Mostrar mensagens com a etiqueta Vidas antigas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vidas antigas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de junho de 2019

A esperteza

Saíam acompanhados do cheiro enjoativo a leite quente. Todas as manhãs, leite fervido com a nata espessa a vir ao de cima, e o que houvesse no naco de pão. Isso ou o pão embebido no leite para encher o estômago. Depois, faziam-se ao caminho com o aviso de sempre:

- Tomem conta das meninas

Era o tomavas, era o que era. Eles bem que abanavam a cabeça como se concordassem com o que lhes era dito, mas ainda estavam sob o olhar das mães e já se tinham esquecido. Elas que se valessem. 

Saíam todos juntos e mais se iam juntando pelo caminho. Perdia-se a conta aos miúdos que por ali nasciam a cada ano que passava. A cada porta, o aviso reforçado:

- Tomem conta das meninas - e eles a responder com o mesmo aceno calado.

Andavam todos pelas mesmas idades. A maioria ia descalço, tão habituados aos pés nus que nem sentiam as pedras, uns quantos tinham uma mala que levava quase nada e todos iam de bata branca que algumas faltas a professora não admitia. Eles eram todos mais altos do que elas, mas nem isso lhes pesava na consciência quando as deixavam para trás. Ainda se avistava a torre da igreja e já tinham acelerado o passo deixando para trás as meninas que deviam cuidar.
Elas, miuditas de idade e tamanho, não se preocupavam com aquele abandono premeditado. Era assim todos os dias, tão certo como as horas que o sino anunciava, e elas já não contavam com outra coisa. Aliás, até preferiam que assim fosse. Que eles se fizessem ao caminho, no passo apressado para chegar a lado nenhum, que elas ali ficavam, no seu passo miúdo e brincadeiras que não lhes interessavam a eles, tão adultos naquela meninice que não queriam assumir que ainda tinham.

Não demorou a que o barulho do motor se fizesse ouvir. Atrás delas, o roucar cavernoso denunciava a dificuldade em transpor aquela subida acentuada que só pernas novas aguentaram sem reclamar. 

- Mas vocês vão sozinhas?

E mais não era preciso para que elas subissem para o autocarro que trazia quem vinha do trabalho e levava quem ia pegar a seguir. O condutor já as conhecia e elas não se faziam rogadas à oferta de boleia que as levava rua acima, a passar os rapazes que as tinham deixado entregues a si mesmas. Da torre da igreja chegava o sinal. Eram 8.30 da manhã.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Menos um ano em trinta

Chegaram e cheirava a terra nova. Terra que se perdia de vista, mas que não conhecia enxada. E era deles. Pelo menos era isso que lhes diziam. Que assim seria quando os trinta anos tivessem passado e as contas ficassem certas.

Tinham casa. Uma casa de banho que levava o nome do buraco que tinha do chão. O vazio. Nada nas paredes e apenas o eco a encher o espaço que nunca sonharam ter. A mobília era a que traziam e a maioria trazia-se a si mesmo, aos filhos e à trouxa que levavam, sem esforço, numa mão. Mas tudo aquilo seria seu. Trinta anos e bom comportamento.

Começaram com o que tinham. Corpo e trabalho. Amanharam a terra a que não viam fim enquanto enchiam o estômago a batatas temperadas com toucinho salgado quando o sol andava pelo meio dia. Sopas pela manhã, toucinho a temperar as batatas à noite e estava arrumado o dia. As mãos calejavam, mas o corpo não quebrava. Quando se nasce habituado a isto, não há nada que leve a força. Deus só nos dá o que aguentamos. Nada mais do que isso. E assim fazia mais um ano e contava-se um sexto do que vinha da terra para ser dado a quem a tinha oferecido.

A fome dos primeiros tempos, calada pelo trabalho nos terrenos dos outros, naquilo que era propriedade que não dava retorno para a casa. Era assim para pagar o que se devia e o que se tinha pedido emprestado. Mais uma rega e a dívida a aumentar. Mais fosse o que fosse o registo feito onde era devido. Mais um ano e a casa limpa tal como se queria.

Um casal dado assim. A quem sempre teve pouco e se vê com tanta terra que obriga o trabalho a fazer-se em horas e fora delas. Entregue a quem mostrava ser de família e exemplar que a quem não o fosse era mostrado o caminho de saída. Mais um ano, se tivesse sorte.

O trabalho, saído do corpo que já era fraco, a dar-se. A fazer terreno daquilo que à chegada não era mais do que pedras no meio da terra onde nada brotava. Os primeiros anos sem colheita, a paciência para vir um dia a colher aquilo que davam ordem para semear. Manda quem pode que sempre assim foi. Mais um ano.

Um terreno que era baldio feito morada de família. Os pés descalços pela estrada, as agulhas a costurar como se quer, o dinheiro a ser pago como é devido. Todos os anos. Trinta até estar terminado.

Ele ao sol e de enxada na mão. Ela de lenço à cabeça e a seguir-lhe os movimentos e com a casa à sua espera. As mãos gordas dos miúdos a tirar as pedras. Quem come, trabalha. Quando falta, falta para todos. Galinheiro povoado, riqueza amealhada. Que já se sabe bem como se faz a vida. 

Mais um ano de trabalho. Mais um sexto entregue. Outros tantos em falta.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

É dia como todos os outros

Sábado de manhã. Ainda o sol vai baixo e já se contam horas de trabalho que o fim-de-semana só o é quando o dia é santo. Nos outros, vai tudo dar ao mesmo. Com o corpo a ganhar cor ao sol e os músculos a enrijecer de enxada na mão.

Ele endireita as costas. Apoiado no cabo, tira o boné e limpa o suor da testa com as costas da mão. Trabalha a pouca terra que é sua quando não está na de quem lhe paga. Naquelas manhãs, o cheiro a pó da terra seca mistura-se com o do fermento que está a ganhar corpo desde do dia anterior. Um quanto de farinha, mais um tanto de água, tudo com o que sobrou da massa da semana que passou. Deixar chegar o dia seguinte. Paciência é uma virtude, é o que é.

