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quarta-feira, 29 de maio de 2019

Menos um ano em trinta

Chegaram e cheirava a terra nova. Terra que se perdia de vista, mas que não conhecia enxada. E era deles. Pelo menos era isso que lhes diziam. Que assim seria quando os trinta anos tivessem passado e as contas ficassem certas.

Tinham casa. Uma casa de banho que levava o nome do buraco que tinha do chão. O vazio. Nada nas paredes e apenas o eco a encher o espaço que nunca sonharam ter. A mobília era a que traziam e a maioria trazia-se a si mesmo, aos filhos e à trouxa que levavam, sem esforço, numa mão. Mas tudo aquilo seria seu. Trinta anos e bom comportamento.

Começaram com o que tinham. Corpo e trabalho. Amanharam a terra a que não viam fim enquanto enchiam o estômago a batatas temperadas com toucinho salgado quando o sol andava pelo meio dia. Sopas pela manhã, toucinho a temperar as batatas à noite e estava arrumado o dia. As mãos calejavam, mas o corpo não quebrava. Quando se nasce habituado a isto, não há nada que leve a força. Deus só nos dá o que aguentamos. Nada mais do que isso. E assim fazia mais um ano e contava-se um sexto do que vinha da terra para ser dado a quem a tinha oferecido.

A fome dos primeiros tempos, calada pelo trabalho nos terrenos dos outros, naquilo que era propriedade que não dava retorno para a casa. Era assim para pagar o que se devia e o que se tinha pedido emprestado. Mais uma rega e a dívida a aumentar. Mais fosse o que fosse o registo feito onde era devido. Mais um ano e a casa limpa tal como se queria.

Um casal dado assim. A quem sempre teve pouco e se vê com tanta terra que obriga o trabalho a fazer-se em horas e fora delas. Entregue a quem mostrava ser de família e exemplar que a quem não o fosse era mostrado o caminho de saída. Mais um ano, se tivesse sorte.

O trabalho, saído do corpo que já era fraco, a dar-se. A fazer terreno daquilo que à chegada não era mais do que pedras no meio da terra onde nada brotava. Os primeiros anos sem colheita, a paciência para vir um dia a colher aquilo que davam ordem para semear. Manda quem pode que sempre assim foi. Mais um ano.

Um terreno que era baldio feito morada de família. Os pés descalços pela estrada, as agulhas a costurar como se quer, o dinheiro a ser pago como é devido. Todos os anos. Trinta até estar terminado.

Ele ao sol e de enxada na mão. Ela de lenço à cabeça e a seguir-lhe os movimentos e com a casa à sua espera. As mãos gordas dos miúdos a tirar as pedras. Quem come, trabalha. Quando falta, falta para todos. Galinheiro povoado, riqueza amealhada. Que já se sabe bem como se faz a vida. 

Mais um ano de trabalho. Mais um sexto entregue. Outros tantos em falta.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

É dia como todos os outros

Sábado de manhã. Ainda o sol vai baixo e já se contam horas de trabalho que o fim-de-semana só o é quando o dia é santo. Nos outros, vai tudo dar ao mesmo. Com o corpo a ganhar cor ao sol e os músculos a enrijecer de enxada na mão.

Ele endireita as costas. Apoiado no cabo, tira o boné e limpa o suor da testa com as costas da mão. Trabalha a pouca terra que é sua quando não está na de quem lhe paga. Naquelas manhãs, o cheiro a pó da terra seca mistura-se com o do fermento que está a ganhar corpo desde do dia anterior. Um quanto de farinha, mais um tanto de água, tudo com o que sobrou da massa da semana que passou. Deixar chegar o dia seguinte. Paciência é uma virtude, é o que é.

Manhã cedo, com ares de dia fresco, e ela faz-se ao caminho numa altivez que não sabe que tem. Costas direitas e queixo levantado para equilibrar a cesta que leva à cabeça. Pés a chinelar naquela estrada que não é nada e o som da enxada a escavar a terra a acompanhar-lhe o caminho até que desaparece lá no fundo.

