Mostrar mensagens com a etiqueta Outros Tempos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Outros Tempos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Não vos livro da fome

- Livro-vos da guerra… 

Lá nisso o homem estava certo. Não houve guerra que entrasse pela porta. Os homens continuaram por casa, os rapazes lá iam andando na vida deles e não eram deixadas moças por casar nem mães de colo vazio. Tudo uma grande verdade, mas a realidade era outra coisa. Era eu a levantar-me ainda antes do dia raiar e fazer-me ao caminho. E se eu era nova. Nova e miudinha que também nunca cresci muito. Mas como estava a dizer, lá ia eu, a pé, dez quilómetros para lá e outros tantos para cá, sem sapatos e com a senha bem guardada na mão fechada com toda a força que tinha. 

Não havia açúcar, farinha, azeite ou pão que nos chegasse à mesa de outra forma. Tudo era dado em troca de um bocado de papel como aquele que eu levava. Mas nós éramos oito em casa e a senha dava direito a um pão. Só. O que é isso para uma família tão grande? Ainda por cima quando o meu estômago já reclamava quando eu saía de casa e um pão não chegava nem a meio do caminho? Vocês sabem lá o que é viver com aquela fome que parece que já faz parte de nós e que nos atormenta a cada passo. Foi por isso que me fiz esperta. 

Sempre que chegava a minha vez, mostrava a senha tal como a minha mãe me tinha dito. Em troca recebia um pão. Tudo certo, mas com a confusão do racionamento e da distribuição, havia dias em que ninguém recebia a minha senha e lá casa eram oito bocas à espera de algo que lhes acalmasse o estômago. Foi aí que veio a esperteza. Depois de recebido o pão, dava meia volta, escondia-o numa árvore fora dos olhares mais atentos e voltava para a fila com ar de menina bem-comportada e roxa de fome. Voltava a mostrar a senha, recebia outro pão e lá ficava com o papelinho outra vez. E repetia a história. Pão guardado na árvore e eu na fila com olhar de menina bem-comportada. 

Não fiquem com esse ar de quem nunca faria tal coisa e que eu quebrei todas as leis morais que conhecem. Os tempos eram difíceis e a fome é uma tortura que só sabe quem passa por ela. Sim, às vezes lá era descoberta e levava uma reprimenda de tal tamanho que me fazia companhia no caminho de volta, mas levava os braços cheios de pão e podia comer logo meio sem me sentir culpada. Que isto de dizer estarmos livres da guerra é muito bonito, mas só quem passou por ela é que sabe que aqueles tempos não tinham nada de liberdade. 

- ...mas não vos livro da fome. 

Lá isso não livrou. Pobreza já sabíamos o que era, que numa vida inteira não se conhecia outra coisa, mas aquilo foi ainda pior. A pobreza deu lugar à miséria, a estômagos que roncavam por hábito e a uma sardinha que, quando existia, era dividida por todos os que se sentavam à mesa. Abençoados os caçulas que tinham direito ao rabo da dita, pouca sorte a dos mais velhos que chupavam as espinhas. Por isso fiz-me esperta. E querem que vos diga? Não me arrependo.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O não para ser mulher

O tamanho era pouco. Nascera nos dias pequenos, era o que costumavam dizer-lhe por graça quando percebiam que tinha deixado de crescer por volta dos sete anos. Ou então crescia tão devagar que era preciso deixar passar muitos mais para se perceber a diferença.  

- Já és uma mulherzinha. 

Estava a chegar aos doze. Doze anos sem altura que o confirmasse, mas com sentença associada. Mulher. O que era bom de saber era quando tinha sido menina porque disso ninguém a tinha avisado. Nunca se tinham virado para ela com a mesma autoridade de agora, para lhe dizer que era uma menina e agora era isto. Mulher. 

Talvez tivesse sido criança quando embalava os irmãos e ainda mal tinha feito os cinco anos. Ou quando, com oito aniversários contados, os preparava para a escola transformando o vazio da cozinha em pão para lhes dar pela manhã. Talvez o tivesse sido na altura em que não tinha tempo para brincar, mas a roupa estava estendida ao sol, imaculada. 

- As mulheres de respeito não andam a rir assim. Isso são as que não têm juízo.

Dez anos e tinha dado uma gargalhada vinda lá bem de dentro no meio da rua. Não o voltou a fazer que ninguém quer que pensem que lhe falta juízo embora saiba que não é o seu caso, mas mais vale prevenir os comentários.

- Já és uma mulherzinha.

Foi o que lhe disseram quando a puxaram pelo braço e a tiraram da corrida que fazia com os outros rapazes e que estava a dois passos de ganhar. 

- As mulheres não correm. 

E ela parou. Porque era mulher embora ainda se sentisse criança e o ser mulher tinha regras. Muitas. Todos os dias mais uma. Ela cumpri-as todas. Uma por outra, adicionando novas. Não ria, não corria, não chegava a casa depois do sol se pôr, não se esquecia de preparar o jantar, não usava saia acima do joelho, não falava com homens na rua, não ficava sozinha com eles sequer, não dançava, não mostrava as pernas, não respondia, não tirava os olhos do chão, não... 

- Não queres ser uma vadia, pois não? 

Não queria. Só queria ser mulher porque diziam que já o era. Era por isso que juntava mais um não à lista.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quando o entrudo saía à rua

Quando chegavam os dias em que se dizia que ninguém levava a mal, eles encontravam-se no sítio de sempre. Os mesmos de todos os anos com o juízo próprio de quem se acha muito adulto sem o ser. Eram novos. A idade era pouca e de adultos só tinham a altura como ouviam a dizer

- Parece que lhes põem adubo nos pés.

Nos dias que antecediam a tarde em que o  senhor Padre abria as portas da igreja para a quarta-feira de cinzas, um deles abria a porta de casa aos outros e faziam-se às roupas e aos trapos que encontravam. Tudo servia. Eram batas com a cor a desaparecer, fatos oleados que deviam estar no campo e não em brincadeiras de crianças, meias pela cabeça e pelas pernas. Roupa por cima de roupa até deformar o corpo. Cajado, ou pau que lhe fizesse vez, na mão.

