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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Cabeça na água

Os dias eram de um calor estranho. Abafado lá no alto e tolerável quando se apanhava a brisa do mar. Não os conhecia assim. Só secos, com a transpiração a colar-se à pele. Nem estava habituada ao que os olhos me mostravam. Em vez de lezíria a que não conhecia o fim, mostravam-me um azul a que não sabia dizer se era o céu que entrava pela terra ou a água que visitava os pássaros.

O barulho de crianças sem pais por perto, enchia os corredores e os quartos de camas perfiladas enquanto havia espaço. Ali, ninguém dormia sozinho e isto se alguém chegasse a dormir o sono que se pretendia. Era a discussão entre o respeito por quem nos mandava calar, a excitação de estar fora de casa e a ansiedade. Essa maldita que nos fazia verter uma lágrima pela mãe que não nos vinha buscar e que nos deixava sem vontade de voltar.

A primeira vez que ali fui, nunca tinha visto o mar nem sabia o que era dormir numa cama que não era minha. Subi para a camioneta sem vontade de o fazer e deixei a minha mãe do lado de lá da janela a dizer-me adeus. Para mim o mundo acabava ali, no adeus da minha mãe, nos tremeliques da camioneta que me levava, na mala que me acompanhava com mais ar do que roupa. Recomeçou quando senti aquela maresia a refrescar-me a cara.

Andávamos todos de igual. Íamos à praia todos os dias. Não importava se fazia sol ou se o tempo tardava a aliviar. Uma corda a marcar o nosso espaço. Os outros do lado de lá, nós ali. O barulho das ondas a bater na areia, a espuma a recolher a alto mar para voltar a bater logo a seguir. Eu à espera da minha vez sem me importar com a tristeza de quem ficava na areia, vestido, sem autorização para sentir o mar a gelar os ossos e os dedos dos pés a torcer com o frio. 

Tinha sorte, agora sei disso. Sem mal que viesse do médico, tinha direito a três mergulhos no mar. Só três. De costas, a tapar o nariz e de boca fechada, e lá me mergulhavam. Um. Dois. Três. E lá voltava eu para ao pé dos outros. A lamber o sal da cara, de cabelo encharcado e com as pernas cheias de areia miudinha.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Quinze dias em Agosto

No dia anterior, já a agitação falava mais alto do que qualquer discernimento. Era a casa em alvoroço entre a correria dos mais velhos e a euforia dos mais novos. As roupas acumulavam-se nas camas, as mercearias enchiam a mesa e os armários da casa de banho estavam abertos sem que se encontrasse as toalhas que era para levar.

Agosto tinha cheiro a praia e a férias. Era altura de trocar a casa de todo o ano por outra. Mais pequena, com uma cozinha e sala que dava em quarto, mas que parecia de riquezas que não tinha. Alugada semanas antes, trazia consigo a certeza de duas semanas com o mar e o sol, se se dignasse a aparecer, por vizinhos. 

Ainda nos preparativos e com a hora da partida cada vez mais próxima, fecha-se uma mala com a roupa de vestir e outra com a de servir. Mais um cobertor que o mar traz uma maresia fria durante a noite. A cesta fica cheia com cebolas, batatas e mais qualquer coisa que é melhor levar do que estragar. 

O carro parece pouco para tanta mala. Quando se fecham as portas e se dá a volta à chave, vai meia vida ali metida e a outra meia só fica porque não há onde a levar. 

O caminho feito em curva e contracurva demora a passar, mas quando se avista o destino, mesmo que encoberto, é como chegar ao paraíso prometido. O cheiro a sal a invadir os pulmões e o sol a queimar as faces. As ondas a chamar pelos mais novos que se perdem nas horas de uma digestão que não compreendem e nos avisos que as mães insistem em repetir. 

Duas semanas esticadas até ao último minuto. Os bolsos com moedas para gelados e bolachas americanas. Os dias que queriam que nunca acabassem e quinze dias a render como se fossem trinta. O corpo cansado de tanto nadar e as mãos pegajosas dos gelados que iam buscar às máquinas e escorriam pelo cone. Os mergulhos quando a praia já estava vazia e o voltar a casa embrulhados em toalhas no embalo dos braços dos pais. Um sem fim de rotinas que se viviam todos os anos como o momento mais extraordinário. 