O avio é feito de cabeça. Uma posta de bacalhau, das mais pequenas que estão para lá escondidas que o grão já está de molho, à espera. Vai um chouriço e uma chouriça para dar sabor à sopa e servir de conduto numa fatia de pão. No pão que ela vai amassar quando chegar a casa. Volta a fazer-se à estrada com o cesto que pouco pesa no pescoço e os bolsos vazios.

O velho alguidar de barro, já lascado, o lenço a prender o cabelo e os braços nus a remexer a farinha. Lá fora, a enxada continua a tratar do que é seu e o sol já vai alto. Ali dentro, é mais uma aguinha para mais um pãozinho. A panela com grão a cozer e os chouriços a secar na chaminé. A lenha a crepitar no forno, as mãos nuas a remexer a lume. O cheiro da comida que ainda não está pronta, a encher o estômago. A rapidez das mãos a moldar o pão, a deixá-lo tomar forma antes de se entregar ao calor. Raspar os restos da massa que ficaram na mesa, que aqui não se estraga nada, e amassar com canela. O cheiro à antecipação do bolo feito do que sobrou.

Sábado à tarde. Dia de trabalho. Mais um.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Roupa branca

Davam ordem de início de semana quando desciam a rua de alguidar à cabeça. Os passos atrapalhavam-se com os dos mais novos que lhes seguiam a sombra agarrados à bainha das suas saias num equilíbrio precário que ameaçava ruir a cada tropeção dos mais novos e a que elas respondiam com a destreza que quem está habituada a andanças daquelas. 

Era o rio que as esperava. Pouco para tantas que o procuravam e que dava sempre em gritos antes da roupa ver a água. 

- Então? Aí sou eu! 

- Viesses mais cedo. 

Não havia briga que não desse em conversa ao largo da fonte tal não era o espanto com o descaramento de algumas, mas sem que isso as impedisse de trabalhar. Os quarenta escudos ainda não tinham sido ganhos e já tinham destino e manter a freguesa era ter dinheiro no bolso. 

- Antes pouco que nenhum - dizia uma enquanto separada a roupa de cada casa. Lá de cima vinha a roupa de ‘A’ bordado, duas portas abaixo entregavam a que tinha flor por dentro de colarinho. 

De joelhos calejados no chão, as que não tinham tábua contentavam-se com uma das pedras lisas, e todas se davam ao trabalho. Mãos metidas na água gelada do rio e que lhes cortava pele, músculo e tudo o que encontrasse até chegar ao osso. Esfregavam a roupa com o sabão contado ao milímetro que nem no trabalho se esbanja. 

- A mulher quer-se certa.

Batiam as camisas de encontro à pedra com uma força que nunca se diria que estava naqueles corpos. Os salpicos a chegar a quem estava mais perto e as mãos já a torcer a roupa até ao último pingo. As mais velhas a tratar da roupa das freguesas, as gaiatas a braços com a roupa miúda e os miúdos a correr por ali. Uma cantoria ao longe, um diz que disse ali ao lado. 

E enquanto vinha a conversa e se iam os lamúrios, os campos ficavam brancos de roupa a corar e elas preparavam a dormida que o trabalho mal tinha começado e ainda tinham barrela. Mães e filhos a dormir em tendas que de protecção nada tinham e a roupa de molho no cortiço para ver se a gordura despegava. Lá ficavam as camisas e as calças dos senhores no fundo tapadas com lençol branco coroado a cinza e a água a escorrer por ali até à roupa. 

Na manhã seguinte, acordadas daquele sono quase ao relento, a água gelada que corria na direcção do mar que nunca viram, lavava-lhes o corpo para logo a seguir receber a roupa que lá mergulhavam para a última volta. 

