quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Como Ele fez por nós

"Sou da aldeia da Luz 
A que vai ser alagada 
Calhou-nos esta cruz 
Mas uma cruz tão pesada."
João Chilrito Farias, poeta popular 

Pára antes de passar o portão. Pousa o balde e, em silêncio, faz o sinal da cruz enquanto murmura as palavras que o acompanham. A bata escura cobre-lhe a perna até meio do joelho e a camisa de manga comprida só lhe deixa a cara à vista. Tem a pele marcada pelo tempo, a força escapa às pernas. 

Em silêncio e de olhos fixos no chão, entra no cemitério e faz-se ao trabalho. Prepara a cal no balde, varre a campa e leva o seu tempo a pintá-la de branco enquanto fala com os fantasmas que a acompanham e que ali pensavam ter o descanso eterno. É trabalho deitado ao vento porque não falta muito para levarem os seus dali. Para a nova morada que não conheceram. 

São eles e ela que dali vão. Que deixam aquela terra. As pedras da calçada conhecem-lhe os passos, os tijolos improvisam degraus onde se sentam as vizinhas, os muros não lhe tiram a vista para os campos sem fim. Tudo seu sem o ser. Fazem parte de si como aquele sangue que lhe corre nas veias. 

Tem amizade à casa que antes de ser sua era dos seus pais. Das paredes que lhe ouviram os gritos quando nasceram os filhos e quando a vida lhe levou os que a puseram naquele mundo. Tudo aquilo pode ser menos do que o que têm para lhe dar, mas é o pouco que lhe pertence. A lareira grande que não a espera na nova casa nem o balcão para arranjar o porco. Só os quartos todos com direito a janela. Ali, só um é que a tem. Mas é aquela que ela penou para ter. Assim como lhe saiu do corpo a casa que ergueu para o filho a dois passos daquela. 

Enquanto varre a casa já vazia de móveis, mas cheia de memórias que se colam a cada canto, lembra-se das palavras do padre. As que ele lhe disse quando em confissão lhe falou do medo de ir embora e que voltou a repetir quando a procissão levou os santos para a nova igreja. 

- É o sacrifício em nome dos portugueses tal como Deus sacrificou o seu filho pelos homens. 

Benzeu-se antes de trancar a porta que não se voltará a abrir. Com a ponta da bata escura limpou as lágrimas que teimavam em cair. Partiu para o que lhe diziam ser melhor, mas sabia que parte de si ficava ali. Debaixo de água. Prometeu a si mesma que não voltaria a olhar naquela direcção nem a encarar o rio. Aquele seria sempre o maldito que lhe levara a vida e a deixara viva.


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Em 2002, a antiga aldeia da Luz ficou submersa e a sua população passou para a nova aldeia da Luz erguida a três quilómetros da antiga. Nessa altura tinha 423 habitantes. Em 2012, eram 297.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A festa que era Agosto

As mãos estavam dormentes de cortar papelinhos de todas as cores. Feitos um a um, com todo o preceito, e transformados em pequenas bandeirolas presas a um fio. Agora que Agosto chegava ao fim, cruzavam as ruas de um lado ao outro. Era isso e as folhas de palmeira pregadas às varolas que anunciavam a chegada da festa.

Durante aquele tempo em que a animação chegava à aldeia as noites, animadas pelos conjuntos de dois ou três que se juntavam, faziam-se em bailaricos, conversas de esquinas, mãos afoitas, mães atentas e homens metidos em copos que depressa ficavam vazios. Dias que eram santos no calendário de quem os vivia, mas onde se misturava o pagão sem que daí viesse mal. Eram os tempos em que as ruas se transformam em rebuliço e as enxadas ficava encostadas à parede. 

Todas as manhãs, os foguetes davam sinal de alvorada numa aldeia que nem chegava a adormecer. Uns porque a festa faz-se enquanto o álcool não evapora outros porque tal romaria lhes sai do corpo que já não sabe o que é cama. Os gastos de uns atenuam a preocupação dos outros que isto de estar em festa é bonito, mas as contas parecem ser um poço sem fundo. Se tudo correr pelo melhor e os santos estiverem por eles, pode ser que fique paga ao Domingo à noite e consigam respirar de alívio nos últimos dois dias. 

No mesmo Domingo em que os santos vinham à rua acompanhados do tocar incessante dos sinos. A aldeia já os esperava de roupa nova, costurada no quintal a aproveitar a luz do dia, lágrimas nos olhos, reza nos lábios e terço a rodar nos dedos. O mesmo que é guardado no recolher da procissão quando todos se viram para o coreto à espera das primeiras notas da banda para dar início à festa que não tem hora para acabar. Ouvem-se os pasodobles e as marchas acompanhados de palmas e cantorias. 

São as mesmas palmas que no dia seguinte seguem com a banda atrás da bandeira de Nossa Senhora. Fazem o caminho para a entregar aos festeiros seguintes que a esperam de mesa posta e porta aberta. A aldeia em festa com a perspectiva de mais um ano de arraial e a bandeira a trocar de mãos entre vivas daqueles que ali foram só para ver. Há sempre qualquer coisa para ver e comentar mais tarde. 

E o início do fim vinha com o jogo que juntava os solteiros e os casados. Os últimos com mais barriga que os primeiros. Sem limite de idade, só o estado civil a servir de regra para saber para que lado do campo é que alguém ia. Ficavam coxos e com nódoas negras e alguns arfavam ao final de vinte minutos de jogo que a idade não perdoava, mas falava mais alto a vontade de cumprir a tradição. Todos os anos a mesma tradição. 

A rua a ganhar vida com as decorações e a música. O largo a transformar-se em arraial. A festa que era Agosto.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Quando o rei fazia anos

Da avó recebia um envelope com notas que ele passava à mãe sem lhe ligar grande importância. Os embrulhos que os pais lhe davam eram rasgados sem cerimónia com direito a espanto quando eram brinquedos e a um encolher de ombros quando aparecia mais uma camisola ou umas calças. Um obrigado dito com bom ar que era assim que o tinham ensinado e começava a espera pelo momento mais importante do dia.