Manhã cedo, com ares de dia fresco, e ela faz-se ao caminho numa altivez que não sabe que tem. Costas direitas e queixo levantado para equilibrar a cesta que leva à cabeça. Pés a chinelar naquela estrada que não é nada e o som da enxada a escavar a terra a acompanhar-lhe o caminho até que desaparece lá no fundo.

O avio é feito de cabeça. Uma posta de bacalhau, das mais pequenas que estão para lá escondidas que o grão já está de molho, à espera. Vai um chouriço e uma chouriça para dar sabor à sopa e servir de conduto numa fatia de pão. No pão que ela vai amassar quando chegar a casa. Volta a fazer-se à estrada com o cesto que pouco pesa no pescoço e os bolsos vazios.

O velho alguidar de barro, já lascado, o lenço a prender o cabelo e os braços nus a remexer a farinha. Lá fora, a enxada continua a tratar do que é seu e o sol já vai alto. Ali dentro, é mais uma aguinha para mais um pãozinho. A panela com grão a cozer e os chouriços a secar na chaminé. A lenha a crepitar no forno, as mãos nuas a remexer a lume. O cheiro da comida que ainda não está pronta, a encher o estômago. A rapidez das mãos a moldar o pão, a deixá-lo tomar forma antes de se entregar ao calor. Raspar os restos da massa que ficaram na mesa, que aqui não se estraga nada, e amassar com canela. O cheiro à antecipação do bolo feito do que sobrou.

Sábado à tarde. Dia de trabalho. Mais um.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O respeito de ser casada

Já tinha tirado dois dedos à bainha das saias para que lhe tapassem o joelho e ainda nem tinha chegado o dia. Estava quase. O calendário marcava mais cinco dias até lá chegar. Finalmente. Já não se podia ouvir a mãe com a conversa do costume. “Dezasseis anos e sem namoro?”. Havia lá desgosto maior do que uma filha metida em casa, sem homem que olhasse por ela. Não era para isso que a metera no mundo.

Mas Deus ouvira as suas preces e lá apareceu quem marcasse a data e assim, sem quase se dar por isso, só faltavam quatro dias para que se cumprisse o que era esperado. Estava a casa pronta. Com o cheiro a paredes caiadas de fresco e madeira em segunda mão. Feita do que tinha sido um barracão a dois passos da porta dos sogros e com o essencial. Para se viver era preciso pouco, mais que não fosse porque não havia muito e era pecado desejar mais do que se tem.

Três dias. A adega estava limpa e as mesas postas no sítio com cadeiras de cada nação e toalhas brancas do enxoval de todos e mais alguns. Os pratos com flores misturavam-se com os brancos e lá pelo meio aparecia um já lascado, mas ali nada se deita fora porque não há como comprar novo. Copos do que havia, depois de dois ou três já ninguém sabia o que tinha na mão.

E eis que faltam dois dias. Um instante que nem se deu por ele. De pescoço cortado, as galinhas escaldavam no alguidar à espera do que lhes estava reservado. Prontas a depenar antes de se fazerem em canja e terminarem coradas no forno. Os coelhos estavam gordos. Os garrafões cheios alinhavam-se na parede do fundo.

O corpo tratava de amassar quando só faltava um dia. Farinha trabalhada com água, massa deixada a levedar debaixo dos cobertores e o crepitar da lenha a aquecer o forno. Mulheres de bata e lenço à cabeça, a falar da vida dos outros e a calar os segredos do casamento. Noiva que é de respeito entrega-se ao seu homem e o resto logo se vê.

De repente, acabava-se a espera e o dia chega igual a qualquer outro. Ela prende o cabelo que sempre usou caído, numa banana bem apertada. Tal e qual como se quer. Veste o vestido que depois de a ver casada, irá substituir a roupa de Domingo de quando era miúda e, pelo braço do pai, entrega-se à vida de mulher. Outro homem à sua espera. Escolhido quando já ninguém achava que isso lhe acontecesse. A sair das leis do pai para acatar as ordens de quem a recebe agora. A cabeça em sinal de submissão, o vestido que cresceu em comprimento, as pernas que deixaram de traçar. A mulher que se quer de respeito e quem é digna disso não se ri na rua. Todos os avisos que lhe deram durante uma vida a tornarem-se seus naquele altar.

É mulher, mas casada e mulher casada é outro respeito.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Já não te sou preciso

Eram meses daquilo. De espera, encostada ao portão, a ver se o via aparecer na curva lá à frente, que o seu coração apertava-se naquela incerteza sobre o que estava para chegar. 

- Despacha-te que tenho de ir para a vinha - gritava quando avistava o carteiro. 

Desde que vira partir o sangue do seu sangue criado no seu colo, que vivia num luto por quem esperava voltar a ver. O coração sofria. Vestida de preto desde que ele saíra à porta, fardado, para África como mandavam. Em força. E ela tinha ficado ali, a chorar um filho que ainda respirava. Meias até ao joelho, lenço a tapar o cabelo, roupa a cobrir o que restava do corpo. Preto sobre preto. A casa mergulhada em escuridão e a rua vedada a não ser para o trabalho. Até que ele voltasse e o luto desse lugar a mesa farta e música. Por enquanto, ela esperava que aparecesse a bicicleta à curva e que quem vinha nela lhe trouxesse notícias.  
- Tenho aqui o aerograma. 

E o seu coração acalmava. As palavras do filho sossegavam a ansiedade de o querer longe daquela guerra. Todos os dias esperava por esse fim que ninguém anunciava. Quando na rádio se ouviu a marcha de Grândola disse para si que já faltava pouco para o ver entrar pela porta e pegar na irmã ao colo. Faltava pouco para deixar de esperar o carteiro. 

Mas quando a porta se abriu, encontrou estranhos que não lhe conheciam a razão do luto antecipado e que lhe diziam o que não queria ouvir e que a rasgava por dentro. Quando se foram, ficou um colo a que faltava metade. A certeza que a casa não se ia fazer festa e que os cravos trouxeram a liberdade, mas que o filho não voltava com ela. Que tinha ido em força para África. Que lhe escrevera de lá. Que ela não o voltaria a ver. Que morrera já com ventos de liberdade. 

