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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A desgraça

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntosdo  que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos. Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem se cruzava com eles. 

Não se sabe o que ele prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se disse sobre o que ali se passava. Sobre as mãos que desciam nos bailaricos, sobre as gargalhadas dela. 

Muito se falou, mas quando chegou a hora não se ouviu nada para lá do silêncio. Quando ela bateu à porta com as mãos a tremer e ele abriu só para a fechar em seguida com ordens claras para que não o voltasse a procurar. Ele não lhe devia nada. 

Com o lamento a morrer na garganta, ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que, depois de cumprirem o seu objectivo, não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. “A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas”, era o que comentavam completado com um “quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada”. Era nisso que acreditavam. Uma mulher digna sabe dar-se ao respeito, sabe guardar-se. 

Ela ficou com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias. Fez-se mãe e pai. Baixou os olhos quando foi olhada com desdém, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua, vivia com peso de não merecer estar ali. 

Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. É certo e sabido que os homens são homens e que essa frase que não é nada, os defende de tudo. A mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.


Texto publicado na Revista DADA de Fevereiro de 2019. Adaptado de um texto publicado anteriormente neste blogue.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O trabalho dos dois

Fazia pouco tempo que o dia tinha amanhecido. Vinha com uma cor baça e escura que tardava em clarear e dar calor ao dia que se adivinhava cinzento e húmido. O ranger das dobradiças do portão feito de restos de madeira ecoou na rua vazia de pessoas e de casas. De um lado a vista só alcança o verde rasteiro dos campos. Do outro acompanha a rua de pó que acaba nas casas baixas e brancas da vila. 

Sem que a idade tolde a destreza que a experiência lhe deu, começa o mesmo trabalho de sempre. As mãos gretadas perdidas em gestos mais harmoniosos do que mecânicos enquanto o leite enche o balde preto que ele segura entre os pés e lhe aquece as pernas. 

Encostada à ombreira da porta, de casaco de malha grossa pelos ombros e apertado junto ao pescoço, ela espera-o. Recebe o balde e vira-lhe as costas sem mais falas pronta a fazer-se ao trabalho. Leite despejado no pano branco que tapa a panela e a paciência de o ver coar. Gota por gota. A cadência a preencher o silêncio. O aumentar do gotejar quando ela torce o pano para aproveitar a última gota. Deixa-o ferver até o cheiro da gordura da nata invadir a casa e a entranhar-se no chão de cimento e nos móveis que já tinham tido outros donos quando ali chegaram. De corpo já curvado, pela idade e pelo hábito do trabalho, dá a volta ao leite e prova-o com o gosto que só tem quem sabe. 

Quando chega a altura, deita a água cor de terra que vem do cardo e fica a ver o leite a ganhar corpo. Enquanto espera, puxa as mangas pesadas e prende-as nos cotovelos com os elásticos que traz sempre no pulso. Fala consigo mesma enquanto repete os passos de outros dias até que o lume termine o seu trabalho. Nessa altura, sem ajuda, o corpo pequeno vira a panela que parece que o vai engolir e deita aquela papa no velho tabuleiro de madeira revestido a linho. E ali fica ela, sentada, a envolvê-lo no pano, a apertá-lo, tendo por companhia o som da água que escorre do tabuleiro para os alguidares que ali estão. O som que já lhe soa a silêncio. 

Ajeita-se no pequeno banco e prepara as mãos para dar forma aos queijos que esperam a cura. Ela metida no trabalho que sempre fez naquela casa onde também dorme e come. Toda a sua vida ali. A dela e dele. Ele que naquela idade ainda sai de manhã para lhe ir buscar o leite. Ela que de corpo curvado faz do trabalho os seus dias. Ele que ao final do dia volta a sair de balde vazio. Ela que o espera. Os queijos que levam o sabor que só o tempo lhes dá.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Meu rico Santo

Todos os anos a mesma coisa. Os dias longos a terminar em noites quentes anunciavam a chegada da época de devoção onde o trabalho dava lugar à folia. Chegavam os santos que traziam os vizinhos para a rua de fogueira preparada para aquecer uma noite que não conhecia frio. 

Lá no largo, no mesmo sítio de sempre, já todos a esperavam. Os troncos grossos preparados para arder noite dentro e as conversas a crescerem ali à volta. Apareciam todos e nenhum tinha sido convidado. Traziam um chouriço e um toucinho, mais um pão e uma garrafa de vinho e tudo o mais que se conseguia arranjar nas despensas quase vazias. 

A fogueira em labaredas que metem respeito e o ar a cheirar ao rosmaninho que lhe deitam. Está dado o início para a festa acompanhada de um bom bailarico que puxa até pelos pés mais preguiçosos. 

- Ai malandro - gritam uns e outros enquanto os mais novos saltam à fogueira só para mostrar que já são homens. Ou que acham que são. 

Naquela noite o que se quer é esquecer os dias sempre iguais e as tristezas que a vida dá. Para se rezar a Santo António e beijar a medalha de São João enquanto se roga um pedido. É dia de santos, noite de festa. 

O sino da igreja dá o sinal de meia-noite e as meninas casadoiras avançam para a fogueira. Alcachofra passada pelas labaredas que a tradição nunca se enganou e todas querem ter direito à benção. 

Levam-nas para casa. Chamuscadas e a cheirar a fogo recente. Escolhem a melhor jarra e deixam-nas em água à espera que chegue a manhã. Deitam-se de coração esperançoso que o amanhecer a faça florescer. Se assim for, o amor que aquece o seu coração é para a vida, sinal de que a alcachofra abençoa o casamento que se ambiciona. É a flor que diz se aquele é o moço que será o seu homem. 

