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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Açúcar ao desgoverno

Casou-se no outro sábado. De branco e vestido fechado até ao pescoço. Com festa para a família de parte a parte e de mesa cheia. Bem dito, teve tudo a que tinha direito.

Fazia tempo que o casório andava a ser preparado, ainda nem se sabia qual o noivo que calhava em sorte. O enxoval arrumado na arca lá de casa, costurado pelas mulheres da família. A noiva, dotada de mãos de fada, “bordou cada metro de tecido”, dizia a mãe, “ até aqueles que vi serem entregues na porta da vizinha?”, comentavam. Toda gente sabia que a vizinha era costureira e bordadeira de uma vida e que as mãos da moça ainda eram frágeis.

E foi no outro sábado que a moça se tornou senhora. De respeito. O cabelo, que sempre conhecera caído até à cintura e a fazer-se à vontade do vento, arrumava-se numa banana apertada com ganchos por todo o lado. Nem um fio fora do sítio. Antes de subir ao altar, tinha descido a bainha a todas as saias. Dois dedos abaixo do joelho que só quem não se dá ao respeito é que mostra mais do que deve. E o que se quer de uma mulher casada é que se saiba dar ao respeito. Isso, e que seja governada.

No outro domingo já estava na casa que agora era sua, com a sogra a mostrar de quem era a última palavra. Afinal, ela só ali estava porque tinha casado com o seu filho. Aquela era a sua casa. Seguia-lhe os gestos sem se dar ao trabalho de disfarçar. Contava as favas que punha na sopa, “a carne é só para dar sabor” e bem que chegava um dedo de chouriço e outro meio de chouriça. 

A noiva, agora senhora de respeito de pele puxada pela banana enrolada na cabeça e pernas tapadas quase até ao tornozelo, baixava os olhos, esfregava os dedos de uma mão nas costas da outra e assentia sem o fazer. E que ela nem sonhasse que a panela estava a cozer arroz para que fosse doce, senão tinha de levar com o sermão e a missa cantada. “Uma mulher tem de ser governada e doces não é senão desgoverno de quem não sabe o que a vida custa”. Que fosse feita a sua vontade. A da sogra.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O não para ser mulher

O tamanho era pouco. Nascera nos dias pequenos, era o que costumavam dizer-lhe por graça quando percebiam que tinha deixado de crescer por volta dos sete anos. Ou então crescia tão devagar que era preciso deixar passar muitos mais para se perceber a diferença.  

- Já és uma mulherzinha. 

Estava a chegar aos doze. Doze anos sem altura que o confirmasse, mas com sentença associada. Mulher. O que era bom de saber era quando tinha sido menina porque disso ninguém a tinha avisado. Nunca se tinham virado para ela com a mesma autoridade de agora, para lhe dizer que era uma menina e agora era isto. Mulher. 

Talvez tivesse sido criança quando embalava os irmãos e ainda mal tinha feito os cinco anos. Ou quando, com oito aniversários contados, os preparava para a escola transformando o vazio da cozinha em pão para lhes dar pela manhã. Talvez o tivesse sido na altura em que não tinha tempo para brincar, mas a roupa estava estendida ao sol, imaculada. 

- As mulheres de respeito não andam a rir assim. Isso são as que não têm juízo.

Dez anos e tinha dado uma gargalhada vinda lá bem de dentro no meio da rua. Não o voltou a fazer que ninguém quer que pensem que lhe falta juízo embora saiba que não é o seu caso, mas mais vale prevenir os comentários.

- Já és uma mulherzinha.

Foi o que lhe disseram quando a puxaram pelo braço e a tiraram da corrida que fazia com os outros rapazes e que estava a dois passos de ganhar. 

- As mulheres não correm. 

E ela parou. Porque era mulher embora ainda se sentisse criança e o ser mulher tinha regras. Muitas. Todos os dias mais uma. Ela cumpri-as todas. Uma por outra, adicionando novas. Não ria, não corria, não chegava a casa depois do sol se pôr, não se esquecia de preparar o jantar, não usava saia acima do joelho, não falava com homens na rua, não ficava sozinha com eles sequer, não dançava, não mostrava as pernas, não respondia, não tirava os olhos do chão, não... 

- Não queres ser uma vadia, pois não? 

