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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Mãos em barro

Quando as mãos se faziam ao barro não havia hesitação. Os movimentos eram certos num balanço intuitivo entre a força e a leveza, a peça na cabeça e os dedos a saberem exactamente qual a espessura que pedia. De boca perdida na conversa, a reviver a vida que não era o que tinha esperado e as mãos a trabalharem como só elas sabiam. Eram anos daquilo. 

Começara novo. Mais novo do que seria bom de dizer, mas naquela altura ninguém se espantava com os bancos da escola vazios e os miúdos a aprender ofícios. 

- Faz-lhes bem.

Tanto bem lhes fazia que ele já tinha perdido conta às horas que passara ali, naquela roda, com as mãos revestidas a restos de barro húmido e o joelho a controlar o trabalho. 

Mas quando era miúdo aquele lugar era privilégio que raramente lhe estava destinado. Só quando ficava parado a contar as telhas da olaria é que tinha direito a dar balanço à roda e a sentir a peça a tomar forma. Ele sentava-se e os mais velhos murmuravam 

 - Vai estragar o barro todo. 

Foi assim que começou, a centrar barro e a fazer testos. Uns atrás dos outros até conseguir que fossem todos iguais. Anos naquilo. A perceber o que era o equilíbrio entre a leveza e a força, a firmeza do polegar, os dedos em tesoura. Um toque fora de sítio e aquilo a abalar tudo por ali abaixo sem nada que o salvasse da falta de saber. Tudo sozinho, sem ninguém que o orientasse. A fazer o que via nas mãos dos outros, a aprender quando as peças não eram nada. 

- Se queres aprender, vê.

Mas a roda era caso raro. No resto do tempo fazia o que havia. Entrava campo dentro e voltava com a lenha que era preciso para dar alento ao forno que recebia as peças. As mãos arranhadas das silvas e o suor a escorrer pela cara, mas o lume a manter o vigor. Ou ia à procura do barro que se escondia na terra gretada. Logo ali, por baixo da cabeçada escondia-se o barro podre de campo. E ele, com a sabedoria que outros lhe tinham passado, lavava-o. A tina cheia de água, o barro coado, a água que evaporava. O saber esperar, o conhecer as alturas. O tempo que aquilo levava até ficar barro húmido de um lado e as pedras e tudo o resto do outro. 

Este saber que lhe levou anos de paciência que não há ofício que se aprenda sem demora. Não. Leva tempo. Leva erros. Leva querer. E hoje, ninguém o olha na ânsia de ocupar o seu lugar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O centro do mundo na taberna

Só quem por ali passou sabe como eram aqueles dias e aquilo que nunca chegou a ser só habitou a imaginação daqueles que nunca tiveram autorização para lá entrar. Não que houvesse uma lei escrita à porta ou uma placa que lhes indicasse que a sua entrada estava vedada, verdade seja dita que nem nunca se viu um polícia a rondar a porta, mas era uma questão de honra, de cada um saber o lugar a que pertencia. Era por isso que as mulheres só metiam um pé do lado de dentro quando a tarde era de matiné e os homens passavam a vida por lá sem razão aparente. 

O lá era um canto escuro que não havia janela aberta que conseguisse iluminar. Uma junção de chão de cimento que já tinha perdido a forma com uma sujidade que era parte das paredes e da mobília. Essa não abundava nem sequer era digna de grandes luxos. Mesas quadradas com tampos de madeira já manchados com círculos escuros e pingos que não houve água que lavasse, e uns quantos bancos rijos que se misturavam com as cadeiras que ajudavam a descansar as costas. Era por isso mesmo que não abundavam por ali, quando há descanso o corpo tem tendência a deixar-se ficar e o que por ali se queria era que fosse beber e voltar ao caminho. 

Do lado de lá do balcão estava ele e ela ficava do lado de lá da parede. Juntos na vida e no trabalho, nos dias bons e nos menos bons. Ele a passar um pano imundo pelo balcão e a deitar os copos no alguidar com água cor de vinho e ela agarrada aos tachos e às panelas. Os caracóis que ele comprava e que ela levava a lume alto em latas que podiam ter sido de muita coisa, mas nunca tinham sido pensadas para cozinhar, e que depois ele vendia a quem por ali andava. Um pires de caracóis bem aviado e mais um copo do que houvesse. 

As conversas ouviam-se na rua. A imaginação a tornar-se realidade quando as palavras se formavam na boca deste e chegava aos ouvidos dos outros. As verdades que nunca foram a valer mais do que a vida de todos os dias e a voz de algum a ganhar corpo para impôr algum respeito sem nunca deixar de atiçar o fogo da má língua. 

E mais um copo deitado abaixo, uma voz a prometer força de punhos e ele a sair de trás do balcão para fazer valer a sua posição enquanto ela lhe olhava os passos. Uma vida inteira numa taberna que dava vida a todos os que por ali deixavam passar os dias. O centro do mundo que ficava pela aldeia.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Natal a Servir

Antes da menina chegar vinda lá de Lisboa, chegava a mulher de todos os anos. Aquela que amassava as broas e os coscorões que iam à mesa na ceia de Natal e que adoçavam a boca da família. Só da família. Amassava sob o olhar atento da senhora e com a mão pronta da criada para ajudar. Era para trabalhar que ela lá estava. 

