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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tardes de Matiné

Ela escolhe o melhor vestido dos poucos a que chama seus. O fato domingueiro, o mais bem arranjado e estimado, é o que vai usar esta tarde. Vai bonita e recatada como mandam os bons costumes que qualquer menina digna de respeito cumpre sem hesitar. Não sai sozinha. Onde é que já se viu tal coisa? Uma menina, numa idade destas só sai acompanhada pelos pais para se garantir que o seu comportamento é irrepreensível e que as mãos dos miúdos que por aí andam não se esticam mais do que devem.

Os rapazes não têm quem olhe por eles. Não precisam, a sua honra está sempre a salvo sem nada que a manche e não é uma dança com uma menina que os vai colocar em perigo. Vão sozinhos ou acompanhados dos amigos. Todos da mesma idade, com o sangue a borbulhar nas veias. Homens são homens.

O salão da colectividade, se é que o seu tamanho permite que tenha esse nome, já está arranjado. As cadeiras estão colocadas em filas de cada lado do salão e, ao fundo, o pequeno palco está preparado para receber a música. Não falta nada. Hoje, todos os caminhos vão dar ali. É dia de matiné.

Começam a chegar aos poucos. As meninas acompanhadas dos pais, os rapazes sozinhos. Ouvem-se conversas perdidas, vozes excitadas, risos abafados.  O salão começa a ficar cheio, as cadeiras ocupadas. Rapazes de um lado,  meninas do outro com a mãe sentada ao seu lado.

As meninas aproveitam a conversa da mãe com a vizinha para deitar o olho ao outro lado da sala. Alguém retribui o olhar e elas baixam os olhos e fazem um sorriso discreto. 

Começa a ouvir-se  a concertina. As modinhas enchem a sala e os pés começam a marcar compasso. Os olhares vagueiam de um lado para o outro da sala, as cabeças e as mãos fazem sinais quase imperceptíveis.

Um "queres dançar" por gestos para a menina do lado de lá, aquela com quem ele engraçou. Se a resposta for não, por mais discreto que seja, é um não à vista de todos e isso tem o seu peso no orgulho de um rapaz. Mas respondem-lhe com um incentivo para que se aproxime e ele, mesmo com os olhos da mãe da sua escolhida pregados em si, avança pelo salão. 

E dançam. Controlando as distâncias, deixando a mão bem alta e quase sem trocar uma palavra. A modinha toca e eles aproveitam aquele tempo que é seu. Um olhar desviado, um sorriso tímido e a separação no final da música que dançar muito tempo com o mesmo pode fazer com que o pai da menina comece uma discussão de meia noite.

Assim começa o rapaz a cortejar a menina. Controlando os movimentos, poupando nas palavras e trocando olhares de um lado para o outro da sal. Sem direito a privacidade que isso é um luxo que nem o casamento dá. 

Se tudo correr bem, aquela dança leva a outra e a umas visitas em companhia dos pais. Se tudo correr bem ele ainda a vai levar ao altar e um dia serão eles a controlar os movimentos na salão da matiné.

As coisas às vezes começam por muito menos.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ai meu rico santo

Os dias longos anunciavam o Verão que estava mesmo a chegar. Tempo quente e noites cada vez mais curtas a chamar os vizinhos para a rua. 

Metiam-se as comemorações dos dias santos nos quais não se trabalha que tal coisa é pecado. Dia santo é descanso e devoção, dias de santos é tradição.

A fogueira preparava-se todos os anos no mesmo sítio onde sempre tinha sido. Lá no largo já todos a esperavam. Troncos grossos prontos a arder noite dentro com o fogo a iluminar as conversas e a noite de folia. Estão todos convidados mesmo sem convite formal. Já se sabe que é assim, todos os anos igual.

Quando o sol começa a fugir e a noite quente começa avança, já a fogueira arde em labaredas que metem respeito. O ar fica impregnado com o aroma a rosmaninho que se lança ao fogo e que desperta as memórias das noites de santos que por ali se vivem desde que se nasceu.

Há sempre música e qualquer coisa que acalme o estômago. Juntam-se homens e mulheres, novos e velhos. 

- Ai malandro.

Os miúdos saltam a fogueira sem medo num ritual de passagem em que parecem mostrar que já cresceram mais do que aparentam. Lá vão eles, atrás uns dos outros a saltar troncos que se desfazem em cinzas e com as labaredas a morder as pernas.

É uma noite para esquecer os dias sempre iguais e as tristezas que a vida dá. Para se rezar a Santo António e beijar a medalha de São João enquanto se roga um pedido. É dia de santos, é noite de festa.

O sino da igreja dá o sinal de meia-noite. Um dia que finda e outro que principia e as meninas que agarram na alcachofra fechada que colheram nessa tarde. Ao som das doze badaladas avançam para a fogueira e queimam a planta na fogueira. 

- Ai meu rico santinho - pensam para si enquanto guardam as alcachofras chamuscadas das labaredas.