 As melhores férias do mundo.



Texto publicado na edição de Agosto de 2018 da Revista DADA

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os meninos da colónia

Tão pequenos e lá vão eles de mala na mão. Lá dentro não levam mais do que um sabonete e as poucas mudas de roupa que o dinheiro permite. Mesmo assim, já levam mais umas só caso seja preciso. Entram na camioneta que os leva lá para longe, para umas semanas de férias. Lá vão eles, miúdos pequenos a deixar os pais e os irmãos na terra e a partir a caminho da praia. 

Quando lá chegam, são levados para o banho. Entregam-lhes o bibe que é a farda oficial. Azul aos quadrados branco para os meninos, vermelho aos quadrados brancos para as meninas. Têm direito a um fato de banho que será seu nos próximos dias. 

- Temos de arranjar maneira de sair daqui - pensam alguns deles quando a saudade da família fala mais forte. Nem o azul do mar é capaz de sossegar aqueles corações pequeninos que nunca ficaram longe dos seus.

Não arranjam como sair, mas não deixam de pensar nisso todos os dias.

Fazem o caminho até ao mar em fila indiana, muito bem alinhados uns atrás dos outros. Muitos deles pisam areia daquela pela primeira vez. Não é como a terra lá da aldeia que suja os pés quando jogam à bola. É mais áspera. Quando chegam à beira mar encontram umas pedras muito polidas que escondem conchas que eles nunca tinham visto.

E ficam ali na areia todos juntos. Cercados por paus de madeira e cordas que marcam o espaço onde devem ficar. Não podem sair dali. Só podem ir à água quando assim lhes for dito e nem todos podem ir. Muitos já ouviram falar no mar, outros já não são novatos nestas andanças, mas a sensação da brisa do mar, húmida e salgada, a refrescar-lhes a cara é sempre única.

Ali estão os meninos tão pequeninos e já com tanto para contar.

Têm direito a lanche na praia. As senhoras chegam com as cestas à cabeça cheias de pão para o lanche. Um para cada um, para matar a fome que o ar da praia dá.

Quando chega a hora de voltar, lá vão eles todos juntos, em fila indiana, a subir a rua. quando chega a hora da refeição o refeitório fica cheio com as vozes miudinhas. Lá pelo meio, há um que vai cantarolando para entreter os restantes. É o espetáculo a que têm direito. No prato levam comida que lhes parece estranha, que às vezes não lhes sabe tão bem como as sopas que a mãe fazia, mas que comem para confortar o estômago que já reclama por alimento.

Quando a noite chega, recolhem às camas à hora certa. O relógio dá o sinal para recolher e cada um deita-se na cama que lhes foi atribuída. Estão marcadas com um número que passa a ser o seu. 

Assim se passam os dias com vontade de voltar para casa. Se tiverem sorte, pode ser que uma excursão traga caras conhecidas para os visitar. 

- Olha quem está aqui - dizem as visitas inesperadas quando os encontram sentados na areia no espaço marcado pelas cordas.

E assim se mata um bocadinho da saudade que aperta aqueles corações.

Dias de praia. Com mar e sol. Com os colegas da sua idade, uns mais sabidos do que outros, que é assim a vida.

Depois voltam a casa. Quando os seus dias de férias terminarem. Fica o bibe e o fato de banho para trás, a cama desfeita com o número que era seu. Voltam à sua terra e aos seus e o coração fica cheio. Na mala levam o que restou do sabonete, as roupas desarrumadas e uma casinha de barro para oferecer aos pais. 

Os meninos estão de volta na mesma camioneta que os levou.


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As férias dos Senhores

A praia era destino de férias para quem não tinha vida difícil todo o ano. Para quem se levantava de manhã e encontrava a mesa do pequeno-almoço pronta, os vestidos engomados e a casa a cheirar a pão quente. Como se tudo acontecesse com o estalar de dedos. 