Miúda delgada que o corpo não conhecia comida que lhe enchesse as peles. Nem no Natal. A casa esperava a chegada da menina que vinha lá de Lisboa com a família. Eram eles que se lambuzavam com os doces que ela fazia. Ali, durante horas esquecidas. O fogão a lenha aceso o dia todo. O fogareiro a petróleo pronto para os escaldadinhos. O corpo dorido. 

Tinha sido a criada da menina que lhe tinha ensinado, mas era a sua mão doceira que encantava a família. A farinha e os ovos perfumados a limão e regados a aguardente. O óleo a borbulhar com o calor do fogareiro e ela ali, agachada, a queimar os braços enquanto virava os fritos. 

Mais um Natal. Mais um dia de trabalho que o corpo só descansa depois de tudo arrumado e limpo. Volta ao trabalho antes de perceber que descansou. Quando a senhora toca à sineta. Sete e meia da manhã em ponto. Era preciso estar de olho nas criadas de servir que já se sabe como são. 

E ela levantava-se, arrepiada com a corrente de ar frio que chegava lá de fora. Vestia a roupa de trabalho e lá ia ela. Na cozinha sentia-se o cheiro doce das broas que lhe moeram os braços. Ela não lhes tocava. Não tinha autorização para isso. Aquelas eram para a família. São para ela as olhar enquanto serve o jantar. Nada mais. 

Quando a menina voltar a Lisboa, a senhora vai guardar as que sobrarem. Fechadas à chave no armário da cozinha. Chave guardada onde só a senhora sabe. No próximo ano volta tudo a repetir-se e aí, só aí, a criada tem autorização de tocar nas broas que ajudou a amassar. As do ano anterior, perfumadas a bafio de doze meses e duras da madeira que as guardou. 

É a vida das que estão para todo o serviço. Só para o serviço. Até no Natal.


Texto publicado originalmente na Revista DADA de Dezembro de 2017

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Lugar à mesa de trabalho

Vão a caminho do campo para começar mais um dia de trabalho. O sol ainda está baixo e o calor nem se faz sentir. Vão descalços e com roupas pesadas, chapéus de palha e bonés, lenços a tapar o cabelo. Dentro do saco levam o farnel para mais tarde. Um almoço magro, mas suficiente para o que o corpo está habituado. Vai ainda em cru, à espera da fogueira que se vai acender quando a hora se aproximar.

O pão seco e fora de tempo e o bacalhau já passado pelas mudas de água que lhe eram devidas, esperam pela hora de se fazerem ao fogo. 

Os dias não são de abundância, são de trabalho duro. Aperta-se mais o cinto, remenda-se mais uma camisa e enche-se a boca com aquilo que se pode comprar ou com aquilo que nos deixaram pôr na conta da loja que já vai longa. O que interessa é ter algo para dar alento ao corpo e enganar a fome e o estômago.

Quando chega a hora já está o sol a pique e o dia de trabalho já vai a meio. O corpo está cansado, as mãos estão calejado e o suor acumula-se por baixo do lenço. Procura-se uma sombra e os trabalhadores juntam-se à volta da fogueira. 

Tiram o almoço e preparam-se para o manjar. Com a navalha que serve de companhia cortam o pão que esfregam com o alho que entretanto descascaram O aroma forte do picante já se faz sentir. A fatia de pão é regada com um fio de azeite daquele feito com as azeitonas que apanharam. 

O bacalhau e o pão vão ao lume. A lenha estala e vão atiçando o fogo para que não se apague. Quando enfraquece já o pão e a posta de peixe têm as marcas da grelha.

O azeite aromatizado com o alho rega o bacalhau que a acompanhar com o pão com o mesmo tempero.

Come-se com a mão, sem pudor ou etiqueta que valha naquele momento. Mata-se a fome com o petisco pobre dos que pouco têm e que hoje em dia se tornou pitéu de quem parece ter uma vida melhor.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Benzer a menina

A menina quebrou. Sentou-se e deixou-se ficar. Não disse uma palavra que fosse e nem se mexeu como era seu costume.

Ali estava. Quieta e calada como nunca a tinham visto. Logo ela que parecia ter energia desde que acordava até fechar os olhos. Agora abria a boca num desespero sonolento que não dava em sono por muito que estivesse metida na cama. Parecia fora do mundo e de si.

Encostaram a mão à testa e espreitaram pela boca aberta. Não havia justificação para a apatia que lhe dominava o corpo. Nem febre nem garganta inflamada.. Perguntavam-lhe o que lhe doía e a resposta era sempre a mesma: "Nada" e nada justificava aquele quebranto que a invadia e preocupava quem a  via assim.