Não queria. Só queria ser mulher porque diziam que já o era. Era por isso que juntava mais um não à lista.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Não dos meus

A feijoca estava ao lume e no estendal não havia espaço para mais nenhuma peça de roupa. Do fundo do terreno chegava o barulho da enxada a roçar as ervas e o cair das pedras que eram atiradas para longe. 

Naquele bocado de chão cimentado que era pouco mais de um metro por outro tanto, ela aproveitava o sol que lhe aquecia o corpo e facilitava a vista. Sentada no banco de madeira que ninguém sabia há quanto tempo por ali andava, de costas dobradas e pano em cima da cabeça para proteger do sol. 

Fazia as bainhas das calças do mais velho que, mesmo já gastas, iam passar para o mais novo que tinha um palmo a menos de altura. De caminho ainda passajava o tecido dos joelhos que ameaçava romper de tanto uso, mas que ainda aguentava mais uns tempos. Virava o colarinho das camisas já gastas de um lado, mas impecáveis do outro. 

- É preciso poupar - dizia para si mesma numa tentativa de se desculpar por não poder comprar outra. Uma em condições como usavam os senhores que passavam na rua com os colarinhos limpos e sem pingo do suor naquele corpo. 

Poupava ali para comprar mais tarde. Para ter uma camisa nova para os miúdos estrearem quando fossem ao passar da procissão, para substituir os sapatos que já tinham tanta meia sola que nem se sabia se alguma vez a sola tinha sido por inteiro. Mas mesmo que a roupa nova demorasse a chegar, os seus nunca andavam mal arranjados que ela fazia questão que assim fosse. 

- Dos meus não falam. 

Ela bem sabia quais eram as conversas que andavam de boca em boca e viravam qualquer um do avesso. Fosse o mais santo ou o maior pecador. Ia tudo. Mas dos seus não faziam pouco. Não tinham muito, mas eram asseados. E respeitadores. Isso ela sabia que eram. E fazia questão de os apresentar em condições. 

Vestia-os com as melhores roupas que o dinheiro contado podia arranjar. Costuradas em casa, à mão, que as máquinas não tinham lugar por ali, mas com paciência. Naquele bocadinho de terreno. Os botões escolhidos com pormenor, a renda aproveitada, mas que ali tinha ares de nova. Quando o tempo escasseava, forçava os olhos à luz do candeeiro a petróleo e trabalhava noite dentro. Acabava vestidos, acertava calças, levantava punhos. Sempre para eles. Só depois, com o que sobrava é que desenrascava qualquer coisa para si. Mas nunca faziam má figura. 

Uns e outras, até podiam inventar de noite para dizer de dia, mas sobre si nunca podiam apontar o dedo. Pelo menos, na roupa. Desmazelada é que ela não era.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O fim do suplício

Rodou a chave na fechadura e entrou em casa. Lá dentro, a filha, quase mulher, olhou-a com espanto. Não eram horas de voltar a casa. Vendo bem o relógio, nem eram horas de abrir as portas ao trabalho. 

Viviam sozinhas. O marido que nunca chegara a ser, tinha a mão pesada e o mau feitio que ela teimava em desculpar com o álcool. Perdera-se com os olhos verdes e a altura que lhe dava sombra e, sem consentimento do santo padre, ficara ao seu lado, num quarto com serventia de tudo o resto. Ela sabia que, mesmo sem aliança, era melhor ter um homem em casa do que ser uma mulher a viver sozinha com uma filha ao seu cuidado. Era por isso que tinha aguentado tanto tempo. Até que a mão pesada caiu na filha e não nela. Não foi preciso mais. Nesse mesmo dia, arrumou as malas com o nada que era seu e saiu porta fora com a miúda a tropeçar nos próprios pés. Nunca pensou em voltar e ele nunca a procurou. Tal como todos os outros, achava que se nunca se tinham casado ela não merecia qualquer tipo de respeito. Era certo e sabido que esse direito só estava reservado a quem subia ao altar. Se assim não fosse que se mantivessem debaixo do tecto dos pais. 

Desde miúda que conhecia qual era o seu lugar. Sabia que as mulheres tinham todas direito ao mesmo destino e ela, com uma filha nos braços, fugira ao seu quando fechara a porta de casa nas suas costas e deixara o seu homem do lado de dentro. Uma mulher não fazia isso. Uma mulher a sério, precisava do homem. Pouco importava o inferno a que a sua vida estava confinada. Se ali a viam assim, nem queria imaginar o que lhe teria acontecido se tivesse ficado a viver na aldeia que a vira nascer. Onde todos se conheciam e ninguém tinha pudor em apontar o dedo ao vizinho. 

