domingo, 1 de novembro de 2015

Onde foste?

Estamos na altura dos Santos. Fui à feira.


As tendas estão montadas e os pregões ensaiados. 

- Mais uma voltinha!

Só mais uma. Mais uma moeda e uma viagem na chávena ou nos carrinhos de choque. Os pais esperam e alguns desesperam enquanto os miúdos sobem e descem das diversões sem mostrar cansaço. A feira está quase a acabar, não há tempo a perder.

As cestas vão enchendo. Um saco de castanhas que são das boas e o São Martinho não tarda está aí. Maçãs, clementinas e mais umas romãs. Agora já parece Outono.

- Escolha-me aí um quilo de nozes. Veja lá se são boas.

Juram que se não forem vão reclamar. Amanhã, quando da feira só sobrarem as caixas vazias e os papeis pelo chão. Até lá há tempo para regatear e escolher o que parece melhor.



É o casaco da moda e a camisola quentinha. As ruas começam a encher e as pessoas vão deitando olho. Nunca se sabe do que é que se precisa e o que é que se quer. É melhor aproveitar enquanto as tendas ainda estão montadas e as nuvens só ameaçam chuva.

Há fumo no ar. Cheira a castanha assada e as farturas estão a sair do óleo. 

- São cinco para levar.

- Oh freguesa, leve sete que paga o mesmo!



 

Voltamos para o ano, se Deus quiser e os santos ajudarem.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Betadine e Água Oxigenada

Tinha muitos arranhões e nódoas negras. Demasiados. Se fosse hoje era possível que a competência dos meus pais fosse alvo de dúvida, mas eles não tinham a culpa de ter uma filha arraçada de Tarzan e com constantes ataques de bichos-carpinteiro.

Naquela altura, que eu me lembre, as bicicletas não tinham travões. Pelo menos, eu fingia que não tinham. Só me lembrava deles quando queria fazer uma manobra qualquer. Uma manobra tão espectacular que era provável que acabasse comigo a saltar por cima da bicicleta. Os meus joelhos eram amigos próximos da estrada mal alcatroada. Depois lá ia eu para casa. Bicicleta na mão, lágrima no olho e joelho feito num oito. Estava de volta no dia seguinte. Eu e todos os outros miúdos. Ali ninguém era melhor que ninguém. Fazíamos todos o mesmo. Uns com mais sucesso do que outros.


Tínhamos por hábito subir a árvores e fugir de casa. A última parte é mentira. Tínhamos o hábito de achar que enganávamos alguém quando nos escondíamos num terreno qualquer. Anos mais tarde percebemos que os nossos risos ouviam-se à distância. Nós é que tínhamos tendência para ficar surdos quando nos chamavam para jantar, tomar banho ou dar um beijinho à avó que estava à nossa espera. Muito esperavam as avós naquela altura.

Éramos os donos do nosso mundo. Sempre de cabeça levantada e peito cheio. De joelhos em sangue e cara vermelha de tanto correr. Havia sempre tempo para mais uma corrida. Mesmo quando já era noite escura. Lá íamos nós: rua abaixo e de volta para cima a seguir.

Caíamos todos os dias. Ou quase. Betadine, água oxigenada, penso rápido. Estávamos prontos outra vez.

Ficaram as marcas das quedas e dos curativos. Disfarçadas pelo tempo e cada qual com a sua história. A vez em que só existia o travão da frente ou a outra em que se jurou que o ramo da árvore aguentava.

Acreditávamos que íamos conquistar o mundo. Cabeça cheia de sonhos e sorriso colado na cara. Mesmo quando a água oxigenada ardia nas feridas.




quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Onde é que vais?

Está quase aí. Mais um dia e estão todos a caminho. Já está tudo pronto à porta de casa. E lá vão rezando para que o tempo dê tréguas. Se não der é preciso ter força para enfrentar o pior dos temporais.

