quarta-feira, 8 de março de 2017

Pão numa mão

As crianças são só crianças. É a vida a seguir o caminho que deve seguir, todos nós nascemos para trazer mais vida. É isso que se ouve na homilia de Domingo. Mas é só isso que as crianças são. 

Os mais novos não comem à mesa com os mais velhos e não se metem nos assuntos dos adultos. As crianças são só isso, crianças e devem comportar-se como tal. A vida dos adultos não lhes serve nem é da sua conta. 

Se precisarem de levar umas palmadas, levam-nas. As crianças têm de aprender que nem tudo é como elas querem. Existem regras e saber estar e o ser criança não lhes perdoa a má educação. 

Pão numa mão e cachaporra na outra. Ditado tão antigo como a vida e cumprido à risca. As crianças alimentam-se e educam-se da maneira que for preciso. São outros tempos, em que as crianças não têm voz. Têm regras e deveres e nem o direito de brincar em paz e sossego lhes é atribuído. 

Algumas, as que nascem menos abonadas, tornam-se adultos ainda as feições são de bebé. É o cuidar da casa e dos irmãos mais novos que lhes é atribuído, mesmo que para isso tenham de faltar à escola. Afinal há prioridades na vida. Quando não há irmãos mais velhos são os avós e os tios que olham por eles enquanto os pais trabalham. 

O amor aos filhos é assim, diferente na forma de mostrar. Está na educação rígida e nos castigos cumpridos à risca. É afastar as crianças quando os assuntos são de adultos porque elas não percebem nada da vida. É ordenar que lavem a roupa quando nem chegam bem ao tanque. Ser criança tem obrigações sem direitos que as aliviem. 

São outros tempos e outros pensamentos. Outras maneiras de viver. Os filhos são a obrigação de cada um de trazer mais vida à terra. E eles devem sentir-se agradecidos a quem os trouxe ao mundo. 

As crianças são só crianças sem direito a sê-lo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Mãos ao ar

- Podemos usar a Adega do Manel.

E estava marcado. Sem mais conversa ou discussão, já havia sítio para o encontro. Falaram com mais uns quantos e a palavra passou a correr de boca em boca. O encontro estava marcado para daí a umas noites na  adega do Manel. As ideias já começavam a nascer na cabeça de uns e outros. Era assim que udo começava.

Cada qual levava o que podia e vestia-se como conseguia. Não havia regras.

Um trazia um pão de ló outro uns pasteis de bacalhau e assim, por uns e outros, tratava-se do estômago dos que por ali se juntavam. A bebida também estava garantida que não podiam ficar a seco.

Já era noite escura quando começavam a chegar. Havia de tudo: criadas de servir, gente do campo e matrajonas. Era o que dava para desenrascar com o que havia lá por casa. O importante era haver animação. 

Depois apareciam os caras tapadas. Uma visão assustadora para quem os encontrava no meio da rua. Cara escondidas atrás das meias enfiadas na cabeça e com três buracos cortados para deixar ver e respirar. Não se conseguia adivinhar quem se escondia do outro lado. Vestiam tudo o que apanhavam à mão: calças, saias, luvas, camisolas, casaco e oleados. Na mão traziam um cajado pesado que impunha um certo respeito. Um pau que marcava o passo com que avançavam. Ninguém sabia quem eram, mas sabiam que eram presença garantida sempre que este dia chegava.

Era noite de festa, rapazes e raparigas juntavam-se e festejavam à sua maneira aquele dia em que tudo era permitido e todos queriam ser outros que não os próprios. 

Todos os  anos era assim. Estava feito o Assalto de Carnaval.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Na saúde e na doença

Não havia vestido comprido. Havia um fato em tons claros que depois do casamento serviria de fato de Domingo. Era verde água, saia abaixo do joelho e casaco com botões até ao pescoço. Discreto como se quer para quem sobe ao altar e decente como se exige a todas as mulheres. 

A festa já estava pronta. A tia tinha dispensado a adega para fazer receber os convidados, as mesas estavam postas, os coelhos arranjados e as galinhas já tinham sido depenadas e transformadas em canja. 

