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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A sentença que é a memória

Abriu a porta e deixou-a encostada atrás de si enquanto se sentava no degrau. Com as maos enrugadas e atacadas pelas artroses, puxou a bata até aos joelhos e deixou-se ficar a olhar a rua. A mesma rua onde tinha vivido a maior parte da sua vida. E no que lhe parecia ter sido muito tempo, mas sabia que não o era, viu o quanto tinha mudado. 

Naquele dia em que descansava sozinha no degrau de sempre, soube que algures no caminho a vida tinha-a encontrado e deixado para trás. A vida dos outros. 

Olhou a rua que conhecia de cor, mais buraco menos buraco, e viu-a tal como estava agora. Vazia. Despida. Ladeada de portas fechadas à chave e janelas tapadas por estores corridos. Não que estivessem abandonadas, mas era a vida de agora que as trancava vazias durante o dia e as deixava fechadas à noite quando os vizinhos chegavam. 

Ali sentada, com o frio a chegar-lhe à espinha e a voz a morrer em desespero na garganta, sabia qie lhe faltava as vizinhas. Não as que tinha agora, mas as que ali estavam antes. Que se encostavam às paredes de mãos nos bolsos nas batas e pé a coçar a perna, que se sentavam nos degraus e nos bancos que traziam de casa e ali ficavam. Todas. A costurar, a conversar, a deitar olho aos miúdos, os seus miúdos, que insistiam em correr e saltar de onde não deviam sem saber onde iam cair, mas com a certeza de que o iam fazer. 

E era dessa altura, em que o corpo não lhe doía nem rangia ao mínimo movimento, que lhe vinham as lembranças. Dessa altura em que todas as casas tinham fossas, mas que as ruas estavam cheias. Dos homens que seguiam caminho na bicicleta. Que se apoiavam no pedal direito para ajudar o corpo a içar-se para cima do celim. Das mulheres que vinham descalças e de cesta à cabeça. Que serviam os outros e os seus, todos os dias. Das portas que se fechavam ao trinco ou nem isso. Que tinham um arame a garantir que a porta entre a intimidadr e o mundo se mantinha fechada. 

Nesses tempos que parecem tão longe, mas que nem foram há uma vida, era o som que vinha da rua que lhe marca as lembranças. As vozes, os pés, o arrastar e o puxar, a água que chocalhava nos canecos, os rolamentos dos carrinhos que terminavam nos gritos que denunciavam a falta de travões, os pregões de quem vendia o que conseguia. 

Mas isso era nos tempos de que ela se lembrava. Hoje, só tem o silêncio. Tão presente que parece gritar-lhe por estar fora do seu tempo. Mas só ela é que o ouve. Só ela, que sabe como já foi, que se recorda daquilo que já esqueceu a muitos, é que sabe que aquilo que aquela rua tem é silêncio. Talvez ela esteja enganada e que aquelas casas não estejam abandonadas, mas está a rua. Despida daquilo que foi seu, da vida que se fazia ali. Ficou o silêncio, a vida fez-se a outros rumos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O cheiro que enche a rua

O alcatrão estava em mau estado, defeito que deu em feitio com o passar dos tempos, e só duas ou três casas é que tinham primeiro andar. Em compensação, todas tinham quintal com direito a um barracão com a cozinha onde a família se servia. A cozinha de casa era para quando apareciam as visitas. 

Aqueles eram outros tempos. Eram dos dias em que o sol do meio-dia iluminava a rua com uma luz tão clara que obrigava a fechar os olhos e a protegê-los com uma mão na testa e outra na cintura para equilibrar. A hora a que a rua, mesmo vazia, começava a ganhar vida. 

Vindo dos quintais, ouvia-se o som do garfo a raspar na velha frigideira já gasta de tanto ser areada. A telefonia tocava um fadinho e mais outro, daqueles que faziam chorar as pedras da calçada, e as mulheres de lenço à cabeça e bata vestida, faziam o almoço para os netos que vinham da escola, para os filhos que almoçavam ali ou para os homens que vinham do trabalho. 

Cheirava a refogado regado a azeite feito no lagar lá da terra, com as azeitonas que a família inteira tinha apanhado. A cebola a ficar translúcida e o toque do alho e do louro. O crepitar da fritura. 

- Não comas o louro que te rasga a garganta! 

O borbulhar do óleo. As batatas cortadas em palitos e metidas dentro de água, à espera. A carne cozinhada com tempo e com um saber que nasce com a pessoa. É preciso ter mão para a cozinha. Ainda não há chefs, só cozinheiras. Das antigas. 

A feijoca a cozer para a sopa, com o toque dos enchidos e da carne. Um cheiro rico e gordo, guloso. Uma rotina cumprida em todas as casas. Um cheiro que enche a rua e anuncia a chegada do resto da família para se sentarem à mesa, com o pão ao lado para raspar o fundo da frigideira quando já todos se serviram. 

- Nem é preciso lavar - a piada de sempre. 

As memórias fogem com o tempo. As caras ficam confusas e esquecem-se nomes, mas o cheiro a refogado vai sempre levar ao sol do meio-dia numa rua com mais buracos do que alcatrão onde se espera que a família chegue para almoçar.

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Texto publicado na edição de Outubro da Revista DADA 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Quando o rei fazia anos

Da avó recebia um envelope com notas que ele passava à mãe sem lhe ligar grande importância. Os embrulhos que os pais lhe davam eram rasgados sem cerimónia com direito a espanto quando eram brinquedos e a um encolher de ombros quando aparecia mais uma camisola ou umas calças. Um obrigado dito com bom ar que era assim que o tinham ensinado e começava a espera pelo momento mais importante do dia.

