam as coisas a olho que as medidas só as usa quem não tem mãos treinadas. Deixa-se a margarina em banho-maria. Segue o resto para o alguidar. Um de farinha com fermento e outro tanto daquela que se encomendou ao padeiro. Sal. Açúcar nem vê-lo que a massa é assim mesmo. A raspa dos limões que se trouxe da vizinha, e da laranja que se foi buscar ao quintal. Mais o sumo que sempre adoça. 

Mete-se a cafeteira ao lume que o corpo pede o café, e as mãos vão ao trabalho. A manteiga derretida e é começar a juntar tudo. Com paciência e o seu quê de sabedoria. Um amassar com precisão que isto não se faz de qualquer maneira. É o saber que está pronto só de olhar. Passa a cafeteira para a borda da lareira enquanto se espera que a borra assente e verifica-se o tempero da massa. Quando está no ponto, passa para o balcão e é batida até o trabalho ser dado por feito. No meio de conversas e risos perdidos que a vida pode ser triste, mas ainda não levou a capacidade de sorrir. 

Massa estendida e o cheiro a cru a misturar-se com o café da borra. Óleo a aquecer na panela grande. O garfo próprio à espera. 

Cortam a massa sem hesitar e levam-na ao óleo quente. O borbulhar a crescer e o coscurão a ganhar forma. As bolhas da massa a rebentar. O cheiro a óleo quente e massa frita. Os braços a queimar. O açúcar e a canela prontos para o final. 

Ainda mal nasceu o dia e aqueles corpos já contam com horas de trabalho. O calor do lume a aquecer-lhes a cara. E uma travessa de coscorões pronta para a família e para quem quiser que comida é coisa que nunca se nega. 

Que venha a noite de Natal.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Lugar à mesa escaldada

Fazia -se a vida a sopas e sem direito a descanso. Sopas de sustento, é claro. Com tudo o que o corpo se habituou a ter para aguentar o trabalho que o espera. Mas a verdade é que o corpo está habituado a pouco alimento e muito trabalho.

Na despensa, que não era mais do que um pano em cima do balcão da cozinha, aguardava o bacalhau. Um posta alta conservada em sal. Duro e seco. Era o conduto para o almoço. aquele que se levava para o campo protegido por panos e rodilhas para manter a ilusão que tinha sido acabado de fazer.

Um panela tosca e batida de tanto uso ia ao lume cheia com água do caneco. A posta de bacalhau era lá mergulhada e deixavam-na estar. O lume alto a envolver o metal da panela. O deixar passar o tempo. Era aguardar até a água começar a borbulhar e o cheiro a bacalhau cozido encher a pequena cozinha.

Nessa altura tiravam a posta para um prato e deixavam-na de lado. À espera. Baixavam o lume da panela e continuavam. Os alhos eram deitados ao caldo. Cortados sem precisão num trabalho de quem já nem sente o cheiro entranhado na pele. Deita-se um fio de azeite que mancha a água com apontamentos esverdeados.

O pão, guardado num pano que já fora uma camisa de Inverno, estava seco. Tão duro que não havia dente que entrasse com ele. As mãos calejadas desfaziam-no em pedaços consideráveis e deitavam-no às água que tinha voltado a borbulhar.

Só mais um passo antes de desligar o fogo e dar o comer por terminado. Os coentros eram migados à mão, sem cerimónia, e juntavam-se à sopa. O aroma a ervas frescas e alho quente inundavam a casa. Um manjar das pequenas coisas. Feito de nada e a saber a tudo.

A posta de bacalhau, já fria, voltava ao caldo. Nada mais que aquilo. Sopa escaldada que aquecia o corpo e confortava o estômago habituado ao vazio.

Tudo pronto no termo de metal, fechado com rigor e envolvido nos panos grossos. 

Lá vai a moça. Almoço dentro da cesta e cesta à cabeça num equilíbrio que nasceu com ela.

O dia mal começou a clarear, mas o almoço já a espera.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Lugar à mesa do forno

O pão que alimentava a família durante a semana era a desculpa para acender o forno. Lá se recolhiam os galhos para queimar. Lá se preparava o forno até ficar com o ar que se pretendia. Lá se amassava a massa até ser tempo de a deixar descansar.

