quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O despertador toca cedo

Demasiado cedo. Quando ainda está escuro lá fora e a vontade de acordar é nula.
Quando saio à porta, está o dia a nascer. As ruas ainda escuras e só temos direito a uma luz muito ténue a iluminar.

Lá pela terra, o despertador toca demasiado cedo, cedo o suficiente para ter o prazer de ver o dia nascer.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Lá pela Terra

Viver na cidade é outro luxo. É ter o privilégio de descer avenidas históricas no meio do engarrafamento das seis da tarde e ter as buzinas dos que estão parados no semáforo da esquina como despertador pessoal. É ter o cinema mesmo ao lado de casa, mesmo que não se saiba quais os filmes que estão em exibição e que se acredite que o bilhete ainda custa uns quatro euros. Os teatros e concertos estão ao virar da esquina: dois passos, quatro paragens de metro, mais dez passos e estamos lá. Só é difícil lembrar a última vez que se passou lá perto.

Viver "lá na terra" é ideia  que não se compreende. Mesmo que a terra seja a meia hora da cidade é o equivalente a viver atrás do sol-posto num dia de Verão e, no caminho, entrar numa qualquer máquina do tempo e recuar até séculos medievais. Há quem diga que "lá na terra" ainda andam de carroças e que, de vez em quando, se grita "água vai" como se fosse um jogo infantil. Coisas da vida.

"Lá na terra" faz lembrar ruas desertas envoltas numa neblina, casas fechadas e, muito de vez em quanto, um chilrear de um pássaro qualquer. Um autêntico faroeste à espera do duelo do meio-dia, mas sem os fardos de palha espalhados pelas ruas.

A terra é lá longe. Lá onde os pais vivem e de onde, na maioria dos casos, as pessoas cosmopolitas saíram há meia dúzia de anos, mas que agora só visitam umas duas vezes por ano. Nas férias grandes para deixar os miúdos, no Natal para celebrar a festa da família. Abençoados sejam. Toda gente sabe que basta um ano na imensidão da cidade para nos tornar a todos pessoas apreciadoras de sushi e de um bom gin. Tão bom quanto maior for o copo e a conta no final da noite.

Sair da cidade e voltar "lá para a terra" é coisa de doidos, de gente que está à beira de um esgotamento nervoso e precisa do descanso das termas e do ar puro e gelado das serras. Sair da cidade, voltar "lá para a terra"e continuar a trabalhar na cidade é mesmo de quem está em estado terminal de loucura e já vive com um colete-de-forças vestido.

Sejamos sinceros, ninguém deixa a cidade de livre vontade para ir "lá para a terra". Pelo que ouvi dizer "lá na terra" nem há um cinema.

Aliás, há vida "lá na terra"?



O que anda por aqui?

O blogue apareceu porque escrevi um texto chamado "Lá pela terra" e perguntaram-me "Porque é que não começas um blogue?". E aqui estou eu. 

Vivo na aldeia desde sempre e escrevo sobre isso. Gosto das ruas que já conheço de cor, das caras que são familiares e das histórias que são passadas de boca em boca. Principalmente das histórias. Falam de uma vida diferente daquela que conheço. Mais difícil, mas não sei dizer se era pior ou melhor. 

Escrevo textos sobre vidas antigas, histórias que são tão diferentes daquilo que nós conhecemos que às vezes até achamos estranhas. Parece-nos impossível que a vida já tenha sido assim. Mas foi. E eu acho que não deve ser esquecida. 

Depois há o lado de quem continua a viver na aldeia. Longe das avenidas movimentas e dos prédios altos da grande cidade. No "Lá pelo Instagram" vão aparecendo textos que falam do que vejo lá pela terra nos dias de hoje.

O que anda por aqui é um certo gosto por esta vida lá pela terra. Mesmo quando as estradas têm buracos ou quando a viagem até à capital custa um bocadinho. Esta vida tem o seu encanto. Os seus pontos altos e outros mais chatos e é isso que vai aparecendo por aqui.