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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Todos os dias o mesmo

Os dias estavam quentes e a luz era tão crua que obrigava a fechar os olhos e franzir a testa para se conseguir ver alguma coisa. Tão quentes que as sardaniscas subiam pelas paredes à espera de uma oportunidade de entrar em casa e os cães deitavam-se  sombra com metade da língua de fora e a arfar. Fazia calor, era o que era.

O silêncio próprio da calma depois de almoço era quebrado pelo som da bola a bater na parede. Uma vez e outra logo a seguir. Sem ligar ao calor nem aos avisos constantes sobre a importância de usar um chapéu, ela continuava a jogar raquetes com a cal que começava a soltar-se. As faces vermelhas, o cabelo colado à pele, a t-shirt a fazer vezes de vestido, os pés descalços. A mangueira para refrescar do calor, o tanque para mergulhar as pernas. As gargalhadas que nasciam bem lá no fundo. 

O mesmo na casa dos vizinhos. As corridas de quintal para quintal porque muros é coisa que não se conhece. O que é de uns e passa a ser de todos. A sombra da árvore grande a guardar os corpos que nunca se davam por cansados. As caras lambuzadas com o sumo da fruta que as árvores davam, os avós a gritar pelos seus e pelos dos outros, os pais a chamar para a hora do banho e a preguiça a contrariar a resposta.

O calor a entrar pela noite que chegava com o cheiro a sopa e peixe frito. Os corpos cansados que não perdiam a força para falar sem parar, a água do banho que ficava lamacenta e eles que falavam e falavam e assim continuavam. Como se o cansaço do dia não se fizesse sentir.

Dormiam com a janela entreaberta para entrar o fresco da noite. Os grilos do lado de fora e as melgas a tentar atacar lá dentro. O sono profundo de quem sabe que o dia que se segue é um sem fim de possibilidades. Que se vive muito melhor quando se corre sem destino, de pés descalços na terra, a roubar fruta dos quintais e a rir como se não soubesse fazer outra coisa. 

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Cabeça na água

Os dias eram de um calor estranho. Abafado lá no alto e tolerável quando se apanhava a brisa do mar. Não os conhecia assim. Só secos, com a transpiração a colar-se à pele. Nem estava habituada ao que os olhos me mostravam. Em vez de lezíria a que não conhecia o fim, mostravam-me um azul a que não sabia dizer se era o céu que entrava pela terra ou a água que visitava os pássaros.

O barulho de crianças sem pais por perto, enchia os corredores e os quartos de camas perfiladas enquanto havia espaço. Ali, ninguém dormia sozinho e isto se alguém chegasse a dormir o sono que se pretendia. Era a discussão entre o respeito por quem nos mandava calar, a excitação de estar fora de casa e a ansiedade. Essa maldita que nos fazia verter uma lágrima pela mãe que não nos vinha buscar e que nos deixava sem vontade de voltar.

A primeira vez que ali fui, nunca tinha visto o mar nem sabia o que era dormir numa cama que não era minha. Subi para a camioneta sem vontade de o fazer e deixei a minha mãe do lado de lá da janela a dizer-me adeus. Para mim o mundo acabava ali, no adeus da minha mãe, nos tremeliques da camioneta que me levava, na mala que me acompanhava com mais ar do que roupa. Recomeçou quando senti aquela maresia a refrescar-me a cara.

Andávamos todos de igual. Íamos à praia todos os dias. Não importava se fazia sol ou se o tempo tardava a aliviar. Uma corda a marcar o nosso espaço. Os outros do lado de lá, nós ali. O barulho das ondas a bater na areia, a espuma a recolher a alto mar para voltar a bater logo a seguir. Eu à espera da minha vez sem me importar com a tristeza de quem ficava na areia, vestido, sem autorização para sentir o mar a gelar os ossos e os dedos dos pés a torcer com o frio. 

Tinha sorte, agora sei disso. Sem mal que viesse do médico, tinha direito a três mergulhos no mar. Só três. De costas, a tapar o nariz e de boca fechada, e lá me mergulhavam. Um. Dois. Três. E lá voltava eu para ao pé dos outros. A lamber o sal da cara, de cabelo encharcado e com as pernas cheias de areia miudinha.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Quinze dias em Agosto

No dia anterior, já a agitação falava mais alto do que qualquer discernimento. Era a casa em alvoroço entre a correria dos mais velhos e a euforia dos mais novos. As roupas acumulavam-se nas camas, as mercearias enchiam a mesa e os armários da casa de banho estavam abertos sem que se encontrasse as toalhas que era para levar.

