quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A Paixão

Faz-se a vida como é suposto. Foi assim que um dia, alguém disse que tinha de ser. Sem discussão. 

Ouvem-se os sinais de missa. Veste-se o melhor fato, aperta-se o botão junto ao pescoço e veste-se um casaquinho. Elas cobrem a cabeça com um lenço de renda, eles tiram o boné assim que entram em terreno sagrado. 

São os baptizados e as comunhões, os crismas e as profissões de fé. O Manel que dá a alegria à família e segue para o seminário. A Laurinda que só muda de casa vestida de branco e abençoada pelo santo Padre. 

São os mais novos que servem na igreja. A reza que é feita de olhos no chão. As velas que se vão gastando. A Quarta-feira de cinzas e o Domingo de ramos. A missa do Galo para abençoar o Natal, o jejum da quaresma. Não se come carne à sexta, não se cai em tentação. 

A confissão feita de joelhos num desfiar de pecados que não são mais do que a vida tal como ela é. Vinte avé-marias para limpar as culpas e o terço rezado antes de deitar. 

A extrema-unção para os acompanhar na vida eterna e abençoar a partida para o outro mundo onde nos espera quem já não está connosco. A luz que nos recebe, que nos perdoa dos pecados e nos torna merecedores da protecção divina. 

Que o Senhor vos acompanhe.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As férias dos Senhores

A praia era destino de férias para quem não tinha vida difícil todo o ano. Para quem se levantava de manhã e encontrava a mesa do pequeno-almoço pronta, os vestidos engomados e a casa a cheirar a pão quente. Como se tudo acontecesse com o estalar de dedos. 

Para os senhores, as senhoras, as meninas e alguns doutores, as férias de Verão faziam-se à beira-mar. Para cuidar das dores nos ossos, para melhorar a circulação, para que as meninas respirassem melhor. As maleitas de um ano inteiro atenuavam-se naquelas semanas com vista para o mar sem fim. 

Com eles iam as criadas, as que nem nas férias tinham direito a descanso. Mudavam de casa, de ares, mas nunca de obrigações e deveres. Só o cheiro a maresia as fazia acreditar que os dias não eram exactamente iguais aos outros todos.

Tinham os mesmos deveres. A cozinha era o seu espaço, a lide da casa a sua obrigação. Tal como todos os outros dias. 

Quando o relógio marcava a hora, lá iam elas. Vestidas como todos os dias, de farda e avental engomado, lenço apertado e o cesto com o almoço equilibrado em cima da sogra que lhes protegia a cabeça. Iam descalças pela areia até chegar aos senhores que esperavam o repasto. 

- Oh menino, venha para aqui. 

Gritavam para os mais pequenos que corriam à beira-mar e teimavam em não voltar. 

Preparavam a mesa para os senhores e para os meninos. Almoçavam ali, com o mar a bater lá ao fundo, a areia a fazer cócegas nos pés e o sol a queimar a pele. A família protegida debaixo de pano, as criadas à espera que terminassem o almoço para fazerem o caminho de volta para casa. 

O mar estava ali tão perto que, muito de vez em quando, elas até acreditavam que estavam em descanso dos dias sempre iguais.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Onde vais?

É ponto assente de ano para ano. A festa sai à rua com direito a procissão, música e vinho para matar a sede. O mesmo fim-de-semana, marcado não se sabe bem quando. 

Há roupa nova para estrear quando os santos saírem à rua. Há quem os acompanhe descalça, a pagar as promessas que vão sendo feitas pelo filho que ainda não voltou da guerra, pela filha que precisa de uma cura. 

Matam-se coelhos e galinhas, põe-se a mesa com o melhor que se consegue arranjar. Junta-se a família inteira numa casa que não tem espaço nem para metade. É festa, valha-nos a boa vontade. 

As flores transbordam dos andores. Ouve-se o terço rezado pelas ruas. A banda acompanha os passos dos fiéis. Há quem chore quando se ouvem os sinos e começa a procissão. Há quem não consiga conter as lágrimas. Por si, pelos seus, seja lá pelo que for. 

Imaculada, Rainha dos céus. 

