quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Diz-me como te chamas

O Ti Manel do Moinho não é tio de ninguém. É filho único. Que se saiba também não tem moinho. O avô dele é que teve um. Pelo menos é o que ouve contar por aí. Foi há tantos anos que nem se sabe bem onde era o dito. Seja como for, com moinho ou sem ele, não há quem o conheça por outro nome.

O Zé da Taberna é que costuma contar estas historietas. Um copo de três, o pastel de bacalhau que a Maria dele tinha acabado de fazer e mais umas quantas histórias perdidas. Tem a taberna desde que a terra tem gente. Foi nessa altura que a Taberna substitui o Santos como apelido. Nunca lhe falta vinho ou tema de conversa e as poucas mesas de madeira já gasta estão sempre cheias com os homens lá da terra.

- Oh, Maria das Dores, dá aí mais um pastel!

Ela chama-se mesmo Maria das Dores. Confirmado no registo civil. Que se saiba não anda por aí aos gritinhos e queixumes. Mas também se sabe que a irmã dela não é Isabel da Maria das Dores. Tirando o primeiro nome, é tudo herdado da irmã. E tudo culpa da pequena Isabel que tinha a mania de andar agarrada às saias da Maria das Dores para todo o lado.

As duas têm pavor do General. Ou da General, como quiserem. É assim que a menina Ermelinda é conhecida. Senhora professora, metro e meio de altura, régua de madeira como melhor amiga. É conhecida como General, mas nem sonha que é assim que a chamam. Por aqui também há segredos.

Por aqui, quando se ouve chamar alguém, é provável que não seja o nome que aparece no bilhete de identidade.

- Bom dia, Júlio Carteiro. Novidades?

Júlio é carteiro de profissão e Silva de registo, mas são pormenores que quase ninguém conhece. E que pouco ou nada interessam.

Existem tios sem sobrinhos, avós emprestadas, irmãs que dão sobrenomes aos mais novos, profissões que se transformam em apelidos, brincadeiras de miúdos que crescem até à idade adulta. Há um sem fim de histórias em cada um desses nomes. Algumas bem antigas. Outras bem tristes.

Lá pela terra, o nome que se ouve diz mais do que o que consta nos registos oficiais. Diz-me como te chamas e eu posso muito bem dizer-te quem és.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Meio sustento

Já diziam os antigos que uma fogueira era meio sustento. Duas era sustento por inteiro. Ninguém sabe mais destas coisas do que os antigos que sustentavam-se com o pouco que havia e que chegava para todos.

Não vamos contestar quem leva anos de experiência nisto. 



É o conforto da casa quente nas noites que começam a arrefecer. O que noutra vida era quase meio de sobrevivência. Na altura em que as telhas estavam à vista de todos e o frio entrava sem pedir autorização. As paredes largas não chegavam como aconchego e a sala onde todos dormiam não era pequena o suficiente. Não aquecia.

Era a fogueira que dava vida. Feita no meio da sala com os restos do que ardia na rua. Uma família inteira sentada à volta das brasas, a aquecer as mãos enquanto se remendavam as meias e se contavam meia dúzia de histórias. O garrafão do vinho pousado ao lado do banco. Era só mais uma noite, mais um dia. 

Mesmo nas alturas mais quentes acendia-se o fogo. Para cozinhar. A panela em cima das brasas e a sopa a borbulhar até ficar no ponto. A lareira era tão grande que um homem cabia lá dentro sem se curvar.

Era sustento. Mesmo que fosse só meio. Era melhor que nada.



domingo, 1 de novembro de 2015

Onde foste?

Estamos na altura dos Santos. Fui à feira.


As tendas estão montadas e os pregões ensaiados. 

- Mais uma voltinha!

Só mais uma. Mais uma moeda e uma viagem na chávena ou nos carrinhos de choque. Os pais esperam e alguns desesperam enquanto os miúdos sobem e descem das diversões sem mostrar cansaço. A feira está quase a acabar, não há tempo a perder.

As cestas vão enchendo. Um saco de castanhas que são das boas e o São Martinho não tarda está aí. Maçãs, clementinas e mais umas romãs. Agora já parece Outono.

- Escolha-me aí um quilo de nozes. Veja lá se são boas.