- Já não te sou preciso - foi o que lhe disse o carteiro quando, dias mais tarde, passou por aquela mãe que já não esperava por notícias do seu soldado. Uma desculpa de quem não tinha culpa e que já não lhe podia servir de conforto.


Texto publicado originalmente na edição de Abril de 2019 da Revista DADA

quarta-feira, 27 de março de 2019

O não para ser mulher

O tamanho era pouco. Nascera nos dias pequenos, era o que costumavam dizer-lhe por graça quando percebiam que tinha deixado de crescer por volta dos sete anos. Ou então crescia tão devagar que era preciso deixar passar muitos mais para se perceber a diferença.  

- Já és uma mulherzinha. 

Estava a chegar aos doze. Doze anos sem altura que o confirmasse, mas com sentença associada. Mulher. O que era bom de saber era quando tinha sido menina porque disso ninguém a tinha avisado. Nunca se tinham virado para ela com a mesma autoridade de agora, para lhe dizer que era uma menina e agora era isto. Mulher. 

Talvez tivesse sido criança quando embalava os irmãos e ainda mal tinha feito os cinco anos. Ou quando, com oito aniversários contados, os preparava para a escola transformando o vazio da cozinha em pão para lhes dar pela manhã. Talvez o tivesse sido na altura em que não tinha tempo para brincar, mas a roupa estava estendida ao sol, imaculada. 

- As mulheres de respeito não andam a rir assim. Isso são as que não têm juízo.

Dez anos e tinha dado uma gargalhada vinda lá bem de dentro no meio da rua. Não o voltou a fazer que ninguém quer que pensem que lhe falta juízo embora saiba que não é o seu caso, mas mais vale prevenir os comentários.

- Já és uma mulherzinha.

Foi o que lhe disseram quando a puxaram pelo braço e a tiraram da corrida que fazia com os outros rapazes e que estava a dois passos de ganhar. 

- As mulheres não correm. 

E ela parou. Porque era mulher embora ainda se sentisse criança e o ser mulher tinha regras. Muitas. Todos os dias mais uma. Ela cumpri-as todas. Uma por outra, adicionando novas. Não ria, não corria, não chegava a casa depois do sol se pôr, não se esquecia de preparar o jantar, não usava saia acima do joelho, não falava com homens na rua, não ficava sozinha com eles sequer, não dançava, não mostrava as pernas, não respondia, não tirava os olhos do chão, não... 

- Não queres ser uma vadia, pois não? 

Não queria. Só queria ser mulher porque diziam que já o era. Era por isso que juntava mais um não à lista.

quarta-feira, 20 de março de 2019

As notícias que não chegavam

- Ó filha, vai lá ver se já se sabe. 

Tinha andado nesta lengalenga o dia todo e a filha de chamamento, mas sobrinha de sangue, lá ia rua acima a cada pedido para voltar rua abaixo com a mesma resposta.  

- Dizem que está demorado, tia. 

Sentada no degrau do barracão, a tia encostou uma mão à testa para quebrar o sol que lhe batia nos olhos, e com a outra ajustou o pano que lhe protegia a cabeça antes de voltar a insistir. 

- Vai lá ver. 

Ela foi, já se sabia que os pedidos dos mais velhos eram ordens para os mais novos. Subiu a rua com o passo apressado de todos os dias e, em menos de nada, entrou pela porta do café que não era mais do que uma tasca que via esfregona mais vezes. Entrou pela esquerda onde se juntavam mais mesas e cadeiras do que o espaço parecia conseguir albergar e deu sinal para o balcão que ficava na sala do lado.  

- Mas estás aqui outra vez, rapariga? 

Encolheu os ombros que também ninguém esperava outra resposta e abriu caminho entre os que se juntavam ali para ver televisão a preto e branco. 

Abriu as portas de madeira, entrou e fechou-as atrás de si com um ligeiro clique. No pequeno balcão à sua frente tinha o telefone e o livro alto com o nome de todos aqueles que tinham telefone e o respectivo número à frente. Não precisou de o abrir, sabia bem ao que ia. Marcou o número e esperou. 

Do lado de fora da cabine, continuava a vida normal. Os que se juntavam naquela sala para ver televisão, os que esperavam ao balcão pelo copo de vinho servido por quem mantinha o mesmo ar carrancudo de todos os dias. Lá dentro, ela ouvia com atenção o que lhe diziam. 

Ainda não estava a pousar o auscultador e já corria rua abaixo sem se preocupar em pagar o telefonema que acabara de fazer. 

- Isso não e próprio de uma mulherzinha. 

Ouviu dizer quando passou pelo grupo de linguarudas de serviço, mas daquela vez nem se preocupou em responder. Entrou em casa da tia sem se preocupar com comportamentos ou respeito e assim que a viu, sentada no mesmo degrau ainda com a mão a tapar o sol que não a deixava abrir os olhos, deu-lhe a notícia que tanto esperava. 

 - Já é avó, tia.

- Avó? Ai, que palavra tão pesada.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Oferendas a quem precisava

A bata tinha sido lavada e passada com tal pormenor que sentia os braços dormentes, mas estava impecável. Sem ruga e com um branco capaz de cegar quem apanhasse pelo caminho. Vestiu o filho enquanto o repreendia pelas diabruras que ainda não tinha feito, e entregou-lhe o saco com o feijão que tinha conseguido recolher. Pegou no mais novo pela mão e, de mala quase vazia no braço e roupa de Domingo, saiu com o mais velho dois passos à sua frente. 

A rua tinha ares de festa de Agosto com a aldeia toda reunida na praça e vestidos do mais apresentável que conseguiam. A carroça estava pronta, enfeitada com o rigor que a ocasião pedia e carregada do que um e outro foi dando. Abóboras, batatas, sacas de arroz e tudo o que os quintais tinham. Davam tudo do pouco que tinham. E o burro puxava com esforço que nos animais a idade também tinha algo a dizer. 