- Há uma revolução - disse quando viu a pergunta a formar-se nos lábios na filha. 

Não lhe deu tempo para responder nem se preocupou em saber se a miúda percebia o que a palavra queria dizer. Agarrou-a por um braço e levou-a para a rua, ignorando as ordens para ficar em casa. A partir daquele dia, ninguém lhe diria o que fazer ou como o fazer. 

- Vamos para o meio dos militares. Hoje, acaba o nosso suplício.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os dias das mulheres

A sua figura enganava quem, sem a conhecer, a tomava por frágil. Faziam sempre isso. Afinal era mulher, pequena e magra, não esperavam muito mais do que fragilidade. Era isso que lhe ficava bem. 

Ela, a trabalhar desde que se lembrava, assumia essa imagem que tinham dela. Fez isso tantas vezes que a tomou por real. Era tal como diziam. 

Uma miúda. Antes dos trinta já tinha dois filhos e o terceiro estava a caminho. Nada de extraordinário, algumas da sua idade já tinham mais bocas para alimentar. E ela, com dois, ainda se aguentava bem. Quando chegasse o terceiro ela logo via como se arranjava. 

Trabalhava no campo e no que conseguia arranjar. Era preciso pagar a comida que ia para a mesa. Mais o conduto, que as batatas e as couves vinham da parte de trás da casa. Mas o bocadinho do touchinho e o chouriço é que davam o sabor. O resto vinha do chão que ela e o marido semeavam. Os dois, por igual. Embora ele tivesse o dobro da sua altura e a força de uns quantos homens. 

Os pais, com o corpo desfeito do trabalho que não poupava ninguém e os bolsos vazios da reforma que nunca chegou, ocupavam o outro quarto da casa. Era responsabilidade dividida com os irmãos, mas ela era a mulher. E a mais nova. Tinha-lhe calhado a responsabilidade e ela, que sabia o que era esperado de cada um, nunca tinha criticado. Ela preparava-lhes a comida, a roupa, contava os trocos para que fossem ao médico. As suas contas nunca davam em somas. 

E depois eram os miúdos. Um sem fim de preocupações. Dois rapazes. Podia ser que ao terceiro viesse uma rapariga que a ajudasse ao fogão ou a passar um pano pelo chão daquela casa. Os seus joelhos já estavam calejados de tanto esfregar. Uma a limpar e tantos a sujar dava sempre em contas que nunca batiam certo.

Fazia os seus caminhos de cesta à cabeça. Costas o mais direitas possível que as dores já se tinham tornado rotina. E assim levava os seus avios e a comida que lhe confortava o estômago no campo.

Em casa, era o jantar que ia à mesa a horas certas quando todos já estavam sentados à sua espera. Sem um agradecimento nem sequer um elogio. Ela também não os queria. Obrigação não e para ser elogiada. 

Chegava à cama quando a noite já estava perto de terminar e deixava-se dormir o pouco a que tinha direito. Já nem sonhava. Só ficava ali, num limbo que mal chegava a descanso. A manhã seguinte era outro dia, em tudo igual ao que terminava e a todos os outros.

Quem olhava para ela achava-a frágil. Nunca a conseguiram ver como ela o merecia e ela nunca percebeu o quanto lhe deviam.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que a vida ensina

"Não sei o que isso quer dizer. Se letrado é ter lido muitos livros isso não é cultura. Cultura é o que nós fazemos. Olhe, sabe, uma vez o Agostinho da Silva a seguir ao 25 de Abril convidaram-no para presidir à comissão contra o analfabetismo. Ele dizia "Meu filho, eu estou tão preocupado porque a maior parte das pessoas cultas que eu conheço são analfabetas". Por exemplo, saber fazer pasteis de bacalhau é uma forma de cultura tão importante como escrever um livro. "
António Lobo Antunes, in Jornal das 9
Entrevista completa aqui

Ela não tinha nada a oferecer. "Oh avó, tu não sabes nada", diziam-lhe os netos quando ela ficava espantada com a vida que eles levavam. Tentavam ser simpáticos. Uma festa no braço a acompanhar a observação, o compôr da manta que lhe aquecia as pernas. As palavras que lhe ficavam. “Não sabes nada”. 