No caminho de regresso levavam a roupa a cheirar a limpeza e campo, e traziam os mais novos na sua sombra. Corpo moído num hábito que nem chegava a cansaço e mãos geladas de dar asseio à roupa dos outros.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Vai lá gaibéu

Deixavam os mais velhos que já se aguentavam por si mesmos antes de precisarem de duas mãos para contar os aniversários, entregues aos cuidados dos avós e eles seguiam caminho com o mais novo. Era como era. 

- Escarrancha - dizia ela enquanto encaixava as pernas do miúdo nos ossos que lhe marcavam as ancas. O cheiro a leite já bebido e a suor acompanhava-os. 

Caminhavam com o som dos pés a raspar da estranha que um casal nunca tem muito a dizer ao outro. Ela de cesta à cabeça. Ele de saco ao ombro. Só quando se faziam acompanhar por outros como eles é que se ouviam as vozes. Iam como sempre, homens a abrir caminho e as mulheres no seu encalço. Todos em direcção ao trabalho que os esperava longe da casa que era sua. Saíam caros ao patrão que lhes devia os tostões da jorna, tecto e lenha, mas eles trabalhavam como se isso fosse a única coisa que tinham na vida. Era assim que pagavam o que recebiam. Não havia domingo nem dia santo que lhes pedisse descanso e nem sabiam de hora para se fazerem ao campo. Era quando capataz assim o dizia, mesmo que ainda não tivessem mais do que a lua para lhes alumiar os passos. 

Faziam-se ao campo descalças. Trabalhavam com água pelo meio da perna e saia enrolada à cintura. As pernas a engelhar, o frio a colar-se ao ossos. Guardadas por eles que passavam o dia com o cu a descansar no cabo da enxada e levavam o dobro em moedas. 

Os mais novos, que também os havia por ali, ficavam a atiçar o fogo que o almoço não tardava. Tinham idade para os bancos da escola, mas estavam destinados ao trabalho e cumpriam. Quando o sol determinava que era hora de descanso e o capataz aceitava tal determinação, lá esperavam os que voltavam. Todos à volta da panela, tão habituados à falta de conduto que nem sabiam que estavam com fome. Grão com couve num dia e couve com grão no outro. O cheiro do almoço a misturar-se com o pó da terra e o sal do suor. Colher mergulhada na panela que fazia as vezes de prato, pão partido à mão. Todos do mesmo. 

E dali voltavam para o trabalho. Nada mais que a vida que levavam, pele calejada a troco dos tostões que guardavam. Apareciam quando vinha o trabalho, levantavam-se quando os de lá se faziam ao descanso que quem não tem a casa sua a que voltar ao fim do dia prefere trabalhar para esquecer. Trabalho de gaibéu.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O trabalho dos dois

Fazia pouco tempo que o dia tinha amanhecido. Vinha com uma cor baça e escura que tardava em clarear e dar calor ao dia que se adivinhava cinzento e húmido. O ranger das dobradiças do portão feito de restos de madeira ecoou na rua vazia de pessoas e de casas. De um lado a vista só alcança o verde rasteiro dos campos. Do outro acompanha a rua de pó que acaba nas casas baixas e brancas da vila. 

Sem que a idade tolde a destreza que a experiência lhe deu, começa o mesmo trabalho de sempre. As mãos gretadas perdidas em gestos mais harmoniosos do que mecânicos enquanto o leite enche o balde preto que ele segura entre os pés e lhe aquece as pernas. 

Encostada à ombreira da porta, de casaco de malha grossa pelos ombros e apertado junto ao pescoço, ela espera-o. Recebe o balde e vira-lhe as costas sem mais falas pronta a fazer-se ao trabalho. Leite despejado no pano branco que tapa a panela e a paciência de o ver coar. Gota por gota. A cadência a preencher o silêncio. O aumentar do gotejar quando ela torce o pano para aproveitar a última gota. Deixa-o ferver até o cheiro da gordura da nata invadir a casa e a entranhar-se no chão de cimento e nos móveis que já tinham tido outros donos quando ali chegaram. De corpo já curvado, pela idade e pelo hábito do trabalho, dá a volta ao leite e prova-o com o gosto que só tem quem sabe. 