Levam-nas consigo para casa, escolhem uma jarra e deixam-nas em água durante a noite. Ficam em cima da cómoda, mesmo aos pés da cama, e esperam pela manhã. Deitam-se de coração esperançoso que o amanhecer faça florescer a alcachofra chamuscada. Se assim for, o amor que aquece o seu coração é seu para a vida, mas se não florescer é porque não está destinado a acontecer. 

É a alcachofra que abençoa o casamento que se ambiciona.

Mais um ano de festejos, de pedidos a Santo António e saltos corajosos à fogueira. Mais um ano de corações apaixonados a confiar no que alcachofra tem para contar. 

Viva Santo António. Viva São João.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A cruz que se carrega

É a cruz que cada qual tem de carregar. Aquela era a sua e sabia que não devia contestar. Nem podia. A vida é o que é e Deus só dá aquilo que ada um consegue aguentar. 

E é assim que se leva os dias que passam sempre iguais. Uns atrás dos outros, um arrastar de pés sujos do pó que cobre as horas. As cruzes que se leva às costas são as marcas no corpo que aparecem sem que  as anteriores  tenham sarado. O sangue pisado por baixo da pele, as dores no corpo que aguenta mais do que se pensa possível.

A voz masculina é mais forte, mais grave, a que manda mais. Como as mãos. Os punhos cerrados, o corpo que se torna disforme. O monstro que salta da sombra. A mulher que se encolhe, as mãos à procura de protecção, o corpo caído, o choro contido.

É assim em todo o lado. Atrás das portas fechadas, seja casa rica ou casa pobre, é assim que as coisas são. Cada qual com a sua cruz que lhes redime os pecados. Já era assim com os pais, há uma esperança que as filhas escapem a esta sina. Mesmo que não seja falado e que a vergonha tente esconder, sabe-se que é assim.

São outros tempos. Ainda nem a televisão entrava nas casas e a luz eléctrica tardava em iluminar as vergonhas. Os olhos a encarar o chão, o corpo a defender os mais pequenos, a razão perdida no meio dos insultos.

Era sempre assim. Em dia santo ou comum. Sem olhar a horas. Era o que o seu Deus, infinitamente bom, lhes reservava e elas acreditavam que assim era, defendiam a aliança que tinham no dedo e desciam bainhas para esconder as marcas que não desapareciam.

Não tinham para onde se voltar nem mão que se estendesse em seu auxilio. Eram outros tempos. Tempos em que a mulher vergava à frente de quem se dizia seu superior. Tempos em que as noites eram demasiado longas e que, de manhã, doíam no corpo. Não havia razão. Era assim porque assim era.

E quem estava mesmo ao lado virava a cara ao que estava mesmo à sua frente, esquecia os gritos que se ouviam durante a noite. 

É o que condena os que sofrem. As feridas tratadas no silêncio. A ajuda que não chega. E os dias que passam sem que nada mude. Uma cruz que cresce nas costas de quem a carrega.

Vive-se um dia de cada vez. Aguenta-se como se pode. Espera-se que o fim chegue.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Lugar à mesa de trabalho

Vão a caminho do campo para começar mais um dia de trabalho. O sol ainda está baixo e o calor nem se faz sentir. Vão descalços e com roupas pesadas, chapéus de palha e bonés, lenços a tapar o cabelo. Dentro do saco levam o farnel para mais tarde. Um almoço magro, mas suficiente para o que o corpo está habituado. Vai ainda em cru, à espera da fogueira que se vai acender quando a hora se aproximar.

O pão seco e fora de tempo e o bacalhau já passado pelas mudas de água que lhe eram devidas, esperam pela hora de se fazerem ao fogo. 

Os dias não são de abundância, são de trabalho duro. Aperta-se mais o cinto, remenda-se mais uma camisa e enche-se a boca com aquilo que se pode comprar ou com aquilo que nos deixaram pôr na conta da loja que já vai longa. O que interessa é ter algo para dar alento ao corpo e enganar a fome e o estômago.

Quando chega a hora já está o sol a pique e o dia de trabalho já vai a meio. O corpo está cansado, as mãos estão calejado e o suor acumula-se por baixo do lenço. Procura-se uma sombra e os trabalhadores juntam-se à volta da fogueira. 

Tiram o almoço e preparam-se para o manjar. Com a navalha que serve de companhia cortam o pão que esfregam com o alho que entretanto descascaram O aroma forte do picante já se faz sentir. A fatia de pão é regada com um fio de azeite daquele feito com as azeitonas que apanharam. 

O bacalhau e o pão vão ao lume. A lenha estala e vão atiçando o fogo para que não se apague. Quando enfraquece já o pão e a posta de peixe têm as marcas da grelha.

O azeite aromatizado com o alho rega o bacalhau que a acompanhar com o pão com o mesmo tempero.

Come-se com a mão, sem pudor ou etiqueta que valha naquele momento. Mata-se a fome com o petisco pobre dos que pouco têm e que hoje em dia se tornou pitéu de quem parece ter uma vida melhor.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Benzer a menina

A menina quebrou. Sentou-se e deixou-se ficar. Não disse uma palavra que fosse e nem se mexeu como era seu costume.

