quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Pés descalços

O chão era duro, mas os pés estavam habituados. Já não se arrepiavam com o frio nem sentiam o calor queimar. As solas dos pés não estranhavam os buracos e o chão irregular nem as pedras que iam aparecendo.

Era assim que as coisas eram. Andava-se descalço porque não havia dinheiro para comprar sapatos e mesmo se houvesse algum que sobrasse das contas que se faziam era mais importante guardar para a comida ou para ir ao médico. Os sapatos podiam esperar. E esperavam.

Faziam quilómetros com os pés nus metidos no pó da estrada. As silvas a furar a sola do pé. Dura e sem sensibilidade. Nunca tinham experimentados uns sapatos. Viam as senhoras ou alguma prima mais folgada a usá-los, mas na sua casa não havia espaço para esse luxo. Outras prioridades.

E cresciam de pés descalços. Os pés que os levavam a todo o lado e que percorriam estrada e mais estrada sem denunciar o cansaço.

- Vamos à cidade? - dizia uma em tom de convite. Era a feira, aquela que faziam todos os anos e que juntava os arredores e mais uns quantos.

- Sei lá, nem tenho sapatos.

E então uma prima emprestava uns que tinha lá por casa. Já gastos e usados, mas que serviam a sua função. Eram um número acima do seu. Chinelavam. Magoavam os pés habituados a andar à solta. Mas lá iam elas, orgulhosas dos seus pés tapados num desconforto que não conheciam.

Quando compravam o primeiro par era uma festa. Eram caros. Ganhavam cem escudos a servir na casa das senhoras. Eram as primeiras a acordar e as últimas a deitar para ganhar aquilo. Se comprassem uns sapatos ficavam logo sem dinheiro. Era preciso saber esperar. Poupar os trocados que sobravam dos gastos do mês. Esperar que dessem para um par de sapatos como as senhoras usavam.

Já eram quase mulheres quando os compravam. Crescidas e de corpo feito. Mulheres de trabalho de sol e sol e mãos calejadas. Compravam os sapatos que eram o seu número. Gastavam os cem escudos que tanto lhes tinha custado juntar.

Caminhavam sem que se ouvisse o chinelar, mas o desconforto continuava a fazer-lhes companhia. Lá iam elas, com o som do salto no chão a marcar o passo. A bolha a começar a aparecer no calcanhar.

Chegavam a casa e tiravam os sapatos. Ainda mal tinham passado a porta e já iam de pés no chão e sapatos na mão. Guardavam-nos a um canto, com cuidado. Quem pouco tem sabe o quanto vale. E lá iam elas descalças pela casa e pelo terreno, tratar da vida. Sempre de pés descalços. Os sapatos ficavam para a rua e para as cerimónias. Para o Domingo e dias santos. 

Para o resto dos dias, para a vida de sempre, os pés podiam andar como sempre andaram. Descalços.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Quem faz a festa para o ano?

O Domingo é o dia sagrado. O dia abençoado da festa. Sai a procissão e a terra veste-se a rigor que nos dias santos e alumiados temos de estar no nosso melhor. O vestido bonito, os sapatos que magoam ligeiramente os pés, o fato bonito para os senhores estarem apresentáveis.

Chegam os visitantes, os que vêm ver a família e os outros que chegam em devoção pela Senhora que abençoa a festas. As ruas estão cheias. Os sinos dão os sinais de que a procissão está a sair.

- Já se sabe se há comissão? - perguntam enquanto esperam para ver os andores.

A procissão segue caminho. Ouvem-se as rezas e os cânticos. A banda toca as músicas que já sabe de cor. O passo arrastado preenche os momentos de silêncio. O terço pende das mãos dos devotos. As varandas estão decoradas, as famílias juntam-se à porta de casa. Segue-se o cortejo até voltar ao largo. Os foguetes a rebentar sem parar e a santa a recolher à igreja.

