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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Regatear na praça

Dentro da praça era uma mistura de cheiros e sons. O peixe fresco. O sangue da carne. O doce das frutas. Os gritos de quem tenta vender o que tem na banca. Demasiada gente na pressa das compras. O tilintar dos trocos que andam na bolsa, contados até ao último tostão. É preciso poupar e estar de olho nas balanças de quem vende.

E ela lá ia para o meio daquela confusão que já conhecia de cor. Palmo e meio de altura e pouco mais do que meia dúzia de anos de vida. Descalça, de cabelo arrumado num rolo debaixo do lenço e camisa abotoada até ao pescoço.

Na praça já a conheciam. O corpo miúdo escondia a sabedoria de quem tinha crescido antes do tempo. Regateava como ninguém. Era isso e apontar os defeitos do que via. Sem hesitação.

Entrava na praça de cesta vazia, um rol de pedidos e a ordem para despachar que havia muito para fazer em casa. E se era verdade que ela era precisa para tratar do trabalho, também era verdade que a senhora não confiava em mais ninguém para tratar do avio. Ninguém tinha o olho dela para a qualidade nem a língua para dar a volta ao preço. A senhora já tinha tentado arranjar outras, mas bastava uma viagem à praça para irem de volta para casa delas. Traziam o peixe com olhos de carneiro mal morto, era o que era. 


Era por isso que a senhora a mandava a ela. Conhecia o peixe só de lhe ver a cor e não admitia outro corte de carne que não fosse o mais tenro. E ai de quem a tentasse enganar que a gaiata era miúda, mas espevitada. 

- Ó menina, olhe que isto é do mais fresco que há.

- Então coma você e que lhe faça bom proveito.

Era a vida na praça. Um pregão atrás do outro e o olhar atento das criadas de cesta à cabeça. A confusão das pessoas que se perdiam por ali e o cansaço dos que ali andavam de pé ainda antes do sol nascer.

E ela, pequenina e miúda, enchia a cesta com o que lhe tinham encomendado. Moldava a rodilha com as mãos até a deixar como queria e metia-a por baixo da cesta que levava à cabeça.Um corpo de criança a acartar com o avio do dia e os tostões poupados a tilintar na bolsa que levava à cintura. Lá ia ela, rua acima. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Cesta Aviada

É sábado de manhã e o fim-de-semana ainda está a começar. A praça enche-se de pessoas e cheiros. O doce da fruta mistura-se com o cheiro a terra dos legumes. As cestas entram vazias e encaminham-se para os sítios do costume. Ainda existem rotinas que vale a pena cumprir.

Ouvem-se risos e conversas perdidas. A cada passo que se dá um cumprimentos solto acompanhado de um sorriso:

- Olá, como vai?

Pergunta-se pelo marido e pelos filhos. Estranha-se a ausência da semana anterior. É o calor da preocupação misturado com as frutas, os legumes e as conversas perdidas. Existem rotinas que marcam toda uma semana.

- Como é que são as uvas? As da semana passada não eram muito boas.

É preciso haver franqueza no que diz. O que não se gostou e o que era de chorar por mais. Na banca misturam-se os verdes e os vermelhos, os cestos com a fruta mais delicada, a balança por onde vão passando sacos e o pequeno bloco onde se vai anotando as contas. Algumas coisas ainda se fazem à antiga.


- Prove este bocadinho.

Dado sem esperar nada em troca. Só porque sim. Porque se confia no que se tem e se conhece quem ali está. Cheira-se a fruta e pede-se só mais um raminho de salsa que está mesmo a faltar para o almoço.

A cesta vai enchendo. São avios e conversas, bocadinhos de calma numa vida que se leva tão agitada.

- Então bom fim-de-semana.

- Veja lá se aguenta esse peso todo!

Um adeus apressado e a certeza que estamos de volta daí a oito dias.