Quando chegavam ao destino, juntavam-se todas as aldeias com as carroças e os burros cansados, os mais velhos nos mesmos preparos e os mais novos com os ouvidos cheios de avisos. 

O cortejo seguia caminho pelas ruas estreitas para acomodar tanta gente e sob o olhar atento de quem os olhava de cima, lá das varandas enfeitadas por colchas bordadas pelas mãos que tinham sido pagas. 

A banda dava o embalo e o tilintar das moedas que caiam na manta que os bombeiros levavam faziam a vez de ferrinhos. Se era para dar para os que mais necessitados, os agradecidos lá encontravam mais uma moeda ou duas. 

Os que mais tinham e davam trabalho aos outros que contavam tostões para oferecer ali, apresentavam-se de carros cheios do que havia. 

- É para se redimirem - dizia quem nunca deixava a má língua por mãos alheias. 

E ali, rua abaixo em direcção ao destino a ofertar, ia um concelho inteiro. A dar o que tinha e a inventar outro tanto para oferecer que uma pessoa tem pouco, mas nunca se nega uma mão a quem tem menos.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quando o entrudo saía à rua

Quando chegavam os dias em que se dizia que ninguém levava a mal, eles encontravam-se no sítio de sempre. Os mesmos de todos os anos com o juízo próprio de quem se acha muito adulto sem o ser. Eram novos. A idade era pouca e de adultos só tinham a altura como ouviam a dizer

- Parece que lhes põem adubo nos pés.

Nos dias que antecediam a tarde em que o  senhor Padre abria as portas da igreja para a quarta-feira de cinzas, um deles abria a porta de casa aos outros e faziam-se às roupas e aos trapos que encontravam. Tudo servia. Eram batas com a cor a desaparecer, fatos oleados que deviam estar no campo e não em brincadeiras de crianças, meias pela cabeça e pelas pernas. Roupa por cima de roupa até deformar o corpo. Cajado, ou pau que lhe fizesse vez, na mão.

Saiam em grupo, quando a noite já ia alta e a rua era iluminada por uns candeeiros de luz pálida e tímida. As suas sombras faziam dois de cada um e estendiam-se à sua frente. O cajado anunciava-os ao mesmo tempo que as portas trancavam-se por dentro.

Eles lá iam. Rua acima para fazer rua abaixo a seguir. Um a arrastar uma perna, outro a fazer que era manco e todos a disfarçar quem eram. Pelo menos enquanto se lembravam. De vez em quando lá havia um que, cansado de andar com o corpo dobrado e a bambolear, fazia-se ao passo normal até que alguém o chamava à razão.

Batiam às portas de punho fechado. Várias vezes a várias portas. Até que alguém, distraído das datas em que andavam, abria uma e eles entravam sem pedir autorização. Verdade seja dita que quem não fala não pode pedir e deles não se ouvia uma palavra que fosse. Entravam por ali dentro e faziam como se fosse sua a casa que era dos outros.

- Mas quem é este?

Tentavam uns e outros adivinhar quem eram aqueles. Sentiam-lhes as mãos. Viam-lhes o andar. Tentavam destapar a cara. Lançavam apostas sobre quem eram. Nunca ninguém as confirmava e eles faziam-se às ruas. Agarravam em quem se atravessava no seu caminho sem delicadezas. Ouviam-se os gritinhos e os risos ao longe e já se sabia

- Eles já andam por aí.

- Tu fecha a porta antes que eles entrem por aí dentro.

Mas nem todas estavam fechadas e nem todas as ruas estavam vazias. E eles percorriam uma por uma. Cajado a marcar o passo e cara tapada. Naqueles dias em que ninguém levava a mal, o entrudo saía à rua. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Chegavam os que tinham ido

Passavam-se meses sem que visse a cor daquela terra. Tanto que a memória ficava enevoada quando se tentava recordar das casas ou trocava as feições dos vizinhos. Pelo menos era isso que dizia a si própria quando falava de onde vinha. Da terra. De onde todos vinham e ninguém se conhecia.

Quando a camioneta a deixava na curva de toda uma vida, saía de sapatos engraxados, roupa engomada e cabelo sem um fio fora de sítio. Impecável. Como se nunca tivesse sido dali. Como se não tivesse nascido duas casas abaixo.

Voltava à terra. Ela que agora vivia na cidade. Ou lá perto, mas que ali contava como cidade. O que importava era o que andava de boca em boca, o que se dizia de peito cheio. O resto era o que só sabia quem o vivia. Quem acordava quando ainda era de noite para fazer o que os outros, os que sempre tinham vivido no meio das avenidas largas, recusavam.

Tinha saído dali porque a vida era melhor lá para aonde ia. Onde não trabalhava ao sol como outros, mas de sol a sol tal como eles. Voltava para ver a terra, para ver a mãe a quem já ouvia a voz sem que a visse no horizonte. O coração sentia a presença de quem tinha dado vida muito antes de ver, era isso que ela lhe dizia. Vinha para matar saudades que dizia não ter. 

Descia da camioneta com uma mala sem peso na mão e o queixo erguido, a olhar de cima para quem era da sua altura. Os outros de pés descalços e ela de sapatos com sola por inteiro. Os mesmos que ficavam guardados para usar apenas aos Domingos e dias santos. Os outros com os cabelos em desalinho e a cara vermelha de tanto sol. E ela aparecia com vestidos sem remendos e cabelos arrumados em bananas puxadas com tempo. Era Domingo a meio da semana. Fazia questão que assim fosse.

Quando voltasse a subir aqueles degraus seria de corpo curvado com o peso das batatas e das couves que levava na cesta. Com a voz da mãe a despedir-se. Depois do tempo na terra. Ia como tinha chegado, de queixo erguido.

- Tem o rei na barriga é o que é.

- Até parece que  não passou fome como os outros.

Nas suas costas ficavam as conversas entre uns e outros. A verdade levava-a consigo. Para a cidade. Ou para lá perto. No sítio onde ficava o quarto com serventia de coisa nenhuma a que chamava casa.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A desgraça

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntosdo  que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos. Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem se cruzava com eles. 

