terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O repolho da sala de jantar

Lá estava ele no centro da mesa da sala de jantar dos avós. Verde, com folhas viçosas e tão brilhante que quase que nos feria a vista. Provavelmente tinha sido oferecido por algum filho que, tentado por outras modas e modernices, achava que aquele repolho já não ficava bem em cima dos móveis lá de casa. O seu destino, como era de esperar, era a casa dos avós.

Todas as casas tinham um repolho daqueles. Em cima da mesa de casa de jantar, a enfeitar a cristaleira ou em cima do móvel da cozinha. Na versão repolho, couve-flor ou qualquer outro legume que fosse aparecendo.

O engraçado é que nunca me lembro de ver o tal do repolho cumprir as funções que lhe eram destinadas. Havia repolhos de enfeitar ou repolhos que serviam para guardam tudo o que não se sabia por onde andava, mas não me lembro de ver repolhos cheios de sopa como era suposto. Talvez porque nunca se sabia onde estava a concha que tinha vindo com o tal do repolho.

Era uma concha branca que, a julgar pelo buraco na tampa, devia ficar com o cabo espetado do lado de fora do dito legume. Mas nunca ficava. Muitas vezes desaparecia sem ninguém se aperceber que alguma vez tinha existido, mas na maior parte das vezes acabava partida no chão. Porque é certo que aquilo era um repolho, mas era tão frágil que não resistia às investidas dos filhos e netos que achavam que aquele era o brinquedo que lhes faltava ou que era ali que estavam aquelas pilhas que ninguém conseguia encontrar.


Com o passar do tempo, desapareceram os repolhos. Danificados pelas mãos menos habilidosas dos mais novos ou já sem graça porque ninguém tinha paciência para olhar para o mesmo objecto durante tantos anos seguidos. Agora, os netos e filhos que brincaram com a decoração da casa andam à procura deles outra vez. É vintage, como tudo o resto que anda por aí a voltar.

Para mim era um poço sem fundo, onde encontrava papeis cheios de letras que eu não percebia, as pilhas para as minhas bonecas ou uns botões que ninguém sabia a que casaco pertencia. Não sei se eram essas as funções que o Bordalo Pinheiro tinha pensado para o dito do repolho, mas a verdade é que ele era muito eficiente a cumpri-las.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Feitiozinho

- Olá, como vai a família?

Na aldeia a proximidade é maior, os limites mais ténues. a casa de um entra na do outro porque, em tempos que já lá vão, as divisões entre irmãos não obedeciam a leis ou rigor técnico. Era de todos, dividido às cegas.

- É nosso.

Tal como um casamento. O que é meu, é teu. Até ao fim da vida. Ou até que um se chateia com o outro e, entre impropérios que não devem ser repetidos, o divórcio entra em litigioso antes de qualquer tentativa de salvação. 

- Já se sabe como eles são.

Sabe-se sempre. Quando não se sabe, inventa-se que também serve.

A vida em comunidade não é mais verdadeira do que aqui. Onde se sabe a história dos trisavós e onde a cada duas portas mora um primo que nem se sabia que o era.  Onde a memória dura mais do que a verdade. Aliás, a verdade é relativa.

- É tal e qual a mãe.

São sempre tão e qual alguém. Mesmo que não sejam. Para o bem e para o mal. O que é preciso é que justifique o que é preciso justificar.

- E um raminho de salsa, tem?

Salsa ou coentros, abóbora ou umas couves daquelas bem verdes. Há de tudo um pouco e mais qualquer coisa que não se vai precisar. O bom, o mau e o assim-assim.

O olhar para o lado só para confirmar se as flores dos outros são mais bonitas do que as próprias. Pode lá ser uma coisa dessas?

Não é, é de outra maneira qualquer. Mais intensa, mais escondida, mais verdadeira. Mais outra coisa qualquer. 

Tudo depende do momento, do dia, do lado onde sopra o vento.

- Feitiozinho!

- Do pior. Sai à mãe!

Ou a avó. Ou até ao tetravô que não se sabe bem quem foi. O que interessa é que sai a alguém.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Levas uma maquia

Juntavam-se num qualquer degrau ou esquina, enroladas numas mantas quentes ou nuns lenços escuros e tinham conversa para dias inteiros. Não fosse a sopa ao lume, o feijão de molho ou o homem que estava quase a chegar e lá ficavam elas a saltitar de conversa em conversa sem nunca abandonar os seus lugares.

Viam o sol subir e a aldeia a ganhar fôlego. O grupo de miúdas que passava com risos meio escondidos e uma voz um bocadinho mais alta do que era suposto.

 - Não há nada que alumie estas almas – diziam elas, as que ficavam à esquina. Mais velhas e criadas sobre outras regras e bons costumes que não incluíam licença para falar mais do que o estritamente necessário.

 Não entravam na taberna que isso era território dos homens e mulher decente não entrava lá. O ambiente pouco próprio, o cheiro a vinho, a desgraça alheia e a própria.

 - Oh Manel, vai lá ver se o teu pai anda pela taberna – e lá ia o miúdo, lingrinhas e esperto, a correr rua abaixo em direcção à casa escura e a cheirar a destilaria, à procura do homem da casa que já devia ter despegado do campo, mas que não dera sinal de vida.

