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quarta-feira, 24 de julho de 2019

Mais um prato de sopa

Do outro lado do vidro, ela espreitava-me. Não o sabia na altura, só mais tarde é que ela me contou o que fazia naqueles Domingos em que me ia visitar. Em que eu achava que ela chegava quando me abraçava, mas na verdade já andava por ali há mais tempo do que dizia.

Para ali estar, também ela se metia numa camioneta quase igual à que me tinha levado e lá ia. Um ror de horas num caminho que a deixava aos tremeliques por dentro, para me ver. E eu passava essas mesmas horas na areia, com a maresia a acalmar o calor, de cara queimada, pele a saber a sal e cabelo que era mais areia que outra coisa. 

Ela espreitava-me enquanto eu almoçava, pouco antes da hora em que tinha autorização para me ver e deixar o pão que tinha cozido para mim mais as roscas de canela que tinham aproveitado os restos do lume e da massa. Eu esperava-a sem saber que já ali estava, a olhar-me fascinada quando eu me levantava para pedir mais um prato de sopa. Sopa de grão, lembro-me disso. “Nunca querias sopa em casa” - lembra-se ela com um certo ciúme mal disfarçado - “e ali, até repetias”. “Dois pratos que me sabiam a pouco”, guardava para mim.

O que ela não sabia, nem sei se chegou a saber, é que a pouca comida que tínhamos em casa, dava para mais horas de estômago cheio do que aquela fartura que por ali serviam. Comíamos a horas certas e do cardápio que apresentavam só mudava os dias. O mesmo lanche da manhã repetido a meio da tarde. Na hora indicada, nunca depois e muito menos antes. O almoço, de sopa e segundo, já vinha quando o estômago se tinha esquecido do pão da manhã. E só havia autorização para repetir a sopa. Nada mais.


No seguimento do texto Cabeça na Água.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Menos um ano em trinta

Chegaram e cheirava a terra nova. Terra que se perdia de vista, mas que não conhecia enxada. E era deles. Pelo menos era isso que lhes diziam. Que assim seria quando os trinta anos tivessem passado e as contas ficassem certas.

Tinham casa. Uma casa de banho que levava o nome do buraco que tinha do chão. O vazio. Nada nas paredes e apenas o eco a encher o espaço que nunca sonharam ter. A mobília era a que traziam e a maioria trazia-se a si mesmo, aos filhos e à trouxa que levavam, sem esforço, numa mão. Mas tudo aquilo seria seu. Trinta anos e bom comportamento.

Começaram com o que tinham. Corpo e trabalho. Amanharam a terra a que não viam fim enquanto enchiam o estômago a batatas temperadas com toucinho salgado quando o sol andava pelo meio dia. Sopas pela manhã, toucinho a temperar as batatas à noite e estava arrumado o dia. As mãos calejavam, mas o corpo não quebrava. Quando se nasce habituado a isto, não há nada que leve a força. Deus só nos dá o que aguentamos. Nada mais do que isso. E assim fazia mais um ano e contava-se um sexto do que vinha da terra para ser dado a quem a tinha oferecido.

A fome dos primeiros tempos, calada pelo trabalho nos terrenos dos outros, naquilo que era propriedade que não dava retorno para a casa. Era assim para pagar o que se devia e o que se tinha pedido emprestado. Mais uma rega e a dívida a aumentar. Mais fosse o que fosse o registo feito onde era devido. Mais um ano e a casa limpa tal como se queria.

Um casal dado assim. A quem sempre teve pouco e se vê com tanta terra que obriga o trabalho a fazer-se em horas e fora delas. Entregue a quem mostrava ser de família e exemplar que a quem não o fosse era mostrado o caminho de saída. Mais um ano, se tivesse sorte.

O trabalho, saído do corpo que já era fraco, a dar-se. A fazer terreno daquilo que à chegada não era mais do que pedras no meio da terra onde nada brotava. Os primeiros anos sem colheita, a paciência para vir um dia a colher aquilo que davam ordem para semear. Manda quem pode que sempre assim foi. Mais um ano.

Um terreno que era baldio feito morada de família. Os pés descalços pela estrada, as agulhas a costurar como se quer, o dinheiro a ser pago como é devido. Todos os anos. Trinta até estar terminado.

Ele ao sol e de enxada na mão. Ela de lenço à cabeça e a seguir-lhe os movimentos e com a casa à sua espera. As mãos gordas dos miúdos a tirar as pedras. Quem come, trabalha. Quando falta, falta para todos. Galinheiro povoado, riqueza amealhada. Que já se sabe bem como se faz a vida. 