Foi aí que a mãe, deixando a avó de olho na criança, saiu porta fora com destino definido, mas sem dizer ao que ia. Bateu à porta que já conhecia e do lado de lá respondeu-lhe uma voz que já conhecia a ansiedade de quem lhe batia à porta.

- É a menina - disse assim que abriram a porta.

E do lado de lá a porta abriu-se sem que se ouvisse mais perguntas. Não era preciso mais nada além do que já se sabia, o porquê de ali estar estava mais do que explicado.

Começou sem mais demora. O prato com a água e o azeite pronto e a reza que era impossível de entender. Uma ladainha quase cantada .

- Está muito atacada. Está atravessada -  dizia no meio das rezas enquanto o azeite dançava com a água.

E a mãe voltava à filha. A ser o colo daquela pasmaceira em que tinha ficado presa e a esperar que aquele quebranto passe.

Passa mais tarde, sem aviso prévio, tal como apareceu. Num momento está desfalecida na cama e no outro corre pela casa. E a mãe benze-se enquanto respira de alívio, nada daquilo lhe parece normal.

- Ontem só melhorou ao final do dia.

- Foi a última vez que a benzi - respondem.

E a mãe, de coração mais descansado, pensa que foi na mesma altura que o quebranto deixou a sua casa. Abençoada água a dançar com o azeite ao som da ladainha da reza.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A espera

A vida não está fácil. São as bocas para alimentar que aumentam e o trabalho que falta. Os trocos vão sendo contados até não sobrar nenhum. 

Espera-se que chegue o trabalho, que alguém precise das nossas mãos calejadas e de um corpo que aguente carregar o peso que o nosso consegue. É muito peso, sabe? Às vezes até parece que aguentamos com o mundo às costas e que as mãos já não sentem dor. São muitos anos de trabalho duro, de sol a sol e o corpo molda-se às dificuldades que vai aguentando. 

É preciso trabalhar, ter dinheiro no bolso para o copo de vinho e, com sorte, para o conduto para as refeições e é por isso que esperamos. Por uma oportunidade, por uma necessidade de outro que pode ser a nossa sorte. Ficamos ali na praça a ver o dia nascer e a aguardar que passe o capataz com oferta de trabalho. Depois, quando finalmente chega, esperamos que haja trabalho para nós porque somos tantos homens à espera que nunca se sabe se chega a nossa vez. Se tivermos sorte vamos com ele, de cabeça baixa e ar pesado porque não sabemos andar de outra maneira. 

Faça chuva ou sol, não interessa. Não há dias de férias e o descanso guarda-se para os dias santos que é pecado trabalhar a dias alumiados. É preciso ter respeito por quem está acima de nós e Ele, lá no alto, olha por nós. Deus não nos dá mais do que aquilo que conseguimos aguentar, essa é que é a verdade. 

Às vezes passam os senhores e os capatazes na taberna à procura de quem saiba lavrar o terreno ou tratar das plantações. Nessas alturas, toda gente sabe o ofício mesmo que não consiga perceber a diferença entre uma enxada e uma foice. Se é para trabalhar, a gente trabalha e logo se vê. Alguma coisa se arranja.

A nossa vida vive-se assim. É preciso trabalhar e nós, os pobres coitados que contam os tostões que ficam perdidos nas costuras dos bolsos, esperamos que nos venham buscar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sinal de Chuva

Vem de longe a melodia que se reconhece sem grande esforço. Não se percebe se vai passar por ali ou se avisa só que anda por perto. 

- Logo hoje que limpei a casa – ouve-se alguém dizer. 

São as superstições e crenças que passam de geração em geração sem fundamento científico, mas com convicção. A melodia metálica, tocada numa gaita-de-beiços já marcada pelo tempo, anuncia a chegada de chuva. Mesmo que o termómetro marque quarenta graus à sombra. 

Lá aparece ele ao fundo da rua. Parece não ter idade certa: a agilidade de um jovem, misturada com a pele marcada pela vida. Traz a bicicleta numa mão. Pneus finos, posto de trabalho montado. A outra mão segura na gaita-de-beiços onde vai tocando a melodia que avisa que o tempo vai mudar. É o que dizem.

Não fala nem se faz anunciar por outro meio. Os passos são calmos, mas seguros. Calça de trabalho e camisa de manga comprida arregaçada até ao cotovelo. Boné na cabeça. Pele suada. 

Elas, conformadas com a chuva que se aproxima mesmo que assim não pareça, saem de casa com as facas, tesouras e o que mais aparecer e esperam que ele as arranje. 

 A lâmina a raspar no amolador que roda sem parar. A perfeição com que ele cumpre o seu trabalho, a delicadeza num ofício tão rude. 

Devolve as facas prontas a usar, tão afiadas que se conta que podem cortar metal com elas. É só querer. 

Recolhe o dinheiro e despede-se com um puxar leve do boné. Segue o seu caminho de bicicleta na mão e a entoar a melodia tremida que avisa a sua chegada. 

O tempo vai mudar.