Juram que se não forem vão reclamar. Amanhã, quando da feira só sobrarem as caixas vazias e os papeis pelo chão. Até lá há tempo para regatear e escolher o que parece melhor.



É o casaco da moda e a camisola quentinha. As ruas começam a encher e as pessoas vão deitando olho. Nunca se sabe do que é que se precisa e o que é que se quer. É melhor aproveitar enquanto as tendas ainda estão montadas e as nuvens só ameaçam chuva.

Há fumo no ar. Cheira a castanha assada e as farturas estão a sair do óleo. 

- São cinco para levar.

- Oh freguesa, leve sete que paga o mesmo!



 

Voltamos para o ano, se Deus quiser e os santos ajudarem.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Betadine e Água Oxigenada

Tinha muitos arranhões e nódoas negras. Demasiados. Se fosse hoje era possível que a competência dos meus pais fosse alvo de dúvida, mas eles não tinham a culpa de ter uma filha arraçada de Tarzan e com constantes ataques de bichos-carpinteiro.

Naquela altura, que eu me lembre, as bicicletas não tinham travões. Pelo menos, eu fingia que não tinham. Só me lembrava deles quando queria fazer uma manobra qualquer. Uma manobra tão espectacular que era provável que acabasse comigo a saltar por cima da bicicleta. Os meus joelhos eram amigos próximos da estrada mal alcatroada. Depois lá ia eu para casa. Bicicleta na mão, lágrima no olho e joelho feito num oito. Estava de volta no dia seguinte. Eu e todos os outros miúdos. Ali ninguém era melhor que ninguém. Fazíamos todos o mesmo. Uns com mais sucesso do que outros.


Tínhamos por hábito subir a árvores e fugir de casa. A última parte é mentira. Tínhamos o hábito de achar que enganávamos alguém quando nos escondíamos num terreno qualquer. Anos mais tarde percebemos que os nossos risos ouviam-se à distância. Nós é que tínhamos tendência para ficar surdos quando nos chamavam para jantar, tomar banho ou dar um beijinho à avó que estava à nossa espera. Muito esperavam as avós naquela altura.

Éramos os donos do nosso mundo. Sempre de cabeça levantada e peito cheio. De joelhos em sangue e cara vermelha de tanto correr. Havia sempre tempo para mais uma corrida. Mesmo quando já era noite escura. Lá íamos nós: rua abaixo e de volta para cima a seguir.

Caíamos todos os dias. Ou quase. Betadine, água oxigenada, penso rápido. Estávamos prontos outra vez.

Ficaram as marcas das quedas e dos curativos. Disfarçadas pelo tempo e cada qual com a sua história. A vez em que só existia o travão da frente ou a outra em que se jurou que o ramo da árvore aguentava.

Acreditávamos que íamos conquistar o mundo. Cabeça cheia de sonhos e sorriso colado na cara. Mesmo quando a água oxigenada ardia nas feridas.




quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Onde é que vais?

Está quase aí. Mais um dia e estão todos a caminho. Já está tudo pronto à porta de casa. E lá vão rezando para que o tempo dê tréguas. Se não der é preciso ter força para enfrentar o pior dos temporais.

A cesta vai à cabeça. Uma daquelas grandes para trazer o avio todo que se quer. O peso não é problema que o equilíbrio está treinado e a sogra* aguenta.

Em dias de festa é escolher o lenço bonito. Aquele florido que está guardado com o maior dos cuidados.

Quando chegar o dia, é vê-los a sair de manhã cedo. Ainda o sol mal nasceu e já se ouvem os passos na estrada. Vão em grupos, cantarolando a última modinha. Fazem o caminho a pé. Sem medo ou desistências que a festa não chega todos os dias e é preciso aproveitar.

No saco ainda vai um chouriço e um bocado de pão para aconchegar o estômago a meio caminho. O canivete está sempre pronto.


Vamos à feira. Que os santos estejam todos por nós.



* a sogra ou rodilha era feita de tecido e era usada em cima da cabeça para apoiar a cesta que as mulheres levavam à cabeça. Assim era mais fácil suportar o peso.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Já se ouvem

Ainda estão longe. Não se conseguem ver, mas já se ouvem. Mais cinco minutos, se tanto, e já cá estão.