Ali estava. Quieta e calada como nunca a tinham visto. Logo ela que parecia ter energia desde que acordava até fechar os olhos. Agora abria a boca num desespero sonolento que não dava em sono por muito que estivesse metida na cama. Parecia fora do mundo e de si.

Encostaram a mão à testa e espreitaram pela boca aberta. Não havia justificação para a apatia que lhe dominava o corpo. Nem febre nem garganta inflamada.. Perguntavam-lhe o que lhe doía e a resposta era sempre a mesma: "Nada" e nada justificava aquele quebranto que a invadia e preocupava quem a  via assim.

Foi aí que a mãe, deixando a avó de olho na criança, saiu porta fora com destino definido, mas sem dizer ao que ia. Bateu à porta que já conhecia e do lado de lá respondeu-lhe uma voz que já conhecia a ansiedade de quem lhe batia à porta.

- É a menina - disse assim que abriram a porta.

E do lado de lá a porta abriu-se sem que se ouvisse mais perguntas. Não era preciso mais nada além do que já se sabia, o porquê de ali estar estava mais do que explicado.

Começou sem mais demora. O prato com a água e o azeite pronto e a reza que era impossível de entender. Uma ladainha quase cantada .

- Está muito atacada. Está atravessada -  dizia no meio das rezas enquanto o azeite dançava com a água.

E a mãe voltava à filha. A ser o colo daquela pasmaceira em que tinha ficado presa e a esperar que aquele quebranto passe.

Passa mais tarde, sem aviso prévio, tal como apareceu. Num momento está desfalecida na cama e no outro corre pela casa. E a mãe benze-se enquanto respira de alívio, nada daquilo lhe parece normal.

- Ontem só melhorou ao final do dia.

- Foi a última vez que a benzi - respondem.

E a mãe, de coração mais descansado, pensa que foi na mesma altura que o quebranto deixou a sua casa. Abençoada água a dançar com o azeite ao som da ladainha da reza.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ouvi dizer que

As conversas perdem-se. No café e na rua, na esquina da casa ou no quintal quando a vizinha passa para dizer olá. Fala-se do que se sabe e do que se imagina. Diz-se que há quem sonhe de noite e que conte de dia. Seja ou  não verdade, seja assim mesmo ou só aproximado.

- Ouvi dizer que...

Mas será que ouviu mesmo ou acha que ouviu e fala só porque não quer estar calada? Afinal, o silêncio é sempre dificil de lidar e há sempre mais qualquer coisa a dizer. Se não houver, é arranjar.

- Já viste aquele que...

Viu sim senhor e até tem opinião formada sobre aquilo que não chegou a ver. É assim que se fazem as coisas.  Conta-se o que se ouviu da boca de alguém que sabia tanto como nós e acrescenta-se uma opinião feita de preconceitos.

Espreita-se pela janela da casa e aproveita-se que o cortinado ficou mal fechado para espreitar para a privacidade que não nos pertence. 

-Sabias que tem o quarto com...

Não se imagina, mas fica para ouvir que enquanto falam dos outros pode ser que se esqueçam de nós. Fala-se com sussurros e a espreitar por cima do ombro, não vá estar alguém a  ouvir. Braços cruzados no peito, cabeça descaída e lábios junto ao ouvido. 

- Aquilo é uma vergonha...

É sempre. É o vizinho que não tem o carro no sítio do costume quando já passou a hora de estar em casa, são os outros que gritavam uns com os outros, é aquela que abriu a porta aquele.

- Aquilo não anda nada bem...

Naquelas bocas nunca andou. Para aquelas bocas tudo o que se passou atrás daquelas portas foi sempre uma desgraça.

- Ainda no outro dia a encontrei...

E é quase certo que fazia tudo errado: falava com homens que não eram seus, aliviava luto antes de tempo ou corria sem pudores quando toda gente sabe que há coisas que não ficam bem.

- Está tão magra...

O certo é ter alguma doença que nem imagina que existe. Deus nos livre que esteja magra só por estar ou que engorde sem estar desmazelada. Há coisas que são para cumprir e na língua de quem fala à socapa é tudo como se acha que é. A verdade perdeu-se sem que a sua existência chegasse a ser importante.

- Quem é?

Filha de X, casada com Y, viveu para lá do sol posto e sem filhos. Um sem fim de referências até que algo sirva de identificação.

São as conversas que nascem nas cabeças, que crescem nas ruas, que saltam de boca em boca e que pelo caminho perdem a verdade que nem chegaram a ter.

Espreita-se a vida alheia, fala-se de boca cheia e esconde-se a vida própria que ninguém quer que as suas amarguras andem por aí espalhadas nas conversas de uns e de outros.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Lugar à mesa

O pão já está duro e seco, já se perdeu a conta aos dias que esteve esquecido no saco do pão, mas ainda está bom e nos dias que correm não se pode desperdiçar um naco de pão, mesmo que esteja seco.

Partem-se fatias do que restou e começa ali o próximo manjar que conforta as barrigas que chegam cheias de fome e que dá alento ao corpo cansado.

A receita passa de geração em geração, sem papel onde esteja escrita. É uma arte que as mãos conhecem de cor, sem necessidade de guias ou cábulas. 

