quinta-feira, 12 de maio de 2016

De pequenino

A pobreza é uma coisa que já se dá por garantida. Poucos são aqueles que têm mais do que o mínimo para sobreviver e a maior parte trabalha de sol a sol para comprar farinha para cozer pão. 

Os filhos aparecem quando Deus assim entende e o pouco que há estica mais um bocadinho. Depois aparece a má sorte que leva um ou outro. Não há família que não tenha conhecido a dor de enterrar aqueles que não tiveram tempo de crescer. 

O dinheiro não se multiplica da mesma maneira que os filhos vão aparecendo, é preciso ginástica e imaginação. Uma sardinha alimenta quatro bocas, uma sopa serve de refeição completa. A vida não é fácil, mas é o que se tem. 

São os caçulas que têm a sorte de conhecer os bancos da escola. Enquanto os mais velhos trabalham no que aparece, os mais novos aprendem a somar quando o que mais fazem é subtrair e escrevem o nome que poucas vezes assinam. Se a coisa correr bem, fazem a quarta classe, depois disso a escola está reservada aos mais afortunados. 

Um dia chegam a casa e, sem que nada o fizesse prever, são avisados do fim. 

- Amanhã já não vais à escola. 

A sentença foi lida sem direito a recurso. Não há discussão possível nem tentativa de ganhar mais um dia. Arrumam-se os sonhos e acorda-se para a vida adulta. Seja lá o que for que ela lhes reserva. 

Não se pergunta pelo trabalho. Há sempre um capataz à procura de alguém. Não importa a idade, ali há lugar para todos. Os que ainda não têm corpos de adulto também têm o que fazer. Está a chegar a época das plantações e é preciso apanhar a pedra que anda pelos campos. Há uma família abastada que precisa de uma criada de servir. 

- Tem de ser. 

De manhã, é ver os mais pequenos a caminharem descalços em direcção oposta à escola. São mais uns trocados que entram em casa e que pagam a conta que se ficou a dever na loja. 

A vida não é fácil, mas é de pequenino que se começa a perceber como ela é.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Peregrinação da Espiga

Hoje não se trabalha: é dia da espiga. Não há convite nem confirmação prévia, mas todos sabem que é dia de piquenique. Faça sol ou prometa chuva. 

Saem todos à rua, miúdos e graúdos. De cesta aviada com o farnel bem tapado com panos grossos e a manta aconchegada debaixo do braço. Há um ou outro garrafão para aquecer as almas. Fazem o caminho a pé, com cantorias e conversas, até ao campo que todos os anos os acolhe. 

Lá estão as sombras que lhes dão abrigo e o tanque onde se tomam uns banhos, se o tempo o permitir. 

Esticam as mantas assim que chegam. As mulheres, de olho nos miúdos que improvisam um jogo de futebol, deixam-se ficar na conversa. Por aqui e por ali, há quem se perda numa jogatana de cartas cheias de vincos. 

- Goooooolo! 

Conversas trocadas, gargalhadas, correrias e gritos de vitória. 

- Ó Gertrudes, mas tu sabias disto? 

- Opah, não podes jogar isso. 

O mundo parou naquele momento de descanso. 

Chega a hora de almoço e o farnel espalha-se pelas mantas dos convivas. Pastéis de bacalhau e frango assado no forno. Pão amassado à mão e bolacha maria. O que há é dividido por todos, sem restrições. O pouco que se tem, chega sempre para mais um. 

O dia não acaba sem um último passeio à procura da espiga. Oliveira e nespereira. Papoilas e malmequeres. Rosmaninho e espiga. Tudo contado como manda a tradição e transformado num ramo bem apertado com uma guita. Tem de durar até ao próximo ano. 

A vida é simples. É feita de certezas que não se marcam, de uma união que não é programada. 

- Até para o ano, se Deus quiser!

terça-feira, 26 de abril de 2016

O que nos move

Pai-nosso que estais no céu. 

Cheira a cera derretida e ouve-se o crepitar das velas que ainda ardem. Está frio, um desconforto que conforta quem procura aquela casa em busca de um alento que não encontra noutro lado. 

Elas cobrem a cabeça com o lenço de renda, delicado e tratado com o maior dos cuidados. Eles tiram o boné em sinal de respeito. Todos ajoelham em frente ao altar e fazem o sinal da cruz de cabeça baixa e a olhar o chão. 

Ouvem-se os murmúrios de rezas e de conversas trocadas. É a fé que move esta gente. Que reza antes de deitar e sempre que o coração pede. De joelhos, com o terço na mão, a correr o rosário que já se sabe de cor. 

Rogai por nós. 

Uma vida de culpa e remissão, uma confissão perpétua de pecados. A fé, a bíblia e Deus. Os sacramentos do santíssimo, a bênção do santo padre. 

Casam e baptizam os filhos. Vestem de festa no dia da comunhão. Acedem uma vela ou duas com pedidos de auxílio e de protecção. Aceitam o corpo de Deus que sacrificou o próprio filho para os salvar. 

Deus só nos dá aquilo que conseguimos aguentar.

