terça-feira, 10 de novembro de 2015

Cesta Aviada

É sábado de manhã e o fim-de-semana ainda está a começar. A praça enche-se de pessoas e cheiros. O doce da fruta mistura-se com o cheiro a terra dos legumes. As cestas entram vazias e encaminham-se para os sítios do costume. Ainda existem rotinas que vale a pena cumprir.

Ouvem-se risos e conversas perdidas. A cada passo que se dá um cumprimentos solto acompanhado de um sorriso:

- Olá, como vai?

Pergunta-se pelo marido e pelos filhos. Estranha-se a ausência da semana anterior. É o calor da preocupação misturado com as frutas, os legumes e as conversas perdidas. Existem rotinas que marcam toda uma semana.

- Como é que são as uvas? As da semana passada não eram muito boas.

É preciso haver franqueza no que diz. O que não se gostou e o que era de chorar por mais. Na banca misturam-se os verdes e os vermelhos, os cestos com a fruta mais delicada, a balança por onde vão passando sacos e o pequeno bloco onde se vai anotando as contas. Algumas coisas ainda se fazem à antiga.


- Prove este bocadinho.

Dado sem esperar nada em troca. Só porque sim. Porque se confia no que se tem e se conhece quem ali está. Cheira-se a fruta e pede-se só mais um raminho de salsa que está mesmo a faltar para o almoço.

A cesta vai enchendo. São avios e conversas, bocadinhos de calma numa vida que se leva tão agitada.

- Então bom fim-de-semana.

- Veja lá se aguenta esse peso todo!

Um adeus apressado e a certeza que estamos de volta daí a oito dias.


sábado, 7 de novembro de 2015

Nem devem ter cinema

- Eles nem devem ter cinema.

É das observações mais ouvidas quando se fala nestas coisas de viver para longe da grande cidade.

- Não temos. Lá na terra há alguma dificuldade em perceber esse conceito do que é o cinema. Em tempos que já lá vão, um primo em terceiro grau e muito cosmopolita emprestou-nos o "Cinema Paraíso" e conseguimos perceber mais ou menos a coisa. É isso o cinema, não é? Um senhor com fitas pretas num cubículo?

Podíamos responder assim, mas não era politicamente correcto.

A verdade é que não deixa de ser curioso que uma das grandes dúvidas das mentes cosmopolitas seja se há um cinema lá no interior ou se temos de andar duas horas de carro por entre montes e vales até avistar algum. Podíamos esperar outras inquietações. Há hospitais? Como são as escolas? Os transportes são um tormento, não?

Afinal, o que realmente inquieta as almas é a existência, ou não, de um cinema. Como se não houvesse outro interesse além de tratar da horta, remendar as meias e levar as ovelhas a pastar.

Mas eu tenho de vos contar um segredo. Acham que estão preparados?

Aqui, atrás da serra e longe da agitação da cidade, as pessoas também vão ao cinema. Sem ter de andar duas horas de carro nem apanhar avião. Até vão a festivais de cinema. E de terror. Imaginem que nem se benzem com medo das aparições e actos satânicos. Espantoso, não é?

E até pagam bilhete.





(imagem do átrio na segunda edição da Área de Contenção - Encontros Internacionais de Cinema Fantástico e de Horror do Cartaxo  que decorre este fim-de-semana no Centro Cultural do Cartaxo. Parece que há vida lá pela terra.)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Diz-me como te chamas

O Ti Manel do Moinho não é tio de ninguém. É filho único. Que se saiba também não tem moinho. O avô dele é que teve um. Pelo menos é o que ouve contar por aí. Foi há tantos anos que nem se sabe bem onde era o dito. Seja como for, com moinho ou sem ele, não há quem o conheça por outro nome.