As batatas já cozem às rodelas, os alhos já foram descascados e arranjados. 

Solta-se o aroma do azeite a aquecer no velho tacho. Há pouca coisa que desperta tantas memórias como o cheiro dos tachos a queimar no bico do fogão. O refogado e a sopa a borbulhar, o óleo a aquecer ou o pão a cozer, tudo desperta recordações sem pedir licença. O pão duro que já ninguém quer transforma-se em refeição que nos leva para outros tempos.

A batata cozida e o pão desfeito, o cheiro a azeite quente a alho. O tacho ao lume com aquela pasta esbranquiçada a borbulhar.

Ao lado, o óleo quente pronto a receber o peixe envolto em farinha. As azeitonas à espera na mesa.

Serve-se a manja, rica em tudo o que dizem que nos faz mal, com uma concha bem cheia. O prato a ficar cheio com aquela pasta, o calor a embaciar a vista de quem espera para começar a comer. Uma mão cheia de azeitonas que se largam no prato. As postas de peixe, ainda  a ferver, desfeitas com as mãos, sem cerimónia. 

A comida envolve-se no prato, troca-se o garfo pela colher e saboreia-se o pão e a batata misturada com o peixe e a frescura da azeitona. Um prato de manja e peixe frito, aquece a alma e conforta o estômago.

As tradições mais antigas chegam à mesa de hoje e trazem-nos o calor e a sabedoria de outros tempos. O pão duro, esquecido no saco de pano transforma-se no manjar que nos mata a fome.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O regresso às origens

Ofereceram-lhe uma sachola que lhe chegava à cintura. Uma miniatura comparada com a enxada que os adultos levavam para o terreno e que ainda tinha restos de lama seca.

Ela, miudita com excesso de energia, seguia-os sem saber se as folhas verdes que cresciam no meio da lama eram  ervas ou legumes. 

Era  daquela terra  que  vinha  o  alimento para a família. Aquelas couves que se transformavam em cozido e aquele feijão-verde que acabava numa terrina de sopa de pão. Era a alimentação saudável antes de ser moda, o biológico antes da palavra andar na boca de uns e de outros.

São as mãos calejadas da família que tratam a terra, que arrancam as ervas e limpam as pedras, para que dê o fruto que mata a fome. É um acto de amor na rudeza daquela vida.

As cebolas penduram-se no tecto depois de colhidas, as batatas acumulam-se num barracão sem luz, as favas são arranjadas em alguidares no degrau da porta. 

Comida sem corantes nem conservantes, sem açúcar adicionado e com o mínimo de gordura. Tal como defendem os livros e as teorias hoje em dia. Natural. Um prato de couves cozidas em água e sal e que confortam o estômago quando ainda estamos na hora do lanche.

A vida dura da qual muitos fugiram torna-se a regra na boca dos que defendem o regresso às origens, à simplicidade. O campo invade a cidade sem que os prédios se desfaçam.

E para a menina que ofereceram a sachola, aquela é a vida que conhece.

Os sabores são mais intensos, o cheiro da hortelã solta-se só com o vento e o piri-piri é uma ameaça quando a boca fala o que não deve.

A horta existe, as mãos calejadas é trabalho, os botins são para estar carregados de lama. Uma vida calma e cheia de trabalho. Os frutos arrancados da árvore e esfregados na roupa, os legumes  que sabem a terra,  a menina  que  corre na  horta que se tornou no seu recreio pessoal.  

A  vida saúdavel  e  pura sem  rótulos  da moda  ou das redes sociais.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Pão numa mão

As crianças são só crianças. É a vida a seguir o caminho que deve seguir, todos nós nascemos para trazer mais vida. É isso que se ouve na homilia de Domingo. Mas é só isso que as crianças são. 

Os mais novos não comem à mesa com os mais velhos e não se metem nos assuntos dos adultos. As crianças são só isso, crianças e devem comportar-se como tal. A vida dos adultos não lhes serve nem é da sua conta. 

Se precisarem de levar umas palmadas, levam-nas. As crianças têm de aprender que nem tudo é como elas querem. Existem regras e saber estar e o ser criança não lhes perdoa a má educação. 

Pão numa mão e cachaporra na outra. Ditado tão antigo como a vida e cumprido à risca. As crianças alimentam-se e educam-se da maneira que for preciso. São outros tempos, em que as crianças não têm voz. Têm regras e deveres e nem o direito de brincar em paz e sossego lhes é atribuído. 

Algumas, as que nascem menos abonadas, tornam-se adultos ainda as feições são de bebé. É o cuidar da casa e dos irmãos mais novos que lhes é atribuído, mesmo que para isso tenham de faltar à escola. Afinal há prioridades na vida. Quando não há irmãos mais velhos são os avós e os tios que olham por eles enquanto os pais trabalham. 

O amor aos filhos é assim, diferente na forma de mostrar. Está na educação rígida e nos castigos cumpridos à risca. É afastar as crianças quando os assuntos são de adultos porque elas não percebem nada da vida. É ordenar que lavem a roupa quando nem chegam bem ao tanque. Ser criança tem obrigações sem direitos que as aliviem. 

