Não se escolhe como se nasce. Nem onde se nasce nem quem somos quando chegamos a este mundo. Não é preciso. É o sexo que decide quem somos. Homens e mulheres. Eles de um lado. Elas de outro.
A eles tudo o que é grandioso. A força, a autoridade, o punho pesado que é desculpado pela condição de ser homem. De ser ele que representa a família. De se gabar de ser o ganha pão.
A elas a submissão. Os olhos no chão, as mãos trémulas, a obediência que é o que se quer de uma mulher. Que seja prendada, pura e que saiba o seu lugar. Não se pede mais. É a condição da mulher, a flor frágil que leva o mundo à frente, mas que se mantêm na sombra.
O homem entra em casa sem se desculpar pelas horas. O cheiro a vinho fermentado acompanha-o e confunde-se com cheiro a suor seco e pó das terras.
Elas não o encaram, não o chama à razão que não é isso que se pede delas.
- As mulheres têm de estar lá para eles. Só isso. Poupa o sorriso que não há pior do que uma mulher tonta. Fecha o colarinho da camisa e desce a bainha da saia que não és uma mulher da vida. Dá-te ao respeito. Depois não digas que falam de ti. Se não te dás ao respeito o que é que queres? - eram as ordens da mãe, da tia, do olhar reprovador da vizinha que lhes acompanhava o crescimento.
O trabalho demasiado cedo e o chegar a adulta antes de ser criança. Próprio da condição com que se nasce. O respeito, sempre o respeito. É ela que tem de fazer por isso que os homens vivem de instinto e são o que são. Não se controlam, são as mulheres que têm de se resguardar. De os deixar ser o que o instinto lhes pede. A ela só se exige que seja aquilo que deve.
O dever colado a esta coisa de ser mulher. Um sinal de nascença que mancha a pele e faz a cabeça tombar para a frente. O corpo cansado do dia de trabalho e que ainda tem de se fazer às vontades do homem. Aquele que as esperou no altar. Aquele que lhe fez o favor de a tornar mulher decente e honrada. A aliança a apertar mais do que os sacramentos de Deus.
Os pés descalços no terreno incerto, a cesta à cabeça, os braços à cintura. O trabalho ao lado dos homens. Não, nunca ao lado, sempre atrás. Em silêncio, na sombra. A tratar da casa, a parir filhos, a tratar dos pais e dos sogros.
A vida cansada quando se acabou de nascer. A sentença de se nascer assim quando isso não se escolhe. A condição de ser mulher.
