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sábado, 2 de janeiro de 2016

Arroz Doce e Coscorões

Os pratos do almoço ainda estão em cima da mesa quando se começa a ouvir a algazarra. Sem direito a aviso, os miúdos invadem a rua com os seus risos e passos apressados. Tempo é dinheiro e é preciso despachar, há muito mais à espera. 

São uns dez. Todos a tentar equilibrar um prato muito bem tapado com um pano daqueles bonitos. Com alguma sorte ainda é um dos que têm um picot à volta, feito com todo o rigor e dedicação que o trabalho merece. 

Lá vem um a descer a rua a correr. Traz o prato vazio debaixo do braço e o pano dobrado em quatro com todo os cuidados. Está pronto para a próxima ronda. Pisca o olho aos colegas em ar de provocação e segue caminho. Ouvem-se gritos de protesto. Uns risos logo a seguir. Toca a apressar mais o passo ou perde-se o negócio. 

- Eu fico por aqui. 

Batem à porta e esperam. Do outro lado ouvem-se passos. Assim que a porta abre entregam o prato ao destinatário sem hesitar. 

- Então e quem é que se casa? 


E eles, com o recado na ponta da língua, explicam o que os traz por ali e quem os mandou. O arroz-doce é passado para um novo prato, com todos os cuidados para não partir, e os coscorões são guardados. 

- Não há arroz doce como o dos casamentos – comentam os da casa enquanto provam o que ficou agarrado aos dedos e procuram a carteira. 

Uma nota para os noivos e umas moedas para o miúdo que as guarda no bolso. Mete o prato já lavado debaixo do braço, arruma o pano e despede-se apressado que ainda há muita entrega para fazer. Assim que chega à porta é vê-lo a correr rua fora.

Já não me lembro da última vez que os vi a encher as ruas de prato na mão. Ou a contar o dinheiro ao final do dia. Já não se anuncia casamentos assim. Com direito a arroz-doce e coscorões. Hoje, nem a travessa chega a casa da madrinha da noiva. 

- Mudam-se os tempos – ouve-se dizer num suspiro saudosista.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Dura uma semana

O sol ainda não tinha nascido é já se ouvia as mulheres a amassar a massa. O alguidar de barro batia contra o balcão e ouvia-se o arfar cansado de quem amassava há mais de duas horas. 

O ar cheirava a massa a repousar debaixo dos cobertores pesados, não faltava muito para passar a óleo quente, açúcar e canela. O Natal estava aí e os velhozes e coscorões estavam quase prontos.

Lá andavam os miúdos. Rua acima e rua abaixo. Em grupos de quatro ou cinco. Desde dos mais novos aos que já deviam ter ganho algum juízo com a idade. Algumas tradições não deixavam espaço para a lucidez. 

O dia começava cedo para todos. Eles batiam os pés e esfregavam as mãos para aquecer. Mais um copo de três antes de começar a ronda e o frio de Dezembro já estava esquecido. Faziam-se à estrada a pé ou empoleirados em carroças. O destino estava decidido, como chegavam lá era pouco importante.

Corriam as estradas e entravam pelos portões sem pedir autorização. Do outro lado das janelas havia quem os seguisse sem se fazer notar. E lá iam eles portão fora outra vez. O resultado do roubo na carroça e mais uns quantos a correr rua abaixo até à próxima paragem.

Juntavam-se troncos e raízes. Árvores que estavam caídas e outras que já tinham visto melhores dias. Não se pedia autorização para entrar nem para encher a carroça. A tradição era que fosse feito pela calada, mesmo que toda gente soubesse o que se passava.

Quando a noite começava a cair, encontravam-se todos no sítio do costume. A velha praça. Troncos ao centro e lenha miúda para atear. Era ver pegar fogo e ficar até se querer. 

Era a noites antes do Natal, a fogueira estava a arder com a lenha roubada neste e naquele terreno. A noite ia ser longa e toda gente ia parar por ali antes de se darem as festividades por fechadas. Assavam o chouriço e o toucinho, alguém trazia pão acabado de cozer e um prato de velhozes. Fazia-se o Natal ali, fora de portas e sem prendas. Com conversa e o calor da fogueira de Natal que resistia às dificuldades e ao tempo.

A fogueira ia arder até que entrasse o novo ano. Que viesse melhor do que este, era o que se esperava. Nem sempre se cumpria. Mas a tradição voltava. Pelo menos naquele tempo.



domingo, 20 de dezembro de 2015

Está zero a zero

Ouvem-se as vozes exaltadas e uma enxurrada de impropérios que visam única e exclusivamente a mão do senhor que está vestido de preto no meio das duas equipas. Pobre coitada, soubesse ela onde é que o filho se ia meter, mas uma pessoas não pode adivinhar.

- Olhe lá, quantos estão?

- Zero a zero e não ganha ninguém. Pelo menos por agora, mas isto ainda nem chegou a meio.

O campo está longe das relvas que se vê na televisão. Pó de pedra, daquele fino que salta assim que dão um pontapé na bola. Vinte e dois em campo, mais os três que ouvem comentários pouco próprios sobre quem os trouxe ao mundo.

Cá fora o jogo é outro. É a mãe que vem ver o filho jogar. Junta-se a nora e os netos, a amiga e a vizinha. e o resto da terra, ninguém fica em casa em dias destes. Ficam todos ali de pé durante uma tarde inteira. Parece um ritual cumprido à risca, vai toda gente ver a bola.

Os assadores estão a fazer brasa e no bar vão saindo minis para os mais velhos e garrafas de Sumol para os mais novos.

- Não vás correr para aí que ainda te magoas.