A massa entrava no forno. A sabedoria sabia quanto tempo tempo esperar. Cá fora cortavam o chouriço de sangue comprado no talho do senhor que se conhece desde sempre. A massa que sobrava era envolvida no chouriço gordo que a tingia de vermelho. Era deitado ao forno. O cheiro do chouriço misturava-se com o do pão caseiro. Guloso.

Num tabuleiro esperavam as sardinhas. Pequeninas e gordinhas como se querem. É assim que são saborosas, que pingam o pão que serve de prato na refeição. Mas lá estavam elas. Deitadas no tabuleiro e cobertas de cebolas. Regadas abundantemente com o azeite que as azeitonas lá de casa tinham dado.

Iam ao forno quando o pão já estava pronto e repousava no tabuleiro de madeira. Entravam as sardinhas e ali ficavam. No meio do forno à porta fechada. Envolvidas pelo calor e o cheiro da madeira que crepitava lá dentro, das cinzas que se iam acumulando.

Cá fora, adiantava-se trabalho enquanto se esperava. Guardava-se a bola em massa que ia servir para a semana seguinte. Tapava-se o pão para que não ficasse duro antes de tempo. Esticava-se uma toalha tosca em cima da mesa para que a família se sentasse ao jantar. Podiam ser pobrezinhos, mas cuidavam dos seus. 

As sardinhas deixavam o forno e perfumavam a casa. Tostadinhas, a misturar o cheiro do mar com o campo que vinha da lenha. A família reunida à mesa. As sardinhas divididas por todos. Podiam ter de dividir uma por três, podiam lutar pela cabeça ou pelo lombo. É assim que contam as histórias que se ouvem, mas também contam que não há sardinhas iguais. Que se recorda com saudade do sabor da sardinha que se desfazia depois de sair do forno.

- Partíamos o pão à mão para acompanhar a sardinha. Não há outro sabor igual.

É o que dizem.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Lugar à mesa da avó

As galinhas eram criadas no quintal da casa. Um galinheiro feito com meia dúzia de tábuas e mais umas redes. Não era preciso muito mais do que isso para guardar umas quantas galinhas. Eram alimentadas pela família que, sem ensino que os guiasse, tratavam delas com a sabedoria da terra. Davam de comer, tiravam os ovos e sabiam a altura certa para as matar.

Cortava-se o pescoço à galinha e tiravam-se as penas em água quente. Era assim que começava a refeição criada lá em casa.

A galinha, preparada com o rigor que se põe nestas coisas, ia ao lume numa panela de água com uma bocadinho de chouriço. Daquele vermelho e saboroso. Coisa pouca que o dinheiro não é muito e só se quer que dê sabor. Ia tudo a ferver em medidas feitas a olho. Aquela panela dava para alimentar a família e a partir daí era a mão que mandava no tempero.

O cheiro à carne cozida enchia o pequeno barracão mal iluminado que fazia as vezes de cozinha. O chouriço dava um tom avermelhado à água que começava a borbulhar.

Quando a galinha estava pronta era pôr num tabuleiro de ir ao forno. Quando o forno ainda era a lenha e demorava o seu tempo até chegar ao calor certo. Cozer o arroz no caldo que sobrava da cozedura e deixar o acompanhamento pronto em mais um tabuleiro. O chouriço era cortado em rodelas e espalhado por cima do arroz. O pitéu estava pronto. Arroz de forno e frango corado. 

A pele saía tostada do forno, o arroz vinha guloso com a gordura do chouriço a ferver. O cheiro era daqueles que confortava a alma. O reconhecimento de comida que é nossa.

Juntava-se a neta à mesa. Com as pernas a baloiçar na cadeira e o cabelo em desalinho de tanto correr. 

- O que é almoço? - perguntava com aquela voz de criança.

- Já vais ver - diziam sem desvendar mais nada.

E ela esperava. Com o cheiro já a dar-lhe água na boca.

Os tabuleiros vinham para a mesa a escaldar. Embrulhados em rodilhas que protegiam as mãos que os carregavam.

- Arroz da avó - gritava a neta com excitação. Era o seu prato, feito para ela.

E ficava para sempre baptizado como o arroz da avó. Mesmo quando era a mãe a prepará-lo em casa com o mesmo carinho. O arroz que a avó preparava com todo o rigor e sem receita. Passado de mão em mão e executado sem dúvida quando se cozia uma galinha e se levava ao forno a corar.