Era verdade. A vida não lhe tinha dado nada que valesse a pena. Não se escreviam histórias sobre os seus dias, as suas lutas não tinham memória. Só lhe tinha calhado em sorte o trabalho, a casa, o marido, os filhos. Paridos e criados naquelas paredes que mal davam para dois, mas que tinham recebido seis. Dois deles perdidos quando ainda nem tinham aprendido a andar. Voltou a viver deixando parte de si enterrada naquele terreno de campas e flores murchas. Aprendera a suportar uma dor que não tinha sentido, que não era normal. Mas fizera os seus dias. Uns a seguir aos outros com uma cruz que lhe pesava a cada passo. Mas disso não falava. 

Os netos deixavam-lhe as frases caladas na garganta. As histórias que queria contar para quem não a ouvia. “Talvez tenham razão”, pensava ela, “ O que é que uma velha como eu, que mal sabe ler e que nunca viu nada para além do mar, tem para oferecer?” 

Esfregava as mãos. A pele marcada com rugas e calos, o resultado de uma vida de trabalho. As mesmas que amassavam o pão até ficar no ponto. Sem receitas nem medidas. A olho, a sentir. A textura, a humidade. O ar do forno a dar sinal de estar pronto para o pão. A intuição de quem faz aquilo desde que nasceu. 

Sabia qual o tempero dos fritos de Natal só de os cheirar. Se era preciso mais laranja ou se estavam a cortar no abafado. Os seus braços tinham uma força que não cabia no seu meio metro de altura. As estações anunciavam-se sem alarido. A mudança da cor do céu ao entardecer, o vento que soprava mais seco. A época de plantar para depois colher. Nunca lera um livro. A escola tinha terminado na terceira classe com uma enxada na mão. Para que é que ia perder tempo a ler quando o dinheiro faltava em casa. Sabia escrever o seu nome numa letra que já nem se usava. Nada mais. 

Não conhecia o mesmo que os netos. Nem que os filhos. Esses que tinham estudado fora com o trabalho daquelas mãos. Olhava-os com orgulho e com um quê de incredulidade ao ver neles tão pouco dela. Da sua história. Aqueles que eram parte de si, nunca saberiam contar qual tinha sido a sua vida. Não iriam entender o porquê de mal ler, de falar para si quando estava sozinha e se lembrava das angústias que a vida lhe tinha dado. 

Mas talvez eles tivessem razão e ela não soubesse nada. Talvez aquilo que a vida lhe tinha ensinado com os dias iguais, com o que lhe tinha roubado e com o que lhe tinha dado, não fosse nada além de banal. 

Mas, agora que olhava pela janela, sabia que amanhã ia chover e que os netos nunca iriam perceber como é que ela acertava sempre nestas coisas.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Regatear na praça

Dentro da praça era uma mistura de cheiros e sons. O peixe fresco. O sangue da carne. O doce das frutas. Os gritos de quem tenta vender o que tem na banca. Demasiada gente na pressa das compras. O tilintar dos trocos que andam na bolsa, contados até ao último tostão. É preciso poupar e estar de olho nas balanças de quem vende.

E ela lá ia para o meio daquela confusão que já conhecia de cor. Palmo e meio de altura e pouco mais do que meia dúzia de anos de vida. Descalça, de cabelo arrumado num rolo debaixo do lenço e camisa abotoada até ao pescoço.

Na praça já a conheciam. O corpo miúdo escondia a sabedoria de quem tinha crescido antes do tempo. Regateava como ninguém. Era isso e apontar os defeitos do que via. Sem hesitação.

Entrava na praça de cesta vazia, um rol de pedidos e a ordem para despachar que havia muito para fazer em casa. E se era verdade que ela era precisa para tratar do trabalho, também era verdade que a senhora não confiava em mais ninguém para tratar do avio. Ninguém tinha o olho dela para a qualidade nem a língua para dar a volta ao preço. A senhora já tinha tentado arranjar outras, mas bastava uma viagem à praça para irem de volta para casa delas. Traziam o peixe com olhos de carneiro mal morto, era o que era. 


Era por isso que a senhora a mandava a ela. Conhecia o peixe só de lhe ver a cor e não admitia outro corte de carne que não fosse o mais tenro. E ai de quem a tentasse enganar que a gaiata era miúda, mas espevitada. 