O seu coração disparava quando, à hora marcada ou lá perto, que os miúdos não sabem que as horas são para cumprir, a campainha começava a tocar sem parar até ao ponto em que se tornava tão irritante que a porta da frente ficava encostada e acabava escancarada. E eles iam entrando, com energia a mais e paciência a menos, sem conseguir perceber que se podia falar sem ser a gritar ou com demasiada vontade de percorrer todos os cantos à casa. Não que lhes tivessem dado autorização.

O espaço não abundava. Eram casas pequenas, feitas a pensar nos que lá viviam e não naquelas dezenas que apareciam uma vez por ano. A sala de jantar, que costumava estar impecavelmente arrumada à espera das ocasiões que justificavam o uso da loiça que vinha do enxoval, estava virada do avesso. As cadeiras tinham desaparecido, o papel de embrulho estava espalhado sem grande critério, o cheiro a óleo quente começava a invadir a casa e a mãe, que andava metida naquela confusão há mais de uma semana, estava quase a dar em doida.

Eram mais de vinte, bem mais, os miúdos que o filho convidara e ela tinha preenchido à mão os convites que ele levara para a escola com um sorriso de orelha a orelha. Agora, só a imagem desse sorriso é que acalmava a antecipação do trabalho que ia ter noite dentro quando a casa estivesse vazia.

Os risos e os gritos vinham de todo o lado. Sabia que ia encontrar rissóis meio mordidos e restos de salame espalhados pela casa. Era possível que aquelas raspas verdes que faziam  as vezes de relva no bolo acabassem por se esconder em cantos que ela só ia encontrar na altura das limpezas. Isso e os bonecos que, pelas suas contas, já tinham desaparecido dois e ainda nem tinham cantado os parabéns.

- Venham já para dentro.

Dois deles, mais afoitos, brincavam à apanhada no meio da estrada sem olhar aos perigos.

- Todos para a sala que vamos cantar os parabéns.

Chegavam aos poucos. Gritavam quando acendiam os foguetes. E quando começavam a cantar os parabéns. E quando a cantoria desafinada acabava em palmas e o aniversariante, acompanhado de mais uns quantos, soprava para cima do bolo.

Voltavam à brincadeira sem mostrarem grande interesse no bolo que entretanto já tinha perdido mais um jogador e uma baliza. Roubavam um rebuçado de fruta, bebiam um copo de sumol e voltavam às correrias até ser hora de voltar a casa, quando os pais tocavam à porta para os levar e eles pediam, com olhinhos tristes e ameaça de beicinho

- Só mais um bocadinho.

Quando a casa ficava vazia e o pequeno aniversariante dormia o sono dos justos, a noite já ia alta, mas ainda se adivinhava longa. Os pratos de plástico espalhados, o chão pegajoso da comida, o cheiro a cansaço misturado com comida doce.

Enquanto se dobrava para começar a arrumar as coisas e puxava para si a vassoura e a pá, ela repetia com os seus botões a mesma lenga-lenga de todos os anos.

- No próximo ano não faço nada disto.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Quinze dias em Agosto

No dia anterior, já a agitação falava mais alto do que qualquer discernimento. Era a casa em alvoroço entre a correria dos mais velhos e a euforia dos mais novos. As roupas acumulavam-se nas camas, as mercearias enchiam a mesa e os armários da casa de banho estavam abertos sem que se encontrasse as toalhas que era para levar.

Agosto tinha cheiro a praia e a férias. Era altura de trocar a casa de todo o ano por outra. Mais pequena, com uma cozinha e sala que dava em quarto, mas que parecia de riquezas que não tinha. Alugada semanas antes, trazia consigo a certeza de duas semanas com o mar e o sol, se se dignasse a aparecer, por vizinhos. 

Ainda nos preparativos e com a hora da partida cada vez mais próxima, fecha-se uma mala com a roupa de vestir e outra com a de servir. Mais um cobertor que o mar traz uma maresia fria durante a noite. A cesta fica cheia com cebolas, batatas e mais qualquer coisa que é melhor levar do que estragar. 

O carro parece pouco para tanta mala. Quando se fecham as portas e se dá a volta à chave, vai meia vida ali metida e a outra meia só fica porque não há onde a levar. 

O caminho feito em curva e contracurva demora a passar, mas quando se avista o destino, mesmo que encoberto, é como chegar ao paraíso prometido. O cheiro a sal a invadir os pulmões e o sol a queimar as faces. As ondas a chamar pelos mais novos que se perdem nas horas de uma digestão que não compreendem e nos avisos que as mães insistem em repetir. 

Duas semanas esticadas até ao último minuto. Os bolsos com moedas para gelados e bolachas americanas. Os dias que queriam que nunca acabassem e quinze dias a render como se fossem trinta. O corpo cansado de tanto nadar e as mãos pegajosas dos gelados que iam buscar às máquinas e escorriam pelo cone. Os mergulhos quando a praia já estava vazia e o voltar a casa embrulhados em toalhas no embalo dos braços dos pais. Um sem fim de rotinas que se viviam todos os anos como o momento mais extraordinário. 

 As melhores férias do mundo.



Texto publicado na edição de Agosto de 2018 da Revista DADA

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O centro do mundo na taberna

Só quem por ali passou sabe como eram aqueles dias e aquilo que nunca chegou a ser só habitou a imaginação daqueles que nunca tiveram autorização para lá entrar. Não que houvesse uma lei escrita à porta ou uma placa que lhes indicasse que a sua entrada estava vedada, verdade seja dita que nem nunca se viu um polícia a rondar a porta, mas era uma questão de honra, de cada um saber o lugar a que pertencia. Era por isso que as mulheres só metiam um pé do lado de dentro quando a tarde era de matiné e os homens passavam a vida por lá sem razão aparente. 