O Zé da Taberna é que costuma contar estas historietas. Um copo de três, o pastel de bacalhau que a Maria dele tinha acabado de fazer e mais umas quantas histórias perdidas. Tem a taberna desde que a terra tem gente. Foi nessa altura que a Taberna substitui o Santos como apelido. Nunca lhe falta vinho ou tema de conversa e as poucas mesas de madeira já gasta estão sempre cheias com os homens lá da terra.

- Oh, Maria das Dores, dá aí mais um pastel!

Ela chama-se mesmo Maria das Dores. Confirmado no registo civil. Que se saiba não anda por aí aos gritinhos e queixumes. Mas também se sabe que a irmã dela não é Isabel da Maria das Dores. Tirando o primeiro nome, é tudo herdado da irmã. E tudo culpa da pequena Isabel que tinha a mania de andar agarrada às saias da Maria das Dores para todo o lado.

As duas têm pavor do General. Ou da General, como quiserem. É assim que a menina Ermelinda é conhecida. Senhora professora, metro e meio de altura, régua de madeira como melhor amiga. É conhecida como General, mas nem sonha que é assim que a chamam. Por aqui também há segredos.

Por aqui, quando se ouve chamar alguém, é provável que não seja o nome que aparece no bilhete de identidade.

- Bom dia, Júlio Carteiro. Novidades?

Júlio é carteiro de profissão e Silva de registo, mas são pormenores que quase ninguém conhece. E que pouco ou nada interessam.

Existem tios sem sobrinhos, avós emprestadas, irmãs que dão sobrenomes aos mais novos, profissões que se transformam em apelidos, brincadeiras de miúdos que crescem até à idade adulta. Há um sem fim de histórias em cada um desses nomes. Algumas bem antigas. Outras bem tristes.

Lá pela terra, o nome que se ouve diz mais do que o que consta nos registos oficiais. Diz-me como te chamas e eu posso muito bem dizer-te quem és.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Meio sustento

Já diziam os antigos que uma fogueira era meio sustento. Duas era sustento por inteiro. Ninguém sabe mais destas coisas do que os antigos que sustentavam-se com o pouco que havia e que chegava para todos.

Não vamos contestar quem leva anos de experiência nisto. 



É o conforto da casa quente nas noites que começam a arrefecer. O que noutra vida era quase meio de sobrevivência. Na altura em que as telhas estavam à vista de todos e o frio entrava sem pedir autorização. As paredes largas não chegavam como aconchego e a sala onde todos dormiam não era pequena o suficiente. Não aquecia.

Era a fogueira que dava vida. Feita no meio da sala com os restos do que ardia na rua. Uma família inteira sentada à volta das brasas, a aquecer as mãos enquanto se remendavam as meias e se contavam meia dúzia de histórias. O garrafão do vinho pousado ao lado do banco. Era só mais uma noite, mais um dia. 

Mesmo nas alturas mais quentes acendia-se o fogo. Para cozinhar. A panela em cima das brasas e a sopa a borbulhar até ficar no ponto. A lareira era tão grande que um homem cabia lá dentro sem se curvar.

Era sustento. Mesmo que fosse só meio. Era melhor que nada.



domingo, 1 de novembro de 2015

Onde foste?

Estamos na altura dos Santos. Fui à feira.


As tendas estão montadas e os pregões ensaiados. 

- Mais uma voltinha!

Só mais uma. Mais uma moeda e uma viagem na chávena ou nos carrinhos de choque. Os pais esperam e alguns desesperam enquanto os miúdos sobem e descem das diversões sem mostrar cansaço. A feira está quase a acabar, não há tempo a perder.

As cestas vão enchendo. Um saco de castanhas que são das boas e o São Martinho não tarda está aí. Maçãs, clementinas e mais umas romãs. Agora já parece Outono.

- Escolha-me aí um quilo de nozes. Veja lá se são boas.

Juram que se não forem vão reclamar. Amanhã, quando da feira só sobrarem as caixas vazias e os papeis pelo chão. Até lá há tempo para regatear e escolher o que parece melhor.