Saiam em grupo, quando a noite já ia alta e a rua era iluminada por uns candeeiros de luz pálida e tímida. As suas sombras faziam dois de cada um e estendiam-se à sua frente. O cajado anunciava-os ao mesmo tempo que as portas trancavam-se por dentro.

Eles lá iam. Rua acima para fazer rua abaixo a seguir. Um a arrastar uma perna, outro a fazer que era manco e todos a disfarçar quem eram. Pelo menos enquanto se lembravam. De vez em quando lá havia um que, cansado de andar com o corpo dobrado e a bambolear, fazia-se ao passo normal até que alguém o chamava à razão.

Batiam às portas de punho fechado. Várias vezes a várias portas. Até que alguém, distraído das datas em que andavam, abria uma e eles entravam sem pedir autorização. Verdade seja dita que quem não fala não pode pedir e deles não se ouvia uma palavra que fosse. Entravam por ali dentro e faziam como se fosse sua a casa que era dos outros.

- Mas quem é este?

Tentavam uns e outros adivinhar quem eram aqueles. Sentiam-lhes as mãos. Viam-lhes o andar. Tentavam destapar a cara. Lançavam apostas sobre quem eram. Nunca ninguém as confirmava e eles faziam-se às ruas. Agarravam em quem se atravessava no seu caminho sem delicadezas. Ouviam-se os gritinhos e os risos ao longe e já se sabia

- Eles já andam por aí.

- Tu fecha a porta antes que eles entrem por aí dentro.

Mas nem todas estavam fechadas e nem todas as ruas estavam vazias. E eles percorriam uma por uma. Cajado a marcar o passo e cara tapada. Naqueles dias em que ninguém levava a mal, o entrudo saía à rua. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Chegavam os que tinham ido

Passavam-se meses sem que visse a cor daquela terra. Tanto que a memória ficava enevoada quando se tentava recordar das casas ou trocava as feições dos vizinhos. Pelo menos era isso que dizia a si própria quando falava de onde vinha. Da terra. De onde todos vinham e ninguém se conhecia.

Quando a camioneta a deixava na curva de toda uma vida, saía de sapatos engraxados, roupa engomada e cabelo sem um fio fora de sítio. Impecável. Como se nunca tivesse sido dali. Como se não tivesse nascido duas casas abaixo.

Voltava à terra. Ela que agora vivia na cidade. Ou lá perto, mas que ali contava como cidade. O que importava era o que andava de boca em boca, o que se dizia de peito cheio. O resto era o que só sabia quem o vivia. Quem acordava quando ainda era de noite para fazer o que os outros, os que sempre tinham vivido no meio das avenidas largas, recusavam.

Tinha saído dali porque a vida era melhor lá para aonde ia. Onde não trabalhava ao sol como outros, mas de sol a sol tal como eles. Voltava para ver a terra, para ver a mãe a quem já ouvia a voz sem que a visse no horizonte. O coração sentia a presença de quem tinha dado vida muito antes de ver, era isso que ela lhe dizia. Vinha para matar saudades que dizia não ter. 

Descia da camioneta com uma mala sem peso na mão e o queixo erguido, a olhar de cima para quem era da sua altura. Os outros de pés descalços e ela de sapatos com sola por inteiro. Os mesmos que ficavam guardados para usar apenas aos Domingos e dias santos. Os outros com os cabelos em desalinho e a cara vermelha de tanto sol. E ela aparecia com vestidos sem remendos e cabelos arrumados em bananas puxadas com tempo. Era Domingo a meio da semana. Fazia questão que assim fosse.

Quando voltasse a subir aqueles degraus seria de corpo curvado com o peso das batatas e das couves que levava na cesta. Com a voz da mãe a despedir-se. Depois do tempo na terra. Ia como tinha chegado, de queixo erguido.

- Tem o rei na barriga é o que é.

- Até parece que  não passou fome como os outros.

Nas suas costas ficavam as conversas entre uns e outros. A verdade levava-a consigo. Para a cidade. Ou para lá perto. No sítio onde ficava o quarto com serventia de coisa nenhuma a que chamava casa.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Vinte escudos

Lá iam mais vinte escudos sem que fossem perdoados. Já nem tentava. Diziam que às vezes dava, que ele lá olhava para o lado e aceitava a cesta, mas as bocas dizem muita coisa que os olhos não chegam a ver. E, daquilo que os dela viam, não havia galinha, ovos ou molho de couves que fizesse a vez daquele dinheiro tão bem poupado e gasto sem que se desse pelo tempo. Tudo para ouvir o que sabia desde que era gente. 

- És fraquinha. 

Já o ouvira. Desde miúda que era aquela a sua sentença acompanhada de um rol de avisos na voz mastigada do doutor. 

- Carne mal passada, fígado. É isso que tens de comer a ver se o sangue ganha força. 

As mesma palavras com o mesmo cheiro a álcool etílico que nunca deixava o consultório por muito que se abrissem as janelas nos dias de sol. Saía com o que já sabia, os bolsos mais leves e a ordem para comer carne. Dinheiro para isso é que nem vê-lo. Passava os dias a enfardar palha e os setecentos escudos que fazia tinham de se aguentar. Era mais tempo a poupar do que a trabalhar. Mas descansava-a que ali olhava nos olhos do médico, ouvia-lhe a voz. Nem sempre era assim. Ouvia por aí, aos miúdos da escola, que alguns fechavam a porta do consultório a prometer chamar doentes e quando davam por ele já se tinha escapado pela janela. As pessoas à espera e o consultório cheio de ar. Pelo menos ali alguém a via. E ele já lhe conhecia os males sem se meter em assuntos que não eram seus. 

- Não te esqueças da próxima consulta. 