Mais um ano de trabalho. Mais um sexto entregue. Outros tantos em falta.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Ao que chamava casa

Fechou os olhos com o primeiro trovão e antes que terminasse o sinal da cruz já o relâmpago iluminava a casa. Rezou para dentro, lábios a moverem-se sem se ouvir um som e o coração apertado com o prenúncio de temporal. 

Por cima da sua cabeça não havia tecto, os barrotes e as telhas estavam ali para quem os quisesse ver. A única protecção entre os seus e a intempérie que se anunciava lá fora eram as filas de telhas, algumas delas soltas, que deixavam entrar o que fosse que andasse lá por fora. 

Aquilo a que chamava de casa não era mais do que um barracão mal arranjado. Um divisão ampla que os acomodava e em que se fazia uma parede a cada ano e só quando o dinheiro assim deixava. Quando não havia nenhum imprevisto que lhe levasse os trocos que eram poupados com devoção. 

Mas o dinheiro ainda não tinha chegado para pôr o tecto. Uma parede para o quarto que era seu e a perspectiva de uma para os filhos, mas nada de tecto. Era isso que lhe apertava o coração agora que ouvia o vento levantar e assobiar entre as frestas das telhas. Ao desconforto dos ossos que arrefecem acrescentava o medo pelo que estava para vir.

Quando o cheiro a terra húmida entrou em casa chamou os filhos para cima da cama de ferro que mal acomodava um corpo e ali ficaram. Junto uns aos outros com o corpo a denunciar o frio e sem saberem o que era um lençol, mas de pés secos. Quando o céu ameaçou desfazer-se em cima deles, começou a ouvir-se correr pelo corredor. A água entrava pela porta da frente e, aproveitando a inclinação da casa feita sem rigor de medidas, seguia caminho até sair pelas traseiras. O vermelho que marcava o chão ganhava profundidade num tom mais escuro, mais interior, empapado na lama que entrava. A enchente lavava a casa por dentro e a humidade atacava o corpo dos que se abrigavam no calor dos outros. 

Lá fora, o vento levantava numa fúria que tentava arrastar o que se metia no caminho. Lá dentro, só havia paredes e essas mantinham-se de pé. Com dificuldade, mas de pé. 

Levantaram-se quando o assobio amainou, mas a humidade ainda se colava à pele. Com a água a bater no artelho deram a volta ao pouco que chamavam seu só para ter certeza que ainda o tinham. 

- Para o ano temos tecto - prometeu-lhes enquanto guardava para si as refeições que isso lhe ia roubar. “Que não me falte água e hortelã”, pediu para os seus botões.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

As rotinas de Setembro

Os dias já estão a mingar. As manhãs pedem casacos de malha que o final do dia não suporta. É este veste e despe que os deixa doentes. Isso e as correrias que lhes empapa a testa em suor. Deviam ter juízo, mas naquelas cabeças não entra nada.

Ainda fico à porta a vê-los desaparecer na curva lá do fundo e, de vez em quando, grito 

- Portem-se como deve ser. 

Eu sei que devia estar calada, mas não me consigo conter. Eles lá seguem sem olhar para trás. Todos os avisos que lhes faço entram por um ouvido para logo a seguir saírem pelo outro. Sei bem o que ali vai. Tal como sei que o mais certo é voltarem com uma constipação ou um nariz cheio de ranho que limpam nas mangas da camisa por muito que eu avise que não se faz. Lá está, não ouvem. Ou não querem ouvir. 

- Se correres ainda os apanhas. 

Há sempre um que se atrasa, mas lá vai a correr rua abaixo, ao encontro dos outros com a mochila a saltitar às costas. Fazem sempre isto. Vão descendo e apanhando mais um e outro, quando chegam ao portão da escola já vão mais de dez a gritar, não sabem falar de outra maneira. Até cansa a cabeça.

Pelo menos vão felizes. Antes assim do que no meu tempo em que íamos com medo da professora, entrávamos em sentido, erguiamos a mão ao peito para cantar o hino e ficávamos de boca calada a seguir. Bastava um suspiro a irritar a senhora professora e éramos chamados a suspirar de pé em frente ao quadro. Depois é que era o elas. Ainda me arrepio só de lembrar. Mão esticada, "como deve ser" frizava a professora, e a régua a bater na palma com toda a força. Estalava. Doía a mão e a alma cá dentro. E era um calor tão grande que só atenuava quando agarravamos o metal frio das pernas das mesas. 