Elas ficavam, sentadas no degrau da casa a fingir que arranjavam favas ou ervilhas, e falavam do que sabiam e do que não sabiam. Da vida da vizinha e da filha do outro que veio da cidade e não sabia estar com as regras mandavam. As regras que só elas e as pessoas que viviam naquele pedaço de terra conheciam. As meninas não andam sozinhas, não falam com os homens, não andam em gargalhadas. As meninas a sério, das que se querem para casar, sabem ser o mais invisíveis possível e viver caladas na desgraça que pode ser a vida.

 - Vou mas é terminar o jantar – e lá voltava ela para o lume e a sopa, para o feijão a demolhar e a roupa que era preciso arranjar.

A conversa podia esperar, o marido é que não podia chegar a casa sem que ela já estivesse por lá. De repente, lá entrava o miúdo pela casa dentro, sem pedir licença ou fazer-se avisar.

- O pai não está na taberna.

E crescia a preocupação nela, num sofrimento que era ponto assente na sua vida. O sol que já mal se via, a sopa que já estava pronta e o homem que não tinha meio de entrar em casa.

O barulho do copo a partir-se no chão devolve-a à realidade em que o filho, a sofrer de bichos-carpinteiros, foi parar ao chão com um copo partido ao lado e um joelho feito num belo oito.

 - Tu mete-te com juízo ou levas uma maquia tão grande que voltas a baldear.

O miúdo calou-se, não fosse a coisa sobrar para seu lado e baldear a sério com uma maquia daquelas que ele bem conhecia. Só se ouvia a sopa a borbulhar no lume enquanto se esperava que a porta desse entrada ao homem da casa.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Arroz Doce e Coscorões

Os pratos do almoço ainda estão em cima da mesa quando se começa a ouvir a algazarra. Sem direito a aviso, os miúdos invadem a rua com os seus risos e passos apressados. Tempo é dinheiro e é preciso despachar, há muito mais à espera. 

São uns dez. Todos a tentar equilibrar um prato muito bem tapado com um pano daqueles bonitos. Com alguma sorte ainda é um dos que têm um picot à volta, feito com todo o rigor e dedicação que o trabalho merece. 

Lá vem um a descer a rua a correr. Traz o prato vazio debaixo do braço e o pano dobrado em quatro com todo os cuidados. Está pronto para a próxima ronda. Pisca o olho aos colegas em ar de provocação e segue caminho. Ouvem-se gritos de protesto. Uns risos logo a seguir. Toca a apressar mais o passo ou perde-se o negócio. 

- Eu fico por aqui. 

Batem à porta e esperam. Do outro lado ouvem-se passos. Assim que a porta abre entregam o prato ao destinatário sem hesitar. 

- Então e quem é que se casa? 


E eles, com o recado na ponta da língua, explicam o que os traz por ali e quem os mandou. O arroz-doce é passado para um novo prato, com todos os cuidados para não partir, e os coscorões são guardados. 

- Não há arroz doce como o dos casamentos – comentam os da casa enquanto provam o que ficou agarrado aos dedos e procuram a carteira. 

Uma nota para os noivos e umas moedas para o miúdo que as guarda no bolso. Mete o prato já lavado debaixo do braço, arruma o pano e despede-se apressado que ainda há muita entrega para fazer. Assim que chega à porta é vê-lo a correr rua fora.

Já não me lembro da última vez que os vi a encher as ruas de prato na mão. Ou a contar o dinheiro ao final do dia. Já não se anuncia casamentos assim. Com direito a arroz-doce e coscorões. Hoje, nem a travessa chega a casa da madrinha da noiva. 

- Mudam-se os tempos – ouve-se dizer num suspiro saudosista.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Dura uma semana

O sol ainda não tinha nascido é já se ouvia as mulheres a amassar a massa. O alguidar de barro batia contra o balcão e ouvia-se o arfar cansado de quem amassava há mais de duas horas. 

O ar cheirava a massa a repousar debaixo dos cobertores pesados, não faltava muito para passar a óleo quente, açúcar e canela. O Natal estava aí e os velhozes e coscorões estavam quase prontos.

Lá andavam os miúdos. Rua acima e rua abaixo. Em grupos de quatro ou cinco. Desde dos mais novos aos que já deviam ter ganho algum juízo com a idade. Algumas tradições não deixavam espaço para a lucidez. 

O dia começava cedo para todos. Eles batiam os pés e esfregavam as mãos para aquecer. Mais um copo de três antes de começar a ronda e o frio de Dezembro já estava esquecido. Faziam-se à estrada a pé ou empoleirados em carroças. O destino estava decidido, como chegavam lá era pouco importante.

Corriam as estradas e entravam pelos portões sem pedir autorização. Do outro lado das janelas havia quem os seguisse sem se fazer notar. E lá iam eles portão fora outra vez. O resultado do roubo na carroça e mais uns quantos a correr rua abaixo até à próxima paragem.