Cantam em devoção. De lenços na cabeça e terço nas mãos, em passo lento e sofrido. 

Recolhem os andores com uma chuva de foguetes e o toque ininterrupto de sinos. Parece que o mundo acaba ali, mas está só a começar. 

Chega a noite depois de a procissão recolher. Os lenços deixam as cabeças e há quem comece a trocar as palavras. O conjunto toca no palco improvisado e um rapaz ou outro tenta a sua sorte e convida uma menina para dançar. As mães estão atentas a qualquer tentativa de desonra, mas até o soldado mais competente se distrai. 


Bebe-se demais. Rouba-se uns beijos atrás da igreja. Promete-se porrada da grossa ao outro que acha que é mais do que o que os rodeiam. O vinho fala sempre mais alto e não passa um ano que seja sem que alguém volte para casa com um olho deitado abaixo. 

A festa segue, ano após ano. Ruas enfeitadas, santos a arejar, roupas novas, sapatos de solas imaculadas e vinho do bom. 

Donde é que vens? 

Venho da festa. Se Deus quiser, para o ano há mais.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Vai e Vem

O dia começava cedo e o calor  já se fazia sentir. Era Verão, não se podia esperar outra coisa, mas falar da temperatura é uma coisa comum. Se está calor, mesmo nos meses em que é suposto assim ser, há sempre uma referência ao ar que sufoca e ao sol que queima.

Mas naqueles dias não havia calor que assustasse. Era o tempo dele e o destino era a praia.

 Juntavam-se todos no ponto de encontro à espera. Novos e mais velhos, crianças e avós. Cestas cheias de toalhas e protectores solares. A geleira com o almoço, o lanche e mais qualquer coisa para confortar o estômago. Os sacos com os brinquedos essenciais que muitas vezes voltavam para casa com menos um pá que tinha ficado enterrada na areia. Pequenos problemas na vida dos mais novos que pouco se preocupavam com eles, nada conseguia perturbar aqueles dias de mar e areia. Tanta areia que quando chegavam a casa parecia que a praia tinha vindo com eles.

O autocarro chegava, o ponto de encontro ficava vazio. Começava a viagem que parecia sempre mais longa do que a realidade. A vontade era chegar o mais depressa possível.

Havia dias em que o tempo trocava as volta aos visitantes. O calor da partida transformava-se em nuvens à escada e, de vez em quando, uma chuva ameaçava o dia. Os mais velhos vestiam uns casacos aos mais novos que, mesmo com a chuva a cair, ficavam pela areia a construir castelos e tartarugas de areia.

Mas ao meio-dia, o sol voltava. Os toldos protegiam do calor, a água gelada pedia banhos demorados e mergulhos dignos dos jogos olímpicos e o lanche ficava mais para mais tarde. Todos eram amigos, todos partilhavam brinquedos e histórias. Os que tinham feito a viagem juntos e os amigos que se faziam com a barraca ao lado.

Os dias eram aproveitados ao segundo. Com gritaria, risos, jogos de futebol improvisados e sestas dentro da barraca. O tempo passava sempre rápido de mais e quando ainda parecia que estava a começar, já o sol começava a desaparecer.

- Já está na hora?

Já estava. O autocarro esperava para fazer o caminho de volta, os mais novos adormeciam nos bancos porque a viagem era longa e os mais velhos pensavam no que tinham de preparar para o dia seguinte. Mais sacos para arranjar, mais uma viagem para fazer. 

Com alguma sorte, o sol começava a espreitar logo de manhã.
                 


terça-feira, 19 de julho de 2016

A anunciar a Primavera

Anunciam a Primavera. Ainda antes do tempo aquecer já se ouve o piar fininho a anunciar a sua chegada.

Lembro-me, em tempos que já não sei bem quando foram, dos beirados das casas enfeitados com folhas arrancadas às páginas amarelas. Um ar carnavalesco que, com o passar dos dias, se transformava em abandono.

As andorinhas fugiam para outros telhados menos protegidos.

As paredes continuavam imaculadamente brancas. Sem manchas castanhas, sem ninhos escondidos.

Continuava a ouvir-e o piar a anunciar dias quentes. As sombras pretas iam aparecendo por aqui e por ali e, todos os anos, voltavam. Sem excepção.