- Que vos sirva de lição. 

Não servia. Quantas réguas se partiram assim e quantas canas da Índia foram substituídas ao canto da sala? Perdi-lhes a conta. 

Pelo menos os de agora vão divertidos. Saem de casa agasalhados e calçados e voltam umas duas horas depois da hora de saída. Não é que o caminho seja longo, é a conversa que é muita e a brincadeira não acaba. Mas digo e repito, antes assim.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Quinze dias em Agosto

No dia anterior, já a agitação falava mais alto do que qualquer discernimento. Era a casa em alvoroço entre a correria dos mais velhos e a euforia dos mais novos. As roupas acumulavam-se nas camas, as mercearias enchiam a mesa e os armários da casa de banho estavam abertos sem que se encontrasse as toalhas que era para levar.

Agosto tinha cheiro a praia e a férias. Era altura de trocar a casa de todo o ano por outra. Mais pequena, com uma cozinha e sala que dava em quarto, mas que parecia de riquezas que não tinha. Alugada semanas antes, trazia consigo a certeza de duas semanas com o mar e o sol, se se dignasse a aparecer, por vizinhos. 

Ainda nos preparativos e com a hora da partida cada vez mais próxima, fecha-se uma mala com a roupa de vestir e outra com a de servir. Mais um cobertor que o mar traz uma maresia fria durante a noite. A cesta fica cheia com cebolas, batatas e mais qualquer coisa que é melhor levar do que estragar. 

O carro parece pouco para tanta mala. Quando se fecham as portas e se dá a volta à chave, vai meia vida ali metida e a outra meia só fica porque não há onde a levar. 

O caminho feito em curva e contracurva demora a passar, mas quando se avista o destino, mesmo que encoberto, é como chegar ao paraíso prometido. O cheiro a sal a invadir os pulmões e o sol a queimar as faces. As ondas a chamar pelos mais novos que se perdem nas horas de uma digestão que não compreendem e nos avisos que as mães insistem em repetir. 

Duas semanas esticadas até ao último minuto. Os bolsos com moedas para gelados e bolachas americanas. Os dias que queriam que nunca acabassem e quinze dias a render como se fossem trinta. O corpo cansado de tanto nadar e as mãos pegajosas dos gelados que iam buscar às máquinas e escorriam pelo cone. Os mergulhos quando a praia já estava vazia e o voltar a casa embrulhados em toalhas no embalo dos braços dos pais. Um sem fim de rotinas que se viviam todos os anos como o momento mais extraordinário. 

 As melhores férias do mundo.



Texto publicado na edição de Agosto de 2018 da Revista DADA

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Quem dizia as leis

Ele tinha o coração colado à boca e era isso que o arruinava. Isso e o vinho que se é verdade que dá fala aos mortos, imagine-se o que faz a quem ainda anda por cá. 

Foi assim que a falta de sorte o apanhou naquele dia e o levou a passar a noite longe de casa. Encontrou-o de olhos meio cerrados e corpo bem bebido, mas com ouvido apurado. O que o álcool levava em reflexos, devolvia em audição o que não se pode dizer que seja uma benção. 

A hora do jantar já estava a chegar e ele esvaziava o último copo quando os ouviu. Estavam os dois encostados ao balcão que não primava pela limpeza, com roupa melhor do que a sua e de sapatos sem meias solas. Riam e conversavam de peito cheio. De tudo e mais alguém. Não fosse o álcool falar mais alto que o discernimento e ele tinha percebido que quem falava assim não sabia o que era espreitar por cima do ombro. Ouviu o seu nome na boca dos outros. Ouvi-os rir. Foi quanto bastou. 

Levantou-se, o corpo a cair com o peso da mangação e sem reflexos que o impedissem de tombar o copo com um resto de vinho tinto que manchou a mesa. Chamou-os com a voz enrolada pelo álcool, apontou o dedo da direcção dos dois. Sabia que falavam dele, que faziam pouco e não achava que tivessem esse direito. Era do conhecimento de todos aquilo que ele era, mas ninguém negava que também era honrado e aqueles dois que mal o conheciam não tinham o direito de transformar o seu nome numa piada de miúdos. 

Insultou-os sem medos que o álcool não deixa espaço para essas coisas. Levou-os de tudo o que se lembrava e de mais alguma coisa. Não demorou muito a que o outro chegasse para pôr fim a tudo aquilo. 

