quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quando o mundo chegava

O dia anunciava-se como se fosse de festa, mesmo que não houvesse sinal de foguetes no ar nem a banda estivesse preparada para sair. À beira da estrada que levava ao resto do mundo, mesmo no centro da pequena aldeia, juntavam-se miúdos e graúdos. Uns sentados nos degraus, outros de pé e mais uns quantos a sofrer com a ansiedade pelo que tardava em chegar. O coração apertado com o pensamento “E se não vierem hoje?”. 

O dia estava marcado no cartão que lhes tinha sido entregue no mês anterior e correspondia ao dia que o calendário marcava, mas e se não viessem? 

- Já aí vem - gritava um seguido pelo burburinho de mais uns quantos. 

Já se ouvia o motor ainda antes de se avistar a camioneta que trazia os livros. Lá vinha ele com os seus dois ocupantes nos bancos da frente e o mundo inteiro bem guardado na parte de trás. 

- Ora bons dias - cumprimentavam os senhores enquanto abriam as portas do fundo.

Na fila da frente, uma rapariguita de pouca altura e nariz demasiado espevitado para a idade, esperava a sua vez de entrar.

- Vê lá o que escolhes - diziam-lhe os senhores à laia de piada quando recebiam os livros do mês anterior e os confirmavam. Já lhe conheciam o gosto pelos livros que não eram para ela. Há idades para tudo, é o que dizem. Ela acha que há gostos para tudo e a idade não passa de um número que diz muito pouco. 

Percorre as prateleiras cheias de livros. Estão ali tantos e são tão poucos os que pode levar. Procura os que já tinha escolhido da última vez e arruma-os debaixo do braço antes que mais alguém os escolha. É por isso que faz sempre por ser a primeira. Basta chegar mais tarde e já outro leva os melhores.

Entrega-os ao senhor que encontra todos os meses e assiste, impaciente, à calma com que ele preenche o seu cartão. Cinco livros escolhidos que não chegam para ocupar um mês demasiado comprido. Com sorte consegue que rendam até meio. Com sorte. 

- Daqui a um mês tens de os devolver - dizem-lhe. 

Como se ela não soubesse, mas durante um mês eram seus. Tratados com todos os cuidados e mais alguns que não há dinheiro para pagar estragos e aquelas páginas são o seu maior tesouro. O dela e o de todos aqueles que de mês a mês esperam que a carrinha chegue. Sempre no mesmo sítio. Esperam pelo mundo. Um mundo que não acreditam que lhes pertença, mas que todos os meses chega nas costas de um carrinha.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quem és tu?

Aproximavam-se de cara tapada e roupas que escondiam as formas. Mudos e calados. Nem se sabia se era homem ou mulher que ali se escondia.  

- Quem és tu? - perguntava quem os via de cara tapada. 

- ‎Ah, esse é fulano - respondia logo quem sabia tanto como todos os outros. 

- ‎, este é beltrano. Conheço-o ao longe - garantia outro com tanta certeza quanto o anterior. 

Não se fazia o baile sem uns quantos assim, escondidos, a atentar o juízo dos outros que por ali estavam, mascarados com o que tinham encontrado. Tinham dado a volta aos baús das avós e aos armários das mães à procura do que lhes servisse o propósito. Dali apareciam as velhas e as matrafonas só para a galhofa e mais uns quantos piratas e princesas daqueles que levavam aquilo a sério. 

A sala a que se resumia a associação transformava-se em salão de baile com direito a palco para o conjunto e bar para os comes e bebes. A folia não se faz a seco nem de estômago vazio e a aldeia inteira queria espairecer as ideias.

Os pares enchiam a pista de dança enquanto o conjunto marcava o ritmo. O agarra aqui acompanhado do chega para lá. 

- É carnaval, ninguém leva a mal - isso é o que dizem, mas o respeito é muito bonito. 

Os cachopos, pouco dados a danças e bailaricos, tentavam entrar pela janela da sala que servia de armazém. Uns heróis, pensavam eles enquanto ignoravam que toda gente sabia o que eles andavam a fazer. A mocidade é sempre a mesma coisa e já todos tentaram roubar uma garrafinha de gasosa. Dava aquela sensação de ser quase adulto.