Agosto tinha cheiro a praia e a férias. Era altura de trocar a casa de todo o ano por outra. Mais pequena, com uma cozinha e sala que dava em quarto, mas que parecia de riquezas que não tinha. Alugada semanas antes, trazia consigo a certeza de duas semanas com o mar e o sol, se se dignasse a aparecer, por vizinhos. 

Ainda nos preparativos e com a hora da partida cada vez mais próxima, fecha-se uma mala com a roupa de vestir e outra com a de servir. Mais um cobertor que o mar traz uma maresia fria durante a noite. A cesta fica cheia com cebolas, batatas e mais qualquer coisa que é melhor levar do que estragar. 

O carro parece pouco para tanta mala. Quando se fecham as portas e se dá a volta à chave, vai meia vida ali metida e a outra meia só fica porque não há onde a levar. 

O caminho feito em curva e contracurva demora a passar, mas quando se avista o destino, mesmo que encoberto, é como chegar ao paraíso prometido. O cheiro a sal a invadir os pulmões e o sol a queimar as faces. As ondas a chamar pelos mais novos que se perdem nas horas de uma digestão que não compreendem e nos avisos que as mães insistem em repetir. 

Duas semanas esticadas até ao último minuto. Os bolsos com moedas para gelados e bolachas americanas. Os dias que queriam que nunca acabassem e quinze dias a render como se fossem trinta. O corpo cansado de tanto nadar e as mãos pegajosas dos gelados que iam buscar às máquinas e escorriam pelo cone. Os mergulhos quando a praia já estava vazia e o voltar a casa embrulhados em toalhas no embalo dos braços dos pais. Um sem fim de rotinas que se viviam todos os anos como o momento mais extraordinário. 

 As melhores férias do mundo.



Texto publicado na edição de Agosto de 2018 da Revista DADA

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Por ti levo o ano inteiro a sonhar

Eram outros tempos, aqueles em que Agosto trazia o calor e os emigrantes de volta a casa. Apareciam os carros de matrícula estrangeira com muitos quilómetros feitos e um porta-bagagem a abarrotar com as malas. Vinha a família inteira de volta a casa durante um mês. Bendito Agosto que trazia de volta os que tinham partido em busca do que lhes faltava por ali. Maldito que só os deixava ficar um mês e os trinta e um dias sabiam a pouco. 

Todos os anos era assim. Em Agosto a aldeia ganhava vida. O país recebia os seus. 

Os filhos voltavam aos braços dos pais. Traziam os seus próprios filhos nascidos lá fora. Ouviam-se os gritos de alegria da mãe que abraçava a filha que foi lá para longe. Puxava-se um banco para o genro que tem as pernas dormentes das horas na estrada. 

- Estás magrinha, não andas a comer como deve ser. 

Fazia-se a mesa ali com um chouriço e um queijo. Um copo de vinho para ajudar a descer o pão caseiro. Os miúdos andavam por ali a correr no quintal depois de uns quantos beijos repenicados daquela avó que os vê menos vezes do que queria. 

- Os pequenos estão tão grandes. 

O coração quase que explodia com a felicidade de ter os seus tão perto. As lágrimas estavam perto de saltar cá para fora. 

Os emigrantes voltavam às suas casas. Abriam-se as janelas que estavam fechadas um ano inteiro para arejar. Estavam de volta ao seu lar. Aquele país que os tinha acolhido ainda não era seu. Falavam numa mistura de língua materna com umas palavras de outra língua qualquer. Muitos não os entendiam, tentavam explicar por gestos e aproximação. 

Percorriam as ruas, entravam no café onde iam quando eram mais novos.  

- Ó tempo que não te via. 

Reencontravam os amigos. Faziam um almoço com aqueles que os acompanharam nas tropelias de crianças. Mostravam aos filhos aquelas ruas onde tinham crescido. Os miúdos acompanhavam-nos, mas aquelas ruas não eram suas como foram dos seus pais. Aquele país corre-lhes no sangue, mas não tiveram de o abandonar e viver com essa dor que acalma uma vez por ano. Nasceram longe. O português soa-lhes aos avós, mas quando falam as palavras parecem fugir. 

Vivem um ano inteiro num mês que passava tão rápido. Quando davam por ela era hora de voltar a fechar as portas, de dar um abraço apertado aos pais. Era tempo de voltar à estrada e ao trabalho que os esperava lá longe. 

Um dia iam voltar para ali. Para aquela casa que tinham construído para si. Um dia, Agosto seria o ano inteiro. Por agora, tinham mais um ano para sonhar.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A fotografia

Era sempre assim quando chegava o Verão. O tempo quente trazia de volta quem pertencia ali. Vinham da cidade. Para onde se tinham mudado e onde a vida lhes sorria um bocadinho mais do que aos que tinham ficado para trás.