Para os senhores, as senhoras, as meninas e alguns doutores, as férias de Verão faziam-se à beira-mar. Para cuidar das dores nos ossos, para melhorar a circulação, para que as meninas respirassem melhor. As maleitas de um ano inteiro atenuavam-se naquelas semanas com vista para o mar sem fim. 

Com eles iam as criadas, as que nem nas férias tinham direito a descanso. Mudavam de casa, de ares, mas nunca de obrigações e deveres. Só o cheiro a maresia as fazia acreditar que os dias não eram exactamente iguais aos outros todos.

Tinham os mesmos deveres. A cozinha era o seu espaço, a lide da casa a sua obrigação. Tal como todos os outros dias. 

Quando o relógio marcava a hora, lá iam elas. Vestidas como todos os dias, de farda e avental engomado, lenço apertado e o cesto com o almoço equilibrado em cima da sogra que lhes protegia a cabeça. Iam descalças pela areia até chegar aos senhores que esperavam o repasto. 

- Oh menino, venha para aqui. 

Gritavam para os mais pequenos que corriam à beira-mar e teimavam em não voltar. 

Preparavam a mesa para os senhores e para os meninos. Almoçavam ali, com o mar a bater lá ao fundo, a areia a fazer cócegas nos pés e o sol a queimar a pele. A família protegida debaixo de pano, as criadas à espera que terminassem o almoço para fazerem o caminho de volta para casa. 

O mar estava ali tão perto que, muito de vez em quando, elas até acreditavam que estavam em descanso dos dias sempre iguais.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Vai e Vem

O dia começava cedo e o calor  já se fazia sentir. Era Verão, não se podia esperar outra coisa, mas falar da temperatura é uma coisa comum. Se está calor, mesmo nos meses em que é suposto assim ser, há sempre uma referência ao ar que sufoca e ao sol que queima.

Mas naqueles dias não havia calor que assustasse. Era o tempo dele e o destino era a praia.

 Juntavam-se todos no ponto de encontro à espera. Novos e mais velhos, crianças e avós. Cestas cheias de toalhas e protectores solares. A geleira com o almoço, o lanche e mais qualquer coisa para confortar o estômago. Os sacos com os brinquedos essenciais que muitas vezes voltavam para casa com menos um pá que tinha ficado enterrada na areia. Pequenos problemas na vida dos mais novos que pouco se preocupavam com eles, nada conseguia perturbar aqueles dias de mar e areia. Tanta areia que quando chegavam a casa parecia que a praia tinha vindo com eles.

O autocarro chegava, o ponto de encontro ficava vazio. Começava a viagem que parecia sempre mais longa do que a realidade. A vontade era chegar o mais depressa possível.

Havia dias em que o tempo trocava as volta aos visitantes. O calor da partida transformava-se em nuvens à escada e, de vez em quando, uma chuva ameaçava o dia. Os mais velhos vestiam uns casacos aos mais novos que, mesmo com a chuva a cair, ficavam pela areia a construir castelos e tartarugas de areia.

Mas ao meio-dia, o sol voltava. Os toldos protegiam do calor, a água gelada pedia banhos demorados e mergulhos dignos dos jogos olímpicos e o lanche ficava mais para mais tarde. Todos eram amigos, todos partilhavam brinquedos e histórias. Os que tinham feito a viagem juntos e os amigos que se faziam com a barraca ao lado.

Os dias eram aproveitados ao segundo. Com gritaria, risos, jogos de futebol improvisados e sestas dentro da barraca. O tempo passava sempre rápido de mais e quando ainda parecia que estava a começar, já o sol começava a desaparecer.

- Já está na hora?

Já estava. O autocarro esperava para fazer o caminho de volta, os mais novos adormeciam nos bancos porque a viagem era longa e os mais velhos pensavam no que tinham de preparar para o dia seguinte. Mais sacos para arranjar, mais uma viagem para fazer. 

Com alguma sorte, o sol começava a espreitar logo de manhã.