O seu coração disparava quando, à hora marcada ou lá perto, que os miúdos não sabem que as horas são para cumprir, a campainha começava a tocar sem parar até ao ponto em que se tornava tão irritante que a porta da frente ficava encostada e acabava escancarada. E eles iam entrando, com energia a mais e paciência a menos, sem conseguir perceber que se podia falar sem ser a gritar ou com demasiada vontade de percorrer todos os cantos à casa. Não que lhes tivessem dado autorização.

O espaço não abundava. Eram casas pequenas, feitas a pensar nos que lá viviam e não naquelas dezenas que apareciam uma vez por ano. A sala de jantar, que costumava estar impecavelmente arrumada à espera das ocasiões que justificavam o uso da loiça que vinha do enxoval, estava virada do avesso. As cadeiras tinham desaparecido, o papel de embrulho estava espalhado sem grande critério, o cheiro a óleo quente começava a invadir a casa e a mãe, que andava metida naquela confusão há mais de uma semana, estava quase a dar em doida.

Eram mais de vinte, bem mais, os miúdos que o filho convidara e ela tinha preenchido à mão os convites que ele levara para a escola com um sorriso de orelha a orelha. Agora, só a imagem desse sorriso é que acalmava a antecipação do trabalho que ia ter noite dentro quando a casa estivesse vazia.

Os risos e os gritos vinham de todo o lado. Sabia que ia encontrar rissóis meio mordidos e restos de salame espalhados pela casa. Era possível que aquelas raspas verdes que faziam  as vezes de relva no bolo acabassem por se esconder em cantos que ela só ia encontrar na altura das limpezas. Isso e os bonecos que, pelas suas contas, já tinham desaparecido dois e ainda nem tinham cantado os parabéns.

- Venham já para dentro.

Dois deles, mais afoitos, brincavam à apanhada no meio da estrada sem olhar aos perigos.

- Todos para a sala que vamos cantar os parabéns.

Chegavam aos poucos. Gritavam quando acendiam os foguetes. E quando começavam a cantar os parabéns. E quando a cantoria desafinada acabava em palmas e o aniversariante, acompanhado de mais uns quantos, soprava para cima do bolo.

Voltavam à brincadeira sem mostrarem grande interesse no bolo que entretanto já tinha perdido mais um jogador e uma baliza. Roubavam um rebuçado de fruta, bebiam um copo de sumol e voltavam às correrias até ser hora de voltar a casa, quando os pais tocavam à porta para os levar e eles pediam, com olhinhos tristes e ameaça de beicinho

- Só mais um bocadinho.

Quando a casa ficava vazia e o pequeno aniversariante dormia o sono dos justos, a noite já ia alta, mas ainda se adivinhava longa. Os pratos de plástico espalhados, o chão pegajoso da comida, o cheiro a cansaço misturado com comida doce.

Enquanto se dobrava para começar a arrumar as coisas e puxava para si a vassoura e a pá, ela repetia com os seus botões a mesma lenga-lenga de todos os anos.

- No próximo ano não faço nada disto.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lá pelo Instagram...à porta de casa

Ainda se encontram os sacos pendurados à porta enquanto esperam que alguém os vá buscar. De manhã, pela fresca, deixam-nos ali. Pendurados no portão e na porta. Alguns com um recado lá dentro, mas, além disso, estão vazios. Sacos de pano pendurados na porta, protegidos por um saco de plástico se o tempo ameaçar chuva. Sempre as mesmas casas. Ainda hoje. Todos os dias. 

 São rituais que ficam. O conforto da garantia de pão fresco mesmo quando não há ninguém em casa para responder ao apito. A confiança nos clientes de sempre. Os gostos e as manias que se conhecem de cor ao final de uns quantos anos. 

O aviso ouve-se quando ainda não se vê a carrinha branca. A buzina a encher a rua. O mesmo ritmo. Mais ou menos à mesma hora que esta profissão não exige pontualidade suíça. Pára no sítio de sempre. 

Tempos houve, daqueles que eu ainda me lembro, que as mulheres se juntavam à espera. Ficavam de pé, encostadas ao muro, de batas traçadas e sacos de pano na mão. Trocavam dois dedos de conversa, juntava-se mais uma e outra e esperavam que viesse o padeiro. No sítio de sempre. 



Hoje a rua está vazia e ele anda de casa em casa a recolher sacos. Mal cozido para uns, quase pretos para outros. Num dos sacos um pedido para mais uns daqueles queques do costume. “Vai ter a visita da neta”, pensa ele que já os conhece. 

As contas ficam à espera de acerto. Os clientes são de confiança e o pão não se nega a ninguém. Lá para ao fim-de-semana, quando tiver mais do que sacos na porta à sua espera, acertam os trocos. Trocam dois dedos de conversa que também fazem falta. Um “Como está a família?” ou algo do género. Por agora, lá vai ele. Rua acima com a buzina a anunciar a sua chegada. Bata branca, carrinha a cheirar a farinha e a forno de pão. 

Para trás fica a rua vazia e os portões adornados com sacos de plástico. Papossecos e bolas, queques e mais uns bolos.

Lá ficam, à espera, até que alguém volte a casa.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Lugar à mesa da avó

As galinhas eram criadas no quintal da casa. Um galinheiro feito com meia dúzia de tábuas e mais umas redes. Não era preciso muito mais do que isso para guardar umas quantas galinhas. Eram alimentadas pela família que, sem ensino que os guiasse, tratavam delas com a sabedoria da terra. Davam de comer, tiravam os ovos e sabiam a altura certa para as matar.