O pão estava no forno, os coscorões já estavam fritos e o arroz-doce estava a arrefecer nas grandes travessas. O aroma das carnes misturava-se com a canela e o limão, cheirava a festa. 

Os garrafões de vinho estavam cheios que não há paródia sem vinho para aquecer os corpos e para regar o coelho que ainda tem de ir a guisar para estar pronto na altura do almoço. 

É dia de festa. O casamento é sinal de liberdade, se é que assim se pode chamar. Ninguém sai de casa dos pais a não ser de aliança no dedo e com a bênção do santo padre. São as regras que se sabem de boca. Onde é que já se viu uma menina viver sozinha? Só se for porque o marido está a trabalhar fora ou porque foi chamado para a guerra. Se não tiver marido, trata dos pais que é essa a sua função. 

Mas hoje é dia de festa e mais logo temos bailarico que o homem vem aí tocar concertina para animar os convidados. 

Já se ouvem os sinos a avisar da cerimónia. A noiva sai de casa pelo braço do padrinho e vai a pé até à igreja. Os convidados vão atrás dela em romaria. Quando chega à igreja é o pai que a leva até ao altar. Começa a nova vida com as mesmas responsabilidades. 

Na saúde e na doença, todos os dias da vossa vida. Que assim seja como manda o santo padre e como Deus quer. Na saúde e na doença. Até que a morte os separe.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Contra os boches

A guerra não era sua, mas também não sabiam de quem era. Era de quem os tinha mandado para ali. Alguns mal sabiam pegar numa arma quanto mais dispará-la. Outros choravam para que os mandassem para casa. Havia quem tentasse desertar, quem ficasse inválido para ser dispensado, quem preferisse morrer a continuar naquele inferno, quem achasse que aquela provação só era justificada se voltassem aos seus. 

Não tinham nada. Nem comida nem munições e as fardas mal se aguentavam. As botas estavam desfeitas, as luvas já se tinham perdido e a farda já não os protegia do frio. Já não conseguiam ter ânimo. 

Estavam longe de casa e dos seus. Escreviam as cartas que podiam sem saber se chegavam ao destino, guardavam uma no bolso para o caso da morte se cruzar com eles. Era a despedida para os que em casa esperavam que voltasse. 

Às vezes não voltavam, a maior parte deles ficou lá, perdidos naquela terra que não era sua e onde não compreendiam a língua. Outros voltaram depois de serem dados como mortos e das famílias chorarem por eles. Voltaram doentes e feridos, com histórias de horror que evitavam contar. Não valia a pena, para reviver o sacrifício bastavam as feridas que não cicatrizavam. Tormentos dos dias metidos em água putrefacta e com os pés enterrados na lama. 

Esquecidos por todos, menos pelos seus. Enfiados numa guerra que não era sua. Crianças tornadas homens numa guerra feita em trincheiras. Os que ficaram lá deixaram filhos órfãos cá, mulheres desamparadas e famílias sem notícias. Os que voltaram trouxeram as explosões e o barulho da costureira cravados na memória. 

A guerra terminou, mas só para quem ficou no campo de batalha sepultado em campas sem direito a nome. Quem voltou, trouxe-a consigo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Açúcar e canela

O dia começa cedo, igual a todos os outros. Ainda está escuro lá fora e no fogão já está a cafeteira ao lume com água. Quando ferve junta-se três colheres de café, mexe-se e espera-se que a borra assente. Só depois da caneca de café e do bocado de pão com manteiga é que o dia pode começar a sério. 

É véspera de Natal. Sente-se o frio da época no corpo, mas nem isso demove quem tem o que fazer. Bata vestida, rodilha metida no bolso e pano a tapar o cabelo. Está tudo pronto para começar o trabalho. 

Vai-se buscar o alguidar de barro já meio partido pelos anos de uso e prepara-se tudo o que se precisa. A abóbora cozida, a bola de pão em massa, a farinha, o limão e a laranja e a aguardente e o abafado. Nada fica esquecido. 

Arregaça-se as mangas que o frio de agora vai desaparecer assim que o trabalho a sério começar. Juntam-se os ingredientes pela ordem que está gravada na memória e que é auxiliada pela folha de papel gasta que guarda a receita que vem de outras mãos. 