É o casaco da moda e a camisola quentinha. As ruas começam a encher e as pessoas vão deitando olho. Nunca se sabe do que é que se precisa e o que é que se quer. É melhor aproveitar enquanto as tendas ainda estão montadas e as nuvens só ameaçam chuva.

Há fumo no ar. Cheira a castanha assada e as farturas estão a sair do óleo. 

- São cinco para levar.

- Oh freguesa, leve sete que paga o mesmo!



 

Voltamos para o ano, se Deus quiser e os santos ajudarem.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Betadine e Água Oxigenada

Tinha muitos arranhões e nódoas negras. Demasiados. Se fosse hoje era possível que a competência dos meus pais fosse alvo de dúvida, mas eles não tinham a culpa de ter uma filha arraçada de Tarzan e com constantes ataques de bichos-carpinteiro.

Naquela altura, que eu me lembre, as bicicletas não tinham travões. Pelo menos, eu fingia que não tinham. Só me lembrava deles quando queria fazer uma manobra qualquer. Uma manobra tão espectacular que era provável que acabasse comigo a saltar por cima da bicicleta. Os meus joelhos eram amigos próximos da estrada mal alcatroada. Depois lá ia eu para casa. Bicicleta na mão, lágrima no olho e joelho feito num oito. Estava de volta no dia seguinte. Eu e todos os outros miúdos. Ali ninguém era melhor que ninguém. Fazíamos todos o mesmo. Uns com mais sucesso do que outros.


Tínhamos por hábito subir a árvores e fugir de casa. A última parte é mentira. Tínhamos o hábito de achar que enganávamos alguém quando nos escondíamos num terreno qualquer. Anos mais tarde percebemos que os nossos risos ouviam-se à distância. Nós é que tínhamos tendência para ficar surdos quando nos chamavam para jantar, tomar banho ou dar um beijinho à avó que estava à nossa espera. Muito esperavam as avós naquela altura.

Éramos os donos do nosso mundo. Sempre de cabeça levantada e peito cheio. De joelhos em sangue e cara vermelha de tanto correr. Havia sempre tempo para mais uma corrida. Mesmo quando já era noite escura. Lá íamos nós: rua abaixo e de volta para cima a seguir.

Caíamos todos os dias. Ou quase. Betadine, água oxigenada, penso rápido. Estávamos prontos outra vez.

Ficaram as marcas das quedas e dos curativos. Disfarçadas pelo tempo e cada qual com a sua história. A vez em que só existia o travão da frente ou a outra em que se jurou que o ramo da árvore aguentava.

Acreditávamos que íamos conquistar o mundo. Cabeça cheia de sonhos e sorriso colado na cara. Mesmo quando a água oxigenada ardia nas feridas.




quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Onde é que vais?

Está quase aí. Mais um dia e estão todos a caminho. Já está tudo pronto à porta de casa. E lá vão rezando para que o tempo dê tréguas. Se não der é preciso ter força para enfrentar o pior dos temporais.

A cesta vai à cabeça. Uma daquelas grandes para trazer o avio todo que se quer. O peso não é problema que o equilíbrio está treinado e a sogra* aguenta.

Em dias de festa é escolher o lenço bonito. Aquele florido que está guardado com o maior dos cuidados.

Quando chegar o dia, é vê-los a sair de manhã cedo. Ainda o sol mal nasceu e já se ouvem os passos na estrada. Vão em grupos, cantarolando a última modinha. Fazem o caminho a pé. Sem medo ou desistências que a festa não chega todos os dias e é preciso aproveitar.

No saco ainda vai um chouriço e um bocado de pão para aconchegar o estômago a meio caminho. O canivete está sempre pronto.


Vamos à feira. Que os santos estejam todos por nós.



* a sogra ou rodilha era feita de tecido e era usada em cima da cabeça para apoiar a cesta que as mulheres levavam à cabeça. Assim era mais fácil suportar o peso.