Mais vinte escudos para pôr de lado. A não ser que o inchaço da barriga desse em criança antes disso. Se assim fosse, o médico que tivesse paciência, mas a consulta ficava para quando pudesse ser. Esses assuntos também não eram para ele, eram assuntos dela. Dela e das mulheres que os sabiam. Havia coisas que nem um médico, por muito estudo que tivesse, sabia. E parir era coisa de mulheres. Ele que ficasse com os livros, os males do sangue e as coisas que ninguém compreendia. O resto não lhe competia. Daquilo que ela sabia, o médico aparecia mais na altura de alguém deixar o mundo do que na hora de chegar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Mãos em barro

Quando as mãos se faziam ao barro não havia hesitação. Os movimentos eram certos num balanço intuitivo entre a força e a leveza, a peça na cabeça e os dedos a saberem exactamente qual a espessura que pedia. De boca perdida na conversa, a reviver a vida que não era o que tinha esperado e as mãos a trabalharem como só elas sabiam. Eram anos daquilo. 

Começara novo. Mais novo do que seria bom de dizer, mas naquela altura ninguém se espantava com os bancos da escola vazios e os miúdos a aprender ofícios. 

- Faz-lhes bem.

Tanto bem lhes fazia que ele já tinha perdido conta às horas que passara ali, naquela roda, com as mãos revestidas a restos de barro húmido e o joelho a controlar o trabalho. 

Mas quando era miúdo aquele lugar era privilégio que raramente lhe estava destinado. Só quando ficava parado a contar as telhas da olaria é que tinha direito a dar balanço à roda e a sentir a peça a tomar forma. Ele sentava-se e os mais velhos murmuravam 

 - Vai estragar o barro todo. 

Foi assim que começou, a centrar barro e a fazer testos. Uns atrás dos outros até conseguir que fossem todos iguais. Anos naquilo. A perceber o que era o equilíbrio entre a leveza e a força, a firmeza do polegar, os dedos em tesoura. Um toque fora de sítio e aquilo a abalar tudo por ali abaixo sem nada que o salvasse da falta de saber. Tudo sozinho, sem ninguém que o orientasse. A fazer o que via nas mãos dos outros, a aprender quando as peças não eram nada. 

- Se queres aprender, vê.

Mas a roda era caso raro. No resto do tempo fazia o que havia. Entrava campo dentro e voltava com a lenha que era preciso para dar alento ao forno que recebia as peças. As mãos arranhadas das silvas e o suor a escorrer pela cara, mas o lume a manter o vigor. Ou ia à procura do barro que se escondia na terra gretada. Logo ali, por baixo da cabeçada escondia-se o barro podre de campo. E ele, com a sabedoria que outros lhe tinham passado, lavava-o. A tina cheia de água, o barro coado, a água que evaporava. O saber esperar, o conhecer as alturas. O tempo que aquilo levava até ficar barro húmido de um lado e as pedras e tudo o resto do outro. 

Este saber que lhe levou anos de paciência que não há ofício que se aprenda sem demora. Não. Leva tempo. Leva erros. Leva querer. E hoje, ninguém o olha na ânsia de ocupar o seu lugar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

As lágrimas que alimentam

A cama onde ele tinha morrido já tinha sido feita de lavado com o que havia por casa. O morto ali estava. Deitado, imóvel, de olhos fechados e pronto para se fazer à última morada. Foi-se sob o olhar da mulher e das filhas que, tal como quando se chega ao mundo, ninguém o deve abandonar sozinho. Velaram-lhe as últimas horas e trataram dele quando o frio começava a subir pelo corpo. A notícia não tardou a passar de boca em boca. Preparou-se o talhão que lhe estava destinado e avisou-se o padre para que lhe desse a última benção. Até lá, velavam o corpo que já não era quem tinha sido. 

Ela chegou vestida de preto. Saia pesada e xaile a cobrir-lhe a cabeça. Deixou-se ficar ao lado do morto, no sítio que lhe competia por profissão, com os olhos meio fechados a encarar o chão e a cabeça apoiada na mão que guardava o lenço de luto. Murmurava lamentos finos envolvidos num choro miúdo. Remoía as palavras da sua ladainha numa dor que era tão bem fingida que, quem não a conhecesse, tomava por sua. 

"Iremos os dois no seu caixão. Eu já sofri tantas penas no mundo", um dizer repetido tantas vezes que se tornara uma melodia de defuntos. Mordia o lenço que trazia na mão. Limpava com ele as lágrimas, a boca e assoava a tristeza que murmurava. Passava os dedos marcados pela cor do campo, pela cara e fungava entre cada refrão que entoava. Chorava a morte como quem trabalha o campo ou prega um botão numa camisa. 

Quando a paga o permitia, ouvia-se um grito. A cabeça que ia para trás numa súplica que trespassava o corpo dos que assistiam e as pernas que ameaçavam perder a força. A reza a nosso Senhor que se perdia no meio do lamento. 

Assim ficava até que o corpo encontrava o descanso na humidade da terra. Era aí que ela voltava-lhe costas e fazia-se ao seu caminho com o saco de trigo que lhe era devido e a limpar as lágrimas de carpideira. Que viesse o próximo que este fim é a única coisa que se tem por certo nesta vida.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O frio que o corpo aguenta

O cobertor que a cobria durante a noite, não tinha peso para afastar o frio que chegava no Inverno. Quando era hora de acordar, o corpo levantava-se dormente. Por aquela altura, o dia podia amanhecer de céu limpo, mas a verdade é que o sol nem pelo meio-dia prometia calor. Era assim Janeiro, mês em que o que faltava em dinheiro sobrava em gelo. 

Era esse frio que agora lhe entrava pelo corpo e cercava os ossos prendendo-lhe os movimentos. Uma dor fina a que já se habituara a ter como companhia nos dias frios, alastrava-se pelo interior do seu corpo começando quando os pés tocavam no chão e abrindo caminho pelo corpo de miúda até à nuca voltando a descer num arrepio discreto. A roupa não ajudava a acalmar o frio. Saia e meia até ao joelho que as regras da casa ditavam que calças era para os homens e as contas não deixavam folga para collants. Casaco de malha abotoado até cima como abafo. Nada mais. Tão eficaz como o cobertor, mas o corpo habitua-se. O que seria dele se assim não fosse. 