A noite não terminava sem que fosse anunciado o prémio da melhor máscara. Lá era entregue a cerveja como troféu quando o álcool já começava a aquecer o corpo. Festa sem uma pinga a mais nem soava ao mesmo. Que haja alegria durante a noite que de manhã voltam todos a ser aquilo que são. Sem máscaras que os escondam.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que a vida ensina

"Não sei o que isso quer dizer. Se letrado é ter lido muitos livros isso não é cultura. Cultura é o que nós fazemos. Olhe, sabe, uma vez o Agostinho da Silva a seguir ao 25 de Abril convidaram-no para presidir à comissão contra o analfabetismo. Ele dizia "Meu filho, eu estou tão preocupado porque a maior parte das pessoas cultas que eu conheço são analfabetas". Por exemplo, saber fazer pasteis de bacalhau é uma forma de cultura tão importante como escrever um livro. "
António Lobo Antunes, in Jornal das 9
Entrevista completa aqui

Ela não tinha nada a oferecer. "Oh avó, tu não sabes nada", diziam-lhe os netos quando ela ficava espantada com a vida que eles levavam. Tentavam ser simpáticos. Uma festa no braço a acompanhar a observação, o compôr da manta que lhe aquecia as pernas. As palavras que lhe ficavam. “Não sabes nada”. 

Era verdade. A vida não lhe tinha dado nada que valesse a pena. Não se escreviam histórias sobre os seus dias, as suas lutas não tinham memória. Só lhe tinha calhado em sorte o trabalho, a casa, o marido, os filhos. Paridos e criados naquelas paredes que mal davam para dois, mas que tinham recebido seis. Dois deles perdidos quando ainda nem tinham aprendido a andar. Voltou a viver deixando parte de si enterrada naquele terreno de campas e flores murchas. Aprendera a suportar uma dor que não tinha sentido, que não era normal. Mas fizera os seus dias. Uns a seguir aos outros com uma cruz que lhe pesava a cada passo. Mas disso não falava. 

Os netos deixavam-lhe as frases caladas na garganta. As histórias que queria contar para quem não a ouvia. “Talvez tenham razão”, pensava ela, “ O que é que uma velha como eu, que mal sabe ler e que nunca viu nada para além do mar, tem para oferecer?” 

Esfregava as mãos. A pele marcada com rugas e calos, o resultado de uma vida de trabalho. As mesmas que amassavam o pão até ficar no ponto. Sem receitas nem medidas. A olho, a sentir. A textura, a humidade. O ar do forno a dar sinal de estar pronto para o pão. A intuição de quem faz aquilo desde que nasceu. 

Sabia qual o tempero dos fritos de Natal só de os cheirar. Se era preciso mais laranja ou se estavam a cortar no abafado. Os seus braços tinham uma força que não cabia no seu meio metro de altura. As estações anunciavam-se sem alarido. A mudança da cor do céu ao entardecer, o vento que soprava mais seco. A época de plantar para depois colher. Nunca lera um livro. A escola tinha terminado na terceira classe com uma enxada na mão. Para que é que ia perder tempo a ler quando o dinheiro faltava em casa. Sabia escrever o seu nome numa letra que já nem se usava. Nada mais. 

Não conhecia o mesmo que os netos. Nem que os filhos. Esses que tinham estudado fora com o trabalho daquelas mãos. Olhava-os com orgulho e com um quê de incredulidade ao ver neles tão pouco dela. Da sua história. Aqueles que eram parte de si, nunca saberiam contar qual tinha sido a sua vida. Não iriam entender o porquê de mal ler, de falar para si quando estava sozinha e se lembrava das angústias que a vida lhe tinha dado. 

Mas talvez eles tivessem razão e ela não soubesse nada. Talvez aquilo que a vida lhe tinha ensinado com os dias iguais, com o que lhe tinha roubado e com o que lhe tinha dado, não fosse nada além de banal. 

Mas, agora que olhava pela janela, sabia que amanhã ia chover e que os netos nunca iriam perceber como é que ela acertava sempre nestas coisas.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Não há desgoverno

No poupar é que está o ganho. Já os antigos diziam que as mulheres não podiam ser desgovernadas e eles respeitavam. Em sabedoria desta não se mexe. Aproveita daqui, poupa dali, corta nem se sabe bem onde e quando se dá por ela já se tem um avio por meio daquilo que não se fez. Gastar é só no que se deve que ninguém sabe o dia de amanhã e o corpo aguenta muita fome, mas há um dia que quebra. Sem saber ler nem escrever eram exímias na arte de somar em vez de sumir. 