Cortava-se o pescoço à galinha e tiravam-se as penas em água quente. Era assim que começava a refeição criada lá em casa.

A galinha, preparada com o rigor que se põe nestas coisas, ia ao lume numa panela de água com uma bocadinho de chouriço. Daquele vermelho e saboroso. Coisa pouca que o dinheiro não é muito e só se quer que dê sabor. Ia tudo a ferver em medidas feitas a olho. Aquela panela dava para alimentar a família e a partir daí era a mão que mandava no tempero.

O cheiro à carne cozida enchia o pequeno barracão mal iluminado que fazia as vezes de cozinha. O chouriço dava um tom avermelhado à água que começava a borbulhar.

Quando a galinha estava pronta era pôr num tabuleiro de ir ao forno. Quando o forno ainda era a lenha e demorava o seu tempo até chegar ao calor certo. Cozer o arroz no caldo que sobrava da cozedura e deixar o acompanhamento pronto em mais um tabuleiro. O chouriço era cortado em rodelas e espalhado por cima do arroz. O pitéu estava pronto. Arroz de forno e frango corado. 

A pele saía tostada do forno, o arroz vinha guloso com a gordura do chouriço a ferver. O cheiro era daqueles que confortava a alma. O reconhecimento de comida que é nossa.

Juntava-se a neta à mesa. Com as pernas a baloiçar na cadeira e o cabelo em desalinho de tanto correr. 

- O que é almoço? - perguntava com aquela voz de criança.

- Já vais ver - diziam sem desvendar mais nada.

E ela esperava. Com o cheiro já a dar-lhe água na boca.

Os tabuleiros vinham para a mesa a escaldar. Embrulhados em rodilhas que protegiam as mãos que os carregavam.

- Arroz da avó - gritava a neta com excitação. Era o seu prato, feito para ela.

E ficava para sempre baptizado como o arroz da avó. Mesmo quando era a mãe a prepará-lo em casa com o mesmo carinho. O arroz que a avó preparava com todo o rigor e sem receita. Passado de mão em mão e executado sem dúvida quando se cozia uma galinha e se levava ao forno a corar.

Frangainho quando dizem aos mais novos quando os tentam convencer a comer mais uma garfada do almoço. 

Frangainho do campo, corado em forno de lenha com arroz da avó a acompanhar.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A fotografia

Era sempre assim quando chegava o Verão. O tempo quente trazia de volta quem pertencia ali. Vinham da cidade. Para onde se tinham mudado e onde a vida lhes sorria um bocadinho mais do que aos que tinham ficado para trás.

Voltavam para abraçar os seus. Rever aquelas caras que se esbatiam com o tempo. Às vezes era difícil recordar a expressão daquela vizinha que os vira nascer. Começava a faltar o nome à outra que costumava vender o azeite que a mãe lhes pedia para ir buscar. A distância era culpada. 

Vinham visitar os irmãos. Conhecer os sobrinhos. Dar um beijo à mãe que já estava a perder as forças.

- É a idade, filho - dizia enquanto lhe dava uma palmadinha da face - Os teus miúdos, como estão?

Estavam bem. Crescidos e reguilas como se quer para as crianças daquela idade. 

Os irmão trabalhavam no campo e o sol ainda ia alto. A hora da despega estava longe, era preciso saber esperar que voltassem depois do dia de trabalho. Os visitantes, filhos daquela terra, percorriam aquelas ruas que tinham sido suas enquanto cumprimentavam as vizinhas de sempre. As mesmas pessoas  com os anos a marcar-lhes o corpo. A levar-lhes a vista e a toldar a memória.

A vida ali ainda era sua. Aqueles caminhos ainda lhes pertenciam. Mesmo que a vivessem longe. 

Ao final da tarde, quando o dia de trabalho tinha sido dado por terminado, os irmão apareciam. Viam-nos ao cimo da estrada com o grupo de trabalho que os acompanhava. Descalços. Elas de cesta à cabeça. Eles de enxada ao ombro. cansados do dia e a limpar o suor que lhes escorria pela testa.

- Oh irmã - gritavam aos seus que se aproximavam.

E ali, no meio da rua, se faziam os cumprimentos. Sem cerimónia que não era todos os dias que os seus voltavam a casa. E os olhos demoravam no outro, para reconhecer as feições. Para perceber o que tinha mudado num ano. Um só ano e tanta coisa diferente.

- Bons olhos te vejam.

E os miúdos corriam de um lado para o outro. Os primos da cidade com os do campo. Enquanto os mais velho pegavam numa manta das antigas e a estendiam à sombra das árvores grandes. Ali no meio do campo. A família reunida debaixo das oliveiras, os miúdos de um lado para o outro e os mais velhos a matar as saudades.

- Agora fiquem todos aí - dizia o irmão que tinha vindo lá de longe.

E eles ali ficavam. Sentados no chão. Com a mãe lá ao fundo, já com o peso dos anos a fazer-se sentir. Os irmãos sentados no chão com os filhos mais novos ao colo. Os filhos mais velho sentados a uma ponta da manta. Uns descalços que o dinheiro não dá para tudo.