Os primeiros dias quentes. O primeiro piar. 

As páginas amarelas rasgadas.

Voltava o Carnaval aos telhados da aldeia e, mesmo assim, as andorinhas insistiam em encontrar o seu espaço.

Todos os anos.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Para todo o serviço

Às vezes ainda nem tinham metro e meio de altura. Pequeninas e miudinhas, lá entravam elas na casa dos senhores de trouxa na mão.

Eram novas. Dez, onze anos, se tanto. Deixavam a casa dos pais, onde os filhos faziam mais falta a trabalhar do que a estudar, e entravam em casa dos patrões. Uma casa maior do que a que estavam habituadas e onde tinham tantos deveres que lhes perdiam a conta. 

Miúdas franzinas transformadas em criadas de servir. Muitas delas nem conheciam os bancos da escola, trabalhavam desde sempre. 

Aprendiam a regatear na praça, quando a senhora confiava o suficiente nelas para as mandar às compras. Lá iam, de cesta à cabeça e pés descalços, não importava se chovia ou fazia sol. Enceravam o chão. De joelhos. Cozinhavam os melhores manjares que sabiam. Comiam o que encontravam. 

Vestiam o traje de gala sempre que o jantar assim obrigava. A farda preta impunha o peso da idade que elas ainda não tinham. No avental branco não havia um único vinco e acentuava a cintura fina. Serviam os senhores e os convidados, carregavam com jarros de prata de peso insuportável e nunca perdiam a compostura. Eram para todo o serviço, fosse ele qual fosse. 

Dormiam depois de todos já estarem deitados. Quando já tinham deixado o fogão a brilhar, quando a casa cheirava a limpeza e não havia nada fora do sítio devido. 

Já os patrões dormiam o terceiro sono quando elas subiam as escadas até ao sótão para descansar. Acordavam quando a casa ainda estava em silêncio para preparar mais um dia. Os mesmos deveres à sua espera. 

Passavam os dias iguais sem que dessem por isso. Esperavam que chegasse o domingo e que não houvesse surpresas. Se corresse tudo como era suposto, tinham a tarde toda só para si.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

De pequenino

A pobreza é uma coisa que já se dá por garantida. Poucos são aqueles que têm mais do que o mínimo para sobreviver e a maior parte trabalha de sol a sol para comprar farinha para cozer pão. 

Os filhos aparecem quando Deus assim entende e o pouco que há estica mais um bocadinho. Depois aparece a má sorte que leva um ou outro. Não há família que não tenha conhecido a dor de enterrar aqueles que não tiveram tempo de crescer. 

O dinheiro não se multiplica da mesma maneira que os filhos vão aparecendo, é preciso ginástica e imaginação. Uma sardinha alimenta quatro bocas, uma sopa serve de refeição completa. A vida não é fácil, mas é o que se tem. 

São os caçulas que têm a sorte de conhecer os bancos da escola. Enquanto os mais velhos trabalham no que aparece, os mais novos aprendem a somar quando o que mais fazem é subtrair e escrevem o nome que poucas vezes assinam. Se a coisa correr bem, fazem a quarta classe, depois disso a escola está reservada aos mais afortunados. 

Um dia chegam a casa e, sem que nada o fizesse prever, são avisados do fim. 

- Amanhã já não vais à escola. 

A sentença foi lida sem direito a recurso. Não há discussão possível nem tentativa de ganhar mais um dia. Arrumam-se os sonhos e acorda-se para a vida adulta. Seja lá o que for que ela lhes reserva. 

Não se pergunta pelo trabalho. Há sempre um capataz à procura de alguém. Não importa a idade, ali há lugar para todos. Os que ainda não têm corpos de adulto também têm o que fazer. Está a chegar a época das plantações e é preciso apanhar a pedra que anda pelos campos. Há uma família abastada que precisa de uma criada de servir. 

- Tem de ser. 

De manhã, é ver os mais pequenos a caminharem descalços em direcção oposta à escola. São mais uns trocados que entram em casa e que pagam a conta que se ficou a dever na loja. 

A vida não é fácil, mas é de pequenino que se começa a perceber como ela é.