O lá era um canto escuro que não havia janela aberta que conseguisse iluminar. Uma junção de chão de cimento que já tinha perdido a forma com uma sujidade que era parte das paredes e da mobília. Essa não abundava nem sequer era digna de grandes luxos. Mesas quadradas com tampos de madeira já manchados com círculos escuros e pingos que não houve água que lavasse, e uns quantos bancos rijos que se misturavam com as cadeiras que ajudavam a descansar as costas. Era por isso mesmo que não abundavam por ali, quando há descanso o corpo tem tendência a deixar-se ficar e o que por ali se queria era que fosse beber e voltar ao caminho. 

Do lado de lá do balcão estava ele e ela ficava do lado de lá da parede. Juntos na vida e no trabalho, nos dias bons e nos menos bons. Ele a passar um pano imundo pelo balcão e a deitar os copos no alguidar com água cor de vinho e ela agarrada aos tachos e às panelas. Os caracóis que ele comprava e que ela levava a lume alto em latas que podiam ter sido de muita coisa, mas nunca tinham sido pensadas para cozinhar, e que depois ele vendia a quem por ali andava. Um pires de caracóis bem aviado e mais um copo do que houvesse. 

As conversas ouviam-se na rua. A imaginação a tornar-se realidade quando as palavras se formavam na boca deste e chegava aos ouvidos dos outros. As verdades que nunca foram a valer mais do que a vida de todos os dias e a voz de algum a ganhar corpo para impôr algum respeito sem nunca deixar de atiçar o fogo da má língua. 

E mais um copo deitado abaixo, uma voz a prometer força de punhos e ele a sair de trás do balcão para fazer valer a sua posição enquanto ela lhe olhava os passos. Uma vida inteira numa taberna que dava vida a todos os que por ali deixavam passar os dias. O centro do mundo que ficava pela aldeia.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Quem dizia as leis

Ele tinha o coração colado à boca e era isso que o arruinava. Isso e o vinho que se é verdade que dá fala aos mortos, imagine-se o que faz a quem ainda anda por cá. 

Foi assim que a falta de sorte o apanhou naquele dia e o levou a passar a noite longe de casa. Encontrou-o de olhos meio cerrados e corpo bem bebido, mas com ouvido apurado. O que o álcool levava em reflexos, devolvia em audição o que não se pode dizer que seja uma benção. 

A hora do jantar já estava a chegar e ele esvaziava o último copo quando os ouviu. Estavam os dois encostados ao balcão que não primava pela limpeza, com roupa melhor do que a sua e de sapatos sem meias solas. Riam e conversavam de peito cheio. De tudo e mais alguém. Não fosse o álcool falar mais alto que o discernimento e ele tinha percebido que quem falava assim não sabia o que era espreitar por cima do ombro. Ouviu o seu nome na boca dos outros. Ouvi-os rir. Foi quanto bastou. 

Levantou-se, o corpo a cair com o peso da mangação e sem reflexos que o impedissem de tombar o copo com um resto de vinho tinto que manchou a mesa. Chamou-os com a voz enrolada pelo álcool, apontou o dedo da direcção dos dois. Sabia que falavam dele, que faziam pouco e não achava que tivessem esse direito. Era do conhecimento de todos aquilo que ele era, mas ninguém negava que também era honrado e aqueles dois que mal o conheciam não tinham o direito de transformar o seu nome numa piada de miúdos. 

Insultou-os sem medos que o álcool não deixa espaço para essas coisas. Levou-os de tudo o que se lembrava e de mais alguma coisa. Não demorou muito a que o outro chegasse para pôr fim a tudo aquilo. 

De costas direitas e voz forte, o Sr. Regedor, prezado pelos amigos da casa e temido por todos os outros, deu por encerrada a conversa com ordens claras. Aquele homem que mal se aguentava de pé era para levar para a prisão sem mais conversas. Não lhe ouviu as razões e pouco lhe interessou se os outros o tinham insultado antes. O único caso provado era o contrário. Arrumou o assunto com um aperto de mão aos bem vestidos, amigos da família, e deixou o outro seguir para o seu destino. Se tivesse sorte, só ficava uma noite atrás das grades.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O raio dos cachopos

Lá fora cheirava a terra seca do calor e dentro do barracão era o aroma do feijão a começar a cozer que enchia a casa. Já a água borbulhava e as hortaliças estavam a ser arranjadas quando ela se lembrou do que lhe estava em falta. Não era muito que aquela casa não sabia o que era fartura, mas era o essencial para levar o jantar à mesa.

Sem poder deixar as panelas sem quem lhe deitasse o olho, chamou o filho e entregou-lhe por boca a lista do que era preciso comprar. Mandou-o ir à loja de mãos vazias que no final do mês fazia contas, mas com o alerta feito em voz séria:

- É ir e voltar, nada de te perderes.

Ele assentiu com a cabeça e fez-se ao caminho que a loja não ficava longe, mas até lá era sempre a subir. Não chegou a avistar a porta onde o Sr. João pendurava os abanos e encostava os sacos de adubo. Ainda ouvia a mãe de volta das panelas quando os outros apareceram. Cachopos como ele. Meia dúzia de palmos de altura, pés descalços e um certo ar de traquinice. 

Chamaram-no de peito cheio e ele não se negou. Esquecido das ordens que levava de casa, fez-se aos quintais dos vizinhos no encalce dos outros que passavam de horta em horta sem olhar a quem pertencia, enchendo o bolso com a fruta que estava mais à mão e rindo de peito cheio.

Só pararam quando avistaram a vinha. Agachados no meio das silvas e dos arbustos, deitaram o olho ao terreno. Quando se certificaram que não havia vivalma ali por perto, fizeram sinal uns aos outros e correram o mais depressa que conseguiram enquanto desabotoavam a camisa e as calças. Os tímidos ainda deixaram as cuecas, mas os mais afoitos entravam na água sem nada que lhes tapasse as vergonhas.

O tanque que dava água à vinha refrescava-lhes o corpo em tempos como aquele em que sol brilhava alto e o suor corria em bica. Era um descanso que só terminava quando o capataz, que nem sabiam de onde aparecia, os ameaçava de punho fechado e corria na direcção dos miúdos. E eles, mais ligeiros que o outro, saltavam do tanque, agarravam a roupa que tinha ficado pendurada nos ramos e faziam-se à estrada que os levara até ali.