E fica aquele quadro imortalizado na fotografia que o filho estrangeiro tira. A família reunida numa tarde Verão. Com aquele calor que traz de volta a casa aqueles que um dia se aventuraram no mundo.



quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tardes de Matiné

Ela escolhe o melhor vestido dos poucos a que chama seus. O fato domingueiro, o mais bem arranjado e estimado, é o que vai usar esta tarde. Vai bonita e recatada como mandam os bons costumes que qualquer menina digna de respeito cumpre sem hesitar. Não sai sozinha. Onde é que já se viu tal coisa? Uma menina, numa idade destas só sai acompanhada pelos pais para se garantir que o seu comportamento é irrepreensível e que as mãos dos miúdos que por aí andam não se esticam mais do que devem.

Os rapazes não têm quem olhe por eles. Não precisam, a sua honra está sempre a salvo sem nada que a manche e não é uma dança com uma menina que os vai colocar em perigo. Vão sozinhos ou acompanhados dos amigos. Todos da mesma idade, com o sangue a borbulhar nas veias. Homens são homens.

O salão da colectividade, se é que o seu tamanho permite que tenha esse nome, já está arranjado. As cadeiras estão colocadas em filas de cada lado do salão e, ao fundo, o pequeno palco está preparado para receber a música. Não falta nada. Hoje, todos os caminhos vão dar ali. É dia de matiné.

Começam a chegar aos poucos. As meninas acompanhadas dos pais, os rapazes sozinhos. Ouvem-se conversas perdidas, vozes excitadas, risos abafados.  O salão começa a ficar cheio, as cadeiras ocupadas. Rapazes de um lado,  meninas do outro com a mãe sentada ao seu lado.

As meninas aproveitam a conversa da mãe com a vizinha para deitar o olho ao outro lado da sala. Alguém retribui o olhar e elas baixam os olhos e fazem um sorriso discreto. 

Começa a ouvir-se  a concertina. As modinhas enchem a sala e os pés começam a marcar compasso. Os olhares vagueiam de um lado para o outro da sala, as cabeças e as mãos fazem sinais quase imperceptíveis.

Um "queres dançar" por gestos para a menina do lado de lá, aquela com quem ele engraçou. Se a resposta for não, por mais discreto que seja, é um não à vista de todos e isso tem o seu peso no orgulho de um rapaz. Mas respondem-lhe com um incentivo para que se aproxime e ele, mesmo com os olhos da mãe da sua escolhida pregados em si, avança pelo salão. 

E dançam. Controlando as distâncias, deixando a mão bem alta e quase sem trocar uma palavra. A modinha toca e eles aproveitam aquele tempo que é seu. Um olhar desviado, um sorriso tímido e a separação no final da música que dançar muito tempo com o mesmo pode fazer com que o pai da menina comece uma discussão de meia noite.

Assim começa o rapaz a cortejar a menina. Controlando os movimentos, poupando nas palavras e trocando olhares de um lado para o outro da sal. Sem direito a privacidade que isso é um luxo que nem o casamento dá. 

Se tudo correr bem, aquela dança leva a outra e a umas visitas em companhia dos pais. Se tudo correr bem ele ainda a vai levar ao altar e um dia serão eles a controlar os movimentos na salão da matiné.

As coisas às vezes começam por muito menos.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ai meu rico santo

Os dias longos anunciavam o Verão que estava mesmo a chegar. Tempo quente e noites cada vez mais curtas a chamar os vizinhos para a rua. 

Metiam-se as comemorações dos dias santos nos quais não se trabalha que tal coisa é pecado. Dia santo é descanso e devoção, dias de santos é tradição.

A fogueira preparava-se todos os anos no mesmo sítio onde sempre tinha sido. Lá no largo já todos a esperavam. Troncos grossos prontos a arder noite dentro com o fogo a iluminar as conversas e a noite de folia. Estão todos convidados mesmo sem convite formal. Já se sabe que é assim, todos os anos igual.

Quando o sol começa a fugir e a noite quente começa avança, já a fogueira arde em labaredas que metem respeito. O ar fica impregnado com o aroma a rosmaninho que se lança ao fogo e que desperta as memórias das noites de santos que por ali se vivem desde que se nasceu.

Há sempre música e qualquer coisa que acalme o estômago. Juntam-se homens e mulheres, novos e velhos. 

- Ai malandro.

Os miúdos saltam a fogueira sem medo num ritual de passagem em que parecem mostrar que já cresceram mais do que aparentam. Lá vão eles, atrás uns dos outros a saltar troncos que se desfazem em cinzas e com as labaredas a morder as pernas.

É uma noite para esquecer os dias sempre iguais e as tristezas que a vida dá. Para se rezar a Santo António e beijar a medalha de São João enquanto se roga um pedido. É dia de santos, é noite de festa.

O sino da igreja dá o sinal de meia-noite. Um dia que finda e outro que principia e as meninas que agarram na alcachofra fechada que colheram nessa tarde. Ao som das doze badaladas avançam para a fogueira e queimam a planta na fogueira. 

- Ai meu rico santinho - pensam para si enquanto guardam as alcachofras chamuscadas das labaredas.

Levam-nas consigo para casa, escolhem uma jarra e deixam-nas em água durante a noite. Ficam em cima da cómoda, mesmo aos pés da cama, e esperam pela manhã. Deitam-se de coração esperançoso que o amanhecer faça florescer a alcachofra chamuscada. Se assim for, o amor que aquece o seu coração é seu para a vida, mas se não florescer é porque não está destinado a acontecer. 

É a alcachofra que abençoa o casamento que se ambiciona.

Mais um ano de festejos, de pedidos a Santo António e saltos corajosos à fogueira. Mais um ano de corações apaixonados a confiar no que alcachofra tem para contar. 