Frangainho quando dizem aos mais novos quando os tentam convencer a comer mais uma garfada do almoço. 

Frangainho do campo, corado em forno de lenha com arroz da avó a acompanhar.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Lugar à mesa de trabalho

Vão a caminho do campo para começar mais um dia de trabalho. O sol ainda está baixo e o calor nem se faz sentir. Vão descalços e com roupas pesadas, chapéus de palha e bonés, lenços a tapar o cabelo. Dentro do saco levam o farnel para mais tarde. Um almoço magro, mas suficiente para o que o corpo está habituado. Vai ainda em cru, à espera da fogueira que se vai acender quando a hora se aproximar.

O pão seco e fora de tempo e o bacalhau já passado pelas mudas de água que lhe eram devidas, esperam pela hora de se fazerem ao fogo. 

Os dias não são de abundância, são de trabalho duro. Aperta-se mais o cinto, remenda-se mais uma camisa e enche-se a boca com aquilo que se pode comprar ou com aquilo que nos deixaram pôr na conta da loja que já vai longa. O que interessa é ter algo para dar alento ao corpo e enganar a fome e o estômago.

Quando chega a hora já está o sol a pique e o dia de trabalho já vai a meio. O corpo está cansado, as mãos estão calejado e o suor acumula-se por baixo do lenço. Procura-se uma sombra e os trabalhadores juntam-se à volta da fogueira. 

Tiram o almoço e preparam-se para o manjar. Com a navalha que serve de companhia cortam o pão que esfregam com o alho que entretanto descascaram O aroma forte do picante já se faz sentir. A fatia de pão é regada com um fio de azeite daquele feito com as azeitonas que apanharam. 

O bacalhau e o pão vão ao lume. A lenha estala e vão atiçando o fogo para que não se apague. Quando enfraquece já o pão e a posta de peixe têm as marcas da grelha.

O azeite aromatizado com o alho rega o bacalhau que a acompanhar com o pão com o mesmo tempero.

Come-se com a mão, sem pudor ou etiqueta que valha naquele momento. Mata-se a fome com o petisco pobre dos que pouco têm e que hoje em dia se tornou pitéu de quem parece ter uma vida melhor.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Lugar à mesa

O pão já está duro e seco, já se perdeu a conta aos dias que esteve esquecido no saco do pão, mas ainda está bom e nos dias que correm não se pode desperdiçar um naco de pão, mesmo que esteja seco.

Partem-se fatias do que restou e começa ali o próximo manjar que conforta as barrigas que chegam cheias de fome e que dá alento ao corpo cansado.

A receita passa de geração em geração, sem papel onde esteja escrita. É uma arte que as mãos conhecem de cor, sem necessidade de guias ou cábulas. 

As batatas já cozem às rodelas, os alhos já foram descascados e arranjados. 

Solta-se o aroma do azeite a aquecer no velho tacho. Há pouca coisa que desperta tantas memórias como o cheiro dos tachos a queimar no bico do fogão. O refogado e a sopa a borbulhar, o óleo a aquecer ou o pão a cozer, tudo desperta recordações sem pedir licença. O pão duro que já ninguém quer transforma-se em refeição que nos leva para outros tempos.

A batata cozida e o pão desfeito, o cheiro a azeite quente a alho. O tacho ao lume com aquela pasta esbranquiçada a borbulhar.

Ao lado, o óleo quente pronto a receber o peixe envolto em farinha. As azeitonas à espera na mesa.

Serve-se a manja, rica em tudo o que dizem que nos faz mal, com uma concha bem cheia. O prato a ficar cheio com aquela pasta, o calor a embaciar a vista de quem espera para começar a comer. Uma mão cheia de azeitonas que se largam no prato. As postas de peixe, ainda  a ferver, desfeitas com as mãos, sem cerimónia. 

A comida envolve-se no prato, troca-se o garfo pela colher e saboreia-se o pão e a batata misturada com o peixe e a frescura da azeitona. Um prato de manja e peixe frito, aquece a alma e conforta o estômago.

As tradições mais antigas chegam à mesa de hoje e trazem-nos o calor e a sabedoria de outros tempos. O pão duro, esquecido no saco de pano transforma-se no manjar que nos mata a fome.