Quando chega a altura, deita a água cor de terra que vem do cardo e fica a ver o leite a ganhar corpo. Enquanto espera, puxa as mangas pesadas e prende-as nos cotovelos com os elásticos que traz sempre no pulso. Fala consigo mesma enquanto repete os passos de outros dias até que o lume termine o seu trabalho. Nessa altura, sem ajuda, o corpo pequeno vira a panela que parece que o vai engolir e deita aquela papa no velho tabuleiro de madeira revestido a linho. E ali fica ela, sentada, a envolvê-lo no pano, a apertá-lo, tendo por companhia o som da água que escorre do tabuleiro para os alguidares que ali estão. O som que já lhe soa a silêncio. 

Ajeita-se no pequeno banco e prepara as mãos para dar forma aos queijos que esperam a cura. Ela metida no trabalho que sempre fez naquela casa onde também dorme e come. Toda a sua vida ali. A dela e dele. Ele que naquela idade ainda sai de manhã para lhe ir buscar o leite. Ela que de corpo curvado faz do trabalho os seus dias. Ele que ao final do dia volta a sair de balde vazio. Ela que o espera. Os queijos que levam o sabor que só o tempo lhes dá.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Cantemos todos com alegria

Minha terra é Vale da Pinta
Minha rica freguesia 
Aonde eu fui baptizada 
Naquela sagrada pia 

Conheciam aquela terra onde tinham nascido e pouco mais, mas todos os anos faziam-se ao caminho deixando-a para trás. Era o trabalho que os esperava longe dos parcos pertences a que chamavam seus. E lá iam. 

Desde do dia em que eu vejo 
As campinas do Ribatejo 
Cantemos todos com alegria 
Q’esta paródia só dura um dia 

As lezírias estavam douradas pelo dia que amanhecia quente. Homens e mulheres, alguns com crianças de colo, seguiam pelo caminho de pó e pedras. De pés descalços, cesta à cabeça, mãos na cintura e enxada ao ombro. Conversas que davam em cantorias e transformavam em alegria a desgraça de todos os dias.

Rapazes de Vale da Pinta 
Quando para fora vão 
Toda gente lhes pergunta 
Rapazes de onde são 

Por onde passavam, os homens, com corpo de trabalho e hábitos rudes, apelavam à curiosidade até da moça mais tímida. Era a pose e a roupa que por muito colarinho voltado e tecido passajado, não declarava a pobreza a que os seus bolsos estavam condenados. E elas, fossem puras ou casadas, seguiam-nos com o olhar. 

Olha a nossa mocidade 
Qu’ o tempo nos vai levando 
Recordemos com saudade 
P’ra todos assim cantando 

E aquelas modas, aprendidas no tempo das mãos calejadas, das costas doridas e da pele escurecida pelo sol, ficam-lhes na memória até quando o vigor da juventude desaparecia. A memória do tempo em que o trabalho os levava para longe e que entretinham os serões na lezíria com uns passos de dança para acompanhar as cantigas que inventavam, o longo caminho para o trabalho que se fazia curto quando aclaravam as gargantas. As recordações de uma mocidade que não os deixou ser moços. Do tempo em que as mulheres, de cabelos recolhidos debaixo dos lenços, rodopiavam no braço dos homens. Todos com roupa de trabalho que não havia outra.

Cantemos com alegria 
Q’ esta paródia só dura um dia. 


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Os trechos em itálico são retirados de uma das Marchas do Rancho Folclórico de Vale da Pinta. O retrato de uma vida antiga que se prolonga para os nossos dias pela arte de quem sobe a palco para a dançar e cantar.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O miúdo das entregas

Ainda era miudito embora a altura trocasse as voltas a quem tentava adivinhar quantos anos levava. Devia andar nos bancos da escola, mas era a bicicleta com que fazia o trabalho que lhe competia, que o esperava todos os dias. Dava-lhe folga aos fim-de-semana e nada mais. E ele, cumpridor, nunca lhe falhava a espera. 