Viva Santo António. Viva São João.

quarta-feira, 22 de março de 2017

A anunciar a Primavera

Já se sente a mudança. Os dias estão maiores e as manhãs frias seguem para tardes que pedem que o casaco fique para trás. Sente-se o cheiro a calor e anda no ar o pólen que ameaça os narizes mais sensíveis. 

O verde cobre os terrenos até se perderem de vista e é salpicado pelos pequenos pontos amarelos e frágeis que se dobram ao mínimo sopro do vento. Os miúdos correm por esses terrenos que não seus como se estes lhes pertencessem e, numa tradição nunca falada, arrancam molhos dessas tais flores amarelas. 

São flores simples e selvagens a crescer sem ordem estabelecida. Chamam-se azedas, mas há quem as conheça por chupemelos. Os nomes perdem-se e transformam-se nas bocas que os dizem sem nunca os escreverem. É a sabedoria popular. 

Os miúdos trincam-lhes o caule e bebem a seiva amarga saciando a sede com o manjar que a natureza lhes oferece. Caras lambuzadas e respiração ofegante de tanto correr. Face vermelha do calor que se faz sentir. 

É o anunciar da primavera. Dias quentes e chupemelos a crescer sem autorização e a serem trincados por miúdos que não ligam se o que vem da terra deve ser lavado com todos os cuidados. 

É assim que se faz há tantos anos que se perde a conta, é só começar a sentir o chegar dos dias mais quentes. O anúncio da primavera chama a vida à rua. As mulheres sentadas à porta com panos pela cabeça para se protegerem do sol quente enquanto deitam o olho aos mais novos. 

A conversa faz ali, na calçada, e a vida passa pelas ruas e as conversas são marcadas por observações que dizem que o tempo anda louco. 

Anda tudo louco, na verdade, já nada é bem como costumava ser, mas a chegada da primavera convida a que a vida se faça na rua, à ombreira da porta, enquanto se deita o olho aos miúdos que trincam azedas.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Soprar as velas

São mais de vinte a correr por todo o lado numa casa onde não abunda espaço. Vieram todos: os colegas da sala de aula e os outros meninos da escola. São todos amigos, daqueles que jogam à bola no recreio e que saltam à corda ou brincam à linda falua que vem lá de Belém.

Agora estão ali, a falar excessivamente alto e a correr de um lado para o outro enquanto desarrumam tudo o que encontram pelo caminho. Afinal um deles faz anos e isso é só mais uma desculpa para se juntarem todos em corridas sem fim e jogos das escondidas. 

A mesa cheia de comida não lhes desperta interesse. São os rissóis e os pães com fiambre e queijo, as tortas dancake de chocolate e as que têm recheio de morango, os bolos de aniversário com bonecos e campos de futebol. Eles passam e petiscam, roubam uns sugos ou uns caramelos de fruta que estão espalhados pela mesa e seguem caminho. Há muita brincadeira à espera.

Depois o tempo passa, os meninos pequenos crescem e as correrias da festa dão lugar à música que toca na rádio e onde se aproveita a balada da moda para trocar uns passos de dança com aquela menina a quem já se piscou o olho e com algum incentivo por parte dos pais que acham sempre piada aos miúdos de meio metro a fingir que são adultos.

Vai chegar uma altura em que as festas já nem se fazem em casa com os pais e as avós a deitarem um olho aos miúdos, mas por enquanto ainda estão ali a gritar, vermelhos e transpirados de tanto correr. A casa fica vazia quando a noite já apareceu. Os pais passam para ir buscar os filhos e ficam copos e guardanapos espalhados pelos cantos e um aniversariante muito cansado de tanto brincar.

Foi um dia em grande, cheio de tudo o que é bom e que deixou recordações que daí a uns anos vão servir para entrar em conversas que começam com um "No meu tempo". Nesse tempo onde tudo era sempre melhor mesmo que não fosse bem assim.





quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O escaldar da apanha

É a época dela. O tempo a arrefecer e as oliveiras carregadinhas de azeitona a pedir para que se comece com a apanha. 

Lona estendida no chão, a toda a volta da árvore, e família inteira de mangas arregaçadas que o trabalho não deixa ninguém de fora. Há que chegue para todos. Bucha pronta para a hora do descanso, café a assentar e garrafão de vinho para dar fôlego ao corpo. 

Os ramos mais baixos são ripados, nos mais altos bate-se com um pau de todo o tamanho. Esforço e paciência. Cansaço que se paga quando se vê o resultado espalhado na lona. Acumulam-se os ramos partidos, as folhas da árvore e as azeitonas que vão caindo. Passam horas neste trabalho que faz o corpo suar e cansa os músculos.

Quando a árvore já não tem mais para dar, escolhem a azeitona que caiu. De joelhos e costas curvadas lá vão separando. A mais grada e sem defeito é guardada à parte que tem destino próprio, o resto é entregue no lagar para que dê o azeite com que a família se vai remediar. 

A azeitona boa é levada para casa. Retalhada pelas mãos habituadas a ficarem negras com tal trabalho e que passam o conhecimento aos mais novos. Três cortes em cada uma e são atiradas para o alguidar. Depois de retalhadas, são escaldadas em água a ferver e um sem fim de sal. São duas semanas até que fiquem doces. 

Depois, para quem consegue esperar as duas semanas que se impõem, é guardar para os tempos que se avizinham. Para quando o trabalho escassear e não houver outro conduto para além daquele que caiu da árvore. Nessa altura, é tirar uma mão cheia delas e juntar às misturadas que aquecem a tigela do jantar. É acompanhar a manja com as azeitonas, que não há dinheiro para peixe nem para carne. 