Amassa-se tudo com vigor e força. Levanta-se a massa em peso para logo a seguir a largar no alguidar. Ouve-se o baque seco do alguidar contra o banco de madeira onde está empoleirado. 

- O alguidar tem de ficar limpo, a massa tem de levantar toda. 

Só assim é que se sabe que ficou pronto. A massa cheia de bolhas a rebentar e as paredes do alguidar limpas de farinha. 

Depois é tempo de descansar, de tapar a massa com os cobertores que se encontrar e deixá-la perto do lume para levedar. Dar-lhe tempo para crescer. 

Quando a massa dobrar o tamanho, é esperar que o óleo aqueça para começar a fritar. Ficar a ver aquela massa esbranquiçada a ganhar volume, a virar sobre si mesma e a flutuar no óleo enquanto começa a ficar castanha. 

 Saem cheios e gordos, a brilhar com o óleo que ainda pinga e a fervilhar. Os mais pequenos esperam para completar as suas funções de passar os doces pelo açúcar e pela canela e, sem ninguém ver, provar um ou outro mais pequeno.

- Vai oferecer este pratinho à vizinha. 

É Natal, cheira a fritos e a canela, a lareira dá calor aos que já estão quentes do trabalho e o café espera que os belhozes lhe façam companhia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A espera

A vida não está fácil. São as bocas para alimentar que aumentam e o trabalho que falta. Os trocos vão sendo contados até não sobrar nenhum. 

Espera-se que chegue o trabalho, que alguém precise das nossas mãos calejadas e de um corpo que aguente carregar o peso que o nosso consegue. É muito peso, sabe? Às vezes até parece que aguentamos com o mundo às costas e que as mãos já não sentem dor. São muitos anos de trabalho duro, de sol a sol e o corpo molda-se às dificuldades que vai aguentando. 

É preciso trabalhar, ter dinheiro no bolso para o copo de vinho e, com sorte, para o conduto para as refeições e é por isso que esperamos. Por uma oportunidade, por uma necessidade de outro que pode ser a nossa sorte. Ficamos ali na praça a ver o dia nascer e a aguardar que passe o capataz com oferta de trabalho. Depois, quando finalmente chega, esperamos que haja trabalho para nós porque somos tantos homens à espera que nunca se sabe se chega a nossa vez. Se tivermos sorte vamos com ele, de cabeça baixa e ar pesado porque não sabemos andar de outra maneira. 

Faça chuva ou sol, não interessa. Não há dias de férias e o descanso guarda-se para os dias santos que é pecado trabalhar a dias alumiados. É preciso ter respeito por quem está acima de nós e Ele, lá no alto, olha por nós. Deus não nos dá mais do que aquilo que conseguimos aguentar, essa é que é a verdade. 

Às vezes passam os senhores e os capatazes na taberna à procura de quem saiba lavrar o terreno ou tratar das plantações. Nessas alturas, toda gente sabe o ofício mesmo que não consiga perceber a diferença entre uma enxada e uma foice. Se é para trabalhar, a gente trabalha e logo se vê. Alguma coisa se arranja.

A nossa vida vive-se assim. É preciso trabalhar e nós, os pobres coitados que contam os tostões que ficam perdidos nas costuras dos bolsos, esperamos que nos venham buscar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Da desgraça que a acompanha

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos juntos, sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntos do que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos.

Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem passava por ali. Ele desinquietava a moça e ela ia na conversa dele. 

Não se sabe o que lhe prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se falava sobre o que ali se passava. 

Quando ela lhe bateu à porta, ele abriu por simpatia e fechou-a minutos mais tarde com a ordem para que não o voltasse a procurar. Não tinham contrato nenhum um com o outro, ele não lhe devia nada. 

Ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem da tempestade. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas, era o que comentavam. 

Quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada. Era nisso que acreditavam. Os filhos só chegam depois do casamento, nunca antes. 

Ela ficou sozinha, com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias.

A mãe, miúda abandonada pelo primeiro amor, fez-se pai também. Abandonada e olhada de lado, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua. 

 Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. O homem é que tem sempre razão, a mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.