É um sem fim de tachos, alguidares, colheres de pau e um cheiro doce e fermentado que enche a casa. A cozinha num alvoroço que está na altura disso e de ter a casa cheia. É a filha que chega de Lisboa, o primo de França, a mãe que vem da casa ao lado e mais os parentes e conhecidos que fazem da terrinha, que tão longe está durante o resto do ano, local de devoção. E para alimentar tanta boca é preciso trabalho. Isso e tempo, que é coisa que nunca há.
É deixar os coelhos mergulhados em vinho tinto e acompanhar de cabeças de alho para ver se lhe toma o gosto. O lombo está pronto a ir ao forno e ainda falta arranjar mais qualquer coisa para o neto que não come nada disto. Um pudim de ovos das galinhas, mais um pão-de-ló.
- Ai o arroz-doce - e mais esse, que sem arroz-doce nem a festa se faz.
No estendal, as colchas brancas apanham ar. Foi uma tarde só para as lavar que isto é muito bonito, mas aquilo é tecido que nunca mais acaba. Enquanto se lava e se estende o que nunca se usa, o marido anda de joelhos na calçada para pintar a casa com o rigor que a ocasião exige. Branquinha, é o que se quer para que Nossa Senhora os abençoe.
E entretanto o leite borbulha mais do que devia e agora é o fogão que tem de ser esfregado. Como se já não houvesse trabalho para dar e vender. Valha a música que chega da rua a anunciar o bailarico.
- Que o S. Pedro tenha juízo que os moços merecem - se boda molhada é sinal de benção, festa regada a água e sinal de despesa.
A roupa de domingo está preparada. O vestido dela com os sapatos de meio salto mais a mala dos casamentos, as calças e a camisa para ele mais os sapatos fechados. A comida está arrumada em alguidares tapados com rodilhas à espera de vez no forno. Pois que esperem. Agora que a noite começa a aparecer, é meter o casaco de malha no braço e a carteira debaixo do ombro e ir rua abaixo. São arcos até perder de vista e uma azáfama a que não se vê fim.
- Olha, gente de Valada em Porto Muge - dito assim como quem dá as boas-vindas.
Mostrar mensagens com a etiqueta Emigrantes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emigrantes. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Por ti levo o ano inteiro a sonhar
Eram outros tempos, aqueles em que Agosto trazia o calor e os emigrantes de volta a casa. Apareciam os carros de matrícula estrangeira com muitos quilómetros feitos e um porta-bagagem a abarrotar com as malas. Vinha a família inteira de volta a casa durante um mês. Bendito Agosto que trazia de volta os que tinham partido em busca do que lhes faltava por ali. Maldito que só os deixava ficar um mês e os trinta e um dias sabiam a pouco.
Todos os anos era assim. Em Agosto a aldeia ganhava vida. O país recebia os seus.
Os filhos voltavam aos braços dos pais. Traziam os seus próprios filhos nascidos lá fora. Ouviam-se os gritos de alegria da mãe que abraçava a filha que foi lá para longe. Puxava-se um banco para o genro que tem as pernas dormentes das horas na estrada.
- Estás magrinha, não andas a comer como deve ser.
Fazia-se a mesa ali com um chouriço e um queijo. Um copo de vinho para ajudar a descer o pão caseiro.
Os miúdos andavam por ali a correr no quintal depois de uns quantos beijos repenicados daquela avó que os vê menos vezes do que queria.
- Os pequenos estão tão grandes.
O coração quase que explodia com a felicidade de ter os seus tão perto. As lágrimas estavam perto de saltar cá para fora.
Os emigrantes voltavam às suas casas. Abriam-se as janelas que estavam fechadas um ano inteiro para arejar. Estavam de volta ao seu lar. Aquele país que os tinha acolhido ainda não era seu.
Falavam numa mistura de língua materna com umas palavras de outra língua qualquer. Muitos não os entendiam, tentavam explicar por gestos e aproximação.
Percorriam as ruas, entravam no café onde iam quando eram mais novos.
- Ó tempo que não te via.
Reencontravam os amigos. Faziam um almoço com aqueles que os acompanharam nas tropelias de crianças. Mostravam aos filhos aquelas ruas onde tinham crescido. Os miúdos acompanhavam-nos, mas aquelas ruas não eram suas como foram dos seus pais. Aquele país corre-lhes no sangue, mas não tiveram de o abandonar e viver com essa dor que acalma uma vez por ano. Nasceram longe. O português soa-lhes aos avós, mas quando falam as palavras parecem fugir.
Vivem um ano inteiro num mês que passava tão rápido. Quando davam por ela era hora de voltar a fechar as portas, de dar um abraço apertado aos pais. Era tempo de voltar à estrada e ao trabalho que os esperava lá longe.
Um dia iam voltar para ali. Para aquela casa que tinham construído para si. Um dia, Agosto seria o ano inteiro. Por agora, tinham mais um ano para sonhar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