Os tempos não estão fáceis.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O cheiro das ruas

Eram outros tempos. Aqueles dias em que o sol do meio-dia iluminava a rua com uma luz tão clara que obrigava a fechar os olhos. 

A rua tinha o alcatrão em mau estado, o que não se possa dizer que seja muito diferente dos tempos de agora, e só duas ou três casas é que tinham um primeiro andar. Todas tinham um quintal com direito a um barracão com a cozinha onde comia a família. A cozinha de casa era para as visitas. 

Ao meio-dia, a rua começava a ganhar vida mesmo que não se visse uma pessoa que fosse. 

Vindo dos quintais, ouvia-se o som do garfo a raspar na velha frigideira gasta de tanto ser areada. A telefonia tocava um fadinho ou outro, daqueles que faziam chorar as pedras da calçada, e as mulheres de lenço à cabeça e bata vestida, faziam o almoço para os netos que vinham da escola, os filhos que almoçavam ali ou os homens que vinham do trabalho. 

Cheirava a refogado com azeite feito no lagar lá da terra, com as azeitonas que a família inteira tinha apanhado. A cebola a ficar translúcida e o toque do alho e do louro. 

- Não comas o louro que te rasga a garganta! 

O borbulhar do óleo quente. As batatas cortadas em palitos e metidas dentro de água, à espera. A carne cozinhada com tempo e com uma perícia que nasce com a pessoa. É preciso ter mão para a cozinha. Ainda não há chefs, só cozinheiras. 

A feijoca a cozer para a sopa, com o toque dos enchidos e da carne de uma qualidade que já não se encontra. Um cheiro rico e gordo, guloso. 

Uma rotina cumprida em todas as casas. Um cheiro que enche a rua vazia e que anuncia a chegada do resto da família para se sentarem à mesa, com o pão ao lado para raspar o fundo da frigideira antes de voltar a ser areada. 

As memórias fogem com o tempo. As caras ficam confusas e perdem-se nomes, mas o cheiro a refogado a invadir uma rua vazia vai sempre levar ao sol do meio-dia numa rua de alcatrão esburacado onde se espera que a família chegue para almoçar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sinal de Chuva

Vem de longe a melodia que se reconhece sem grande esforço. Não se percebe se vai passar por ali ou se avisa só que anda por perto. 

- Logo hoje que limpei a casa – ouve-se alguém dizer. 

São as superstições e crenças que passam de geração em geração sem fundamento científico, mas com convicção. A melodia metálica, tocada numa gaita-de-beiços já marcada pelo tempo, anuncia a chegada de chuva. Mesmo que o termómetro marque quarenta graus à sombra. 

Lá aparece ele ao fundo da rua. Parece não ter idade certa: a agilidade de um jovem, misturada com a pele marcada pela vida. Traz a bicicleta numa mão. Pneus finos, posto de trabalho montado. A outra mão segura na gaita-de-beiços onde vai tocando a melodia que avisa que o tempo vai mudar. É o que dizem.

Não fala nem se faz anunciar por outro meio. Os passos são calmos, mas seguros. Calça de trabalho e camisa de manga comprida arregaçada até ao cotovelo. Boné na cabeça. Pele suada. 

Elas, conformadas com a chuva que se aproxima mesmo que assim não pareça, saem de casa com as facas, tesouras e o que mais aparecer e esperam que ele as arranje. 

 A lâmina a raspar no amolador que roda sem parar. A perfeição com que ele cumpre o seu trabalho, a delicadeza num ofício tão rude. 

Devolve as facas prontas a usar, tão afiadas que se conta que podem cortar metal com elas. É só querer. 

Recolhe o dinheiro e despede-se com um puxar leve do boné. Segue o seu caminho de bicicleta na mão e a entoar a melodia tremida que avisa a sua chegada. 

O tempo vai mudar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Onde vais?

É ponto assente de ano para ano. A festa sai à rua com direito a procissão, música e vinho para matar a sede. O mesmo fim-de-semana, marcado não se sabe bem quando. 

Há roupa nova para estrear quando os santos saírem à rua. Há quem os acompanhe descalça, a pagar as promessas que vão sendo feitas pelo filho que ainda não voltou da guerra, pela filha que precisa de uma cura. 

Matam-se coelhos e galinhas, põe-se a mesa com o melhor que se consegue arranjar. Junta-se a família inteira numa casa que não tem espaço nem para metade. É festa, valha-nos a boa vontade. 

As flores transbordam dos andores. Ouve-se o terço rezado pelas ruas. A banda acompanha os passos dos fiéis. Há quem chore quando se ouvem os sinos e começa a procissão. Há quem não consiga conter as lágrimas. Por si, pelos seus, seja lá pelo que for. 

Imaculada, Rainha dos céus. 

Cantam em devoção. De lenços na cabeça e terço nas mãos, em passo lento e sofrido. 

Recolhem os andores com uma chuva de foguetes e o toque ininterrupto de sinos. Parece que o mundo acaba ali, mas está só a começar. 

Chega a noite depois de a procissão recolher. Os lenços deixam as cabeças e há quem comece a trocar as palavras. O conjunto toca no palco improvisado e um rapaz ou outro tenta a sua sorte e convida uma menina para dançar. As mães estão atentas a qualquer tentativa de desonra, mas até o soldado mais competente se distrai. 


Bebe-se demais. Rouba-se uns beijos atrás da igreja. Promete-se porrada da grossa ao outro que acha que é mais do que o que os rodeiam. O vinho fala sempre mais alto e não passa um ano que seja sem que alguém volte para casa com um olho deitado abaixo. 