São outros tempos e outros pensamentos. Outras maneiras de viver. Os filhos são a obrigação de cada um de trazer mais vida à terra. E eles devem sentir-se agradecidos a quem os trouxe ao mundo. 

As crianças são só crianças sem direito a sê-lo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Mãos ao ar

- Podemos usar a Adega do Manel.

E estava marcado. Sem mais conversa ou discussão, já havia sítio para o encontro. Falaram com mais uns quantos e a palavra passou a correr de boca em boca. O encontro estava marcado para daí a umas noites na  adega do Manel. As ideias já começavam a nascer na cabeça de uns e outros. Era assim que udo começava.

Cada qual levava o que podia e vestia-se como conseguia. Não havia regras.

Um trazia um pão de ló outro uns pasteis de bacalhau e assim, por uns e outros, tratava-se do estômago dos que por ali se juntavam. A bebida também estava garantida que não podiam ficar a seco.

Já era noite escura quando começavam a chegar. Havia de tudo: criadas de servir, gente do campo e matrajonas. Era o que dava para desenrascar com o que havia lá por casa. O importante era haver animação. 

Depois apareciam os caras tapadas. Uma visão assustadora para quem os encontrava no meio da rua. Cara escondidas atrás das meias enfiadas na cabeça e com três buracos cortados para deixar ver e respirar. Não se conseguia adivinhar quem se escondia do outro lado. Vestiam tudo o que apanhavam à mão: calças, saias, luvas, camisolas, casaco e oleados. Na mão traziam um cajado pesado que impunha um certo respeito. Um pau que marcava o passo com que avançavam. Ninguém sabia quem eram, mas sabiam que eram presença garantida sempre que este dia chegava.

Era noite de festa, rapazes e raparigas juntavam-se e festejavam à sua maneira aquele dia em que tudo era permitido e todos queriam ser outros que não os próprios. 

Todos os  anos era assim. Estava feito o Assalto de Carnaval.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Na saúde e na doença

Não havia vestido comprido. Havia um fato em tons claros que depois do casamento serviria de fato de Domingo. Era verde água, saia abaixo do joelho e casaco com botões até ao pescoço. Discreto como se quer para quem sobe ao altar e decente como se exige a todas as mulheres. 

A festa já estava pronta. A tia tinha dispensado a adega para fazer receber os convidados, as mesas estavam postas, os coelhos arranjados e as galinhas já tinham sido depenadas e transformadas em canja. 

O pão estava no forno, os coscorões já estavam fritos e o arroz-doce estava a arrefecer nas grandes travessas. O aroma das carnes misturava-se com a canela e o limão, cheirava a festa. 

Os garrafões de vinho estavam cheios que não há paródia sem vinho para aquecer os corpos e para regar o coelho que ainda tem de ir a guisar para estar pronto na altura do almoço. 

É dia de festa. O casamento é sinal de liberdade, se é que assim se pode chamar. Ninguém sai de casa dos pais a não ser de aliança no dedo e com a bênção do santo padre. São as regras que se sabem de boca. Onde é que já se viu uma menina viver sozinha? Só se for porque o marido está a trabalhar fora ou porque foi chamado para a guerra. Se não tiver marido, trata dos pais que é essa a sua função. 

Mas hoje é dia de festa e mais logo temos bailarico que o homem vem aí tocar concertina para animar os convidados. 

Já se ouvem os sinos a avisar da cerimónia. A noiva sai de casa pelo braço do padrinho e vai a pé até à igreja. Os convidados vão atrás dela em romaria. Quando chega à igreja é o pai que a leva até ao altar. Começa a nova vida com as mesmas responsabilidades. 

Na saúde e na doença, todos os dias da vossa vida. Que assim seja como manda o santo padre e como Deus quer. Na saúde e na doença. Até que a morte os separe.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A espera

A vida não está fácil. São as bocas para alimentar que aumentam e o trabalho que falta. Os trocos vão sendo contados até não sobrar nenhum. 

Espera-se que chegue o trabalho, que alguém precise das nossas mãos calejadas e de um corpo que aguente carregar o peso que o nosso consegue. É muito peso, sabe? Às vezes até parece que aguentamos com o mundo às costas e que as mãos já não sentem dor. São muitos anos de trabalho duro, de sol a sol e o corpo molda-se às dificuldades que vai aguentando. 

É preciso trabalhar, ter dinheiro no bolso para o copo de vinho e, com sorte, para o conduto para as refeições e é por isso que esperamos. Por uma oportunidade, por uma necessidade de outro que pode ser a nossa sorte. Ficamos ali na praça a ver o dia nascer e a aguardar que passe o capataz com oferta de trabalho. Depois, quando finalmente chega, esperamos que haja trabalho para nós porque somos tantos homens à espera que nunca se sabe se chega a nossa vez. Se tivermos sorte vamos com ele, de cabeça baixa e ar pesado porque não sabemos andar de outra maneira. 

Faça chuva ou sol, não interessa. Não há dias de férias e o descanso guarda-se para os dias santos que é pecado trabalhar a dias alumiados. É preciso ter respeito por quem está acima de nós e Ele, lá no alto, olha por nós. Deus não nos dá mais do que aquilo que conseguimos aguentar, essa é que é a verdade. 