A cesta vai à cabeça. Uma daquelas grandes para trazer o avio todo que se quer. O peso não é problema que o equilíbrio está treinado e a sogra* aguenta.

Em dias de festa é escolher o lenço bonito. Aquele florido que está guardado com o maior dos cuidados.

Quando chegar o dia, é vê-los a sair de manhã cedo. Ainda o sol mal nasceu e já se ouvem os passos na estrada. Vão em grupos, cantarolando a última modinha. Fazem o caminho a pé. Sem medo ou desistências que a festa não chega todos os dias e é preciso aproveitar.

No saco ainda vai um chouriço e um bocado de pão para aconchegar o estômago a meio caminho. O canivete está sempre pronto.


Vamos à feira. Que os santos estejam todos por nós.



* a sogra ou rodilha era feita de tecido e era usada em cima da cabeça para apoiar a cesta que as mulheres levavam à cabeça. Assim era mais fácil suportar o peso.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Já se ouvem

Ainda estão longe. Não se conseguem ver, mas já se ouvem. Mais cinco minutos, se tanto, e já cá estão.

A rua começa a ganhar vida. As portas abrem-se e as pessoas juntam-se cá fora. Ficam encostadas às paredes ou sentadas nos degraus de casa. Trocam-se dois dedos de conversa com o vizinho do lado. Um "Olá, como está?" para o outro que vai a descer a rua.

Já se conseguem ver. Lá em cima. O som grave e autoritário marca o ritmo da descida.

Não há quem fique em casa e agora não há quem trabalhe. É hora tão sagrada como a missa. As paredes estremecem quando eles se aproximam e as pessoas esperam. Nem que seja só para os ver passar. Ficam tão bonitos quanto estão a desfilar.


Filas alinhadas ao milímetro e o passo certo. Lá pelo meio alguém se perde e tenta, com esforço, voltar a acertar. Esquerdo, direito. Esquerdo, direito. Os instrumentos brilham com o sol. As fardas estão impecavelmente arranjadas e os sapatos foram engraxados até à exaustão. Há lá maior orgulho que este.

Aí vão eles rua abaixo.

Ouvem-se as palmas a acompanhar o ritmo do bombo. As portas fecham-se e deixa-se a chave na fechadura. Aqui ninguém rouba ninguém e, bem vistas as coisas, também não há nada para roubar.

As pessoas, que tanto esperaram para os ver passar, acompanham-os. Lá vão eles de braço dado atrás da banda. Uma gargalhada perdida por aqui e por ali e um chamar lá ao fundo.

- Oh, Maria! Anda aqui com a gente!

Descem a rua. Sem que a música pare ou alguém se canse. Junta-se mais um e outro ainda. Há sempre espaço para mais alguém. 

Lá pelo meio, alguém ganha coragem e grita em tom de provocação:

- Toca a muca ou não toca a muca?

E ri-se toda uma terra enquanto responde em coro.

- Toca a muca! Sim, senhor!



sábado, 24 de outubro de 2015

Se eles soubessem

A minha avó morava lá em cima. Ao fundo de uma estrada serpenteada, numa zona com pouco mais de meia dúzia de casas e onde toda gente se conhecia. Entre primos e vizinhos a diferença não era muita.

De vez em quando a minha avó descia a estrada e ia-me buscar à escola. O caminho de volta, entre conversas e brincadeiras, tinha paragem prometida na loja lá do sítio. Paragem obrigatória de toda uma aldeia. Todas as terras tinham um sítio assim. Com um senhor Manel ou uma D. Maria do outro lado do balcão e um sem fim de histórias que vão passando de geração em geração. Lá pela terra, as histórias guardam-se como relíquias.

Esta loja, tal como todas as outras que por aí se encontravam, não era mais do que um espaço amplo com um balcão de pedra dos antigos. Também pode ser só a minha imaginação e alma saudosista que compõe tudo assim. 