Cabeça no sítio, sorriso na cara e olhar de quem fecha os olhos ao que de menos bom lhe marca os dias. Miudito, mas responsável. O dinheiro é difícil de ganhar e, se não tiver cuidado, desaparece antes de lhe sentir o peso. Vinte tostões para aqui outros dez para ali e, quando dá por ele, já foi e não trouxe nada que se veja. 

Entrava na loja ainda o dia mal tinha amanhecido. De olhos cansados e a engolir o bocejo. O cheiro a petróleo e um sem fim de perfumes a entrar pelas narinas e a despertá-lo da noite mal dormida numa cama que nem era digna de tal nome. 

Agarrava-se ao trabalho que lhe ocupava o tempo enquanto o som estridente do telefone não ditava outro destino. Nunca se negava. Lá para o meio da manhã chegavam os telefonemas com os pedidos que ele já conhecia tão bem que o patrão dizer-lhe a quem se destinavam não era mais do que uma formalidade. 

Agarrava no embrulho que lhe estendiam, arrumava-o na bicicleta enquanto ouvia qual o rumo que o esperava e saltava para o selim. Seguia viagem sem mais conversas ou dúvidas. Fosse no calor dos primeiros dias de primavera ou a fugir à chuva de Outubro. Pedalava com o vigor que só estava reservado aos que ainda contavam poucos anos de vida. As ruas na cabeça e nem sombra de dúvida em relação ao caminho a seguir. Esquerda, em frente, direita e ali está a porta que o esperava. 

Em frente ao destino e de embrulho debaixo do braço, tocava à campainha e esperava quem o viesse receber. Sorriso em lugar de cumprimento e o avio entregue nas mãos de quem dele precisava. Meia volta e seguia pelo mesmo caminho. Todos os dias até ser hora de fechar portas. Quando saía de costas, a deixar os espólio da loja bem arranjado no chão, para chamar o gosto de quem passava na rua. 

Dava o dia por encerrado quando ouvia a chave a dar a volta na fechadura e sentia o corpo a acusar o cansaço sem lhe quebrar o sorriso e a piada na ponta da língua. Mais um dia, menos um, cada qual que contasse como bem entendesse que ele ia para casa. Com sorte ainda havia um resto de chouriço a que chamar de jantar.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Natal a Servir

Antes da menina chegar vinda lá de Lisboa, chegava a mulher de todos os anos. Aquela que amassava as broas e os coscorões que iam à mesa na ceia de Natal e que adoçavam a boca da família. Só da família. Amassava sob o olhar atento da senhora e com a mão pronta da criada para ajudar. Era para trabalhar que ela lá estava. 

Miúda delgada que o corpo não conhecia comida que lhe enchesse as peles. Nem no Natal. A casa esperava a chegada da menina que vinha lá de Lisboa com a família. Eram eles que se lambuzavam com os doces que ela fazia. Ali, durante horas esquecidas. O fogão a lenha aceso o dia todo. O fogareiro a petróleo pronto para os escaldadinhos. O corpo dorido. 

Tinha sido a criada da menina que lhe tinha ensinado, mas era a sua mão doceira que encantava a família. A farinha e os ovos perfumados a limão e regados a aguardente. O óleo a borbulhar com o calor do fogareiro e ela ali, agachada, a queimar os braços enquanto virava os fritos. 

Mais um Natal. Mais um dia de trabalho que o corpo só descansa depois de tudo arrumado e limpo. Volta ao trabalho antes de perceber que descansou. Quando a senhora toca à sineta. Sete e meia da manhã em ponto. Era preciso estar de olho nas criadas de servir que já se sabe como são. 