Fazia o caminho com os sapatos de solas pouco mais que meias, mãos roxas e nariz vermelho. O frio caía sem que fosse visto, mas sentia-se o vento a cortar as faces e a queimar por dentro a cada inspiração. O caminho tornava-se longo, os passos custavam, a nuvem branca que lhe saía pela boca embaciava o caminho. Uma provação que era esquecida quando, ao fundo da estrada, a curva abria para o campo que no dia anterior era verde. 

Uma camada fina de gelo cobria tudo o que conseguia ver. Era o mais próximo que estava de ver neve tal e qual como a imaginava: um campo branco a prolongar-se até onde a vista deixava e que lhe aquecia o corpo que só conhecia gelado.

Deixava-se ficar pelo tempo que podia. O corpo a gelar e ela sem o sentir, o calor da imagem da neve a dar-lhe alento. Diziam que Deus dava o frio conforme o corpo aguentava. Ela acreditava que Ele dava-lhe o vislumbre da neve naquele campo de gelo para a compensar do gelo que vivia no seu corpo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Minha terra é Vale da Pinta

É um viver que só conhece quem de lá vem. Um saber que passa de boca em boca, de mão em mão, sem cartilha que o explique ou lhe dê regras. É o que é, sem mais. Corre no sangue de quem deu os primeiros passos por aqui. De quem baldeou no lago da igreja e transformou a roupa de Domingo numa rodilha a precisar de ser espremida. De quem fugiu da maquia que lhe prometiam. 

Sabemos todos o mesmo. Sentimos o mesmo. Falamos um português que soa ao que o país fala, mas que só nós o percebemos. É a pronúncia que aparece quando os nervos tomam conta de nós, são as palavras que só têm significado para quem cresceu com elas. 

Cantamos esta terra que nos corre nas veias e gritamos que é nossa enquanto esperamos que as pétalas comecem a cair em cima do público. A nossa linda freguesia. Mais que todas as outras mesmo que seja só aos nossos olhos. 

Lembramos os saudosos tempos em que os caracóis eram servidos à mesa da taberna do Valentim e que os mais novos vinham do Zé d'Azoia com um cartucho de beijinhos escolhidos à mão. Aquele açúcar colorido que tinha sabor a inocência. A mesma inocência com que batiam à porta de um e de outro e desapareciam antes que se ouvissem passos do lado de lá. A porta abria para encher a rua vazia com o cheiro a refogado de alho e louro e só se ouviam os passos que fugiam ao longe. 

É assim que vai passando o tempo, quando damos por ele já perdemos a conta aos anos. Envelhecem os que dançaram na casa das canas sem ligar a quem sonhava de noite para dizer de dia. Aguentam-se os que ainda se fazem ao trabalho quando se ouve a pergunta que o tempo tornou ordem: "Toca a muca ou não toca a muca?". Ouvem-se os insultos quando o árbitro não está pelos nossos, os que sabemos que vão ganhar. Ficam as histórias vividas por uns que se tornam de todos com o passar de boca em boca. 

Pode chegar o dia em que seja só eu, tu e o Zé d'Azoia, ou que as estradas fiquem vazias, mas esta história será sempre nossa. Do orgulho que nos enche o peito e que se faz ouvir quando nos perguntam de onde somos. Do cumprimento que se dirige aos que nos viram crescer. 

- Ó gente de Vale da Pinta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

As rotinas de Setembro

Os dias já estão a mingar. As manhãs pedem casacos de malha que o final do dia não suporta. É este veste e despe que os deixa doentes. Isso e as correrias que lhes empapa a testa em suor. Deviam ter juízo, mas naquelas cabeças não entra nada.

Ainda fico à porta a vê-los desaparecer na curva lá do fundo e, de vez em quando, grito 

- Portem-se como deve ser. 

Eu sei que devia estar calada, mas não me consigo conter. Eles lá seguem sem olhar para trás. Todos os avisos que lhes faço entram por um ouvido para logo a seguir saírem pelo outro. Sei bem o que ali vai. Tal como sei que o mais certo é voltarem com uma constipação ou um nariz cheio de ranho que limpam nas mangas da camisa por muito que eu avise que não se faz. Lá está, não ouvem. Ou não querem ouvir. 

- Se correres ainda os apanhas. 

Há sempre um que se atrasa, mas lá vai a correr rua abaixo, ao encontro dos outros com a mochila a saltitar às costas. Fazem sempre isto. Vão descendo e apanhando mais um e outro, quando chegam ao portão da escola já vão mais de dez a gritar, não sabem falar de outra maneira. Até cansa a cabeça.

Pelo menos vão felizes. Antes assim do que no meu tempo em que íamos com medo da professora, entrávamos em sentido, erguiamos a mão ao peito para cantar o hino e ficávamos de boca calada a seguir. Bastava um suspiro a irritar a senhora professora e éramos chamados a suspirar de pé em frente ao quadro. Depois é que era o elas. Ainda me arrepio só de lembrar. Mão esticada, "como deve ser" frizava a professora, e a régua a bater na palma com toda a força. Estalava. Doía a mão e a alma cá dentro. E era um calor tão grande que só atenuava quando agarravamos o metal frio das pernas das mesas. 

- Que vos sirva de lição. 

Não servia. Quantas réguas se partiram assim e quantas canas da Índia foram substituídas ao canto da sala? Perdi-lhes a conta. 

Pelo menos os de agora vão divertidos. Saem de casa agasalhados e calçados e voltam umas duas horas depois da hora de saída. Não é que o caminho seja longo, é a conversa que é muita e a brincadeira não acaba. Mas digo e repito, antes assim.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A festa que era Agosto

As mãos estavam dormentes de cortar papelinhos de todas as cores. Feitos um a um, com todo o preceito, e transformados em pequenas bandeirolas presas a um fio. Agora que Agosto chegava ao fim, cruzavam as ruas de um lado ao outro. Era isso e as folhas de palmeira pregadas às varolas que anunciavam a chegada da festa.