A população acompanha-a. Olhos curiosos. Ocupam os bancos vagos, ficam em pé quando não há outra solução. Apertam-se mais um bocadinho para caber mais alguém. A igreja fica cheia, o padre dá a benção final.

Do altar chegam as notícias que esperavam. É tempo de anunciar os festeiros do próximo ano. A aldeia assiste em expectativa. Dizem os nomes escolhidos pela comissão deste ano. A tradição é simples: oito nomes, quatro casais casados pela igreja que nunca fizeram a festa.

Quem está dentro da igreja passa a novidade de boca em boca até chegar ao largo onde as pessoas se juntam à espera.

- Já sabes? Quem faz a festa para o ano é...

E passa a novidade de boca em boca até chegar à próxima comissão. Está cumprida a tradição. Que se oiçam os vivas pela festa do próximo ano. E que amanhã a aldeia marche atrás da banda até que seja feita a entrega da bandeira ao juíz do ano que vem. Festa é festa e o povo quer é a rua iluminada e a música a tocar o dia inteiro.

Até para o ano, quando a procissão recolher e a igreja encher com os ouvidos atentos à espera de saber quem é que faz a festa no ano seguinte.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Lá pelo Instagram #2

Agosto 2017 | Pouca Terra

Os dia começam cedo. O despertador toca quando o sono ainda está pesado e o corpo ainda pede cama. Mas tem de ser. Viver fora da grande cidade tem os seus quês e porquês. Alguns dos porquês será a procura de uma explicação para se fazer isto quando implica acordar demasiado cedo, apanhar demasiados transportes e ter de lidar com demasiados atrasos. Muitos porquês. Demasiados.

O comboio faz parte do meu dia-a-dia. O banco onde me sento sempre no caminho de ida. A hipótese de ficar de pé quando volto. O livro que vai guardado para enganar o tempo que demora a passar. Os nervos quando se percebe que a hora de partida não vai ser cumprida. É uma rotina. Já sabemos a linha, a hora e o sítio onde a porta fica quando o comboio pára. Já conhecemos as caras que nos acompanham diariamente, mesmo que o seu nome seja um mistério. Vamos conhecendo a história. Os telefonemas que se fazem, os livros que se vão lendo, os pequenos pormenores que deixam cada um irritado. Cada qual com o seu.

Os olhos fixos nos telemóveis, na janela, nos livros ou fechados a recuperar da noite mal dormida. O comboio, a rotina de todos os dias. Três horas por dia.

Pouca Terra

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Não havia bolos

Não havia bolos. Nem se sabia o que era isso. O que havia era para a carne e mesmo assim mal chegava. Comprava-se um bocadinho de chouriço e de toucinho para dar para uma sopa, uma posta de bacalhau que na altura era em conta. Nada mais do que isso. Nem se pensava em tal coisa.

Fazer bolos como agora se faz agora? Porque apetece qualquer coisinha doce ou algo que dê conforto? Ora sabíamos lá o que era isso. E quando não se sabe, não se sente falta. E o conforto era dormir com o estômago a dar horas, mas a dormir o corpo aguenta muita fome.

Era por isso que não havia nada destas coisas. Nem pão-de-ló. Verdade seja dita, nem se sabia o que era isso. Apareceu uma vez, uma senhora que fazia essas coisa, mas nem eu que era criada de servir na casa dos senhores aprendi essas culinárias. Não, os senhores eram ricos, mas não eram desgovernados. Onde é que já se viu essa coisa de fazer um bolo sem razão?

Naquela altura isso não existia. Agora sabe bem, lá isso sabe, mas naquela altura? Nem bem nem mal. Não se pensava nessas coisas. Como é que posso explicar? Não era uma necessidade. E se o que tínhamos mal chegava para as necessidades (Deus sabe as vezes que só se bebia um café da borra ao jantar) não ia chegar para gastar em açúcar e farinha.

Acho que a receita só apareceu por aí uma vez quando vieram uns amigos de um senhor cá visitá-lo. Eles vinham lá de Lisboa e a senhora fez um pão-de-ló para lhes oferecer. Foi assim que ele apareceu por cá, mas mesmo assim não despertou muito interesse.