Não se sabe o que ele prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se disse sobre o que ali se passava. Sobre as mãos que desciam nos bailaricos, sobre as gargalhadas dela. 

Muito se falou, mas quando chegou a hora não se ouviu nada para lá do silêncio. Quando ela bateu à porta com as mãos a tremer e ele abriu só para a fechar em seguida com ordens claras para que não o voltasse a procurar. Ele não lhe devia nada. 

Com o lamento a morrer na garganta, ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que, depois de cumprirem o seu objectivo, não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. “A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas”, era o que comentavam completado com um “quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada”. Era nisso que acreditavam. Uma mulher digna sabe dar-se ao respeito, sabe guardar-se. 

Ela ficou com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias. Fez-se mãe e pai. Baixou os olhos quando foi olhada com desdém, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua, vivia com peso de não merecer estar ali. 

Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. É certo e sabido que os homens são homens e que essa frase que não é nada, os defende de tudo. A mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.


Texto publicado na Revista DADA de Fevereiro de 2019. Adaptado de um texto publicado anteriormente neste blogue.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Vinte escudos

Lá iam mais vinte escudos sem que fossem perdoados. Já nem tentava. Diziam que às vezes dava, que ele lá olhava para o lado e aceitava a cesta, mas as bocas dizem muita coisa que os olhos não chegam a ver. E, daquilo que os dela viam, não havia galinha, ovos ou molho de couves que fizesse a vez daquele dinheiro tão bem poupado e gasto sem que se desse pelo tempo. Tudo para ouvir o que sabia desde que era gente. 

- És fraquinha. 

Já o ouvira. Desde miúda que era aquela a sua sentença acompanhada de um rol de avisos na voz mastigada do doutor. 

- Carne mal passada, fígado. É isso que tens de comer a ver se o sangue ganha força. 

As mesma palavras com o mesmo cheiro a álcool etílico que nunca deixava o consultório por muito que se abrissem as janelas nos dias de sol. Saía com o que já sabia, os bolsos mais leves e a ordem para comer carne. Dinheiro para isso é que nem vê-lo. Passava os dias a enfardar palha e os setecentos escudos que fazia tinham de se aguentar. Era mais tempo a poupar do que a trabalhar. Mas descansava-a que ali olhava nos olhos do médico, ouvia-lhe a voz. Nem sempre era assim. Ouvia por aí, aos miúdos da escola, que alguns fechavam a porta do consultório a prometer chamar doentes e quando davam por ele já se tinha escapado pela janela. As pessoas à espera e o consultório cheio de ar. Pelo menos ali alguém a via. E ele já lhe conhecia os males sem se meter em assuntos que não eram seus. 

- Não te esqueças da próxima consulta. 

Mais vinte escudos para pôr de lado. A não ser que o inchaço da barriga desse em criança antes disso. Se assim fosse, o médico que tivesse paciência, mas a consulta ficava para quando pudesse ser. Esses assuntos também não eram para ele, eram assuntos dela. Dela e das mulheres que os sabiam. Havia coisas que nem um médico, por muito estudo que tivesse, sabia. E parir era coisa de mulheres. Ele que ficasse com os livros, os males do sangue e as coisas que ninguém compreendia. O resto não lhe competia. Daquilo que ela sabia, o médico aparecia mais na altura de alguém deixar o mundo do que na hora de chegar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O trato da roupa

- Quando chegar quero tudo feito. 

E saía. Sem beijo ou desejo de bom dia, fazia-se ao caminho com o olhar da filha a acompanhá-la da porta de casa. Via a mãe mingar, de cesta à cabeça, até desaparecer para lá do que os seus olhos alcançavam. Só aí voltava a casa. Esperava-a o trabalho que as paredes acumulavam e que nunca estava feito. Ela, feita mulher quando nem tinha idade de escola, fez-se ao que era sua obrigação, sem se ouvir queixume. 

Subiu para o tijolo que lhe dava o que faltava em altura, e mergulhou as mãos na água do tanque que guardava em si o frio da noite e esfregou a roupa. Os nós dos dedos a doer, a carne a ficar vermelha e ela sem dar tréguas ao sabão. As mãos a esfregar uma na outra a roupa que cheirava a trabalho e que mergulhavam na água dando-lhe umas quantas voltas até que o sabão desaparecia. 

Com a ajuda de um galho escolhido de propósito para o efeito, levantava o arame pesado da roupa encharcada em água antes de voltar para dentro. Sem parar para respirar. Sem dar descanso aos braços ou às pernas. Ou os corpos novos aguentavam muito ou a cabeça esquecia a dor.

Dentro da cozinha, o fogão confortava aquilo que a escassa roupa negava. Em cima da mesa de madeira onde almoçavam e agora transformava em tábua, esticou o lençol de sempre. Encheu o ferro com brasas acesas e fechou-o à espera que ganhasse calor. Esticou a roupa bem esticadinha, com a mão a percorrer o tecido de ponta a ponta sem deixar passar um vinco que fosse e ferro quente lá em cima para dar o calor. O peso era tal que os seus fracos ossos davam sinais de fraqueza, mas não havia nada que vergasse. Para um lado e para o outro, mais força de braços que calor de brasas e quando já estava o trabalho quase terminado, lá se escapava uma cinza. Coisa pouca, mas o suficiente para não haver sacudidela ou sopro que a safasse. A camisa lavava, quase passada, e um borrão logo ali à vista. 

- Antes assim que fagulha. 

Dizia para si que ali ninguém a ouvia, enquanto encolhia os ombros e voltava ao tanque. O ferro ainda quente, o corpo tão habituado a estar dormente que nem sabia que é assim que está e o trabalho a fazer-se. Até que chegue a noite. Foram as ordens que deixaram.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Mãos em barro

Quando as mãos se faziam ao barro não havia hesitação. Os movimentos eram certos num balanço intuitivo entre a força e a leveza, a peça na cabeça e os dedos a saberem exactamente qual a espessura que pedia. De boca perdida na conversa, a reviver a vida que não era o que tinha esperado e as mãos a trabalharem como só elas sabiam. Eram anos daquilo. 

