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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Remendos para o enxoval

Estava o avio terminado com o que a casa precisava quando davam a volta ao balcão e continuavam para os remendos. A que andava do lado de dentro não deixava de dar à língua que esse ja era costume conhecido de quem vendia. 

- Umas calças para o seu homem? 

A outra, mais metida consigo e a contar trocos, respondia que não. Se era verdade que as que o marido tinha já estavam quase desfeitas não era menos verdade que ainda podiam ser passajadas mais uma vez. Pelo menos. Agora, era para a filha. Para ela e para o enxoval que a idade pedia. 

- A sua filha já faz quantos? Uns 18? Olhe que se não arranja namoro agora já não vai longe. 

A freguesa fazia como se não a ouvisse. Às vezes, uma mulher tem de passar por mouca para não responder fora da graça do Senhor. E com algumas pessoas só podia ser assim. A bem. Com as respostas a remoer lá dentro. Caladas. 

Disfarçava a conversa e pedia-lhe os tecidos para os lençóis. Entre as alturas que a outra lhe dizia que tinha, decidia os metros que precisava. O tecido igual ao de todas as casas. A sua irmã, com mais jeito de mãos, trataria de lhe dar uma graça com um bordado dos seus e ela alindava-o com uma renda das de bom gosto. 

- Quanto custa o serviço? 

- Sete contos. 

A outra falava-lhe das maravilhas da porcelana dos pratos e a cabeça dela já andava perdida em contas que davam sempre em bolsos vazios. Fosse qual fosse a volta. Sete contos eram mais sacos de caracóis do que aqueles que ela apanhava. Era trabalhar no campo tanto tempo que o sol só recolhia a cada dois dias. 

- Porcelana de qualidade. Isto aqui dura uma vida - dizia-lhe a outra. Lábia de quem nasceu atrás de um balcão. 

E ela fazia sinal para que arrumasse o serviço. A sua filha podia ter pouco, mas o que tinha era bom. É assim que pensa. A outra puxava do caderno onde todos assentavam contas. Juntava-lhe os sete contos e os metros de tecido de lençol. 

- E é só? 

Por aquele mês ficavam os remendos aviados. No próximo, logo se via o que sobrava depois de dar dinheiro à conta. Logo se via se as calças aguentam mais um mês. ‎

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A loja do tio e do Senhor

A loja era sempre de alguém. Sem letreiro que a identificasse nem nome definido. Era do Ti Manel ou do Senhor João, da Dona Maria ou da Gertrudes. Na maior parte das vezes, a tia que lhe dava nome nem tinha ligação de sangue com quem entrava pela porta. 

- Vou à loja do ti Horácio – gritavam quando já estavam a sair porta fora de cesta na cabeça e mão na cintura. 

Dentro daquelas paredes estava a vida da aldeia: as novidade se as necessidades. Fosse o que fosse que precisavam, era certo que encontravam tudo ali.

A loja estava cheia que nem um ovo. Sacos e frascos, sacas de adubos e bacalhau seco. O cheiro a fertilizante misturado com o doce das bolachas. O azeite guardado na talha e o vinho em garrafões.

Os que precisavam entravam de cesta pronta e garrafa na mão. Estendiam o recipiente vazio à espera do seu retorno. Enquanto se esperava ou se atrasava a hora de voltar para casa, trocava-se dois dedos de conversa sobre o que se sabia ou sonhava saber. 

- Dê-me bacalhau. Sabia que a… 

Mesmo que soubesse dizia que não que a informação era sempre pouca e dava jeito saber mais qualquer coisa. Ouvido atento enquanto a faca cortava a espinha do bacalhau e espalhava o sal por todo o lado sem que houvesse preocupação em limpar. As postas, cortadas e escolhidas, eram enroladas na folha de papel pardo que por ali andava. 

Os pedidos dos clientes iam à balança, aumentava-se no peso e mantinha-se o preço sempre que se podia. As medidas eram mais para freguês ver do que para cumprir, ficava sempre o mesmo a ganhar. 

- Assente aí. 

O dinheiro era pouco e o capataz ainda não tinha pago aquela semana, as compras não podiam esperar que as barrigas lá de casa queixavam-se com fome. Comprava-se com a esperança de pagar quando o dinheiro entrasse em casa. Nos entretantos, o rol ia aumentando até já não se saber se a conta estava certa ou se andavam a pedir mais do que era devido. 

- Até amanhã, ti Maria. 

- Que Deus vá contigo - e que o faça voltar no dia seguinte para mais um copo de vinho que fica assente como dois.

sábado, 24 de outubro de 2015

Se eles soubessem

A minha avó morava lá em cima. Ao fundo de uma estrada serpenteada, numa zona com pouco mais de meia dúzia de casas e onde toda gente se conhecia. Entre primos e vizinhos a diferença não era muita.

De vez em quando a minha avó descia a estrada e ia-me buscar à escola. O caminho de volta, entre conversas e brincadeiras, tinha paragem prometida na loja lá do sítio. Paragem obrigatória de toda uma aldeia. Todas as terras tinham um sítio assim. Com um senhor Manel ou uma D. Maria do outro lado do balcão e um sem fim de histórias que vão passando de geração em geração. Lá pela terra, as histórias guardam-se como relíquias.

Esta loja, tal como todas as outras que por aí se encontravam, não era mais do que um espaço amplo com um balcão de pedra dos antigos. Também pode ser só a minha imaginação e alma saudosista que compõe tudo assim. 

À volta do balcão iam aparecendo sacas, sacos e prateleiras com tudo aquilo que podíamos precisar e mais umas quantas coisas que nos iam piscando o olho. O cheiro do bacalhau seco misturava-se com o da ração dos animais, os fertilizantes para as hortas estavam a dois passos dos doces que eu tanto cobiçava. Tudo junto, sem regras ou supervisão e, que se saiba, sem que ninguém se sentisse mal com tal organização.


Em cima do balcão acumulavam-se folhas de papel pardo onde as contas dos avios eram rabiscadas. Somas feitas a lápis de carvão e com direito a noves fora. Eram as mesmas folhas que usavam para fazer os cartuchos onde guardavam os meus beijinhos.

Quando deixávamos a loja, lá ia eu com o meu cartucho de papel pardo na mão. Os beijinhos iam desaparecendo, um por um, ao longo da estrada serpenteada até à casa da minha avó. Primeiro a parte colorida, cheia de açúcar, e a seguir a desinteressante bolacha.

Os beijinhos sabiam-me a mimos e conforto.

Soubessem eles que um dia já não íamos encontrar cartuchos assim. Que um dia as lojas dos senhores Manéis e das D. Marias não iam ser mais do que recordações ou, na melhor das hipóteses, reinvenções vintage do encanto que um dia tiveram.