A festa segue, ano após ano. Ruas enfeitadas, santos a arejar, roupas novas, sapatos de solas imaculadas e vinho do bom. 

Donde é que vens? 

Venho da festa. Se Deus quiser, para o ano há mais.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Vai e Vem

O dia começava cedo e o calor  já se fazia sentir. Era Verão, não se podia esperar outra coisa, mas falar da temperatura é uma coisa comum. Se está calor, mesmo nos meses em que é suposto assim ser, há sempre uma referência ao ar que sufoca e ao sol que queima.

Mas naqueles dias não havia calor que assustasse. Era o tempo dele e o destino era a praia.

 Juntavam-se todos no ponto de encontro à espera. Novos e mais velhos, crianças e avós. Cestas cheias de toalhas e protectores solares. A geleira com o almoço, o lanche e mais qualquer coisa para confortar o estômago. Os sacos com os brinquedos essenciais que muitas vezes voltavam para casa com menos um pá que tinha ficado enterrada na areia. Pequenos problemas na vida dos mais novos que pouco se preocupavam com eles, nada conseguia perturbar aqueles dias de mar e areia. Tanta areia que quando chegavam a casa parecia que a praia tinha vindo com eles.

O autocarro chegava, o ponto de encontro ficava vazio. Começava a viagem que parecia sempre mais longa do que a realidade. A vontade era chegar o mais depressa possível.

Havia dias em que o tempo trocava as volta aos visitantes. O calor da partida transformava-se em nuvens à escada e, de vez em quando, uma chuva ameaçava o dia. Os mais velhos vestiam uns casacos aos mais novos que, mesmo com a chuva a cair, ficavam pela areia a construir castelos e tartarugas de areia.

Mas ao meio-dia, o sol voltava. Os toldos protegiam do calor, a água gelada pedia banhos demorados e mergulhos dignos dos jogos olímpicos e o lanche ficava mais para mais tarde. Todos eram amigos, todos partilhavam brinquedos e histórias. Os que tinham feito a viagem juntos e os amigos que se faziam com a barraca ao lado.

Os dias eram aproveitados ao segundo. Com gritaria, risos, jogos de futebol improvisados e sestas dentro da barraca. O tempo passava sempre rápido de mais e quando ainda parecia que estava a começar, já o sol começava a desaparecer.

- Já está na hora?

Já estava. O autocarro esperava para fazer o caminho de volta, os mais novos adormeciam nos bancos porque a viagem era longa e os mais velhos pensavam no que tinham de preparar para o dia seguinte. Mais sacos para arranjar, mais uma viagem para fazer. 

Com alguma sorte, o sol começava a espreitar logo de manhã.
                 


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Peregrinação da Espiga

Hoje não se trabalha: é dia da espiga. Não há convite nem confirmação prévia, mas todos sabem que é dia de piquenique. Faça sol ou prometa chuva. 

Saem todos à rua, miúdos e graúdos. De cesta aviada com o farnel bem tapado com panos grossos e a manta aconchegada debaixo do braço. Há um ou outro garrafão para aquecer as almas. Fazem o caminho a pé, com cantorias e conversas, até ao campo que todos os anos os acolhe. 

Lá estão as sombras que lhes dão abrigo e o tanque onde se tomam uns banhos, se o tempo o permitir. 

Esticam as mantas assim que chegam. As mulheres, de olho nos miúdos que improvisam um jogo de futebol, deixam-se ficar na conversa. Por aqui e por ali, há quem se perda numa jogatana de cartas cheias de vincos. 

- Goooooolo! 

Conversas trocadas, gargalhadas, correrias e gritos de vitória. 

- Ó Gertrudes, mas tu sabias disto? 

- Opah, não podes jogar isso. 

O mundo parou naquele momento de descanso. 

Chega a hora de almoço e o farnel espalha-se pelas mantas dos convivas. Pastéis de bacalhau e frango assado no forno. Pão amassado à mão e bolacha maria. O que há é dividido por todos, sem restrições. O pouco que se tem, chega sempre para mais um. 

O dia não acaba sem um último passeio à procura da espiga. Oliveira e nespereira. Papoilas e malmequeres. Rosmaninho e espiga. Tudo contado como manda a tradição e transformado num ramo bem apertado com uma guita. Tem de durar até ao próximo ano. 

A vida é simples. É feita de certezas que não se marcam, de uma união que não é programada. 

- Até para o ano, se Deus quiser!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Assim que chega ao frio

Era mesmo ali no fim de Novembro. Dezembro a espreitar e já um frio considerável na rua. Casacos quentes e manhãs de nevoeiro. Daquele nevoeiro tão cerrado que se podia esperar a chegada de D. Sebastião a qualquer momento.

Já cheirava a Natal. Cheirava a frio, a lareiras acesas em quase todas as casas e mantas quentinhas à nossa espera no sofá. Tínhamos por certo que as férias estavam a bater à porta.

Mas o Natal só chegava quando, ao acordar de manhã, a árvore já estava à nossa espera. Verde, gorda e a sujar a casa toda com resina. Árvores a sério. Daquelas que picam e que cheiram a verde e a natureza. Que cheiram a Natal.



O Natal começava quando ele saía cedo de casa. Casaco abotoado até cima e lá ia ele. Voltava já perto da hora de almoço. Às costas trazia dois pinheiros.

- Um para a tua casa e outra para aqui - dizia assim que chegava numa lengalenga repetida ano após ano.