Começara novo. Mais novo do que seria bom de dizer, mas naquela altura ninguém se espantava com os bancos da escola vazios e os miúdos a aprender ofícios. 

- Faz-lhes bem.

Tanto bem lhes fazia que ele já tinha perdido conta às horas que passara ali, naquela roda, com as mãos revestidas a restos de barro húmido e o joelho a controlar o trabalho. 

Mas quando era miúdo aquele lugar era privilégio que raramente lhe estava destinado. Só quando ficava parado a contar as telhas da olaria é que tinha direito a dar balanço à roda e a sentir a peça a tomar forma. Ele sentava-se e os mais velhos murmuravam 

 - Vai estragar o barro todo. 

Foi assim que começou, a centrar barro e a fazer testos. Uns atrás dos outros até conseguir que fossem todos iguais. Anos naquilo. A perceber o que era o equilíbrio entre a leveza e a força, a firmeza do polegar, os dedos em tesoura. Um toque fora de sítio e aquilo a abalar tudo por ali abaixo sem nada que o salvasse da falta de saber. Tudo sozinho, sem ninguém que o orientasse. A fazer o que via nas mãos dos outros, a aprender quando as peças não eram nada. 

- Se queres aprender, vê.

Mas a roda era caso raro. No resto do tempo fazia o que havia. Entrava campo dentro e voltava com a lenha que era preciso para dar alento ao forno que recebia as peças. As mãos arranhadas das silvas e o suor a escorrer pela cara, mas o lume a manter o vigor. Ou ia à procura do barro que se escondia na terra gretada. Logo ali, por baixo da cabeçada escondia-se o barro podre de campo. E ele, com a sabedoria que outros lhe tinham passado, lavava-o. A tina cheia de água, o barro coado, a água que evaporava. O saber esperar, o conhecer as alturas. O tempo que aquilo levava até ficar barro húmido de um lado e as pedras e tudo o resto do outro. 

Este saber que lhe levou anos de paciência que não há ofício que se aprenda sem demora. Não. Leva tempo. Leva erros. Leva querer. E hoje, ninguém o olha na ânsia de ocupar o seu lugar.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A sentença que é a memória

Abriu a porta e deixou-a encostada atrás de si enquanto se sentava no degrau. Com as maos enrugadas e atacadas pelas artroses, puxou a bata até aos joelhos e deixou-se ficar a olhar a rua. A mesma rua onde tinha vivido a maior parte da sua vida. E no que lhe parecia ter sido muito tempo, mas sabia que não o era, viu o quanto tinha mudado. 

Naquele dia em que descansava sozinha no degrau de sempre, soube que algures no caminho a vida tinha-a encontrado e deixado para trás. A vida dos outros. 

Olhou a rua que conhecia de cor, mais buraco menos buraco, e viu-a tal como estava agora. Vazia. Despida. Ladeada de portas fechadas à chave e janelas tapadas por estores corridos. Não que estivessem abandonadas, mas era a vida de agora que as trancava vazias durante o dia e as deixava fechadas à noite quando os vizinhos chegavam. 

Ali sentada, com o frio a chegar-lhe à espinha e a voz a morrer em desespero na garganta, sabia qie lhe faltava as vizinhas. Não as que tinha agora, mas as que ali estavam antes. Que se encostavam às paredes de mãos nos bolsos nas batas e pé a coçar a perna, que se sentavam nos degraus e nos bancos que traziam de casa e ali ficavam. Todas. A costurar, a conversar, a deitar olho aos miúdos, os seus miúdos, que insistiam em correr e saltar de onde não deviam sem saber onde iam cair, mas com a certeza de que o iam fazer. 

E era dessa altura, em que o corpo não lhe doía nem rangia ao mínimo movimento, que lhe vinham as lembranças. Dessa altura em que todas as casas tinham fossas, mas que as ruas estavam cheias. Dos homens que seguiam caminho na bicicleta. Que se apoiavam no pedal direito para ajudar o corpo a içar-se para cima do celim. Das mulheres que vinham descalças e de cesta à cabeça. Que serviam os outros e os seus, todos os dias. Das portas que se fechavam ao trinco ou nem isso. Que tinham um arame a garantir que a porta entre a intimidadr e o mundo se mantinha fechada. 

Nesses tempos que parecem tão longe, mas que nem foram há uma vida, era o som que vinha da rua que lhe marca as lembranças. As vozes, os pés, o arrastar e o puxar, a água que chocalhava nos canecos, os rolamentos dos carrinhos que terminavam nos gritos que denunciavam a falta de travões, os pregões de quem vendia o que conseguia. 

Mas isso era nos tempos de que ela se lembrava. Hoje, só tem o silêncio. Tão presente que parece gritar-lhe por estar fora do seu tempo. Mas só ela é que o ouve. Só ela, que sabe como já foi, que se recorda daquilo que já esqueceu a muitos, é que sabe que aquilo que aquela rua tem é silêncio. Talvez ela esteja enganada e que aquelas casas não estejam abandonadas, mas está a rua. Despida daquilo que foi seu, da vida que se fazia ali. Ficou o silêncio, a vida fez-se a outros rumos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O cheiro do Natal

A água a borbulhar interrompe o descanso daquela manhã de Inverno que ainda não avistou sol. A cafeteira já gasta de tanto ser areada, dança em cima do lume enquanto lhe deitam três colheres de café e mexem com vigor. O aroma a início de dia invade o barracão que faz as vezes de cozinha. Agora é esperar que a borra assente. 

De bata vestida e rodilha metida no bolso, ela enrola o pano à volta da cabeça que o corpo não sabe o que é estar quieto. Agarra no alguidar de barro lascado com a facilidade de quem pega num lençol e ajeita-o em cima do banco. Na mesa está a abóbora cozida de véspera e a bola de pão em massa que se guardou da última fornada. A farinha escolhida pela mão de quem a conhece, o ácido do limão e da laranja para condimentar e o abafado a juntar-se à aguardente para dar corpo à massa.  