De costas direitas e voz forte, o Sr. Regedor, prezado pelos amigos da casa e temido por todos os outros, deu por encerrada a conversa com ordens claras. Aquele homem que mal se aguentava de pé era para levar para a prisão sem mais conversas. Não lhe ouviu as razões e pouco lhe interessou se os outros o tinham insultado antes. O único caso provado era o contrário. Arrumou o assunto com um aperto de mão aos bem vestidos, amigos da família, e deixou o outro seguir para o seu destino. Se tivesse sorte, só ficava uma noite atrás das grades.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O raio dos cachopos

Lá fora cheirava a terra seca do calor e dentro do barracão era o aroma do feijão a começar a cozer que enchia a casa. Já a água borbulhava e as hortaliças estavam a ser arranjadas quando ela se lembrou do que lhe estava em falta. Não era muito que aquela casa não sabia o que era fartura, mas era o essencial para levar o jantar à mesa.

Sem poder deixar as panelas sem quem lhe deitasse o olho, chamou o filho e entregou-lhe por boca a lista do que era preciso comprar. Mandou-o ir à loja de mãos vazias que no final do mês fazia contas, mas com o alerta feito em voz séria:

- É ir e voltar, nada de te perderes.

Ele assentiu com a cabeça e fez-se ao caminho que a loja não ficava longe, mas até lá era sempre a subir. Não chegou a avistar a porta onde o Sr. João pendurava os abanos e encostava os sacos de adubo. Ainda ouvia a mãe de volta das panelas quando os outros apareceram. Cachopos como ele. Meia dúzia de palmos de altura, pés descalços e um certo ar de traquinice. 

Chamaram-no de peito cheio e ele não se negou. Esquecido das ordens que levava de casa, fez-se aos quintais dos vizinhos no encalce dos outros que passavam de horta em horta sem olhar a quem pertencia, enchendo o bolso com a fruta que estava mais à mão e rindo de peito cheio.

Só pararam quando avistaram a vinha. Agachados no meio das silvas e dos arbustos, deitaram o olho ao terreno. Quando se certificaram que não havia vivalma ali por perto, fizeram sinal uns aos outros e correram o mais depressa que conseguiram enquanto desabotoavam a camisa e as calças. Os tímidos ainda deixaram as cuecas, mas os mais afoitos entravam na água sem nada que lhes tapasse as vergonhas.

O tanque que dava água à vinha refrescava-lhes o corpo em tempos como aquele em que sol brilhava alto e o suor corria em bica. Era um descanso que só terminava quando o capataz, que nem sabiam de onde aparecia, os ameaçava de punho fechado e corria na direcção dos miúdos. E eles, mais ligeiros que o outro, saltavam do tanque, agarravam a roupa que tinha ficado pendurada nos ramos e faziam-se à estrada que os levara até ali.

Era assim, de cabelo em desalinho e roupa encharcada, mas sem as compras que lhe tinham pedido que ele voltava a casa. A mãe, que sabia bem os caminhos por onde ele andava, esperava-o de chinelo na mão e mesa vazia.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O pecado

Falava-se, à boca pequena, do que tinha acontecido a uns e a outros. Histórias murmuradas, passadas e acrescentadas de boca em boca. Sempre a defender a verdade que não sabiam se aquilo que diziam tinha. Sempre a surgir quando havia rumor que mais um tinha ido assim. 

A família, que andava em línguas alheias contra a sua vontade, recolhia-se num luto carregado, encarava o chão à frente dos pés e fechava o semblante sem coragem de mostrar os olhos aos outros. Eram as perguntas que não chegavam a fazer, a pena que escondia um certo gozo de saber que na sua família não havia pecado assim. Pelo menos que tivesse sido descoberto. 

Não confirmavam nada e sabiam ainda menos, mas as conversas são como as cerejas e ao povo, entre o trabalho no campo e o copo na tasca, falta-lhe o que fazer. Da pasmaceira vêm as ideias que soltam a língua naquilo que defendem saber. 

- Esse pendurou-se - diziam quando passava o cortejo e sem ter posto os olhos em nada que o confirme. 

E havia sempre alguém que ia buscar um pai ou o avô que fizera o mesmo. Uma prima que era fraca de cabeça e se tinha ido antes de Deus a chamar. Como se a tristeza estivesse no sangue. Como se o pecado que tanto apregoavam saltasse de uma geração para a outra. Como se o julgamento sem direito a juíz fosse merecido. Um sem fim de julgamentos que isso é que eles gostam. Disso e de chamar os outros de pecadores, que já se sabe que só Deus é que põe e dispõe nestas coisas da vida. Quem não cumpre o que está escrito não merece o descanso. 