Às vezes passam os senhores e os capatazes na taberna à procura de quem saiba lavrar o terreno ou tratar das plantações. Nessas alturas, toda gente sabe o ofício mesmo que não consiga perceber a diferença entre uma enxada e uma foice. Se é para trabalhar, a gente trabalha e logo se vê. Alguma coisa se arranja.

A nossa vida vive-se assim. É preciso trabalhar e nós, os pobres coitados que contam os tostões que ficam perdidos nas costuras dos bolsos, esperamos que nos venham buscar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Da desgraça que a acompanha

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos juntos, sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntos do que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos.

Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem passava por ali. Ele desinquietava a moça e ela ia na conversa dele. 

Não se sabe o que lhe prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se falava sobre o que ali se passava. 

Quando ela lhe bateu à porta, ele abriu por simpatia e fechou-a minutos mais tarde com a ordem para que não o voltasse a procurar. Não tinham contrato nenhum um com o outro, ele não lhe devia nada. 

Ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem da tempestade. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas, era o que comentavam. 

Quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada. Era nisso que acreditavam. Os filhos só chegam depois do casamento, nunca antes. 

Ela ficou sozinha, com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias.

A mãe, miúda abandonada pelo primeiro amor, fez-se pai também. Abandonada e olhada de lado, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua. 

 Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. O homem é que tem sempre razão, a mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A loja do tio e do Senhor

A loja era sempre de alguém. Sem letreiro que a identificasse nem nome definido. Era do Ti Manel ou do Senhor João, da Dona Maria ou da Gertrudes. Na maior parte das vezes, a tia que lhe dava nome nem tinha ligação de sangue com quem entrava pela porta. 

- Vou à loja do ti Horácio – gritavam quando já estavam a sair porta fora de cesta na cabeça e mão na cintura. 

Dentro daquelas paredes estava a vida da aldeia: as novidade se as necessidades. Fosse o que fosse que precisavam, era certo que encontravam tudo ali.

A loja estava cheia que nem um ovo. Sacos e frascos, sacas de adubos e bacalhau seco. O cheiro a fertilizante misturado com o doce das bolachas. O azeite guardado na talha e o vinho em garrafões.

Os que precisavam entravam de cesta pronta e garrafa na mão. Estendiam o recipiente vazio à espera do seu retorno. Enquanto se esperava ou se atrasava a hora de voltar para casa, trocava-se dois dedos de conversa sobre o que se sabia ou sonhava saber. 

- Dê-me bacalhau. Sabia que a… 

Mesmo que soubesse dizia que não que a informação era sempre pouca e dava jeito saber mais qualquer coisa. Ouvido atento enquanto a faca cortava a espinha do bacalhau e espalhava o sal por todo o lado sem que houvesse preocupação em limpar. As postas, cortadas e escolhidas, eram enroladas na folha de papel pardo que por ali andava. 

Os pedidos dos clientes iam à balança, aumentava-se no peso e mantinha-se o preço sempre que se podia. As medidas eram mais para freguês ver do que para cumprir, ficava sempre o mesmo a ganhar. 

- Assente aí. 

O dinheiro era pouco e o capataz ainda não tinha pago aquela semana, as compras não podiam esperar que as barrigas lá de casa queixavam-se com fome. Comprava-se com a esperança de pagar quando o dinheiro entrasse em casa. Nos entretantos, o rol ia aumentando até já não se saber se a conta estava certa ou se andavam a pedir mais do que era devido. 

- Até amanhã, ti Maria. 

- Que Deus vá contigo - e que o faça voltar no dia seguinte para mais um copo de vinho que fica assente como dois.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Nem por um tostão

Qualquer canto e pedaço de chão lhes serviam como terreno de brincadeira. 

Meninas para um lado e meninos para o outro que elas não jogam à bola e eles não querem saltar à corda. De qualquer maneira, fica sempre melhor se cada qual estiver no lado que lhe compete. 

- Aqui vai o lenço, aqui fica o lenço. 

Os rapazes dão chutos numa bola de trapos, tão fraca que a cada pontapé parece desfazer-se. 

- É golo! Não estejas a roubar. 

Roubando ou não, a contagem dos pontos vai-se perdendo como os trapos vão caindo e deixando a bola mais magra. Eles estão suados, cabelo em desalinho, camisa por fora das calças e pés descalços e sujos de pó. Mesmo assim não perdem o fôlego e há sempre tempo para mais um remate. 

- Que linda falua que lá vem, lá vem. 

Elas, as meninas que se querem bem comportadas, juntam-se em roda, nas brincadeiras com lengalengas que lhes animam os dias. Não têm bonecas nem brinquedos, só a imaginação e um bocado de corda para saltar. Uma em cada ponta a rodar e outra a saltar até não conseguir mais. 

- Olha que não há travões. 

E aí vão eles rua abaixo sem ligar aos buracos. Os carrinhos de rolamentos, feitos em casa com a ajuda de um e de outro, são postos à prova naquele terreno acidentado. Ouvem-se os gritos de euforia e os de vitória, de vez em quando também se ouve um grito de alguém que ficou com os joelhos esfolados ou aterrou de cabeça. 