Faz-se ao trabalho de mangas arregaçadas e receita guardada no fundo da memória, sem dúvidas ou medidas. As mãos é que sabem se a massa pede mais farinha e a língua decide o que falta ou o que está a mais. 

Amassa com vigor e de corpo dobrado. Levanta a massa em peso para logo a seguir a largar no alguidar que responde com um baque seco contra o banco de madeira que ameaça tomar. O suor a aparecer debaixo do lenço, o braço a limpar a testa e as mãos a voltar ao trabalho. 

- O alguidar tem de ficar limpo, a massa tem de levantar toda. 

E quando isso acontece é altura de tapar a massa com os cobertores e deixá-la à beira do lume. Dar-lhe tempo para dobrar de tamanho enquanto se aquece a alma com o café de borra. Enquanto se faz a vida normal. Esperar que seja tempo de ver aquela massa esbranquiçada a ganhar volume, a virar sobre si mesma e a flutuar no óleo enquanto começa a ganhar cor. 

Esperar porque o trabalho que começou de manhã só termina à noite. A família já sentada à mesa para celebrar aquilo a que chamam de Natal e as mulheres à volta do lume a fritar os velhozes. O cheiro a açúcar e a canela a despertar os estômagos. O prato preparado para a vizinha. O Natal.

Publicado na Revista DADA de Dezembro de 2018

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Fogueira de Natal

O nevoeiro da rua escapava pelas frestas das paredes e entrava pelas casas trazendo consigo o frio de Dezembro. A braseira não aquecia mais do que o que estava a dois passos dela e as mulheres puxavam os xailes de lã para os ombros enquanto amassavam sem descanso. 

Fora elas, a casa estava vazia. Os homens estavam a ver se o balcão da taberna não tombava e os miúdos andavam pela rua, uns com outros. O mesmo todos os anos. O cheiro da massa a levedar de um lado, o vinho vendido com sendo melhor do que era no outro e as carroças carregadas de lenha com os outros. 

Os mais novos, acompanhados por quem já tinha idade para saber o que era o juízo, andavam rua acima e rua abaixo divididos por carroças e com mais uns quantos a pé. Sem destino certo além da certeza se cumprir o mesmo objectivo de todos os anos. 

- Vamos lá acima. Tinham um troço deste tamanho - e abriam os braços duma largura quase impossível de ser verdade, mas que convencia todos. 

Abriam os portões deixados ao trinco e entravam por ali dentro sem se preocuparem com autorização. Ate era melhor assim, à socapa. Com o frio na barriga que só dá a quem sabe que o que faz não e certo, mas com descanso de ser permitido. Afinal, tradição e tradição. E, se fossem ser rigorosos, do lado de lá da janela a cortina tonha sido arredava e havia um ou dois pares de olhos a fixá-los. Se não diziam nada era porque estavam de acordo com aquela invasão. 

Assim, vindos daqui e dali, juntavam-se troncos e raízes. Árvores que estavam caídas e outras que já tinham visto melhores dias atiradas para a carroça sem pedir licença. Miúdos certos transformados em deliquentes por um dia com a autorização muda de todos. 

Lá iam eles, rua acima e rua abaixo com o trote dos cavalos e as conversas gritadas. Quando a noite começava a cair, encontravam-se todos na velha praça. Troncos ao centro, lenha miúda para atear e o fósforo a fazee o serviço. Era ver pegar fogo e ficar até se querer. 

E assim, com tão pouco, estava feita a véspera de Natal. Homens e mulheres iam chegando aos poucos. Um prato de belhozes e outro de coscoroes ainda quentes. Um chouriço roubado à chaminé de casa, mais um toucinho entremeado e umas fatias de pão. O pouco dava em muito quando era dividido por todos. Na rua, com a fogueira a arder e sem prendas além da conpanhia dos vizinhos, fazia-se o Natal ali. Com conversa e o calor do lume que resistia às dificuldades e ao tempo. 

A fogueira de Natal a arder até que entre o novo ano. Que viesse melhor do que este, era o que se esperava. Nem sempre se cumpria. Mas era certo que a tradição voltava e que a fogueira de lenha roubada ia arder durante uma semana. Pelo menos naquele tempo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Roupa branca

Davam ordem de início de semana quando desciam a rua de alguidar à cabeça. Os passos atrapalhavam-se com os dos mais novos que lhes seguiam a sombra agarrados à bainha das suas saias num equilíbrio precário que ameaçava ruir a cada tropeção dos mais novos e a que elas respondiam com a destreza que quem está habituada a andanças daquelas. 

Era o rio que as esperava. Pouco para tantas que o procuravam e que dava sempre em gritos antes da roupa ver a água. 

- Então? Aí sou eu! 

- Viesses mais cedo. 

Não havia briga que não desse em conversa ao largo da fonte tal não era o espanto com o descaramento de algumas, mas sem que isso as impedisse de trabalhar. Os quarenta escudos ainda não tinham sido ganhos e já tinham destino e manter a freguesa era ter dinheiro no bolso. 

- Antes pouco que nenhum - dizia uma enquanto separada a roupa de cada casa. Lá de cima vinha a roupa de ‘A’ bordado, duas portas abaixo entregavam a que tinha flor por dentro de colarinho. 

De joelhos calejados no chão, as que não tinham tábua contentavam-se com uma das pedras lisas, e todas se davam ao trabalho. Mãos metidas na água gelada do rio e que lhes cortava pele, músculo e tudo o que encontrasse até chegar ao osso. Esfregavam a roupa com o sabão contado ao milímetro que nem no trabalho se esbanja. 

- A mulher quer-se certa.

Batiam as camisas de encontro à pedra com uma força que nunca se diria que estava naqueles corpos. Os salpicos a chegar a quem estava mais perto e as mãos já a torcer a roupa até ao último pingo. As mais velhas a tratar da roupa das freguesas, as gaiatas a braços com a roupa miúda e os miúdos a correr por ali. Uma cantoria ao longe, um diz que disse ali ao lado. 