Era assim, de cabelo em desalinho e roupa encharcada, mas sem as compras que lhe tinham pedido que ele voltava a casa. A mãe, que sabia bem os caminhos por onde ele andava, esperava-o de chinelo na mão e mesa vazia.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Do tempo que fica sempre igual

Juntavam-se no mesmo sítio. Todos os dias com excepção das épocas festivas em que a família de um e de outro os chamava para a mesa sem ligar aos compromisso que ambos tinham. 

Eram homens com uma vida em cima, comprovada pelas rugas e pelos movimentos presos às dores, mas com a sentença da reforma a dar-lhes o tempo livre que nunca tinham pedido. Para enganarem as horas que pareciam durar mais do que julgavam possível, encontravam-se todos os dias (tirando as excepções já referidas) quando o sol começava a mingar. 

Sem grandes cumprimentos, sentavam-se no degrau de uma casa que já não era mais do que paredes sem cor e portas enferrujadas e, com um olho no amigo de uma vida e outro na vida que andava rua, deixavam-se ficar a falar de tudo o que lhes vinha à cabeça. Dos tempos idos aos que agora se viviam. Das certezas que tinham e do que o futuro lhes escondia. 

Mastigavam as palavras e falavam tão para dentro que mais ninguém os entendia, mas todos sabiam que por ali estavam. De calça de tecido, camisa, camisola e sapato engraxado. Fizesse frio ou calor, vestiam-se para o domingo que agora eram todos os seus dias. 

Cumprimentavam os que passavam por eles e de quem se lembravam desde que eram do tamanho dos que agora levavam pela mão. Nunca paravam, a vida corria tão depressa que não permitia paragens, por muito curtas que fossem, para trocar dois dedos de conversa. E aqueles dois homens por ali ficavam. A ver quem passava. Com tanto para contar e sem ninguém que os ouvisse, sem ninguém que visse o interesse, mas todos habituados ao cumprimento quando por ali passava. 

Assim foi, durante tantos anos que a maior parte das pessoas se esqueceram como era antes de ser assim. Até ao dia em que a noite chegou e encontrou o degrau frio.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Cantemos todos com alegria

Minha terra é Vale da Pinta
Minha rica freguesia 
Aonde eu fui baptizada 
Naquela sagrada pia 

Conheciam aquela terra onde tinham nascido e pouco mais, mas todos os anos faziam-se ao caminho deixando-a para trás. Era o trabalho que os esperava longe dos parcos pertences a que chamavam seus. E lá iam. 

Desde do dia em que eu vejo 
As campinas do Ribatejo 
Cantemos todos com alegria 
Q’esta paródia só dura um dia 

As lezírias estavam douradas pelo dia que amanhecia quente. Homens e mulheres, alguns com crianças de colo, seguiam pelo caminho de pó e pedras. De pés descalços, cesta à cabeça, mãos na cintura e enxada ao ombro. Conversas que davam em cantorias e transformavam em alegria a desgraça de todos os dias.

Rapazes de Vale da Pinta 
Quando para fora vão 
Toda gente lhes pergunta 
Rapazes de onde são 

Por onde passavam, os homens, com corpo de trabalho e hábitos rudes, apelavam à curiosidade até da moça mais tímida. Era a pose e a roupa que por muito colarinho voltado e tecido passajado, não declarava a pobreza a que os seus bolsos estavam condenados. E elas, fossem puras ou casadas, seguiam-nos com o olhar. 

Olha a nossa mocidade 
Qu’ o tempo nos vai levando 
Recordemos com saudade 
P’ra todos assim cantando 

E aquelas modas, aprendidas no tempo das mãos calejadas, das costas doridas e da pele escurecida pelo sol, ficam-lhes na memória até quando o vigor da juventude desaparecia. A memória do tempo em que o trabalho os levava para longe e que entretinham os serões na lezíria com uns passos de dança para acompanhar as cantigas que inventavam, o longo caminho para o trabalho que se fazia curto quando aclaravam as gargantas. As recordações de uma mocidade que não os deixou ser moços. Do tempo em que as mulheres, de cabelos recolhidos debaixo dos lenços, rodopiavam no braço dos homens. Todos com roupa de trabalho que não havia outra.

Cantemos com alegria 
Q’ esta paródia só dura um dia. 


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Os trechos em itálico são retirados de uma das Marchas do Rancho Folclórico de Vale da Pinta. O retrato de uma vida antiga que se prolonga para os nossos dias pela arte de quem sobe a palco para a dançar e cantar.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Quando a caça enchia a mesa

Era tempo dele. De se ouvir os tiros a ecoar pelos campos sem se saber bem de onde chegava. Dos homens sairem cedo e das mulheres os esperarem no trabalho de todos os dias. Era tempo da carne entrar em casa sem se contar os trocos que ficavam em falta.

Quando as espingardas se calavam, lá faziam o caminho de volta. O cão, um rafeiro que chegava de língua de fora que só recolhia quando baixava o focinho para cheirar o chão, vinha à frente a anunciar o retorno. O dono, de botins feitos lama e boné na mão enquanto limpava o suor da cara, vermelha, seguia-o. Em silêncio e de espingarda no braço. No cinto, os cartuchos chocalhavam a cada passo. 

Alertada pelo som que se aproximava acompanhado do ranger do portão improvisado, a mulher espera-o para receber o resultado da manhã de caça. Uma mão na cintura e outra na parede do barracão que lhe serve de cozinha. Sem falar, como sempre, agarra nos coelhos que o marido lhe estende e leva-os consigo deixando-o sozinho a desvencilhar-se da lama e tralha que carrega. 

De mangas arregaçadas, ela faz-se ao trabalho. Uma precisão cirúrgica, própria de quem quase nasceu a fazer aquilo. Desfaz-se da pele do animal e com as mãos nuas descobre os chumbos que lhe ditaram a sentença naquela manhã. O cabelo protegido por um qualquer pano que se aproveitou de uma camisa velha e as mãos a descobrir aquilo que a escuridão da cozinha não deixa que os olhos vejam.