E as famílias calavam a tristeza. Não diziam nada para que o santo padre concedesse a última benção com a esperança que isso lhes desse descanso. A vergonha de algo que nem sabiam o que era. 

- Então o que é que aconteceu? - perguntavam os que queriam mais motivo de conversa 

- Morreu - respondiam a seco. 

A tristeza ficava com eles. Dentro de casa. Na cama vazia, no lugar a mais na mesa, na falta de entendimento no porquê de se ir assim. As perguntas eram engolidas para que ninguém soubesse das suas desgraças. Para que ninguém os julgasse menos do que os outros. 

A vergonha a enterrar a tristeza que levou os seus pela própria mão. O pecado a entrar em casa.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que a vida ensina

"Não sei o que isso quer dizer. Se letrado é ter lido muitos livros isso não é cultura. Cultura é o que nós fazemos. Olhe, sabe, uma vez o Agostinho da Silva a seguir ao 25 de Abril convidaram-no para presidir à comissão contra o analfabetismo. Ele dizia "Meu filho, eu estou tão preocupado porque a maior parte das pessoas cultas que eu conheço são analfabetas". Por exemplo, saber fazer pasteis de bacalhau é uma forma de cultura tão importante como escrever um livro. "
António Lobo Antunes, in Jornal das 9
Entrevista completa aqui

Ela não tinha nada a oferecer. "Oh avó, tu não sabes nada", diziam-lhe os netos quando ela ficava espantada com a vida que eles levavam. Tentavam ser simpáticos. Uma festa no braço a acompanhar a observação, o compôr da manta que lhe aquecia as pernas. As palavras que lhe ficavam. “Não sabes nada”. 

Era verdade. A vida não lhe tinha dado nada que valesse a pena. Não se escreviam histórias sobre os seus dias, as suas lutas não tinham memória. Só lhe tinha calhado em sorte o trabalho, a casa, o marido, os filhos. Paridos e criados naquelas paredes que mal davam para dois, mas que tinham recebido seis. Dois deles perdidos quando ainda nem tinham aprendido a andar. Voltou a viver deixando parte de si enterrada naquele terreno de campas e flores murchas. Aprendera a suportar uma dor que não tinha sentido, que não era normal. Mas fizera os seus dias. Uns a seguir aos outros com uma cruz que lhe pesava a cada passo. Mas disso não falava. 

Os netos deixavam-lhe as frases caladas na garganta. As histórias que queria contar para quem não a ouvia. “Talvez tenham razão”, pensava ela, “ O que é que uma velha como eu, que mal sabe ler e que nunca viu nada para além do mar, tem para oferecer?” 

Esfregava as mãos. A pele marcada com rugas e calos, o resultado de uma vida de trabalho. As mesmas que amassavam o pão até ficar no ponto. Sem receitas nem medidas. A olho, a sentir. A textura, a humidade. O ar do forno a dar sinal de estar pronto para o pão. A intuição de quem faz aquilo desde que nasceu. 

Sabia qual o tempero dos fritos de Natal só de os cheirar. Se era preciso mais laranja ou se estavam a cortar no abafado. Os seus braços tinham uma força que não cabia no seu meio metro de altura. As estações anunciavam-se sem alarido. A mudança da cor do céu ao entardecer, o vento que soprava mais seco. A época de plantar para depois colher. Nunca lera um livro. A escola tinha terminado na terceira classe com uma enxada na mão. Para que é que ia perder tempo a ler quando o dinheiro faltava em casa. Sabia escrever o seu nome numa letra que já nem se usava. Nada mais. 

Não conhecia o mesmo que os netos. Nem que os filhos. Esses que tinham estudado fora com o trabalho daquelas mãos. Olhava-os com orgulho e com um quê de incredulidade ao ver neles tão pouco dela. Da sua história. Aqueles que eram parte de si, nunca saberiam contar qual tinha sido a sua vida. Não iriam entender o porquê de mal ler, de falar para si quando estava sozinha e se lembrava das angústias que a vida lhe tinha dado. 

Mas talvez eles tivessem razão e ela não soubesse nada. Talvez aquilo que a vida lhe tinha ensinado com os dias iguais, com o que lhe tinha roubado e com o que lhe tinha dado, não fosse nada além de banal. 

Mas, agora que olhava pela janela, sabia que amanhã ia chover e que os netos nunca iriam perceber como é que ela acertava sempre nestas coisas.