Juntavam-se troncos e raízes. Árvores que estavam caídas e outras que já tinham visto melhores dias. Não se pedia autorização para entrar nem para encher a carroça. A tradição era que fosse feito pela calada, mesmo que toda gente soubesse o que se passava.

Quando a noite começava a cair, encontravam-se todos no sítio do costume. A velha praça. Troncos ao centro e lenha miúda para atear. Era ver pegar fogo e ficar até se querer. 

Era a noites antes do Natal, a fogueira estava a arder com a lenha roubada neste e naquele terreno. A noite ia ser longa e toda gente ia parar por ali antes de se darem as festividades por fechadas. Assavam o chouriço e o toucinho, alguém trazia pão acabado de cozer e um prato de velhozes. Fazia-se o Natal ali, fora de portas e sem prendas. Com conversa e o calor da fogueira de Natal que resistia às dificuldades e ao tempo.

A fogueira ia arder até que entrasse o novo ano. Que viesse melhor do que este, era o que se esperava. Nem sempre se cumpria. Mas a tradição voltava. Pelo menos naquele tempo.



domingo, 20 de dezembro de 2015

Está zero a zero

Ouvem-se as vozes exaltadas e uma enxurrada de impropérios que visam única e exclusivamente a mão do senhor que está vestido de preto no meio das duas equipas. Pobre coitada, soubesse ela onde é que o filho se ia meter, mas uma pessoas não pode adivinhar.

- Olhe lá, quantos estão?

- Zero a zero e não ganha ninguém. Pelo menos por agora, mas isto ainda nem chegou a meio.

O campo está longe das relvas que se vê na televisão. Pó de pedra, daquele fino que salta assim que dão um pontapé na bola. Vinte e dois em campo, mais os três que ouvem comentários pouco próprios sobre quem os trouxe ao mundo.

Cá fora o jogo é outro. É a mãe que vem ver o filho jogar. Junta-se a nora e os netos, a amiga e a vizinha. e o resto da terra, ninguém fica em casa em dias destes. Ficam todos ali de pé durante uma tarde inteira. Parece um ritual cumprido à risca, vai toda gente ver a bola.

Os assadores estão a fazer brasa e no bar vão saindo minis para os mais velhos e garrafas de Sumol para os mais novos.

- Não vás correr para aí que ainda te magoas.

Ouvem-se os gritos das mães. Estão de pé, encostadas ao muro do campo e com os casacos dos miúdos dobrados no braço. Fala-se de tudo, deita-se um olho ao jogo, outro ao Zé que nem se sabe bem como, escorregou e esfolou a mão e o joelho.

- GOLO!

E pára o mundo. Não há quedas nem feridas ou árbitro que roube a alegria. É golo e é dos nossos. Faz-se a festa e os jogadores gritam. Não ganham nada com isto. Nada além de nódoas negras, cansaço e, nos dias mais complicados, uma visita às urgências do hospital. Mas vibram como se isto fosse o seu sustento.

É golo. É para festejar.

Bola ao centro e os couratos a assar. Cheira a gordura a fritar no assador de chapa e começam a sair os primeiros pães.

- Para a semana, o jogo é cá ou fora?

Vamos a pé ou de carro? Ou vai tudo de autocarro para fazer a festa no caminho? Seja qual for o resultado. Vamos todos.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Assim que chega ao frio

Era mesmo ali no fim de Novembro. Dezembro a espreitar e já um frio considerável na rua. Casacos quentes e manhãs de nevoeiro. Daquele nevoeiro tão cerrado que se podia esperar a chegada de D. Sebastião a qualquer momento.

Já cheirava a Natal. Cheirava a frio, a lareiras acesas em quase todas as casas e mantas quentinhas à nossa espera no sofá. Tínhamos por certo que as férias estavam a bater à porta.

Mas o Natal só chegava quando, ao acordar de manhã, a árvore já estava à nossa espera. Verde, gorda e a sujar a casa toda com resina. Árvores a sério. Daquelas que picam e que cheiram a verde e a natureza. Que cheiram a Natal.



O Natal começava quando ele saía cedo de casa. Casaco abotoado até cima e lá ia ele. Voltava já perto da hora de almoço. Às costas trazia dois pinheiros.

- Um para a tua casa e outra para aqui - dizia assim que chegava numa lengalenga repetida ano após ano.

Era ali que começava o Natal. Nos dois pinheiros deitados no chão. Mais redondos do que os desenhos que se fazia na escola e com um cheiro que enchia tudo à sua volta. Dois vasos cheios de areia e revestidos a papel de embrulho estavam preparados para os receber. Os sacos cheios de fitas e bolas de todas as cores e feitios saíam dos armários.

Estava nevoeiro e ameaçava chuva. Os casacos estavam abotoados e os cachecóis ficavam tão enrolados que só deixavam os olhos à vista. Os pinheiros, com direito a resina pelo chão, estavam preparados para a festividade e o ar cheirava a Natal. Uma mistura que ainda levava canela e fumo da lareira.

Era assim que começava o Natal quando eu tinha pouco mais de um metro de altura e o cabelo à Beatriz Costa. Com dois pinheiros apanhados de propósito para mim.