É a certeza que Ele está lá, a ouvir, que os faz levantar no dia seguinte. Todos os dias que enfrentam fazem parte do plano que Deus guardou para eles. Batem com a mão no peito. 

Por minha culpa, minha tão grande culpa. 

Vem o domingo de ramos e a quarta-feira de cinzas. A Páscoa e a missa do Galo. As peregrinações a Fátima que deixam os pés em bolha e o cumprir promessas de joelhos no sítio onde Nossa Senhora se apresentou aos pastorinhos que a esperavam. 

É a fé que nos move na certeza de que Deus tem um plano superior para nós e que nada falha os seus desígnios. A espera pelo descanso divino quando Ele decidir levar-nos.

Perdoai-nos Senhor.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O ar do forno

Há uma bola de massa crua que tanto repousou durante uma semana que se transformou em fermento. A superfície ficou seca e áspera, o interior mole como quando foi guardada. Amanhã vem outra para o seu lugar. Hoje mistura-se esta com parte da farinha. 

Vai-se buscar o alguidar de barro já partido e marcado de tanto trabalho. Deita-se parte da farinha e a bola de uma semana e mistura-se num piscar de olhos. Sem grande ciência ou tempo a perder. Misturar e deixar repousar. 

O maior segredo é sempre uma junção de persistência com paciência. 

Quando o novo dia nasce, encontra o forno a aquecer. Ramos finos que vão queimando no forno de pedra que alimenta uma família e quem mais precisar. Fecha-se a porta e deixa-se o ar do forno chegar onde queremos que chegue. 


A massa está a descansar. Foi amassada até a respiração ficar pesada e os braços começarem a doer. De lenço na cabeça e bata já gasta, a mulher deu tudo por tudo para transformar a farinha em pão do bom. Até a massa chegar ao ponto. 

Depois, quando já repousou o que tinha a repousar e quando o fogo já chegou onde devia chegar, é cortar a massa à mão e moldar o pão com direito a bênção e oração. As mãos brancas da farinha formam pães e roscas para dar aos mais pequenos. Uma bola de massa crua fica a repousar para a semana seguinte que esta vida é feita de rotinas. Outras levam chouriço daquele que tinha ficado a secar na chaminé lá de casa.

Depois é esperar. A massa vai crescendo no forno. Já se adivinha a manteiga a derreter e o vapor do pão quente a queimar-nos a pele.

Começa a cheirar a pão quente e já se adivinha o pão estaladiço por fora e o interior branco e macio.  Para aproveitar o forno que ainda está quente, prepara-se um tabuleiro de sardinhas regadas a azeite e temperadas com cebola. 

Sai o pão a escaldar e entra o tabuleiro com o almoço. As rotinas cumpridas com o rigor que passa de geração para geração.

Parte-se o pão sem cerimónia nem faca. À mão. Meter faca em pão quente é tirar a força a quem o amassou e isso é coisa que não se quer. Daqui a uma semana começa tudo outra vez e não são corpos fracos que conseguem fazer pão. 

Não há nada que se compare à memória do cheiro a pão quente a encher a casa. A manteiga a escorrer pelas mãos e o sabor do pão amassado com a força de quem alimenta os que são seus. 

Parte-se quente, à mão e ficamos à espera que passe a semana.

terça-feira, 15 de março de 2016

O esquecimento

Há uma calma na vida fora da cidade. O silêncio é mais real. As fronteiras mais ténues. Não é por mal, é por hábito. Vem do tempo em que a chave ficava do lado de fora da porta. Quando, por muito pouco que houvesse na mesa, chegava sempre para mais um. 

Ouvem-se conversas, fala-se da vizinha. Esconde-se a vida num sítio onde todos sabem de todos, mas ninguém sabe de ninguém. É por isso que alguns fogem. Dizem que não interessa, que é pequeno demais para eles. Que falta horizonte.

Com o tempo as ruas ficam vazias, as portas fecham-se com duas voltas da chave e o silêncio lá dentro, as paredes começam a ruir. Fica a solidão. Os filhos partiram para a cidade, os netos não sabem o nome daquela terra. 

Voltam no Verão ou no Natal. Com sorte, conseguem aparecer num domingo perdido durante o ano para almoçar e voltar a fugir para longe daquele fim do mundo como lhe chamam. É só o tempo de almoçar contado ao segundo.

Ficam os mais velhos que se recusam a deixar para trás o pouco que ainda é seu.  Nada os demove da sua decisão. Aquele é o seu canto.

É escolher a nacional em detrimento da auto-estrada. Cortar pelas estradas mais estreitas e esburacadas. Descobrir o mundo que se esqueceu. As casas que caem. Os mais velhos a cumprirem as suas rotinas e a caminhar à beira da estrada sem tremer com a passagem dos carros que nem os vêem. 

Há um desapego para com o interior. Um desapego de quem vai e demora a voltar. Que com o tempo se esquece dos caminhos que chegaram a ser seus. 

Lá dentro, naquelas ruas esburacadas, há uma entrega à vida que não se consegue explicar. Uma força que acompanha até aqueles que parecem mais fracos. Uma vida cheia que a maior parte acha impossível de existir.