À volta do balcão iam aparecendo sacas, sacos e prateleiras com tudo aquilo que podíamos precisar e mais umas quantas coisas que nos iam piscando o olho. O cheiro do bacalhau seco misturava-se com o da ração dos animais, os fertilizantes para as hortas estavam a dois passos dos doces que eu tanto cobiçava. Tudo junto, sem regras ou supervisão e, que se saiba, sem que ninguém se sentisse mal com tal organização.


Em cima do balcão acumulavam-se folhas de papel pardo onde as contas dos avios eram rabiscadas. Somas feitas a lápis de carvão e com direito a noves fora. Eram as mesmas folhas que usavam para fazer os cartuchos onde guardavam os meus beijinhos.

Quando deixávamos a loja, lá ia eu com o meu cartucho de papel pardo na mão. Os beijinhos iam desaparecendo, um por um, ao longo da estrada serpenteada até à casa da minha avó. Primeiro a parte colorida, cheia de açúcar, e a seguir a desinteressante bolacha.

Os beijinhos sabiam-me a mimos e conforto.

Soubessem eles que um dia já não íamos encontrar cartuchos assim. Que um dia as lojas dos senhores Manéis e das D. Marias não iam ser mais do que recordações ou, na melhor das hipóteses, reinvenções vintage do encanto que um dia tiveram.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O despertador toca cedo

Demasiado cedo. Quando ainda está escuro lá fora e a vontade de acordar é nula.
Quando saio à porta, está o dia a nascer. As ruas ainda escuras e só temos direito a uma luz muito ténue a iluminar.

Lá pela terra, o despertador toca demasiado cedo, cedo o suficiente para ter o prazer de ver o dia nascer.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Lá pela Terra

Viver na cidade é outro luxo. É ter o privilégio de descer avenidas históricas no meio do engarrafamento das seis da tarde e ter as buzinas dos que estão parados no semáforo da esquina como despertador pessoal. É ter o cinema mesmo ao lado de casa, mesmo que não se saiba quais os filmes que estão em exibição e que se acredite que o bilhete ainda custa uns quatro euros. Os teatros e concertos estão ao virar da esquina: dois passos, quatro paragens de metro, mais dez passos e estamos lá. Só é difícil lembrar a última vez que se passou lá perto.

Viver "lá na terra" é ideia  que não se compreende. Mesmo que a terra seja a meia hora da cidade é o equivalente a viver atrás do sol-posto num dia de Verão e, no caminho, entrar numa qualquer máquina do tempo e recuar até séculos medievais. Há quem diga que "lá na terra" ainda andam de carroças e que, de vez em quando, se grita "água vai" como se fosse um jogo infantil. Coisas da vida.

"Lá na terra" faz lembrar ruas desertas envoltas numa neblina, casas fechadas e, muito de vez em quanto, um chilrear de um pássaro qualquer. Um autêntico faroeste à espera do duelo do meio-dia, mas sem os fardos de palha espalhados pelas ruas.

A terra é lá longe. Lá onde os pais vivem e de onde, na maioria dos casos, as pessoas cosmopolitas saíram há meia dúzia de anos, mas que agora só visitam umas duas vezes por ano. Nas férias grandes para deixar os miúdos, no Natal para celebrar a festa da família. Abençoados sejam. Toda gente sabe que basta um ano na imensidão da cidade para nos tornar a todos pessoas apreciadoras de sushi e de um bom gin. Tão bom quanto maior for o copo e a conta no final da noite.

Sair da cidade e voltar "lá para a terra" é coisa de doidos, de gente que está à beira de um esgotamento nervoso e precisa do descanso das termas e do ar puro e gelado das serras. Sair da cidade, voltar "lá para a terra"e continuar a trabalhar na cidade é mesmo de quem está em estado terminal de loucura e já vive com um colete-de-forças vestido.

Sejamos sinceros, ninguém deixa a cidade de livre vontade para ir "lá para a terra". Pelo que ouvi dizer "lá na terra" nem há um cinema.

Aliás, há vida "lá na terra"?