Desfeito de miudezas e do pouco que não se aproveita, o que resta do coelho é preparado para a ceia. Panela ao lume e sangue a aguardar para dar cor ao arroz. Cor e sabor próprio de carne alimentada no campo. O cheiro a subir com o calor da comida a borbulhar e o garrafão do marido a esvaziar como remédio para a canseira. 

A caça traz para a mesa a carne que o dinheiro não consegue comprar. O coelho feito à caçador ou tostado no mesmo forno onde cresce o pão. O pombo transformado em canja que enche a barriga dos mais novos. As barrigas confortadas com a carne brava que não conheceu gaiolas. 

Uma noite de fartura para os estômagos tão habituados a não ter nada que já nem reclamam. É o tempo em que se ouve os tiros pelos campos.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Meu rico Santo

Todos os anos a mesma coisa. Os dias longos a terminar em noites quentes anunciavam a chegada da época de devoção onde o trabalho dava lugar à folia. Chegavam os santos que traziam os vizinhos para a rua de fogueira preparada para aquecer uma noite que não conhecia frio. 

Lá no largo, no mesmo sítio de sempre, já todos a esperavam. Os troncos grossos preparados para arder noite dentro e as conversas a crescerem ali à volta. Apareciam todos e nenhum tinha sido convidado. Traziam um chouriço e um toucinho, mais um pão e uma garrafa de vinho e tudo o mais que se conseguia arranjar nas despensas quase vazias. 

A fogueira em labaredas que metem respeito e o ar a cheirar ao rosmaninho que lhe deitam. Está dado o início para a festa acompanhada de um bom bailarico que puxa até pelos pés mais preguiçosos. 

- Ai malandro - gritam uns e outros enquanto os mais novos saltam à fogueira só para mostrar que já são homens. Ou que acham que são. 

Naquela noite o que se quer é esquecer os dias sempre iguais e as tristezas que a vida dá. Para se rezar a Santo António e beijar a medalha de São João enquanto se roga um pedido. É dia de santos, noite de festa. 

O sino da igreja dá o sinal de meia-noite e as meninas casadoiras avançam para a fogueira. Alcachofra passada pelas labaredas que a tradição nunca se enganou e todas querem ter direito à benção. 

Levam-nas para casa. Chamuscadas e a cheirar a fogo recente. Escolhem a melhor jarra e deixam-nas em água à espera que chegue a manhã. Deitam-se de coração esperançoso que o amanhecer a faça florescer. Se assim for, o amor que aquece o seu coração é para a vida, sinal de que a alcachofra abençoa o casamento que se ambiciona. É a flor que diz se aquele é o moço que será o seu homem. 

Um ano a almejar aquele dia que dita a sorte do coração. Que se roga a Santo António pela benção do santo padre e que se confia que a alcachofra guarda a vida de quem a queimou. 

Viva Santo António. E São João que está mesmo a chegar. 



Texto publicado na Revista DADA de Junho de 2018 e adaptado do texto "Meu Rico Santo" publicado neste blogue em Junho de 2017

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O pecado

Falava-se, à boca pequena, do que tinha acontecido a uns e a outros. Histórias murmuradas, passadas e acrescentadas de boca em boca. Sempre a defender a verdade que não sabiam se aquilo que diziam tinha. Sempre a surgir quando havia rumor que mais um tinha ido assim. 

A família, que andava em línguas alheias contra a sua vontade, recolhia-se num luto carregado, encarava o chão à frente dos pés e fechava o semblante sem coragem de mostrar os olhos aos outros. Eram as perguntas que não chegavam a fazer, a pena que escondia um certo gozo de saber que na sua família não havia pecado assim. Pelo menos que tivesse sido descoberto. 

Não confirmavam nada e sabiam ainda menos, mas as conversas são como as cerejas e ao povo, entre o trabalho no campo e o copo na tasca, falta-lhe o que fazer. Da pasmaceira vêm as ideias que soltam a língua naquilo que defendem saber. 

- Esse pendurou-se - diziam quando passava o cortejo e sem ter posto os olhos em nada que o confirme. 

E havia sempre alguém que ia buscar um pai ou o avô que fizera o mesmo. Uma prima que era fraca de cabeça e se tinha ido antes de Deus a chamar. Como se a tristeza estivesse no sangue. Como se o pecado que tanto apregoavam saltasse de uma geração para a outra. Como se o julgamento sem direito a juíz fosse merecido. Um sem fim de julgamentos que isso é que eles gostam. Disso e de chamar os outros de pecadores, que já se sabe que só Deus é que põe e dispõe nestas coisas da vida. Quem não cumpre o que está escrito não merece o descanso. 

E as famílias calavam a tristeza. Não diziam nada para que o santo padre concedesse a última benção com a esperança que isso lhes desse descanso. A vergonha de algo que nem sabiam o que era. 

- Então o que é que aconteceu? - perguntavam os que queriam mais motivo de conversa 

- Morreu - respondiam a seco. 

A tristeza ficava com eles. Dentro de casa. Na cama vazia, no lugar a mais na mesa, na falta de entendimento no porquê de se ir assim. As perguntas eram engolidas para que ninguém soubesse das suas desgraças. Para que ninguém os julgasse menos do que os outros. 

A vergonha a enterrar a tristeza que levou os seus pela própria mão. O pecado a entrar em casa.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O miúdo das entregas

Ainda era miudito embora a altura trocasse as voltas a quem tentava adivinhar quantos anos levava. Devia andar nos bancos da escola, mas era a bicicleta com que fazia o trabalho que lhe competia, que o esperava todos os dias. Dava-lhe folga aos fim-de-semana e nada mais. E ele, cumpridor, nunca lhe falhava a espera. 

Cabeça no sítio, sorriso na cara e olhar de quem fecha os olhos ao que de menos bom lhe marca os dias. Miudito, mas responsável. O dinheiro é difícil de ganhar e, se não tiver cuidado, desaparece antes de lhe sentir o peso. Vinte tostões para aqui outros dez para ali e, quando dá por ele, já foi e não trouxe nada que se veja. 