Ouvem-se os gritos das mães. Estão de pé, encostadas ao muro do campo e com os casacos dos miúdos dobrados no braço. Fala-se de tudo, deita-se um olho ao jogo, outro ao Zé que nem se sabe bem como, escorregou e esfolou a mão e o joelho.

- GOLO!

E pára o mundo. Não há quedas nem feridas ou árbitro que roube a alegria. É golo e é dos nossos. Faz-se a festa e os jogadores gritam. Não ganham nada com isto. Nada além de nódoas negras, cansaço e, nos dias mais complicados, uma visita às urgências do hospital. Mas vibram como se isto fosse o seu sustento.

É golo. É para festejar.

Bola ao centro e os couratos a assar. Cheira a gordura a fritar no assador de chapa e começam a sair os primeiros pães.

- Para a semana, o jogo é cá ou fora?

Vamos a pé ou de carro? Ou vai tudo de autocarro para fazer a festa no caminho? Seja qual for o resultado. Vamos todos.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quentes e boas

No S. Martinho, vai à adega e prova o vinho. É o que se ouve dizer por aí.

A uma adega qualquer, nestes dias não é preciso convite. O que é preciso é sorte para encontrar uma que esteja aberta.

Tempos houve em que as adegas abriam os portões e ficavam à espera de quem quisesse entrar. Sem convites ou publicidade, era a tradição da porta aberta a quem viesse por bem.

Os homens juntavam-se, as mulheres ficavam recolhidas em casa. Boné aos quadrados na cabeça e copo de vidro na mão. Dos pequenos, é assim que pede o vinho.

Provava-se o vinho novo que ainda estava guardado em pipas. Das de madeira que enchiam aquele espaço em que o cheiro a álcool parecia estar colado às paredes a quem por lá passava. Juntavam-se amigos e conhecidos para cumprir o ritual de devoção a um santo.

Fazia-se a fogueira numa lata que andava por ali perdida. Era Novembro, o tempo estava frio e o vinho ainda demorava a fazer efeito. A fogueira ficava mesmo ali, no meio da adega. Aquecia os convivas do vento que entrava pelo telhado e pelas frestas da parede. Mais um copo de vinho que a fogueira começava a pegar.

Cortavam-se castanhas com os canivetes que andavam no bolso e o assador ia ao fogo. Era ver os homens a aquecerem-se na fogueira improvisada enquanto esperavam que o petisco ficasse pronto. Novos e velhos, sem distinção, Em dias de festa, o vinho era para todos.

Ouvia-se o abrir da torneira de madeira. Com esforço. Era só mais um copo de água-pé que era da boa. Tão boa que arde na garganta e aquece o corpo. É nova. Alguns começavam a ter dificuldade em manter-se em pé e o equilíbrio ia-lhes fugindo a cada copo que deitavam abaixo.

Queimavam-se as mãos enquanto se provavam as castanhas acabadas de sair do lume. Quentes e boas, como se quer. As vozes, arrastadas pelo peso do vinho, falavam de outros tempos tão antigos que se perdem na memória.

A noite terminava quando já nem se sabia que horas eram. A adega cheia de fumo e os corpos quentes da prova do vinho. Abriam-se os portões enquanto se bebia o último copo.

Só mais um. Para dar força para o caminho.


domingo, 1 de novembro de 2015

Onde foste?

Estamos na altura dos Santos. Fui à feira.


As tendas estão montadas e os pregões ensaiados. 

- Mais uma voltinha!

Só mais uma. Mais uma moeda e uma viagem na chávena ou nos carrinhos de choque. Os pais esperam e alguns desesperam enquanto os miúdos sobem e descem das diversões sem mostrar cansaço. A feira está quase a acabar, não há tempo a perder.

As cestas vão enchendo. Um saco de castanhas que são das boas e o São Martinho não tarda está aí. Maçãs, clementinas e mais umas romãs. Agora já parece Outono.

- Escolha-me aí um quilo de nozes. Veja lá se são boas.

Juram que se não forem vão reclamar. Amanhã, quando da feira só sobrarem as caixas vazias e os papeis pelo chão. Até lá há tempo para regatear e escolher o que parece melhor.



É o casaco da moda e a camisola quentinha. As ruas começam a encher e as pessoas vão deitando olho. Nunca se sabe do que é que se precisa e o que é que se quer. É melhor aproveitar enquanto as tendas ainda estão montadas e as nuvens só ameaçam chuva.

Há fumo no ar. Cheira a castanha assada e as farturas estão a sair do óleo. 

- São cinco para levar.

- Oh freguesa, leve sete que paga o mesmo!



 

Voltamos para o ano, se Deus quiser e os santos ajudarem.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Onde é que vais?

Está quase aí. Mais um dia e estão todos a caminho. Já está tudo pronto à porta de casa. E lá vão rezando para que o tempo dê tréguas. Se não der é preciso ter força para enfrentar o pior dos temporais.

A cesta vai à cabeça. Uma daquelas grandes para trazer o avio todo que se quer. O peso não é problema que o equilíbrio está treinado e a sogra* aguenta.

Em dias de festa é escolher o lenço bonito. Aquele florido que está guardado com o maior dos cuidados.

Quando chegar o dia, é vê-los a sair de manhã cedo. Ainda o sol mal nasceu e já se ouvem os passos na estrada. Vão em grupos, cantarolando a última modinha. Fazem o caminho a pé. Sem medo ou desistências que a festa não chega todos os dias e é preciso aproveitar.

No saco ainda vai um chouriço e um bocado de pão para aconchegar o estômago a meio caminho. O canivete está sempre pronto.


Vamos à feira. Que os santos estejam todos por nós.



* a sogra ou rodilha era feita de tecido e era usada em cima da cabeça para apoiar a cesta que as mulheres levavam à cabeça. Assim era mais fácil suportar o peso.