Era ali que começava o Natal. Nos dois pinheiros deitados no chão. Mais redondos do que os desenhos que se fazia na escola e com um cheiro que enchia tudo à sua volta. Dois vasos cheios de areia e revestidos a papel de embrulho estavam preparados para os receber. Os sacos cheios de fitas e bolas de todas as cores e feitios saíam dos armários.

Estava nevoeiro e ameaçava chuva. Os casacos estavam abotoados e os cachecóis ficavam tão enrolados que só deixavam os olhos à vista. Os pinheiros, com direito a resina pelo chão, estavam preparados para a festividade e o ar cheirava a Natal. Uma mistura que ainda levava canela e fumo da lareira.

Era assim que começava o Natal quando eu tinha pouco mais de um metro de altura e o cabelo à Beatriz Costa. Com dois pinheiros apanhados de propósito para mim.

domingo, 15 de novembro de 2015

Ó de casa

- É para encher?

Grita o miúdo enquanto desce a rua. Calções de tecido, boné na cabeça e garrafa de vidro na mão. Entra na taberna sem hesitar e o taberneiro limita-se a perguntar:

- É para assentar no livro?

Nas mesas que andam por ali espalhadas ficam uns quantos com um copo de vinho à frente e cabeça caída com o peso do sono, outros jogam à bisca enquanto não é tempo de voltar a casa.


O miúdo corre rua acima sem fazer mais perguntas.

Uma janela de madeira abre-se. Uma miúda de lenço atado à cabeça espreita à janela, anda à procura do irmão que teima em não chegar. Do outro lado da rua, juntam-se as vizinhas em horas perdidas de conversa.

- O miúdo já aí vem - dizem-lhe sem perguntar o que procura.

E lá ficam elas encostadas à parede, de saia pelo tornozelo e cesta aos pés. Vestem luto carregado. Andam a ver quem passa e contam as novidades que sonharam no dia anterior. Apertam mais o xaile para as proteger e falam baixo para que ninguém dê por elas. Juram que sabem da vida de todos, mas pouco percebem do que passa do outro lado das portas.

Está na hora de despegar. Os homens aparecem ao cimo da rua com roupa de trabalho e enxada ao ombro com o saco do conduto pendurado. As botas vêm cheias de lama e as mangas da camisa arregaçadas. 

As mulheres e as crianças vêm mais atrás. Cestas equilibradas na cabeça e ar cansado de quem dá por terminado o dia. Ou parte dele. Espera-lhes o jantar, o inventar comida para as bocas que têm lá por casa. O rezar para que o marido não beba mais do que a conta.

- O teu homem anda pela taberna.

A mulher, cansada e com a pele marcada pelo trabalho no campo, olha de soslaio para a outra e segue caminho. Que a ignorância lhe sirva de lição, pensa. Devia ter vergonha da vida que leva, acredita a outra.


Vive-se paredes meias com uma aldeia inteira. Sabe-se de toda gente ou faz-se por saber. Reza-se pela alma do abençoado para sair a dizer mal de quem passou à sua frente. 

- A benção.

Se é que há benção que chegue neste mundo para tudo o que se vai passando por ali. Olha-se para a porta alheia porque é mais fácil apontar os dedos aos outros. 

Volta-se para a casa. Amanhã começa tudo outra vez. Mais um dia. Está tudo igual.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quentes e boas

No S. Martinho, vai à adega e prova o vinho. É o que se ouve dizer por aí.

A uma adega qualquer, nestes dias não é preciso convite. O que é preciso é sorte para encontrar uma que esteja aberta.

Tempos houve em que as adegas abriam os portões e ficavam à espera de quem quisesse entrar. Sem convites ou publicidade, era a tradição da porta aberta a quem viesse por bem.

Os homens juntavam-se, as mulheres ficavam recolhidas em casa. Boné aos quadrados na cabeça e copo de vidro na mão. Dos pequenos, é assim que pede o vinho.

Provava-se o vinho novo que ainda estava guardado em pipas. Das de madeira que enchiam aquele espaço em que o cheiro a álcool parecia estar colado às paredes a quem por lá passava. Juntavam-se amigos e conhecidos para cumprir o ritual de devoção a um santo.

Fazia-se a fogueira numa lata que andava por ali perdida. Era Novembro, o tempo estava frio e o vinho ainda demorava a fazer efeito. A fogueira ficava mesmo ali, no meio da adega. Aquecia os convivas do vento que entrava pelo telhado e pelas frestas da parede. Mais um copo de vinho que a fogueira começava a pegar.

Cortavam-se castanhas com os canivetes que andavam no bolso e o assador ia ao fogo. Era ver os homens a aquecerem-se na fogueira improvisada enquanto esperavam que o petisco ficasse pronto. Novos e velhos, sem distinção, Em dias de festa, o vinho era para todos.

Ouvia-se o abrir da torneira de madeira. Com esforço. Era só mais um copo de água-pé que era da boa. Tão boa que arde na garganta e aquece o corpo. É nova. Alguns começavam a ter dificuldade em manter-se em pé e o equilíbrio ia-lhes fugindo a cada copo que deitavam abaixo.

Queimavam-se as mãos enquanto se provavam as castanhas acabadas de sair do lume. Quentes e boas, como se quer. As vozes, arrastadas pelo peso do vinho, falavam de outros tempos tão antigos que se perdem na memória.

A noite terminava quando já nem se sabia que horas eram. A adega cheia de fumo e os corpos quentes da prova do vinho. Abriam-se os portões enquanto se bebia o último copo.

Só mais um. Para dar força para o caminho.