É na mesa do café mais antigo, aquele que nunca teria direito a aparecer em roteiros turísticos, que se contam as melhores histórias. Ali, entre cadeiras que se desfazem e balcões antigos, o passado torna-se presente. As histórias correm umas a seguir às outras sobre um tempo que não é nosso. 

O interior, aquele pedaço de terra com casas a cair, pode surpreender. Se nos apaixonarmos por ele descobrimos que a vida de quem tem rotinas de trabalho desde da infância é tão importante e tão cheia como a de quem acha que o sentido da vida está na indiferença dos prédios iguais. 

sábado, 5 de março de 2016

Água e Hortelã

Para lá do portão feito à mão com tábuas que sobravam disto e daquilo, ou do sítio onde devia estar um portão para o qual o dinheiro não chegava, há um outro mundo onde o trabalho começa antes do sol nascer. Seja dia de temporal ou haja aviso de seca.

A terra castanha e enlameada é trabalhada até estar pronta para receber as sementes e as regas. Um quadrado de terreno não pode ser desperdiçado. Antes pouco do que nada, que o pouco ainda alimenta e o nada deixa-nos de estômago vazio.

Homens de enxada às costas e mulheres com baldes à cabeça. O dia começa cedo. Trabalham na horta de casa, antes de partirem em romaria para os terrenos dos senhores, que lavram até ser noite. Os homens de boné e calças grossas. As mulheres de avental e lenço enrolado na cabeça. Eles de enxada. Elas de cesta à cabeça. Tal como em casa. 

É naquele terreno que chamam de seu, por muito ou pouco que desse, que se tira parte do sustento para a família. Não há dinheiro para gastar naquilo que se pode poupar. O descanso só vem nos dias santos. Nos dias que pertencem à fé não se trabalha que é assim que manda a tradição. Por respeito. 

Planta-se tudo o que o terreno permitir. Medem-se os canteiros ao milímetro. Guita de um lado ao outro e o rigor das medições de esquadro e régua feitas pelo olho treinado de quem faz aquilo desde que nasceu. Quando a horta começa a rebentar a obra de arte aparece em todo o seu esplendor. 

O feijão-verde trepa pelas canas que estão espetadas na terra. As batatas começam a florir. O tomate vai espreitando, vermelho e gordo, debaixo das folhas verdes e viçosas. 

E chega a época da colheita. De revirar as terras e colher o fruto do trabalho e da espera de tantos meses. Os barracões ficam cheios de batatas. Dos tectos pendem cachos de cebolas entrelaçadas umas nas outras. Apanha-se a couve para juntar às misturadas que iam alimentar a família naquela noite. E na outra a seguir. .

Que Deus nos dê água e um tranquinho de hortelã, a horta mata a fome de quem a semeia.




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O repolho da sala de jantar

Lá estava ele no centro da mesa da sala de jantar dos avós. Verde, com folhas viçosas e tão brilhante que quase que nos feria a vista. Provavelmente tinha sido oferecido por algum filho que, tentado por outras modas e modernices, achava que aquele repolho já não ficava bem em cima dos móveis lá de casa. O seu destino, como era de esperar, era a casa dos avós.

Todas as casas tinham um repolho daqueles. Em cima da mesa de casa de jantar, a enfeitar a cristaleira ou em cima do móvel da cozinha. Na versão repolho, couve-flor ou qualquer outro legume que fosse aparecendo.

O engraçado é que nunca me lembro de ver o tal do repolho cumprir as funções que lhe eram destinadas. Havia repolhos de enfeitar ou repolhos que serviam para guardam tudo o que não se sabia por onde andava, mas não me lembro de ver repolhos cheios de sopa como era suposto. Talvez porque nunca se sabia onde estava a concha que tinha vindo com o tal do repolho.

Era uma concha branca que, a julgar pelo buraco na tampa, devia ficar com o cabo espetado do lado de fora do dito legume. Mas nunca ficava. Muitas vezes desaparecia sem ninguém se aperceber que alguma vez tinha existido, mas na maior parte das vezes acabava partida no chão. Porque é certo que aquilo era um repolho, mas era tão frágil que não resistia às investidas dos filhos e netos que achavam que aquele era o brinquedo que lhes faltava ou que era ali que estavam aquelas pilhas que ninguém conseguia encontrar.


Com o passar do tempo, desapareceram os repolhos. Danificados pelas mãos menos habilidosas dos mais novos ou já sem graça porque ninguém tinha paciência para olhar para o mesmo objecto durante tantos anos seguidos. Agora, os netos e filhos que brincaram com a decoração da casa andam à procura deles outra vez. É vintage, como tudo o resto que anda por aí a voltar.

Para mim era um poço sem fundo, onde encontrava papeis cheios de letras que eu não percebia, as pilhas para as minhas bonecas ou uns botões que ninguém sabia a que casaco pertencia. Não sei se eram essas as funções que o Bordalo Pinheiro tinha pensado para o dito do repolho, mas a verdade é que ele era muito eficiente a cumpri-las.