Achavam que era algo supérfluo, sabes? E naquele tempo ligava-se muito ao que os vizinhos diziam (ainda hoje isso acontece) e ninguém queria ter má fama. Gastar dinheiro em bolos, mesmo que fosse um simples pão-de-ló, era ser desgovernada e isso não ficava bem a ninguém. Nem às meninas ricas.

Por isso dá cá mais um fatia. Vá lá que mal não me faz e se fizer logo se vê. Já viste a idade que eu tenho? A suficiente para comer uma fatia de bolo sem sentir um peso na consciência. Dá lá isso, vá. É que no meu tempo não havia bolos. 




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Lá pelo Instagram #1

Agosto de 2017 | Venda à beira da estrada

Dizem as más línguas (e acredito que as boas também) que o melhor melão do país vem do Ribatejo. A caminho de Almeirim uma placa dizia algo nesse sentido. "Vende-se aqui o melhor melão de Almeirim". Se não era assim era muito parecido. Era uma placa de madeira escrita à mão. Com o encanto que têm todas aquelas coisas que são feitas com dedicação. 

Eu, um bocadinho teimosa como sempre, não parei nessa banca. Nem na seguinte. Só a terceira é que me convenceu a fazer inversão de marcha e parar o carro. Porquê a terceira? Porque me apeteceu. Porque tinha um casal já com uma certa idade e que, sem placas que indicassem que o seu melão era o melhor, tinham ares de gente dedicada.

Parei o carro e pedi uma melancia e um melão. O senhor ainda me pediu para escolher o melão, mas eu nem tentei. Além de não ter habilidade para escolhas dessas nem gosto da dita fruta. O mais certo era a escolha dar para o torto. E para dar para o torto mais valia ser o senhor escolher que tinha mais anos daquilo que eu.

Pesou os dois. Numa daquelas balanças que nunca percebi bem como funcionam. Antiga. Com dois pesos e mais um sem fim de acertos que tinham de ser feitos até chegar ao peso certo. 

Disse-me o total e eu paguei. Desejei-lhe um bom dia e ele disse-me "Boa viagem". A simpatia deixa-nos sempre bem dispostos. 

E eu voltei para casa com um melão e uma melancia no carro. E eu nem gosto de melão. Agora estão ali em cima da mesa à espera. Vamos lá ver se a escolha foi acertada.

Venda à beira da estrada

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Por ti levo o ano inteiro a sonhar

Eram outros tempos, aqueles em que Agosto trazia o calor e os emigrantes de volta a casa. Apareciam os carros de matrícula estrangeira com muitos quilómetros feitos e um porta-bagagem a abarrotar com as malas. Vinha a família inteira de volta a casa durante um mês. Bendito Agosto que trazia de volta os que tinham partido em busca do que lhes faltava por ali. Maldito que só os deixava ficar um mês e os trinta e um dias sabiam a pouco. 

Todos os anos era assim. Em Agosto a aldeia ganhava vida. O país recebia os seus. 

Os filhos voltavam aos braços dos pais. Traziam os seus próprios filhos nascidos lá fora. Ouviam-se os gritos de alegria da mãe que abraçava a filha que foi lá para longe. Puxava-se um banco para o genro que tem as pernas dormentes das horas na estrada. 

- Estás magrinha, não andas a comer como deve ser. 

Fazia-se a mesa ali com um chouriço e um queijo. Um copo de vinho para ajudar a descer o pão caseiro. Os miúdos andavam por ali a correr no quintal depois de uns quantos beijos repenicados daquela avó que os vê menos vezes do que queria. 

- Os pequenos estão tão grandes. 

O coração quase que explodia com a felicidade de ter os seus tão perto. As lágrimas estavam perto de saltar cá para fora. 