E enquanto vinha a conversa e se iam os lamúrios, os campos ficavam brancos de roupa a corar e elas preparavam a dormida que o trabalho mal tinha começado e ainda tinham barrela. Mães e filhos a dormir em tendas que de protecção nada tinham e a roupa de molho no cortiço para ver se a gordura despegava. Lá ficavam as camisas e as calças dos senhores no fundo tapadas com lençol branco coroado a cinza e a água a escorrer por ali até à roupa. 

Na manhã seguinte, acordadas daquele sono quase ao relento, a água gelada que corria na direcção do mar que nunca viram, lavava-lhes o corpo para logo a seguir receber a roupa que lá mergulhavam para a última volta. 

No caminho de regresso levavam a roupa a cheirar a limpeza e campo, e traziam os mais novos na sua sombra. Corpo moído num hábito que nem chegava a cansaço e mãos geladas de dar asseio à roupa dos outros.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Não dos meus

A feijoca estava ao lume e no estendal não havia espaço para mais nenhuma peça de roupa. Do fundo do terreno chegava o barulho da enxada a roçar as ervas e o cair das pedras que eram atiradas para longe. 

Naquele bocado de chão cimentado que era pouco mais de um metro por outro tanto, ela aproveitava o sol que lhe aquecia o corpo e facilitava a vista. Sentada no banco de madeira que ninguém sabia há quanto tempo por ali andava, de costas dobradas e pano em cima da cabeça para proteger do sol. 

Fazia as bainhas das calças do mais velho que, mesmo já gastas, iam passar para o mais novo que tinha um palmo a menos de altura. De caminho ainda passajava o tecido dos joelhos que ameaçava romper de tanto uso, mas que ainda aguentava mais uns tempos. Virava o colarinho das camisas já gastas de um lado, mas impecáveis do outro. 

- É preciso poupar - dizia para si mesma numa tentativa de se desculpar por não poder comprar outra. Uma em condições como usavam os senhores que passavam na rua com os colarinhos limpos e sem pingo do suor naquele corpo. 

Poupava ali para comprar mais tarde. Para ter uma camisa nova para os miúdos estrearem quando fossem ao passar da procissão, para substituir os sapatos que já tinham tanta meia sola que nem se sabia se alguma vez a sola tinha sido por inteiro. Mas mesmo que a roupa nova demorasse a chegar, os seus nunca andavam mal arranjados que ela fazia questão que assim fosse. 

- Dos meus não falam. 

Ela bem sabia quais eram as conversas que andavam de boca em boca e viravam qualquer um do avesso. Fosse o mais santo ou o maior pecador. Ia tudo. Mas dos seus não faziam pouco. Não tinham muito, mas eram asseados. E respeitadores. Isso ela sabia que eram. E fazia questão de os apresentar em condições. 

Vestia-os com as melhores roupas que o dinheiro contado podia arranjar. Costuradas em casa, à mão, que as máquinas não tinham lugar por ali, mas com paciência. Naquele bocadinho de terreno. Os botões escolhidos com pormenor, a renda aproveitada, mas que ali tinha ares de nova. Quando o tempo escasseava, forçava os olhos à luz do candeeiro a petróleo e trabalhava noite dentro. Acabava vestidos, acertava calças, levantava punhos. Sempre para eles. Só depois, com o que sobrava é que desenrascava qualquer coisa para si. Mas nunca faziam má figura. 

Uns e outras, até podiam inventar de noite para dizer de dia, mas sobre si nunca podiam apontar o dedo. Pelo menos, na roupa. Desmazelada é que ela não era.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Pão, por Deus

Era certo e sabido que o início do mês era anunciado pelas vozes nas ruas acompanhadas dos risos que só pertenciam a quem ainda tinha idade para os dar sem ser repreendido por não se saber comportar. Da rua chegava o cheiro a chuva e a humidade entrava pelo nariz colando-se aos pulmões e obrigando as velhas a aconchegar o xaile de lã e os velhos a deitar abaixo um copo de três. 

Encostadas ao canto da janela, meio escondidas à vista de toda gente, elas espreitavam só com um olho por detrás da cortina branca. E lá viam os mais novos chegar com as bochechas vermelhas e pele a brilhar. Corriam rua acima, a tropeçar nuns e a empurrar outros, todos na ânsia de ser o primeiro a chegar. 

- Bolinho para o santinho - vinham com a lenga lenga debaixo da língua, ensinada pelos que antes deles fizeram o mesmo, e ficavam com o saco de remendos aberto à frente de quem abria a porta. À espera. 

- Esta casa cheira a broa. Aqui mora gente boa - a pobreza que os recebia dava-lhes o que tinha. 

As broas cozidas no dia anterior que se desfaziam em migalhas no fundo do saco. As romãs gordas apanhadas da árvore que era de todos. Dois tostões quando os havia. Uma mão cheia de castanhas. Se tivessem sorte, lá aparecia um rebuçado daqueles que se colavam ao dentes e demoravam descolar. 

Sem mostrar cansaço nem intenção de abrandar, os miúdos continuavam o caminho das casas com pouco mais de metro e meio de altura, com o saco a ganhar peso. Só acalmavam quando batiam à porta da casa grande. Aí, cumpriam o que já sabiam. 

Abriam-lhes a porta e eles entravam na sala onde a devoção era parte presente e esperavam. Sacos fechados, cabeça para baixo e o cheiro a eucalipto a acompanhar a reza que murmuravam. Os senhores no seu porte direito, cruz ao peito e roupa sem remendos, esperavam pelo Amen final para retribuir com o pão que lhes pediam antes de os mandar embora com uma benção mal amanhada. 

Todos os anos. A mesma ronda. De ano para ano os miúdos a transformarem-se nas velhas atrás das janelas, os mais novos a trautear a mesma cantiga. O início de Novembro, quando o frio entrava nos ossos sem que a braseira fosse capaz de os aquecer, a ser recebido com os sacos abertos. Algumas portas que só tinham mãos fechadas. 

- Esta casa cheira unto. Aqui vive algum defunto - e a palavra a passar de boca em boca a marcar os que não davam a quem pedia pão. 

- Pão, por Deus.