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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Já não te sou preciso

Eram meses daquilo. De espera, encostada ao portão, a ver se o via aparecer na curva lá à frente, que o seu coração apertava-se naquela incerteza sobre o que estava para chegar. 

- Despacha-te que tenho de ir para a vinha - gritava quando avistava o carteiro. 

Desde que vira partir o sangue do seu sangue criado no seu colo, que vivia num luto por quem esperava voltar a ver. O coração sofria. Vestida de preto desde que ele saíra à porta, fardado, para África como mandavam. Em força. E ela tinha ficado ali, a chorar um filho que ainda respirava. Meias até ao joelho, lenço a tapar o cabelo, roupa a cobrir o que restava do corpo. Preto sobre preto. A casa mergulhada em escuridão e a rua vedada a não ser para o trabalho. Até que ele voltasse e o luto desse lugar a mesa farta e música. Por enquanto, ela esperava que aparecesse a bicicleta à curva e que quem vinha nela lhe trouxesse notícias.  
- Tenho aqui o aerograma. 

E o seu coração acalmava. As palavras do filho sossegavam a ansiedade de o querer longe daquela guerra. Todos os dias esperava por esse fim que ninguém anunciava. Quando na rádio se ouviu a marcha de Grândola disse para si que já faltava pouco para o ver entrar pela porta e pegar na irmã ao colo. Faltava pouco para deixar de esperar o carteiro. 

Mas quando a porta se abriu, encontrou estranhos que não lhe conheciam a razão do luto antecipado e que lhe diziam o que não queria ouvir e que a rasgava por dentro. Quando se foram, ficou um colo a que faltava metade. A certeza que a casa não se ia fazer festa e que os cravos trouxeram a liberdade, mas que o filho não voltava com ela. Que tinha ido em força para África. Que lhe escrevera de lá. Que ela não o voltaria a ver. Que morrera já com ventos de liberdade. 

- Já não te sou preciso - foi o que lhe disse o carteiro quando, dias mais tarde, passou por aquela mãe que já não esperava por notícias do seu soldado. Uma desculpa de quem não tinha culpa e que já não lhe podia servir de conforto.


Texto publicado originalmente na edição de Abril de 2019 da Revista DADA

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O fim do suplício

Rodou a chave na fechadura e entrou em casa. Lá dentro, a filha, quase mulher, olhou-a com espanto. Não eram horas de voltar a casa. Vendo bem o relógio, nem eram horas de abrir as portas ao trabalho. 

Viviam sozinhas. O marido que nunca chegara a ser, tinha a mão pesada e o mau feitio que ela teimava em desculpar com o álcool. Perdera-se com os olhos verdes e a altura que lhe dava sombra e, sem consentimento do santo padre, ficara ao seu lado, num quarto com serventia de tudo o resto. Ela sabia que, mesmo sem aliança, era melhor ter um homem em casa do que ser uma mulher a viver sozinha com uma filha ao seu cuidado. Era por isso que tinha aguentado tanto tempo. Até que a mão pesada caiu na filha e não nela. Não foi preciso mais. Nesse mesmo dia, arrumou as malas com o nada que era seu e saiu porta fora com a miúda a tropeçar nos próprios pés. Nunca pensou em voltar e ele nunca a procurou. Tal como todos os outros, achava que se nunca se tinham casado ela não merecia qualquer tipo de respeito. Era certo e sabido que esse direito só estava reservado a quem subia ao altar. Se assim não fosse que se mantivessem debaixo do tecto dos pais. 

Desde miúda que conhecia qual era o seu lugar. Sabia que as mulheres tinham todas direito ao mesmo destino e ela, com uma filha nos braços, fugira ao seu quando fechara a porta de casa nas suas costas e deixara o seu homem do lado de dentro. Uma mulher não fazia isso. Uma mulher a sério, precisava do homem. Pouco importava o inferno a que a sua vida estava confinada. Se ali a viam assim, nem queria imaginar o que lhe teria acontecido se tivesse ficado a viver na aldeia que a vira nascer. Onde todos se conheciam e ninguém tinha pudor em apontar o dedo ao vizinho. 

- Há uma revolução - disse quando viu a pergunta a formar-se nos lábios na filha. 

Não lhe deu tempo para responder nem se preocupou em saber se a miúda percebia o que a palavra queria dizer. Agarrou-a por um braço e levou-a para a rua, ignorando as ordens para ficar em casa. A partir daquele dia, ninguém lhe diria o que fazer ou como o fazer. 

- Vamos para o meio dos militares. Hoje, acaba o nosso suplício.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Abril

A mudança começou de noite e quando o dia amanheceu já as novidades estavam nas ruas e na boca de todos. Demasiado longe do sítio onde tudo acontecia, mas com a cabeça na mudança, uma menina passou o dia agarrada ao rádio a ouvir o que aquelas vozes que lhe acompanhavam os dias lhe tinham para contar sobre o que saíra à rua nessa noite.

Havia em si uma necessidade de mudança e uma crença que aquele era o momento. Dali para a frente não se sabe o que vem, mas há a esperança que seja para melhor. Só pode ser.

Os dias têm de ser melhores do que os que se viveram até aquele momento.  Do que a pobreza de uma sardinha a dividir por três ou  trocados contados e em falta para as compras que eram essenciais. Tinham de ser mais do que conversas sussurradas na rua e quebradas com olhares por cima do ombro só para confirmar que mais ninguém ouve para ir contar mais do que do que foi dito.

É essa a esperança que cresce no coração daquela menina que ouve o rádio. Que  segue os avanços e as esperas dos soldados. Que sabe que as pessoas não cumpriram o pedido e saíram às ruas. Espera que a mudança esteja a bater-lhe à porta.

Que seja o fim dos deveres mais do que os direitos, a culpa mais do que o viver, as prisões cheias de quem só ousou pensar. O fim dos dias cinzentos e das proibições sem sentido.

O fim de um tempo onde os meninos e as meninas aprendiam separados, onde o álcool era o normal dos dias e onde uns enriqueciam a denunciar o que outros às vezes nem tinham feito. O tempo em que uma criança deixava os bancos da escola para tirar pedra dos campos e levar umas moedas para casa.

Era isso que aquele rádio dava: a esperança de dias melhores, de uma vida diferente. Com mais direitos para os que suavam debaixo do calor do campo e com menos medo. Era o medo que reinava nos dias que aquela menina conhecera na sua vida. O medo do que se diz, do que se faz, do que os outros pensam.  

Para quem nasceu depois dos cravos saírem à rua torna-se complicado imaginar o mundo quando a liberdade era um luxo a que ninguém tinha direito. É difícil imaginar que, para aquela menina, mesmo que o dia seguinte seja igual a todos os outros, mesmo que a mudança demore a chegar aquele interior onde nasceu, ela sabe que já aconteceu e isso conforta a alma.