Durante aquele tempo em que a animação chegava à aldeia as noites, animadas pelos conjuntos de dois ou três que se juntavam, faziam-se em bailaricos, conversas de esquinas, mãos afoitas, mães atentas e homens metidos em copos que depressa ficavam vazios. Dias que eram santos no calendário de quem os vivia, mas onde se misturava o pagão sem que daí viesse mal. Eram os tempos em que as ruas se transformam em rebuliço e as enxadas ficava encostadas à parede. 

Todas as manhãs, os foguetes davam sinal de alvorada numa aldeia que nem chegava a adormecer. Uns porque a festa faz-se enquanto o álcool não evapora outros porque tal romaria lhes sai do corpo que já não sabe o que é cama. Os gastos de uns atenuam a preocupação dos outros que isto de estar em festa é bonito, mas as contas parecem ser um poço sem fundo. Se tudo correr pelo melhor e os santos estiverem por eles, pode ser que fique paga ao Domingo à noite e consigam respirar de alívio nos últimos dois dias. 

No mesmo Domingo em que os santos vinham à rua acompanhados do tocar incessante dos sinos. A aldeia já os esperava de roupa nova, costurada no quintal a aproveitar a luz do dia, lágrimas nos olhos, reza nos lábios e terço a rodar nos dedos. O mesmo que é guardado no recolher da procissão quando todos se viram para o coreto à espera das primeiras notas da banda para dar início à festa que não tem hora para acabar. Ouvem-se os pasodobles e as marchas acompanhados de palmas e cantorias. 

São as mesmas palmas que no dia seguinte seguem com a banda atrás da bandeira de Nossa Senhora. Fazem o caminho para a entregar aos festeiros seguintes que a esperam de mesa posta e porta aberta. A aldeia em festa com a perspectiva de mais um ano de arraial e a bandeira a trocar de mãos entre vivas daqueles que ali foram só para ver. Há sempre qualquer coisa para ver e comentar mais tarde. 

E o início do fim vinha com o jogo que juntava os solteiros e os casados. Os últimos com mais barriga que os primeiros. Sem limite de idade, só o estado civil a servir de regra para saber para que lado do campo é que alguém ia. Ficavam coxos e com nódoas negras e alguns arfavam ao final de vinte minutos de jogo que a idade não perdoava, mas falava mais alto a vontade de cumprir a tradição. Todos os anos a mesma tradição. 

A rua a ganhar vida com as decorações e a música. O largo a transformar-se em arraial. A festa que era Agosto.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Quem dizia as leis

Ele tinha o coração colado à boca e era isso que o arruinava. Isso e o vinho que se é verdade que dá fala aos mortos, imagine-se o que faz a quem ainda anda por cá. 

Foi assim que a falta de sorte o apanhou naquele dia e o levou a passar a noite longe de casa. Encontrou-o de olhos meio cerrados e corpo bem bebido, mas com ouvido apurado. O que o álcool levava em reflexos, devolvia em audição o que não se pode dizer que seja uma benção. 

A hora do jantar já estava a chegar e ele esvaziava o último copo quando os ouviu. Estavam os dois encostados ao balcão que não primava pela limpeza, com roupa melhor do que a sua e de sapatos sem meias solas. Riam e conversavam de peito cheio. De tudo e mais alguém. Não fosse o álcool falar mais alto que o discernimento e ele tinha percebido que quem falava assim não sabia o que era espreitar por cima do ombro. Ouviu o seu nome na boca dos outros. Ouvi-os rir. Foi quanto bastou. 

Levantou-se, o corpo a cair com o peso da mangação e sem reflexos que o impedissem de tombar o copo com um resto de vinho tinto que manchou a mesa. Chamou-os com a voz enrolada pelo álcool, apontou o dedo da direcção dos dois. Sabia que falavam dele, que faziam pouco e não achava que tivessem esse direito. Era do conhecimento de todos aquilo que ele era, mas ninguém negava que também era honrado e aqueles dois que mal o conheciam não tinham o direito de transformar o seu nome numa piada de miúdos. 

Insultou-os sem medos que o álcool não deixa espaço para essas coisas. Levou-os de tudo o que se lembrava e de mais alguma coisa. Não demorou muito a que o outro chegasse para pôr fim a tudo aquilo. 

De costas direitas e voz forte, o Sr. Regedor, prezado pelos amigos da casa e temido por todos os outros, deu por encerrada a conversa com ordens claras. Aquele homem que mal se aguentava de pé era para levar para a prisão sem mais conversas. Não lhe ouviu as razões e pouco lhe interessou se os outros o tinham insultado antes. O único caso provado era o contrário. Arrumou o assunto com um aperto de mão aos bem vestidos, amigos da família, e deixou o outro seguir para o seu destino. Se tivesse sorte, só ficava uma noite atrás das grades.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O raio dos cachopos

Lá fora cheirava a terra seca do calor e dentro do barracão era o aroma do feijão a começar a cozer que enchia a casa. Já a água borbulhava e as hortaliças estavam a ser arranjadas quando ela se lembrou do que lhe estava em falta. Não era muito que aquela casa não sabia o que era fartura, mas era o essencial para levar o jantar à mesa.

Sem poder deixar as panelas sem quem lhe deitasse o olho, chamou o filho e entregou-lhe por boca a lista do que era preciso comprar. Mandou-o ir à loja de mãos vazias que no final do mês fazia contas, mas com o alerta feito em voz séria:

- É ir e voltar, nada de te perderes.

Ele assentiu com a cabeça e fez-se ao caminho que a loja não ficava longe, mas até lá era sempre a subir. Não chegou a avistar a porta onde o Sr. João pendurava os abanos e encostava os sacos de adubo. Ainda ouvia a mãe de volta das panelas quando os outros apareceram. Cachopos como ele. Meia dúzia de palmos de altura, pés descalços e um certo ar de traquinice. 