E ela levantava-se, arrepiada com a corrente de ar frio que chegava lá de fora. Vestia a roupa de trabalho e lá ia ela. Na cozinha sentia-se o cheiro doce das broas que lhe moeram os braços. Ela não lhes tocava. Não tinha autorização para isso. Aquelas eram para a família. São para ela as olhar enquanto serve o jantar. Nada mais. 

Quando a menina voltar a Lisboa, a senhora vai guardar as que sobrarem. Fechadas à chave no armário da cozinha. Chave guardada onde só a senhora sabe. No próximo ano volta tudo a repetir-se e aí, só aí, a criada tem autorização de tocar nas broas que ajudou a amassar. As do ano anterior, perfumadas a bafio de doze meses e duras da madeira que as guardou. 

É a vida das que estão para todo o serviço. Só para o serviço. Até no Natal.


Texto publicado originalmente na Revista DADA de Dezembro de 2017

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Dar água à cura

O nascer do sol dava a ordem para começar o trabalho. O capataz confirmava que assim era. Depois disso era trabalhar até dar. Até o sol desaparecer no horizonte. A benção dos dias curtos no Inverno era compensada com os dias de Verão que pareciam não terminar. Era preciso trabalhar quando era tempo disso. Enquanto o capataz dizia que assim era. 

Todos os dias eram de trabalho. Com chuva ou sol. 

Era assim que tinha de ser. Plantar e cuidar para mais tarde colher. Para ter comida na mesa que alimentasse as bocas que insistiam em aumentar. Era preciso olhar pelas vinhas ou aparecia o míldio que se pegava às folhas. Ou o mal branco que condenava a colheita. E lá ia o sustento. 

A água sufaltada já tinha sido preparada. Os homens e mulheres faziam o trabalho. Mangas arregaçadas, lenços à cabeça e a pele a queimar com o sol e o sulfato. Uma para cada homem. O auxílio. 

Lá iam eles de pulverizador às costas. Uma saca a proteger os ombros e o pescoço. Nada mais. 

Lá estavam elas de caneco pronto. 

Os homens faziam o caminho no meio daquela vinha a granel. Cepas dispersas e terreno incerto. Corpo dorido do peso que acartavam. 


-Água! Água! 


Gritavam a ordem. As mulheres, que esperavam lá atrás, respondiam. Caneco cheio de água sufaltada e lá iam elas. O mais depressa possível. Deitavam a água sem cerimónia no pulverizador e a saca ficava ensopada com o sulfato que se escapava. 

 Lá iam eles outra vez. 

Assim se protegia o que lhes ia dar pão para a mesa. Homens a percorrer o terreno. Mulheres a dar água. 

O tempo da apanha ia chegar. Dos cachos gulosos escondidos no meio das folhas. Os dias quentes de Setembro com as mulheres a percorrem a mesma vinha. Curvadas. O tempo das mãos aleijadas e dos pés doridos. Do calor que queimava. Dos cestos ao ombro. 

O corpo aguenta muito, mas dá sinal de si. Fica moído, calejado. 

Mas primeiro era preciso aguentar o sulfato. Era preciso curar os campos. Tratar primeiro para colher depois. E lá iam elas de caneco. 

Primeiro, era tempo de dar água à cura.



Texto publicado originalmente na Revista DADA de Outubro de 2017

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Trabalho fora de idade

A lei era diferente. Dizia que as crianças não podiam trabalhar, que o seu lugar era atrás das carteiras da escola com a bata branca vestida e respeito pela professora.

A realidade era outra. Era a que toda gente sabia, mas que fingia não ver. Olhos que não vêm... É o que dizem por aí. Eles lá sabem.

Ela era o que os olhos insistiam em fingir que não viam. Seis ou sete anos, não tinha mais. Pequena e delgada. Juravam que nem peso de gente tinha, se é que isso era possível. Honrava o nariz espevitado sem medo. Sabia onde ficava a escola, mas não lhe conhecia as salas de aula e nem reconhecia na professora a autoridade que diziam ter. Ela era diferente.

Quando se aproximou do capataz fê-lo sozinha. Sem sermão ensinado nem adulto que tratasse dos seus assuntos. 