Entrava na loja ainda o dia mal tinha amanhecido. De olhos cansados e a engolir o bocejo. O cheiro a petróleo e um sem fim de perfumes a entrar pelas narinas e a despertá-lo da noite mal dormida numa cama que nem era digna de tal nome. 

Agarrava-se ao trabalho que lhe ocupava o tempo enquanto o som estridente do telefone não ditava outro destino. Nunca se negava. Lá para o meio da manhã chegavam os telefonemas com os pedidos que ele já conhecia tão bem que o patrão dizer-lhe a quem se destinavam não era mais do que uma formalidade. 

Agarrava no embrulho que lhe estendiam, arrumava-o na bicicleta enquanto ouvia qual o rumo que o esperava e saltava para o selim. Seguia viagem sem mais conversas ou dúvidas. Fosse no calor dos primeiros dias de primavera ou a fugir à chuva de Outubro. Pedalava com o vigor que só estava reservado aos que ainda contavam poucos anos de vida. As ruas na cabeça e nem sombra de dúvida em relação ao caminho a seguir. Esquerda, em frente, direita e ali está a porta que o esperava. 

Em frente ao destino e de embrulho debaixo do braço, tocava à campainha e esperava quem o viesse receber. Sorriso em lugar de cumprimento e o avio entregue nas mãos de quem dele precisava. Meia volta e seguia pelo mesmo caminho. Todos os dias até ser hora de fechar portas. Quando saía de costas, a deixar os espólio da loja bem arranjado no chão, para chamar o gosto de quem passava na rua. 

Dava o dia por encerrado quando ouvia a chave a dar a volta na fechadura e sentia o corpo a acusar o cansaço sem lhe quebrar o sorriso e a piada na ponta da língua. Mais um dia, menos um, cada qual que contasse como bem entendesse que ele ia para casa. Com sorte ainda havia um resto de chouriço a que chamar de jantar.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Mais um dia

Deixou-se ficar como quem olhava para nada. À sua frente, todas as hipóteses que nunca foram suas. Para trás, a cruz que lhe fraquejava as pernas. 

As rugas escondiam-lhe os quarenta anos. As costas dobradas redobravam-lhe o cansaço. Os pés insensíveis às pedras do chão denunciavam as provações. Fazia anos que não sorria. Era certo que das mulheres não se queria tal coisa, mas ela nem se lembrava de ter vontade de o fazer. 

Dois filhos tinham-se ido antes que ela os tivesse nos braços. Outro, partira para a guerra sem que ela o pudesse impedir. Do marido ainda lhe pesava a mão no corpo e o zumbido no ouvido. Era a vida que dava e tirava como bem entendia, sempre lhe tinham dito que era assim, mas a clareza para o entender só veio com a idade. 

Metida nos seus pensamentos e a falar com uma casa vazia, apertou o lenço preto à volta da cabeça e arrumou os cabelos debaixo do tecido. Agachou-se para pegar no alguidar da roupa e, num esgar do esforço de todas as horas, meteu-o à cabeça e fez-se ao caminho. Pernas desfeitas pelo trabalho, corpo tapado pela roupa pesada e olhos no chão. Passo apressado e certo sem se perder em conversas de nada que uma senhora não tem ouvidos. E ela, mesmo sendo remediada, não deixava de ser senhora. 

Ouviu o barulho das mãos a bater na água e do sacudir da roupa ainda antes de as avistar. As vozes das outras misturavam-se com o cheiro a sabão e água fria. Juntou-se sem grandes alaridos que quem se vê todos os dias não precisa de cumprimentos. Roupa atirada ao tanque e corpo dobrado para a desencardir. O olhar perdido no trabalho, a voz a fugir-lhe para umas quantas conversas e um pé a descansar sobre o outro. 

Uma delas, mais nova e arisca que ainda se achava dona do seu nariz, trauteava uma modinha com um tom demasiado alegre, mas que ninguém calava. Pelo menos tinham algo que lhes embalava os gestos. As outras, velhas de vida mais do que de anos, arriscavam uma conversa sobre a guerra que lhes agarrava os homens que faltavam em casa e acompanhavam com lágrimas deitadas por quem tardava em dar notícias. Todas serviam de ombro na antecipação de uma dor que esperavam não lhes bater à porta. 

Vidas diferentes e a mesma história, conhecida, mas nunca falada. Os mesmos dias, vividos como sempre tinha sido feito por ali. O mesmo olhar perdido no nada que se apresentava à sua frente.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Tornar a casa

Cresceram de pés descalços no quintal de casa. Com enxada na mão mais por divertimento do que a mando e tendo galinhas a correrem à sua volta. Livres. De sorriso que dava em gargalhada sem que fosse preciso muito.

Mas esse crescer já foi há tanto tempo que nem há calendário que o lembre. Foi o que foi e a memória não se lembra de tudo. Entretanto já se passou a vida, já as borbulhas deram em rugas e dores nas costas. Passou a vida, veio a idade. Já a morada mudou para a grande cidade,  ou para os arredores que por lá ficam, e foi-se o código postal que memorizaram antes de saber ler. A criança deu em homem, o pensamento quis mais do que a terra que os acompanhou desde da primeira hora.

Voltam porque assim tem de ser, porque os pais se recusam a ir dali. Almoçam com um pé na porta e de olho no carro estacionado na direcção da saída.

- Nem me quero lembrar desses tempos - deixam escapar quando alguém conta histórias de tempos já idos.

Preferem esquecer que se fizeram gente ali, numa aldeia que tinha pouco e que foi esse pouco que fez o muito que são hoje. Que em tempos, lancharam com as frutas desviadas do quintal do vizinho porque as casas eram feitas sem muros e os mais novos tinham sempre direito a livre passagem.

- Mas porque é que continuas aqui? - perguntam com ar incrédulo aos que decidiram ficar na terra de sempre.