São tão novos e têm tão pouco. São tão felizes com esse pouco que têm. Conseguem rir como de o mundo fosse deles. Como se todas as possibilidades estivessem ali naquele pião que conseguiram pôr a rodar na palma da mão. 

- Eu peço ao senhor barqueiro que me deixe passar. Tenho filhos pequeninos não os posso sustentar. 

O sol começa a pôr-se. Amanhã há mais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O pão do burro

Os miúdos juntam-se em grupo e lá vão eles ao caminho. Os mais novos têm uns dez anos, os mais velhos não têm muito mais. A partir de uma certa idade, o trabalho é mais certo do que o estudo e só vão à escola quando tem mesmo de ser. 

- Só era preciso saber escrever o nome e fazer contas – explicam. 

Vão a caminho da aldeia do lado porque a deles já não tem escola que os acolha e naqueles tempos não há pais que os levem ou que se certifiquem que eles chegaram bem e o conceito de autocarro escolar é algo desconhecido. Vão a pé, mas lá vão eles. Rapazes e raparigas que estão separados na escola, mas fazem o caminho lado a lado. Vão sozinhos, sem adulto que olhe por eles. 

- Os tempos eram outros – é o que se vai ouvir daí a uns anos. 

Se eram.

- E toda gente andava a pé, nunca estávamos sozinhos – continuam. 

Os rapazes feitos homens assumem o papel de guarda-costas das raparigas. As malas levam os livros de quem tem a sorte de os ter e um pão guardado para o lanche ou para quando a fome der sinal. 

Mais tarde, quando a escola fechar portas, fazem o caminho de volta sem que ninguém lhes controle a hora de chegada. Os rapazes, mais impacientes, aceleram o passo e não esperam pelas raparigas. 

- Elas paravam em todo o lado – é o que vão defender quando contarem esta história. 

E as raparigas fazem o caminho sozinhas que naquele tempo não existiam perigos como os de hoje. Os rapazes já vão tão longe que nem se ouvem. 

 O burro espera por elas no sítio do costume. As raparigas tiram o pão da mala, muito bem guardado dentro do saco de pano que a avó costurou, e servem o jantar ao burro antes de seguir viagem. 

Deus as livre de chegar a casa com um pão esquecido na mala. A comida é sagrada e é pecado não a aproveitar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O escaldar da apanha

É a época dela. O tempo a arrefecer e as oliveiras carregadinhas de azeitona a pedir para que se comece com a apanha. 

Lona estendida no chão, a toda a volta da árvore, e família inteira de mangas arregaçadas que o trabalho não deixa ninguém de fora. Há que chegue para todos. Bucha pronta para a hora do descanso, café a assentar e garrafão de vinho para dar fôlego ao corpo. 

Os ramos mais baixos são ripados, nos mais altos bate-se com um pau de todo o tamanho. Esforço e paciência. Cansaço que se paga quando se vê o resultado espalhado na lona. Acumulam-se os ramos partidos, as folhas da árvore e as azeitonas que vão caindo. Passam horas neste trabalho que faz o corpo suar e cansa os músculos.

Quando a árvore já não tem mais para dar, escolhem a azeitona que caiu. De joelhos e costas curvadas lá vão separando. A mais grada e sem defeito é guardada à parte que tem destino próprio, o resto é entregue no lagar para que dê o azeite com que a família se vai remediar. 

A azeitona boa é levada para casa. Retalhada pelas mãos habituadas a ficarem negras com tal trabalho e que passam o conhecimento aos mais novos. Três cortes em cada uma e são atiradas para o alguidar. Depois de retalhadas, são escaldadas em água a ferver e um sem fim de sal. São duas semanas até que fiquem doces. 

Depois, para quem consegue esperar as duas semanas que se impõem, é guardar para os tempos que se avizinham. Para quando o trabalho escassear e não houver outro conduto para além daquele que caiu da árvore. Nessa altura, é tirar uma mão cheia delas e juntar às misturadas que aquecem a tigela do jantar. É acompanhar a manja com as azeitonas, que não há dinheiro para peixe nem para carne. 

Os tempos não estão fáceis.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

À cabeça da mesa

Ouvem-se as oito badaladas dadas pelo relógio da igreja. 

O miúdo, apanhado de surpresa com a hora avançada, corre na direcção de casa. São oito horas. O sino continua a tocar. Corre o mais rápido que pode, sem abrandar por nada. 

Entra em casa e senta-se à mesa quando se ouve o último sinal da hora. São oito horas e ele sentou-se na mesa a tempo, mas sem conseguir fugir ao olhar reprovador do pai. 

- O jantar está na mesa às oito. 

Sem falta. Às oito horas a mesa está posta, o jantar terminado e a família tem de estar sentada à mesa. Quem não está a horas, não janta nem tem direito a comer seja o que for até ao dia seguinte. 