Chamaram-no de peito cheio e ele não se negou. Esquecido das ordens que levava de casa, fez-se aos quintais dos vizinhos no encalce dos outros que passavam de horta em horta sem olhar a quem pertencia, enchendo o bolso com a fruta que estava mais à mão e rindo de peito cheio.

Só pararam quando avistaram a vinha. Agachados no meio das silvas e dos arbustos, deitaram o olho ao terreno. Quando se certificaram que não havia vivalma ali por perto, fizeram sinal uns aos outros e correram o mais depressa que conseguiram enquanto desabotoavam a camisa e as calças. Os tímidos ainda deixaram as cuecas, mas os mais afoitos entravam na água sem nada que lhes tapasse as vergonhas.

O tanque que dava água à vinha refrescava-lhes o corpo em tempos como aquele em que sol brilhava alto e o suor corria em bica. Era um descanso que só terminava quando o capataz, que nem sabiam de onde aparecia, os ameaçava de punho fechado e corria na direcção dos miúdos. E eles, mais ligeiros que o outro, saltavam do tanque, agarravam a roupa que tinha ficado pendurada nos ramos e faziam-se à estrada que os levara até ali.

Era assim, de cabelo em desalinho e roupa encharcada, mas sem as compras que lhe tinham pedido que ele voltava a casa. A mãe, que sabia bem os caminhos por onde ele andava, esperava-o de chinelo na mão e mesa vazia.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Cantemos todos com alegria

Minha terra é Vale da Pinta
Minha rica freguesia 
Aonde eu fui baptizada 
Naquela sagrada pia 

Conheciam aquela terra onde tinham nascido e pouco mais, mas todos os anos faziam-se ao caminho deixando-a para trás. Era o trabalho que os esperava longe dos parcos pertences a que chamavam seus. E lá iam. 

Desde do dia em que eu vejo 
As campinas do Ribatejo 
Cantemos todos com alegria 
Q’esta paródia só dura um dia 

As lezírias estavam douradas pelo dia que amanhecia quente. Homens e mulheres, alguns com crianças de colo, seguiam pelo caminho de pó e pedras. De pés descalços, cesta à cabeça, mãos na cintura e enxada ao ombro. Conversas que davam em cantorias e transformavam em alegria a desgraça de todos os dias.

Rapazes de Vale da Pinta 
Quando para fora vão 
Toda gente lhes pergunta 
Rapazes de onde são 

Por onde passavam, os homens, com corpo de trabalho e hábitos rudes, apelavam à curiosidade até da moça mais tímida. Era a pose e a roupa que por muito colarinho voltado e tecido passajado, não declarava a pobreza a que os seus bolsos estavam condenados. E elas, fossem puras ou casadas, seguiam-nos com o olhar. 

Olha a nossa mocidade 
Qu’ o tempo nos vai levando 
Recordemos com saudade 
P’ra todos assim cantando 

E aquelas modas, aprendidas no tempo das mãos calejadas, das costas doridas e da pele escurecida pelo sol, ficam-lhes na memória até quando o vigor da juventude desaparecia. A memória do tempo em que o trabalho os levava para longe e que entretinham os serões na lezíria com uns passos de dança para acompanhar as cantigas que inventavam, o longo caminho para o trabalho que se fazia curto quando aclaravam as gargantas. As recordações de uma mocidade que não os deixou ser moços. Do tempo em que as mulheres, de cabelos recolhidos debaixo dos lenços, rodopiavam no braço dos homens. Todos com roupa de trabalho que não havia outra.

Cantemos com alegria 
Q’ esta paródia só dura um dia. 


__________________________________________________
Os trechos em itálico são retirados de uma das Marchas do Rancho Folclórico de Vale da Pinta. O retrato de uma vida antiga que se prolonga para os nossos dias pela arte de quem sobe a palco para a dançar e cantar.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Quando a caça enchia a mesa

Era tempo dele. De se ouvir os tiros a ecoar pelos campos sem se saber bem de onde chegava. Dos homens sairem cedo e das mulheres os esperarem no trabalho de todos os dias. Era tempo da carne entrar em casa sem se contar os trocos que ficavam em falta.

Quando as espingardas se calavam, lá faziam o caminho de volta. O cão, um rafeiro que chegava de língua de fora que só recolhia quando baixava o focinho para cheirar o chão, vinha à frente a anunciar o retorno. O dono, de botins feitos lama e boné na mão enquanto limpava o suor da cara, vermelha, seguia-o. Em silêncio e de espingarda no braço. No cinto, os cartuchos chocalhavam a cada passo. 

Alertada pelo som que se aproximava acompanhado do ranger do portão improvisado, a mulher espera-o para receber o resultado da manhã de caça. Uma mão na cintura e outra na parede do barracão que lhe serve de cozinha. Sem falar, como sempre, agarra nos coelhos que o marido lhe estende e leva-os consigo deixando-o sozinho a desvencilhar-se da lama e tralha que carrega. 

De mangas arregaçadas, ela faz-se ao trabalho. Uma precisão cirúrgica, própria de quem quase nasceu a fazer aquilo. Desfaz-se da pele do animal e com as mãos nuas descobre os chumbos que lhe ditaram a sentença naquela manhã. O cabelo protegido por um qualquer pano que se aproveitou de uma camisa velha e as mãos a descobrir aquilo que a escuridão da cozinha não deixa que os olhos vejam.

Desfeito de miudezas e do pouco que não se aproveita, o que resta do coelho é preparado para a ceia. Panela ao lume e sangue a aguardar para dar cor ao arroz. Cor e sabor próprio de carne alimentada no campo. O cheiro a subir com o calor da comida a borbulhar e o garrafão do marido a esvaziar como remédio para a canseira. 

A caça traz para a mesa a carne que o dinheiro não consegue comprar. O coelho feito à caçador ou tostado no mesmo forno onde cresce o pão. O pombo transformado em canja que enche a barriga dos mais novos. As barrigas confortadas com a carne brava que não conheceu gaiolas. 