Os outros, habituados ao ar de quem pensa saber mais, respondem com um sorriso discreto e nada mais dizem. Os que vão levam a certeza que aquele gesto não é mais do que a confirmação de que queriam mais do que têm. Os que ficam sabem que é melhor deixar a conversa por ali e responder com um sorriso que deixa o outro a acreditar exactamente naquilo que quer.

Para quem não quer perceber, não há como explicar que ali, a terra quente do sol cheira a vida.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A família que não o é

Chegou a casa já a manhã ia a meio. Olhou para o pulso para confirmar a certeza que os sinos da igreja lhe tinham dado, esperando que algo estivesse errado naquelas horas e que a preocupação que lhe sufocava o peito não tivesse razão de ser. Não encontrou consolo. O dia avançava e do outro lado da rua tudo continuava como se ainda fosse noite. 

Entrou em casa com a desconfiança a atormentá-la. Desde de manhã, quando acordou e encontrou o estore da casa em frente fechado, que aquele aperto a massacrava. Fazia vinte anos que vivia ali e a vizinha já lá estava quando ela tinha chegado. Há vinte anos, se não mais, com as mesmas rotinas. As flores tratadas todas as semanas, a costura feita na varanda quando o tempo aquecia, a janela aberta ainda mal se via o sol, a chave do lado de fora da porta assim que acordava. Todos os dias sem excepção. 

- Isto são manias de velha, filha - dizia-lhe quando ela passava por lá para se certificar que tudo estava como devia. 

Sempre a conhecera assim, velha. De cara marcada pelas rugas, sorriso quase sem dentes e o corpo curvado que escondia a agilidade que lhe sobrava dos tempos de mocidade. 

- E isto é agora - contava com tom de gozo - Em cachopa, perdia a conta às vezes que me fazia ao caminho de cesta na cabeça e pés descalço. Se vocês soubessem…

E guardava para ela todos os pormenores que, mesmo naquela idade, não ficava bem a uma senhora contar, mas deixava escapar um olhar de criança atrevida quando falava naqueles tempos. Agora, a sua casa estava em sossego como nunca tinha estado. Nem no dia de enterro do marido que lhe fizera companhia durante tantos anos. 

Sem conseguir acalmar a ansiedade que lhe apertava o peito, meteu a chave ao bolso e saiu de casa. Passou o pequeno portão que nem trinco tinha e bateu à porta. Pensou naquela mulher, pequena e desembaraçada, que lhe levava bolos e fritos na época do Natal e lhe dava os bons dias todas as manhãs. Raça de mania aquela de conhecer os vizinhos como se conhece a própria família, que a deixava ali, preocupada e impotente em frente a uma porta trancada. 

- Vizinha - gritou ao mesmo tempo que forçou a porta. Do lado de lá, nem a porta cedeu nem se ouviu resposta.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A 13 de Maio

O vento fresco das noites de Primavera entra no corpo dos que aguardam ordem de marcha. Do outro lado da rua, a carrinha espera de bagageira aberta para que guardem as tralhas que não conseguem levar às costas. Já está tudo preparado quando o relógio da igreja dá o sinal de meia noite.

- Vamos a isto. 

Homens e mulheres avançam de noite. Consigo não levam mais do que uma garrafa de àgua e um terço. Têm de se poupar porque o caminho é longo e o corpo, mesmo habituado às piores provações, não aguenta tudo. É a devoção que os acompanha e lhes dá alento quando as bolhas massacram os pés e as silvas arranham a roupa. Caminham no meio do nada. Na borda da estrada, pelos terrenos baldios, por sítios que só quem faz aquilo todos os anos sabe que vai dar ao destino que os espera. 

Chegam ao sítio combinado e o carro já lá está. De bagageira aberta e a abarrotar com os pertences de cada um. Nessa altura, não importa se é madrugada ou se o sol já vai alto. Estendem as mantas ao lado umas das outras e dão-se ao descanso naquele leito mal arranjado em cima de pedras e ervas. Tapam-se com um cobertor que, para chegar ao pescoço, deixa os pés à mostra e não engana o frio. 

Fazem os seus dias assim. A caminhar noite dentro na direcção que as suas crenças os levam. A almejar por descanso. O peito cheio com a fé que trazem desde do primeiro choro. Naquele caminho que lhes moí o corpo e com as bolhas a latejar nos pés, pagam as promessas que fizeram, os pedidos que Nossa Senhora ouviu e aos quais acudiu quando o desespero chegou. É a fé que os move.  

- Obrigadinha, mas ê na quero - dizem quando alguém lhes oferece uma fatia de pão de ló. 

- Mas olhe, tá bom. 

Partilham a comida que há, o dinheiro é pouco e é preciso encher o estômago para que a força não se vá. Ainda há muito caminho para andar e o corpo não pode dar em fraqueza. Com sorte, conseguem parar num restaurante lá mais para a frente. 

Quando avistam Fátima esquecem as dificuldades e as dores. Chegam cansados e suados da provação que foi fazer o caminho, mas de alma cheia com o dever cumprido. 

Ajoelham-se em frente à imagem que lhes ampara os passos e a vida. Deixam-se ficar ali. A murmurar as rezas que sabem de cor e a agradecer a bencão de ter Nossa Senhora a olhar pelos seus. Prometem voltar todos os anos, desde que as pernas aguentem e o corpo deixe. Mesmo sem promessa a cumprir. Só para a visitar.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Que o maio não entre

Abril findava e eles cumpriam os passos de todos os anos. De tesoura no bolso, faziam-se aos caminhos que não eram mais do que carreiros mal semeados, em busca das flores que nasciam sem regras pelas colinas da serra. Voltavam de braços floridos. As flores amarelas e pequenas a resistir ao vento que soprava mais forte.

Já em casa, com Maio a bater à porta, arrumava-se a giesta em ramos improvisados. Galhos de flores metidos nas fechaduras e entalados nas janelas. A benção a todas as casas que se alinhavam pela rua e onde os ramos brotavam como se de solo se tratasse. Ninguém queria que o maio lhes entrasse pela porta sem encontrar entrave que lhe encurtasse o caminho.