O miúdo não responde e baixa os olhos. Regras são regras e ele sabe disso, mas a brincadeira deixou-o distraído. ~

O homem da casa, de pele queimada pelo sol e mãos marcadas pelo trabalho, senta-se no topo da mesa. Homem de poucas palavras e mão pesada, todos o são. O sentimento, por muito que exista, não deve ser mostrado. 

A mulher levanta-se e serve-o. Primeiro ele: o pai, o marido, o homem da casa. É para ele que se guarda o melhor pedaço de carne, quando a há. É a ele que se enche o prato com a sopa antes de todos os outros. É assim que tem de ser. É ele que anda trabalhar desde que o sol nasce até que ele se põe. Ela também trabalha, mas deve-lhe obediência. 

Os outros esperam. Em silêncio. Divide-se o que sobra pelos filhos. Uma sardinha alimenta mais bocas do que aquelas que se julgavam possíveis. 

Primeiro está o homem.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A sina de ser mulher

Andava de cesta equilibrada na cabeça e braços caídos ao longo do corpo. Os seus dias eram sempre iguais. Levantava-se de manhã, trabalhava na casa, trabalhava no campo, ia às compras de cesta à cabeça e trocos contados e tratava dos três filhos que andavam lá por casa. 

A do meio nascera mulher. Pouca sorte. 

Ela sabia o que era ser mulher e não era isso que queria para o seu sangue. As mulheres têm mais deveres do que direitos, aprendem desde cedo o significado da submissão sem chegarem a conhecer a palavra. Nascer assim é uma falta de sorte, naquele mundo não lhes davam reconhecimento. 

- É pena seres mulher. 

Fora o que uma tia-avó lhe dissera e que só agora ela compreendia que não vinha de rancor, mas de um amor que queria mais para ela do que aquela vida de regras e obrigações. 

As mulheres de bem estão em casa, são casadas, respeitam os maridos (mesmo que eles não as respeitem) e baixam a cabeça, fixam os olhos no pó da estrada. Não andam a rir no meio da rua que isso é coisa de loucas e não andam perdidas em namoricos. Namoram e casam com o mesmo, sem discussão. 

As que chegam a estudar aprendem a ler e a contar, não mais do que isso, mas a maior parte nem conhece os bancos da escola. Não aprendem música nem andam misturadas com os rapazes. Usam saias abaixo do joelho e os camiseiros fechados até ao último botão. Por baixo do vestido, vestem a combinação e as pernas estão sempre protegidas pelas meias. 

É preciso saber estar. A única coisa que uma mulher tem é a sua reputação. 

A sina de ser mulher é viver marcada sem que nunca se tenha cometido pecado. É ser desgraçada sem se saber bem porquê. É esperar que algum homem lhes queira dar uma vida digna. Porque só assim são aceites. Deus as livre de serem enganadas por um qualquer que se aproveita da sua inocência e lhe vira as costas quando as consequências lhe batem à porta. Aí todas as portas se fecham. 

É por isso que ela olha para a filha, tão pequena e inocente, e a único pensamento que lhe passa pela cabeça é o mesmo que já lhe disseram a ela. 

- É pena seres mulher.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O cheiro das ruas

Eram outros tempos. Aqueles dias em que o sol do meio-dia iluminava a rua com uma luz tão clara que obrigava a fechar os olhos. 

A rua tinha o alcatrão em mau estado, o que não se possa dizer que seja muito diferente dos tempos de agora, e só duas ou três casas é que tinham um primeiro andar. Todas tinham um quintal com direito a um barracão com a cozinha onde comia a família. A cozinha de casa era para as visitas. 

Ao meio-dia, a rua começava a ganhar vida mesmo que não se visse uma pessoa que fosse. 

Vindo dos quintais, ouvia-se o som do garfo a raspar na velha frigideira gasta de tanto ser areada. A telefonia tocava um fadinho ou outro, daqueles que faziam chorar as pedras da calçada, e as mulheres de lenço à cabeça e bata vestida, faziam o almoço para os netos que vinham da escola, os filhos que almoçavam ali ou os homens que vinham do trabalho. 

Cheirava a refogado com azeite feito no lagar lá da terra, com as azeitonas que a família inteira tinha apanhado. A cebola a ficar translúcida e o toque do alho e do louro. 

- Não comas o louro que te rasga a garganta! 

O borbulhar do óleo quente. As batatas cortadas em palitos e metidas dentro de água, à espera. A carne cozinhada com tempo e com uma perícia que nasce com a pessoa. É preciso ter mão para a cozinha. Ainda não há chefs, só cozinheiras. 

A feijoca a cozer para a sopa, com o toque dos enchidos e da carne de uma qualidade que já não se encontra. Um cheiro rico e gordo, guloso. 

Uma rotina cumprida em todas as casas. Um cheiro que enche a rua vazia e que anuncia a chegada do resto da família para se sentarem à mesa, com o pão ao lado para raspar o fundo da frigideira antes de voltar a ser areada. 

As memórias fogem com o tempo. As caras ficam confusas e perdem-se nomes, mas o cheiro a refogado a invadir uma rua vazia vai sempre levar ao sol do meio-dia numa rua de alcatrão esburacado onde se espera que a família chegue para almoçar.