Uma noite de fartura para os estômagos tão habituados a não ter nada que já nem reclamam. É o tempo em que se ouve os tiros pelos campos.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O miúdo das entregas

Ainda era miudito embora a altura trocasse as voltas a quem tentava adivinhar quantos anos levava. Devia andar nos bancos da escola, mas era a bicicleta com que fazia o trabalho que lhe competia, que o esperava todos os dias. Dava-lhe folga aos fim-de-semana e nada mais. E ele, cumpridor, nunca lhe falhava a espera. 

Cabeça no sítio, sorriso na cara e olhar de quem fecha os olhos ao que de menos bom lhe marca os dias. Miudito, mas responsável. O dinheiro é difícil de ganhar e, se não tiver cuidado, desaparece antes de lhe sentir o peso. Vinte tostões para aqui outros dez para ali e, quando dá por ele, já foi e não trouxe nada que se veja. 

Entrava na loja ainda o dia mal tinha amanhecido. De olhos cansados e a engolir o bocejo. O cheiro a petróleo e um sem fim de perfumes a entrar pelas narinas e a despertá-lo da noite mal dormida numa cama que nem era digna de tal nome. 

Agarrava-se ao trabalho que lhe ocupava o tempo enquanto o som estridente do telefone não ditava outro destino. Nunca se negava. Lá para o meio da manhã chegavam os telefonemas com os pedidos que ele já conhecia tão bem que o patrão dizer-lhe a quem se destinavam não era mais do que uma formalidade. 

Agarrava no embrulho que lhe estendiam, arrumava-o na bicicleta enquanto ouvia qual o rumo que o esperava e saltava para o selim. Seguia viagem sem mais conversas ou dúvidas. Fosse no calor dos primeiros dias de primavera ou a fugir à chuva de Outubro. Pedalava com o vigor que só estava reservado aos que ainda contavam poucos anos de vida. As ruas na cabeça e nem sombra de dúvida em relação ao caminho a seguir. Esquerda, em frente, direita e ali está a porta que o esperava. 

Em frente ao destino e de embrulho debaixo do braço, tocava à campainha e esperava quem o viesse receber. Sorriso em lugar de cumprimento e o avio entregue nas mãos de quem dele precisava. Meia volta e seguia pelo mesmo caminho. Todos os dias até ser hora de fechar portas. Quando saía de costas, a deixar os espólio da loja bem arranjado no chão, para chamar o gosto de quem passava na rua. 

Dava o dia por encerrado quando ouvia a chave a dar a volta na fechadura e sentia o corpo a acusar o cansaço sem lhe quebrar o sorriso e a piada na ponta da língua. Mais um dia, menos um, cada qual que contasse como bem entendesse que ele ia para casa. Com sorte ainda havia um resto de chouriço a que chamar de jantar.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Mais um dia

Deixou-se ficar como quem olhava para nada. À sua frente, todas as hipóteses que nunca foram suas. Para trás, a cruz que lhe fraquejava as pernas. 

As rugas escondiam-lhe os quarenta anos. As costas dobradas redobravam-lhe o cansaço. Os pés insensíveis às pedras do chão denunciavam as provações. Fazia anos que não sorria. Era certo que das mulheres não se queria tal coisa, mas ela nem se lembrava de ter vontade de o fazer. 

Dois filhos tinham-se ido antes que ela os tivesse nos braços. Outro, partira para a guerra sem que ela o pudesse impedir. Do marido ainda lhe pesava a mão no corpo e o zumbido no ouvido. Era a vida que dava e tirava como bem entendia, sempre lhe tinham dito que era assim, mas a clareza para o entender só veio com a idade. 

Metida nos seus pensamentos e a falar com uma casa vazia, apertou o lenço preto à volta da cabeça e arrumou os cabelos debaixo do tecido. Agachou-se para pegar no alguidar da roupa e, num esgar do esforço de todas as horas, meteu-o à cabeça e fez-se ao caminho. Pernas desfeitas pelo trabalho, corpo tapado pela roupa pesada e olhos no chão. Passo apressado e certo sem se perder em conversas de nada que uma senhora não tem ouvidos. E ela, mesmo sendo remediada, não deixava de ser senhora. 

Ouviu o barulho das mãos a bater na água e do sacudir da roupa ainda antes de as avistar. As vozes das outras misturavam-se com o cheiro a sabão e água fria. Juntou-se sem grandes alaridos que quem se vê todos os dias não precisa de cumprimentos. Roupa atirada ao tanque e corpo dobrado para a desencardir. O olhar perdido no trabalho, a voz a fugir-lhe para umas quantas conversas e um pé a descansar sobre o outro. 

Uma delas, mais nova e arisca que ainda se achava dona do seu nariz, trauteava uma modinha com um tom demasiado alegre, mas que ninguém calava. Pelo menos tinham algo que lhes embalava os gestos. As outras, velhas de vida mais do que de anos, arriscavam uma conversa sobre a guerra que lhes agarrava os homens que faltavam em casa e acompanhavam com lágrimas deitadas por quem tardava em dar notícias. Todas serviam de ombro na antecipação de uma dor que esperavam não lhes bater à porta. 

Vidas diferentes e a mesma história, conhecida, mas nunca falada. Os mesmos dias, vividos como sempre tinha sido feito por ali. O mesmo olhar perdido no nada que se apresentava à sua frente.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Tornar a casa

Cresceram de pés descalços no quintal de casa. Com enxada na mão mais por divertimento do que a mando e tendo galinhas a correrem à sua volta. Livres. De sorriso que dava em gargalhada sem que fosse preciso muito.

Mas esse crescer já foi há tanto tempo que nem há calendário que o lembre. Foi o que foi e a memória não se lembra de tudo. Entretanto já se passou a vida, já as borbulhas deram em rugas e dores nas costas. Passou a vida, veio a idade. Já a morada mudou para a grande cidade,  ou para os arredores que por lá ficam, e foi-se o código postal que memorizaram antes de saber ler. A criança deu em homem, o pensamento quis mais do que a terra que os acompanhou desde da primeira hora.