- Quero trabalhar - disse com voz de criança, mas decidida.

O capataz, homem rude e de pele estragada, dobrou-se para a olhar. 

- Não podes - respondeu em tom de ordem.

Ela não se deu por vencida nem arrumou o assunto. Não ia para a escola que na sua casa não acreditavam nisso e, mesmo que acreditassem, faltava-lhes o dinheiro para cumprir as leis.

- Tiro as pedras da terra - propôs, mas completou com a sua sentença - Paga-me como as outras.

O homem tentou demovê-la. Explicou-lhe que havia quem chegasse sem aviso para garantir que as crianças estavam na escola e não ali. Crianças como ela.

A miúda, de cabelo solto e pés descalços, não desistiu, Ficou ali, a olhar para ele e só arredou pé quando teve a confirmação que podia voltar no dia seguinte. Voltou.  E no outro logo a seguir também. Todos os dias sem falta. Trabalhava tanto quanto as mais velhas. Cabelo tapado e avental à cintura. Sem cansaço.O corpo é novo, a energia não se esgota.

De vez em quando tinha de deixar o trabalho a meio e ir. O capataz, lá no alto, tirava o boné e levantava-o sem olhar para ela. Sem palavra. Ela largava as pedras no chão e corria descalça pelo terreno que tinha acabado de limpar. Voltava para casa. O lar onde devia estar sossegada e esperava que chegasse o dia seguinte para se apresentar ao trabalho.

Nessa altura já a ronda tinha terminado. Os que faziam cumprir as leis já tinham ido embora. Ela ficara. Sem ser descoberta. Sem conhecer números nem letras. Descalça a fazer-se mulher quando nem corpo tinha.

Os bancos da escola, esses nunca conheceu.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Enxoval na hora da sesta

O trabalho do campo era feito de rotinas. Horas que se cumpriam. O início quando o sol iluminava a terra, o fim quando ele desaparecia e o capataz autorizava. A sesta depois de almoço. Quando o sol quente ensopava os lenços das mulheres com o suor e o corpo ficava pesado.

Duas horas de descanso que eram compensadas no fim tardio para o dia de trabalho. Não havia benesse que não fosse paga com o cansaço do corpo. Mas a sesta dava-lhes um novo fôlego.

Os trabalhadores deixavam os campos e procuravam as sombras das árvores. Os homens esticavam-se em cima de uma manta e deixavam que o sono os encontrasse. Boné a tapar a cara e um ressonar que embala o trabalho das mulheres.

Elas sentavam-se por ali perto. Todas juntas, abrigadas debaixo de uma árvore. Um pano por cima da cabeça para as proteger do sol. Não se deixavam levar pelo sono que tinham obrigações que as esperavam. Levavam a trouxa consigo e de lá de dentro tiravam o trabalho que as acompanhava. Era para si que o faziam. Para si e para as filhas. Para a prima que estava de casamento marcado. Para a outra que ainda era nova, mas ia lá chegar.

O enxoval era responsabilidade da mulher. Era ela que dava à casa o que ela precisava Só uma mulher sabe o que é. Os panos e os lençóis, as camisas de dormir e os naperons, o saco que guarda o pão. As mantas feitas dos tecidos que tinham sobrado já nem se sabia bem do quê. O que era importante era ter. Mostrar que podiam ser pobres, mas que eram cuidadas. Que tinham as suas coisas. Mesmo que feitas por elas que não havia dinheiro para mandar fazer fora.

E as mães e as tias juntavam-se debaixo da árvore quando chegava a hora da sesta e metiam as mãos ao trabalho. As agulhas e os tecidos saíam das trouxas. Lá estavam elas. Rodeadas de linhas e dedicadas ao trabalho. Bordado atrás de bordado. Ponto atrás de ponto.

- Fazes assim: dois abertos, dois fechados e três paus. A primeira fiada é assim.