Protegiam-se do mal que não conheciam, mas que lhes tinham dito que espreitava naquela noite. Uma crença que passava de boca em boca, há mais anos que do que aqueles que eles sabiam contar. Era um ar gélido, uma desgraça que se aproximava, um mal maior sem que o nome fosse pronunciado e a benção reservada a uns ramos que cresciam sem regra nas encostas que lhes guardavam as casas. Os que ainda por ali andavam, cumpriam o ritual dos antigos. Era melhor trabalhar pela protecção do que ter de lidar com a ruína quando o maio entrasse pela porta que tinham deixado aberta.

Ninguém queria ficar amaiado que a comida na mesa dependia da força de trabalho e a família não se cria se o corpo não se levantar da cama. É preciso que os campos floresçam para o resto do ano, que as colheitas sejam tão abundantes como no ano anterior. Ou até mais, se Deus estiver por eles. E contra o maio, nem Deus os salva. É por isso que as giestas vão para as portas e a família está de pé ainda antes do sol de dia um romper.

Dos mais novos aos mais velhos, todos se levantam antes do galo dar ordem. Vestidos com a roupa de todos os dias, esperam que o dia desperte. A mãe benze os mais novos que ainda fecham os olhos com o peso do sono que ficou por dormir. Quando o maio chega com o sol tímido da Primavera, a família espera-o acordada e com a casa trancada a flores. O mal que saiu à rua, seguiu caminho sem entrar. O corpo não quebrou. Que continue o ano. Ali, o maio não entrou. 

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O fim do suplício

Rodou a chave na fechadura e entrou em casa. Lá dentro, a filha, quase mulher, olhou-a com espanto. Não eram horas de voltar a casa. Vendo bem o relógio, nem eram horas de abrir as portas ao trabalho. 

Viviam sozinhas. O marido que nunca chegara a ser, tinha a mão pesada e o mau feitio que ela teimava em desculpar com o álcool. Perdera-se com os olhos verdes e a altura que lhe dava sombra e, sem consentimento do santo padre, ficara ao seu lado, num quarto com serventia de tudo o resto. Ela sabia que, mesmo sem aliança, era melhor ter um homem em casa do que ser uma mulher a viver sozinha com uma filha ao seu cuidado. Era por isso que tinha aguentado tanto tempo. Até que a mão pesada caiu na filha e não nela. Não foi preciso mais. Nesse mesmo dia, arrumou as malas com o nada que era seu e saiu porta fora com a miúda a tropeçar nos próprios pés. Nunca pensou em voltar e ele nunca a procurou. Tal como todos os outros, achava que se nunca se tinham casado ela não merecia qualquer tipo de respeito. Era certo e sabido que esse direito só estava reservado a quem subia ao altar. Se assim não fosse que se mantivessem debaixo do tecto dos pais. 

Desde miúda que conhecia qual era o seu lugar. Sabia que as mulheres tinham todas direito ao mesmo destino e ela, com uma filha nos braços, fugira ao seu quando fechara a porta de casa nas suas costas e deixara o seu homem do lado de dentro. Uma mulher não fazia isso. Uma mulher a sério, precisava do homem. Pouco importava o inferno a que a sua vida estava confinada. Se ali a viam assim, nem queria imaginar o que lhe teria acontecido se tivesse ficado a viver na aldeia que a vira nascer. Onde todos se conheciam e ninguém tinha pudor em apontar o dedo ao vizinho. 

- Há uma revolução - disse quando viu a pergunta a formar-se nos lábios na filha. 

Não lhe deu tempo para responder nem se preocupou em saber se a miúda percebia o que a palavra queria dizer. Agarrou-a por um braço e levou-a para a rua, ignorando as ordens para ficar em casa. A partir daquele dia, ninguém lhe diria o que fazer ou como o fazer. 

- Vamos para o meio dos militares. Hoje, acaba o nosso suplício.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Quando o mundo chegava a casa

Chegou a casa resvés com a hora de jantar. Antes que a mãe percebesse que já ali estava, esgueirou-se para o cubículo que lhe servia de quarto e guardou os livros debaixo do colchão. Trazia-os escondidos na camisola. Uma solução tão prática quanto discreta. 

Apressou-se a arrumar o tesouro que era só seu durante aquele mês e sentou-se à mesa como todos os dias, mas com a inquietação a massacrar-lhe as pernas. O pouco jantar engolido à pressa para se recolher no quarto o mais cedo possível. Todos os meses a mesma história no dia em que a carrinha parava na praça da aldeia. A excitação das portas que se abriam, o coração apertado por não poder dedicar todo o seu tempo ao mundo que se escondia naquelas páginas. 

Depois de dar o jantar por terminado e quando os pais já dormiam o sono dos justos, lia às escondidas. Lá por casa os livros não eram tidos em boa conta, era por isso que aproveitava a calma da noite para gastar as velas que surripiava da gaveta da cozinha. A mãe, quando encontrava tais preparos, ainda olhava para o lado algumas vezes, achando que aquilo era mania que lhe passava, mas de vez em quando perdia o temperamento. Levantava a voz e dava-lhe uns safanões para que levantasse a cabeça do meio daquelas páginas e encarasse a vida que se queria. Mandriagem naquela casa é que ela não permitia. O corpo era para trabalhar e nunca se tinha visto trabalho que viesse de cabeças que sonhavam com o que não era seu. 

Nessas horas de fúria só podia rezar para que os livros escapassem às mãos que levavam tudo à frente. Nos piores dias, quando a raiva lhe deixava as faces em brasa, as folhas ficavam espalhadas pelo chão do quarto. Sem se saber onde começava e onde acabava a história e sem capa que lhe desse alguma cor. 

“Não percebem”, era o dizia para si enquanto apanhava as folhas e fazia o livro. De novo. A esconder os remendos que o deixavam inteiro e a esperar que o revisor deixasse passar. Até podia ser que nem reparasse que o livro não voltava da mesma maneira que tinha ido. Só não podia voltar de mãos vazias para casa. Nem queria que assim fosse.


Na continuação do texto "Quando o mundo chegava" publicado em Fevereiro de 2018