Voltam porque assim tem de ser, porque os pais se recusam a ir dali. Almoçam com um pé na porta e de olho no carro estacionado na direcção da saída.

- Nem me quero lembrar desses tempos - deixam escapar quando alguém conta histórias de tempos já idos.

Preferem esquecer que se fizeram gente ali, numa aldeia que tinha pouco e que foi esse pouco que fez o muito que são hoje. Que em tempos, lancharam com as frutas desviadas do quintal do vizinho porque as casas eram feitas sem muros e os mais novos tinham sempre direito a livre passagem.

- Mas porque é que continuas aqui? - perguntam com ar incrédulo aos que decidiram ficar na terra de sempre.

Os outros, habituados ao ar de quem pensa saber mais, respondem com um sorriso discreto e nada mais dizem. Os que vão levam a certeza que aquele gesto não é mais do que a confirmação de que queriam mais do que têm. Os que ficam sabem que é melhor deixar a conversa por ali e responder com um sorriso que deixa o outro a acreditar exactamente naquilo que quer.

Para quem não quer perceber, não há como explicar que ali, a terra quente do sol cheira a vida.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A 13 de Maio

O vento fresco das noites de Primavera entra no corpo dos que aguardam ordem de marcha. Do outro lado da rua, a carrinha espera de bagageira aberta para que guardem as tralhas que não conseguem levar às costas. Já está tudo preparado quando o relógio da igreja dá o sinal de meia noite.

- Vamos a isto. 

Homens e mulheres avançam de noite. Consigo não levam mais do que uma garrafa de àgua e um terço. Têm de se poupar porque o caminho é longo e o corpo, mesmo habituado às piores provações, não aguenta tudo. É a devoção que os acompanha e lhes dá alento quando as bolhas massacram os pés e as silvas arranham a roupa. Caminham no meio do nada. Na borda da estrada, pelos terrenos baldios, por sítios que só quem faz aquilo todos os anos sabe que vai dar ao destino que os espera. 

Chegam ao sítio combinado e o carro já lá está. De bagageira aberta e a abarrotar com os pertences de cada um. Nessa altura, não importa se é madrugada ou se o sol já vai alto. Estendem as mantas ao lado umas das outras e dão-se ao descanso naquele leito mal arranjado em cima de pedras e ervas. Tapam-se com um cobertor que, para chegar ao pescoço, deixa os pés à mostra e não engana o frio. 

Fazem os seus dias assim. A caminhar noite dentro na direcção que as suas crenças os levam. A almejar por descanso. O peito cheio com a fé que trazem desde do primeiro choro. Naquele caminho que lhes moí o corpo e com as bolhas a latejar nos pés, pagam as promessas que fizeram, os pedidos que Nossa Senhora ouviu e aos quais acudiu quando o desespero chegou. É a fé que os move.  

- Obrigadinha, mas ê na quero - dizem quando alguém lhes oferece uma fatia de pão de ló. 

- Mas olhe, tá bom. 

Partilham a comida que há, o dinheiro é pouco e é preciso encher o estômago para que a força não se vá. Ainda há muito caminho para andar e o corpo não pode dar em fraqueza. Com sorte, conseguem parar num restaurante lá mais para a frente. 

Quando avistam Fátima esquecem as dificuldades e as dores. Chegam cansados e suados da provação que foi fazer o caminho, mas de alma cheia com o dever cumprido. 

Ajoelham-se em frente à imagem que lhes ampara os passos e a vida. Deixam-se ficar ali. A murmurar as rezas que sabem de cor e a agradecer a bencão de ter Nossa Senhora a olhar pelos seus. Prometem voltar todos os anos, desde que as pernas aguentem e o corpo deixe. Mesmo sem promessa a cumprir. Só para a visitar.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Que o maio não entre

Abril findava e eles cumpriam os passos de todos os anos. De tesoura no bolso, faziam-se aos caminhos que não eram mais do que carreiros mal semeados, em busca das flores que nasciam sem regras pelas colinas da serra. Voltavam de braços floridos. As flores amarelas e pequenas a resistir ao vento que soprava mais forte.

Já em casa, com Maio a bater à porta, arrumava-se a giesta em ramos improvisados. Galhos de flores metidos nas fechaduras e entalados nas janelas. A benção a todas as casas que se alinhavam pela rua e onde os ramos brotavam como se de solo se tratasse. Ninguém queria que o maio lhes entrasse pela porta sem encontrar entrave que lhe encurtasse o caminho.

Protegiam-se do mal que não conheciam, mas que lhes tinham dito que espreitava naquela noite. Uma crença que passava de boca em boca, há mais anos que do que aqueles que eles sabiam contar. Era um ar gélido, uma desgraça que se aproximava, um mal maior sem que o nome fosse pronunciado e a benção reservada a uns ramos que cresciam sem regra nas encostas que lhes guardavam as casas. Os que ainda por ali andavam, cumpriam o ritual dos antigos. Era melhor trabalhar pela protecção do que ter de lidar com a ruína quando o maio entrasse pela porta que tinham deixado aberta.

Ninguém queria ficar amaiado que a comida na mesa dependia da força de trabalho e a família não se cria se o corpo não se levantar da cama. É preciso que os campos floresçam para o resto do ano, que as colheitas sejam tão abundantes como no ano anterior. Ou até mais, se Deus estiver por eles. E contra o maio, nem Deus os salva. É por isso que as giestas vão para as portas e a família está de pé ainda antes do sol de dia um romper.

Dos mais novos aos mais velhos, todos se levantam antes do galo dar ordem. Vestidos com a roupa de todos os dias, esperam que o dia desperte. A mãe benze os mais novos que ainda fecham os olhos com o peso do sono que ficou por dormir. Quando o maio chega com o sol tímido da Primavera, a família espera-o acordada e com a casa trancada a flores. O mal que saiu à rua, seguiu caminho sem entrar. O corpo não quebrou. Que continue o ano. Ali, o maio não entrou.