- Comida não se deita fora. 

Lá resmungavam enquanto arrebanhavam o bacalhau que tinha ficado no prato. Uma posta em que ninguém tinha tocado, mais um bocadinho do lombo que alguém, com a mania que era rico, tinha deixado de lado juntavam-se ao que havia.

- Até é pecado estragar - ainda para mais quando o dinheiro faltava e a conta da loja do costume não tinha fim à vista. 

E lá juntavam tudo, fosse cozido só com sal ou feito no refogado da sopa. Depois de desfiado nem se sabia de onde vinha e com o tempero do refogado ganhava sabor. A fome falava mais alto que outras esquisitices. 

Elas metiam as mãos ao trabalho. O bacalhau sem espinhas e desfiado juntava-se à batata cozida. Mais a cebola e o ovo. Tudo misturado com o tempero para dar sabor. E no final o molho de salsa apanhada na horta de casa. Já andava o cheiro no ar e ainda nem o lume estava aceso. 

Era preciso arte para aquilo. Meter comida ao lume qualquer um faz, agora para cozinhar é preciso saber. Era preciso ter mão para fazer um manjar daquilo que alguém não quis. Depois eram duas colheres na luta uma com a outra até a massa desaparecer. O óleo já quente a ganhar vida quando a recebia. A atenção para os virar antes que ficassem queimados pela metade. Os pastéis de bacalhau a sair douradinhos e a crepitar. O cheiro a óleo quente e a massa quente chamavam pelo estômago. O melhor petisco feito com o que tinha sido deixado de lado. 

- Isto aqui não se estraga nada que não somos ricos.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A excursão

O autocarro parava sempre no mesmo sítio que assim não havia quem se perdesse. Era palavra passada de boca em boca e escrita numa folha de couve. 

Antes da hora marcada começava a agitação. Ainda o sol não tinha nascido por completo, já eles esperavam. Chegavam as crianças pela mão e as mulheres acompanhadas dos maridos. Apareciam todos bem arranjados dentro daquilo que os seus bolsos deixavam, e de cesta pronta debaixo do baço. Vinha cheia com o farnel que tinham preparado em casa que o que se quer é ser poupado. 

- Oh Maria, também vais? 

- ‎Ia lá ficar em casa. 

Meia dúzia de "olá. Estás bom?" e lá ficavam a dar à língua enquanto esperavam. Era para entreter. Assim que o autocarro parava, arrumavam o farnel e subiam à procura dos lugares. Os mais novos só paravam no banco do fundo enquanto os outros se iam arrumando onde calhava. O importante era ir que a vida não lhes dava muitas oportunidades de fugir aos caminhos de todos os dias. 

Aquilo era trabalho casa e vice-versa e não há alma que aguente. E assim lá iam eles. Animados. Faziam o caminho até à capital ou até onde os quisessem levar. O que era importante era ir e que não fosse para ver desgraças. Para isso já bastava a vida de todos os dias. A viagem passava entre cantorias e conversas que nunca chegavam a acabar. Falava-se de tudo e de todos. 

Quando a fome dava sinal, servia-se o farnel num qualquer canto que desse para estender a manta. O pão-de-ló e o frango corado mais umas pataniscas e uns pastéis. Uma pessoa é remediada, mas ainda enche o estômago. Mais um bocadinho de pão e um gole de vinho. Voltam quando o sol já se foi. Com um dos bonés a passar de banco em banco a recolher uns trocados que o motorista bem merece.

Amanhã voltam ao mesmo. Às preocupações e ao trabalho que a folia é boa, mas é só de vez em quando. 

- Oh Manela, na próxima também vamos? 

Então não? Nem a excursão se fazia se ficassem em terra.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ser o que se é

Era diferente. Sempre tinha sido. Não se lhe conhecia outra maneira de ser que não fosse fora do habitual. Fora do lhe era esperado. Era esperado de todos, mas havia quem não cumprisse. Quem fugisse do caminho que lhe estava destinado. Era assim que se tornava alvo do olhar de todos os que lhe cruzavam o caminho. Mesmo dos que já lhe conheciam a exuberância. 