Voltavam para abraçar os seus. Rever aquelas caras que se esbatiam com o tempo. Às vezes era difícil recordar a expressão daquela vizinha que os vira nascer. Começava a faltar o nome à outra que costumava vender o azeite que a mãe lhes pedia para ir buscar. A distância era culpada. 

Vinham visitar os irmãos. Conhecer os sobrinhos. Dar um beijo à mãe que já estava a perder as forças.

- É a idade, filho - dizia enquanto lhe dava uma palmadinha da face - Os teus miúdos, como estão?

Estavam bem. Crescidos e reguilas como se quer para as crianças daquela idade. 

Os irmão trabalhavam no campo e o sol ainda ia alto. A hora da despega estava longe, era preciso saber esperar que voltassem depois do dia de trabalho. Os visitantes, filhos daquela terra, percorriam aquelas ruas que tinham sido suas enquanto cumprimentavam as vizinhas de sempre. As mesmas pessoas  com os anos a marcar-lhes o corpo. A levar-lhes a vista e a toldar a memória.

A vida ali ainda era sua. Aqueles caminhos ainda lhes pertenciam. Mesmo que a vivessem longe. 

Ao final da tarde, quando o dia de trabalho tinha sido dado por terminado, os irmão apareciam. Viam-nos ao cimo da estrada com o grupo de trabalho que os acompanhava. Descalços. Elas de cesta à cabeça. Eles de enxada ao ombro. cansados do dia e a limpar o suor que lhes escorria pela testa.

- Oh irmã - gritavam aos seus que se aproximavam.

E ali, no meio da rua, se faziam os cumprimentos. Sem cerimónia que não era todos os dias que os seus voltavam a casa. E os olhos demoravam no outro, para reconhecer as feições. Para perceber o que tinha mudado num ano. Um só ano e tanta coisa diferente.

- Bons olhos te vejam.

E os miúdos corriam de um lado para o outro. Os primos da cidade com os do campo. Enquanto os mais velho pegavam numa manta das antigas e a estendiam à sombra das árvores grandes. Ali no meio do campo. A família reunida debaixo das oliveiras, os miúdos de um lado para o outro e os mais velhos a matar as saudades.

- Agora fiquem todos aí - dizia o irmão que tinha vindo lá de longe.

E eles ali ficavam. Sentados no chão. Com a mãe lá ao fundo, já com o peso dos anos a fazer-se sentir. Os irmãos sentados no chão com os filhos mais novos ao colo. Os filhos mais velho sentados a uma ponta da manta. Uns descalços que o dinheiro não dá para tudo.

E fica aquele quadro imortalizado na fotografia que o filho estrangeiro tira. A família reunida numa tarde Verão. Com aquele calor que traz de volta a casa aqueles que um dia se aventuraram no mundo.



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As férias dos Senhores

A praia era destino de férias para quem não tinha vida difícil todo o ano. Para quem se levantava de manhã e encontrava a mesa do pequeno-almoço pronta, os vestidos engomados e a casa a cheirar a pão quente. Como se tudo acontecesse com o estalar de dedos. 

Para os senhores, as senhoras, as meninas e alguns doutores, as férias de Verão faziam-se à beira-mar. Para cuidar das dores nos ossos, para melhorar a circulação, para que as meninas respirassem melhor. As maleitas de um ano inteiro atenuavam-se naquelas semanas com vista para o mar sem fim. 

Com eles iam as criadas, as que nem nas férias tinham direito a descanso. Mudavam de casa, de ares, mas nunca de obrigações e deveres. Só o cheiro a maresia as fazia acreditar que os dias não eram exactamente iguais aos outros todos.

Tinham os mesmos deveres. A cozinha era o seu espaço, a lide da casa a sua obrigação. Tal como todos os outros dias. 

Quando o relógio marcava a hora, lá iam elas. Vestidas como todos os dias, de farda e avental engomado, lenço apertado e o cesto com o almoço equilibrado em cima da sogra que lhes protegia a cabeça. Iam descalças pela areia até chegar aos senhores que esperavam o repasto. 

- Oh menino, venha para aqui. 

Gritavam para os mais pequenos que corriam à beira-mar e teimavam em não voltar. 

Preparavam a mesa para os senhores e para os meninos. Almoçavam ali, com o mar a bater lá ao fundo, a areia a fazer cócegas nos pés e o sol a queimar a pele. A família protegida debaixo de pano, as criadas à espera que terminassem o almoço para fazerem o caminho de volta para casa. 

O mar estava ali tão perto que, muito de vez em quando, elas até acreditavam que estavam em descanso dos dias sempre iguais.