Um ano a almejar aquele dia que dita a sorte do coração. Que se roga a Santo António pela benção do santo padre e que se confia que a alcachofra guarda a vida de quem a queimou. 

Viva Santo António. E São João que está mesmo a chegar. 



Texto publicado na Revista DADA de Junho de 2018 e adaptado do texto "Meu Rico Santo" publicado neste blogue em Junho de 2017

quarta-feira, 28 de março de 2018

A que dão o nome de amor

Viu-a ao longe. Figura de miúda com uns olhos verdes fundos e o cabelo escuro arranjado numa banana feita com cuidado. 

A simpatia nasceu-lhe assim, à primeira vista. Sem palavras trocadas nem toques de mãos. Só de ver aquela menina de ar envergonhado que caminhava na sombra da mãe. O seu coração ficou ali, com ela. Sem lhe saber o nome. Sem reconhecer o tom da sua voz. 

A partir daquele dia sentiu o coração em alvoroço. Ele, homem feito e de vida difícil, a ser levado por uma força que nem sabia descrever. Era uma pressão no peito que lhe atormentava as noites e afastava o sono. A imagem dos seus olhos tímidos e os passos pequenos, ocupava-lhe o pensamento. Todos os dias. A todas as horas. Desde daquele dia em que os seus olhos a tinham encontrado. 

Faltava o ar e o peito ficava apertado em saudades desde do primeiro momento. A menina dava-lhe a volta à vida sem saber que o fazia. E ele, esquecendo a timidez que o caracterizava, escreveu-lhe nas melhores palavras que sabia. 

O papel simples e a letra desenhada. Parco em palavras que não queria ofender quem amava e nestes assuntos era um novato. 

Pediu-lhe desculpa nas primeiras linhas. Para que ela soubesse que não a queria incomodar. Aquela carta era só para lhe falar da força que o levava até ela desde do primeiro momento que a vira. Para lhe declarar o amor que surgiu sem justificação para tal.  

Assinou com o seu nome completo e despediu-se esperando que ela lhe respondesse. Rezando para que aquele sentimento não fosse só seu. 

Por portas e travessas arranjou maneira das folhas chegarem às mãos delicadas daquela moça que lhe atormentava os dias e as noites. Depois aguardou com o coração em alvoroço.

Esperou sem a tornar a ver. Só com a sua imagem no pensamento. A resposta tardou mais do que ele queria, mas chegou-lhe. Ele leu a medo que é o que se faz quando um papel tão pequeno guarda tanta vida. 

Na carta que cheirava a jasmim e a Primavera, ela dizia-lhe que se chamava Mariana. O resto é a história que ficou só para eles.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tardes de Matiné

Ela escolhe o melhor vestido dos poucos a que chama seus. O fato domingueiro, o mais bem arranjado e estimado, é o que vai usar esta tarde. Vai bonita e recatada como mandam os bons costumes que qualquer menina digna de respeito cumpre sem hesitar. Não sai sozinha. Onde é que já se viu tal coisa? Uma menina, numa idade destas só sai acompanhada pelos pais para se garantir que o seu comportamento é irrepreensível e que as mãos dos miúdos que por aí andam não se esticam mais do que devem.

Os rapazes não têm quem olhe por eles. Não precisam, a sua honra está sempre a salvo sem nada que a manche e não é uma dança com uma menina que os vai colocar em perigo. Vão sozinhos ou acompanhados dos amigos. Todos da mesma idade, com o sangue a borbulhar nas veias. Homens são homens.

O salão da colectividade, se é que o seu tamanho permite que tenha esse nome, já está arranjado. As cadeiras estão colocadas em filas de cada lado do salão e, ao fundo, o pequeno palco está preparado para receber a música. Não falta nada. Hoje, todos os caminhos vão dar ali. É dia de matiné.

Começam a chegar aos poucos. As meninas acompanhadas dos pais, os rapazes sozinhos. Ouvem-se conversas perdidas, vozes excitadas, risos abafados.  O salão começa a ficar cheio, as cadeiras ocupadas. Rapazes de um lado,  meninas do outro com a mãe sentada ao seu lado.

As meninas aproveitam a conversa da mãe com a vizinha para deitar o olho ao outro lado da sala. Alguém retribui o olhar e elas baixam os olhos e fazem um sorriso discreto. 

Começa a ouvir-se  a concertina. As modinhas enchem a sala e os pés começam a marcar compasso. Os olhares vagueiam de um lado para o outro da sala, as cabeças e as mãos fazem sinais quase imperceptíveis.

Um "queres dançar" por gestos para a menina do lado de lá, aquela com quem ele engraçou. Se a resposta for não, por mais discreto que seja, é um não à vista de todos e isso tem o seu peso no orgulho de um rapaz. Mas respondem-lhe com um incentivo para que se aproxime e ele, mesmo com os olhos da mãe da sua escolhida pregados em si, avança pelo salão. 

E dançam. Controlando as distâncias, deixando a mão bem alta e quase sem trocar uma palavra. A modinha toca e eles aproveitam aquele tempo que é seu. Um olhar desviado, um sorriso tímido e a separação no final da música que dançar muito tempo com o mesmo pode fazer com que o pai da menina comece uma discussão de meia noite.

Assim começa o rapaz a cortejar a menina. Controlando os movimentos, poupando nas palavras e trocando olhares de um lado para o outro da sal. Sem direito a privacidade que isso é um luxo que nem o casamento dá. 

Se tudo correr bem, aquela dança leva a outra e a umas visitas em companhia dos pais. Se tudo correr bem ele ainda a vai levar ao altar e um dia serão eles a controlar os movimentos na salão da matiné.

As coisas às vezes começam por muito menos.