- São as vaidades. 

Era o que diziam. As vaidades, a mania, o querer mostrar-se. A explicação nunca era simpática nem compreensiva. Não era o que procuravam. A verdade é que ou são como todos ou assim são. Não há outra opção. São regras daquelas que nunca chegaram a estar escritas. 

Mas continuava a ser diferente, mesmo com dedos apontados e olhares reprovadores. Mesmo que as conversas se continuassem a fazer ouvir nas suas costas. 

Comentava-se a vergonha que era tudo aquilo. A roupa que só se via na cidade. O chapéu em vez do boné. O vermelho da má fama nas unhas. Um sem fim de coisas que não eram permitidas. A voz dela que se ouvia à distância como se tivesse algo de importante a dizer e ele que parecia tão frágil que ninguém acreditava que nascera homem. 

- Mas é assim que uma pessoa se comporta? - os outros sempre com a preocupação na vida que não era sua. 

A culpa era dos diferentes, daquela mania de se ser o que é e não os que os outros querem. A falta de respeito pela mentalidade que oprime quem não vive refém dela. 

- Olha que as pessoas vão falar - diziam quando aconselhavam precaução, quando tentavam mostrar o caminho que tinham por certo. 

- Já não o fazem? 

- É melhor não dar mais razões. 

A culpa colada a quem nada fez. O esconder daquilo que se é. O ser tudo, desde que o tudo seja o que os outros querem. Até ao dia. Quando o julgamento se torna demasiado duro, quando se procura viver em vez de não fazer mais do que sobreviver. O dizer adeus sem o acompanhar de até um dia. 

Um dia fazem a estrada sem volta e deixam para trás as vozes que nunca se calam. 

- Nunca mais se viu por aqui - é o que dizem dos que foram enquanto apontam o dedo a mais um.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O nascer do novo ano

A banda dava sinal de alvorada assim que o dia amanhecia. Ano novo recebido com o bombo a marcar tempo e os músicos, mal protegidos do frio, a marchar rua abaixo e rua acima. Não era tempo de grandes alegrias e muito menos de festejos. Era só mais um mês que começava com o nascer de um novo dia. Mas este tinha direito a música e quando a banda toca há outro alento para o corpo. 

As pessoas apareciam às portas. Roupa de trazer todos os dias que a boa está guardada para os dias do senhor. Palmas a acompanhar as marchas e umas cantigas improvisadas. Os vizinhos que se encontravam à porta e falavam do mesmo de sempre.

- Então e o seu home

- Tá lá praquele lado - diziam elas indicando a direcção com um gesto largo e com o ar de que a pergunta nem se punha.

Juntavam-se una quantos ali no sítio do costume. Só os homens e os miúdos. Todos à roda do tronco que ainda ardia a bom ver. Fazia mais de uma semana que aquele fogo aquecia os corpos e puxava à conversa e à pinga. Alimentado a lenha que se apanhava por aqui e por ali e que aquecia as noites que gelavam os campos. Deixavam o chouriço a assar, o pão cortado com o velho canivete para acompanhar, o toucinho a pingar a gordura para o lume. Os bonés já a inclinar. O corpo a aquecer que o ano amanhece frio e o vinho só dá calor até certo ponto. Falam da vida de língua afiada, mas se lhes perguntarem dizem que só as mulheres é que falam assim. Pudera, os homens são sempre homens.

As mulheres estão recolhidas em casa com os miúdos de mama agarrados às saias e as miúdas agarradas ao trabalho que é de novas que aprendem. Há lá tempo para brincadeiras. Nem se sabe bem o que isso. Nem bonecas se encontram, quanto mais. É saber onde está o sabão e andar de olho vivo nos irmãos. 

O novo dia é só mais um dia. Em casa que o tempo não deixa ir para o campo. Que se ouça uma modinha que pelo menos isso anima e o corpo balança a tentar acompanhar o ritmo. Discreto que não se quer falatório.

Lá veio mais um ano. Se não for melhor, que pelo menos seja igual ao que passou que a esse, e às suas manhas, já há quem conheça. 

Venha o novo ano. Dias iguais a todos os outros, trabalho a moer o corpo e as preocupações a moer a cabeça. Que se bata umas palmas quando passa a banda, sempre alivia as cruzes que se carregam.