Os emigrantes voltavam às suas casas. Abriam-se as janelas que estavam fechadas um ano inteiro para arejar. Estavam de volta ao seu lar. Aquele país que os tinha acolhido ainda não era seu. Falavam numa mistura de língua materna com umas palavras de outra língua qualquer. Muitos não os entendiam, tentavam explicar por gestos e aproximação. 

Percorriam as ruas, entravam no café onde iam quando eram mais novos.  

- Ó tempo que não te via. 

Reencontravam os amigos. Faziam um almoço com aqueles que os acompanharam nas tropelias de crianças. Mostravam aos filhos aquelas ruas onde tinham crescido. Os miúdos acompanhavam-nos, mas aquelas ruas não eram suas como foram dos seus pais. Aquele país corre-lhes no sangue, mas não tiveram de o abandonar e viver com essa dor que acalma uma vez por ano. Nasceram longe. O português soa-lhes aos avós, mas quando falam as palavras parecem fugir. 

Vivem um ano inteiro num mês que passava tão rápido. Quando davam por ela era hora de voltar a fechar as portas, de dar um abraço apertado aos pais. Era tempo de voltar à estrada e ao trabalho que os esperava lá longe. 

Um dia iam voltar para ali. Para aquela casa que tinham construído para si. Um dia, Agosto seria o ano inteiro. Por agora, tinham mais um ano para sonhar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Lugar à mesa da avó

As galinhas eram criadas no quintal da casa. Um galinheiro feito com meia dúzia de tábuas e mais umas redes. Não era preciso muito mais do que isso para guardar umas quantas galinhas. Eram alimentadas pela família que, sem ensino que os guiasse, tratavam delas com a sabedoria da terra. Davam de comer, tiravam os ovos e sabiam a altura certa para as matar.

Cortava-se o pescoço à galinha e tiravam-se as penas em água quente. Era assim que começava a refeição criada lá em casa.

A galinha, preparada com o rigor que se põe nestas coisas, ia ao lume numa panela de água com uma bocadinho de chouriço. Daquele vermelho e saboroso. Coisa pouca que o dinheiro não é muito e só se quer que dê sabor. Ia tudo a ferver em medidas feitas a olho. Aquela panela dava para alimentar a família e a partir daí era a mão que mandava no tempero.

O cheiro à carne cozida enchia o pequeno barracão mal iluminado que fazia as vezes de cozinha. O chouriço dava um tom avermelhado à água que começava a borbulhar.

Quando a galinha estava pronta era pôr num tabuleiro de ir ao forno. Quando o forno ainda era a lenha e demorava o seu tempo até chegar ao calor certo. Cozer o arroz no caldo que sobrava da cozedura e deixar o acompanhamento pronto em mais um tabuleiro. O chouriço era cortado em rodelas e espalhado por cima do arroz. O pitéu estava pronto. Arroz de forno e frango corado. 

A pele saía tostada do forno, o arroz vinha guloso com a gordura do chouriço a ferver. O cheiro era daqueles que confortava a alma. O reconhecimento de comida que é nossa.

Juntava-se a neta à mesa. Com as pernas a baloiçar na cadeira e o cabelo em desalinho de tanto correr. 

- O que é almoço? - perguntava com aquela voz de criança.

- Já vais ver - diziam sem desvendar mais nada.

E ela esperava. Com o cheiro já a dar-lhe água na boca.

Os tabuleiros vinham para a mesa a escaldar. Embrulhados em rodilhas que protegiam as mãos que os carregavam.

- Arroz da avó - gritava a neta com excitação. Era o seu prato, feito para ela.

E ficava para sempre baptizado como o arroz da avó. Mesmo quando era a mãe a prepará-lo em casa com o mesmo carinho. O arroz que a avó preparava com todo o rigor e sem receita. Passado de mão em mão e executado sem dúvida quando se cozia uma galinha e se levava ao forno a corar.

Frangainho quando dizem aos mais novos quando os tentam convencer a comer mais uma garfada do almoço. 

Frangainho do campo, corado em forno de lenha com arroz da avó a acompanhar.