Trocavam ideias e sabedoria. Trocavam conversas sobre a vida. Mais a dos outros do que as suas. Toda gente tem uma opinião sobre o que se passa na casa dos outros. Ninguém quer que a sua seja tema de conversa.

- Já tenho isto mal.

E desfaziam se fosse preciso. Pernas esticadas e pés descalços a aparecer por baixo das saias. O trabalho em cima do colo para não sujar. Agulha a trabalhar afincadamente e o trabalho quase a ficar pronto. 

- Está feito.

Mais um para guardar na mala onde se acumulava o enxoval. Não faltava muito para que a filha o levasse com ela. Faltava pouco mais para que fosse a sua vez de fazer as coisas para a filha que ainda não tinha chegado.

O capataz dava o descanso por terminado e ninguém faltava à chamada. Os homens guardavam a manta que lhes tinha aconchegado o corpo. As mulheres recolhiam o trabalho na trouxa. Lá voltavam eles, com o sol ainda a queimar e o corpo já marcado do cansaço.

A sesta voltava no dia seguinte. O enxoval lá as esperava.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A apanha

Com o final dos dias quentes vinham as carrinhas. Já eram esperadas. As carrinhas e as mulheres que levavam e traziam. O trabalho de campo esperava-as. O pó, o calor, os músculos doridos. Todos os anos esperavam pela carrinha que as levava de manhã cedo e as devolvia ao final do dia-

Eram mulheres de trabalho. Bata traçada, relógio pendurado na alça, lenço atado à volta da cabeça. As pernas escondidas pelas calças grossas e os pés metidos nos sapatos de trabalho. Sujos de pó, às vezes já a romper do esforço.

Levavam uma cesta com o almoço. Um bocadinho de conduto para enganar a fome enquanto aproveitavam para descansar à beira de uma sombra qualquer. Devia ser assim.

De manhã cedo juntavam-se no sítio combinado e esperavam pela carrinha que as vinha buscar. Mulheres e miúdas. Umas com vida daquilo, habituadas à dureza do campo. Outras à espera de juntar uns trocados. Talvez para gastar nuns devaneios, a maior parte das vezes para compensar o orçamento lá de casa. Esperava-as o trabalho da época. Duro. Seco. Áspero.

Estavam o dia inteiro fora. Nos dias mais quentes e mesmo naqueles em que o São Pedro lhes pregava uma partida. Era trabalho e o trabalho era para ser cumprido. Não se queixavam. Pelo menos as mais velhas. Era essa a sua vida, só conheciam o trabalho de todos os dias. Não se queixavam. Não sabiam que podiam.


Ao final do dia, a carrinha voltava e lá as trazia. Sentadas na parte de trás da carrinha de caixa aberta. Os bancos corridos davam a falsa ilusão de conforto e elas lá estavam. Aos solavancos. Agarradas onde conseguiam. Conversas perdidas no cansaço de um dia de trabalho. Era Verão, o calor entrava-lhes na pele, cansava-lhes o corpo. As conversas ali, a caminho de casa, eram deitadas para o ar sem se preocuparem com o que era falado. Enganavam o tempo. Procuravam chegar mais rápido ao seu destino.

Cheiravam a trabalho. Uma mistura de suor, pesticidas e terra seca. O pó entranhava-se nas suas roupas, nos seus cabelos, nas unhas que se tornavam escuras. Tinham um ar cansado, o andar torcido denunciava os músculos doridos. 

Desciam da carrinha com destreza. Cumprimentavam quem as esperava. Descansavam o corpo enquanto se encostavam a uma parede tapada pela sombra.  A cesta esquecida aos pés que apoiavam o peso do corpo alternadamente. Uma espécie de descanso. As mãos apoiadas nas ancas.

Amanhã voltavam ao trabalho. O campo ainda tinha muito tomate para dar e o corpo ainda tinha muito para aguentar. O trabalho de todos os dias. A carrinha à espera. O corpo que se queixava. A boca que se calava.