A rua começa a ganhar vida. As portas abrem-se e as pessoas juntam-se cá fora. Ficam encostadas às paredes ou sentadas nos degraus de casa. Trocam-se dois dedos de conversa com o vizinho do lado. Um "Olá, como está?" para o outro que vai a descer a rua.

Já se conseguem ver. Lá em cima. O som grave e autoritário marca o ritmo da descida.

Não há quem fique em casa e agora não há quem trabalhe. É hora tão sagrada como a missa. As paredes estremecem quando eles se aproximam e as pessoas esperam. Nem que seja só para os ver passar. Ficam tão bonitos quanto estão a desfilar.


Filas alinhadas ao milímetro e o passo certo. Lá pelo meio alguém se perde e tenta, com esforço, voltar a acertar. Esquerdo, direito. Esquerdo, direito. Os instrumentos brilham com o sol. As fardas estão impecavelmente arranjadas e os sapatos foram engraxados até à exaustão. Há lá maior orgulho que este.

Aí vão eles rua abaixo.

Ouvem-se as palmas a acompanhar o ritmo do bombo. As portas fecham-se e deixa-se a chave na fechadura. Aqui ninguém rouba ninguém e, bem vistas as coisas, também não há nada para roubar.

As pessoas, que tanto esperaram para os ver passar, acompanham-os. Lá vão eles de braço dado atrás da banda. Uma gargalhada perdida por aqui e por ali e um chamar lá ao fundo.

- Oh, Maria! Anda aqui com a gente!

Descem a rua. Sem que a música pare ou alguém se canse. Junta-se mais um e outro ainda. Há sempre espaço para mais alguém. 

Lá pelo meio, alguém ganha coragem e grita em tom de provocação:

- Toca a muca ou não toca a muca?

E ri-se toda uma terra enquanto responde em coro.

- Toca a muca! Sim, senhor!



sábado, 24 de outubro de 2015

Se eles soubessem

A minha avó morava lá em cima. Ao fundo de uma estrada serpenteada, numa zona com pouco mais de meia dúzia de casas e onde toda gente se conhecia. Entre primos e vizinhos a diferença não era muita.

De vez em quando a minha avó descia a estrada e ia-me buscar à escola. O caminho de volta, entre conversas e brincadeiras, tinha paragem prometida na loja lá do sítio. Paragem obrigatória de toda uma aldeia. Todas as terras tinham um sítio assim. Com um senhor Manel ou uma D. Maria do outro lado do balcão e um sem fim de histórias que vão passando de geração em geração. Lá pela terra, as histórias guardam-se como relíquias.

Esta loja, tal como todas as outras que por aí se encontravam, não era mais do que um espaço amplo com um balcão de pedra dos antigos. Também pode ser só a minha imaginação e alma saudosista que compõe tudo assim. 

À volta do balcão iam aparecendo sacas, sacos e prateleiras com tudo aquilo que podíamos precisar e mais umas quantas coisas que nos iam piscando o olho. O cheiro do bacalhau seco misturava-se com o da ração dos animais, os fertilizantes para as hortas estavam a dois passos dos doces que eu tanto cobiçava. Tudo junto, sem regras ou supervisão e, que se saiba, sem que ninguém se sentisse mal com tal organização.


Em cima do balcão acumulavam-se folhas de papel pardo onde as contas dos avios eram rabiscadas. Somas feitas a lápis de carvão e com direito a noves fora. Eram as mesmas folhas que usavam para fazer os cartuchos onde guardavam os meus beijinhos.

Quando deixávamos a loja, lá ia eu com o meu cartucho de papel pardo na mão. Os beijinhos iam desaparecendo, um por um, ao longo da estrada serpenteada até à casa da minha avó. Primeiro a parte colorida, cheia de açúcar, e a seguir a desinteressante bolacha.

Os beijinhos sabiam-me a mimos e conforto.

Soubessem eles que um dia já não íamos encontrar cartuchos assim. Que um dia as lojas dos senhores Manéis e das D. Marias não iam ser mais do que recordações ou, na melhor das hipóteses, reinvenções vintage do encanto que um dia tiveram.