- Ó menina, olhe que isto é do mais fresco que há.

- Então coma você e que lhe faça bom proveito.

Era a vida na praça. Um pregão atrás do outro e o olhar atento das criadas de cesta à cabeça. A confusão das pessoas que se perdiam por ali e o cansaço dos que ali andavam de pé ainda antes do sol nascer.

E ela, pequenina e miúda, enchia a cesta com o que lhe tinham encomendado. Moldava a rodilha com as mãos até a deixar como queria e metia-a por baixo da cesta que levava à cabeça.Um corpo de criança a acartar com o avio do dia e os tostões poupados a tilintar na bolsa que levava à cintura. Lá ia ela, rua acima. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Os registos de outros tempos

Foi sempre assim. Eram elas que desapareciam sem que se percebesse que era isso que estava a acontecer. O sobrenome que se esconde depois do casamento. Antigamente, perdia-se sem deixar certezas sobre se alguma vez tinha chegado a existir. 

As mulheres eram fantasmas. Ainda antes de entregarem o corpo à terra tornavam-se naturalmente invisíveis. Era o esperado. Ficavam presas a alcunhas que saltavam das bocas da aldeia para os registos que se faziam. Um só nome no baptismo. A alcunha como sobrenome nos seguintes. No casamento. Na morte. Nos nascimentos dos filhos que quando nasciam elas tinham a mesma sorte. 

O seu nome associado ao nome da mãe. Lá ia a Maria, filha da Adelaide, que com o tempo se tornava a Maria Adelaide. Primeiro e último nome escrito na letra trabalhada do padre que registava o seu casamento. 

Só mulher. Sem história nem legado que se colasse ao nome que vinha do pai. Sem sobrenome que identificasse a família da mãe. Uma mulher sozinha naquele mundo de primas e primos que só se identificavam de cara, nunca por registo. Mas elas não sabiam ler. Sabiam lá o que estava ali escrito. E mesmo se soubessem que estava escrito assim, sem sobrenomes de herança, não era nada que lhes preocupasse. Eram todas Marias da Adelaide que, por sua vez, já tinham sido Adelaides da Glória. Era o que era. A identidade perdida para o futuro. Por muito que tivessem sido reconhecidas por todos os que viviam na sua altura. No tempo em que tinham vivida. Nada para além disso. 

Vidas que quase se tornaram anónimas para a eternidade. Do convívio da vida podre do dia-a-dia ficou a lembrança na memória de quem já morreu. Para os que vieram mais tarde, não se deixou mais do que um registo sem sobrenome, perdido no meio dos assentos de batizados onde só aparece o primeiro nome do rebento e o nome completo dos que o trouxeram ao mundo. 

As mulheres, essas, tinham direito ao nome pelo qual a terra as conhecia. Nada mais ficava escrito.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Desta condição

Não se escolhe como se nasce. Nem onde se nasce nem quem somos quando chegamos a este mundo. Não é preciso. É o sexo que decide quem somos. Homens e mulheres. Eles de um lado. Elas de outro. 

A eles tudo o que é grandioso. A força, a autoridade, o punho pesado que é desculpado pela condição de ser homem. De ser ele que representa a família. De se gabar de ser o ganha pão.

A elas a submissão. Os olhos no chão, as mãos trémulas, a obediência que é o que se quer de uma mulher. Que seja prendada, pura e que saiba o seu lugar. Não se pede mais. É a condição da mulher, a flor frágil que leva o mundo à frente, mas que se mantêm na sombra.

O homem entra em casa sem se desculpar pelas horas. O cheiro a vinho fermentado acompanha-o e confunde-se com  cheiro a suor seco e pó das terras.

Elas não o encaram, não o chama à razão que não é isso que se pede delas. 

- As mulheres têm de estar lá para eles. Só isso. Poupa o sorriso que não há pior do que uma mulher tonta. Fecha o colarinho da camisa e desce a bainha da saia que não és uma mulher da vida. Dá-te ao respeito. Depois não digas que falam de ti. Se não te dás ao respeito o que é que queres? - eram as ordens da mãe, da tia, do olhar reprovador da vizinha que lhes acompanhava o crescimento.

O trabalho demasiado cedo e o chegar a adulta antes de ser criança. Próprio da condição com que se nasce. O respeito, sempre o respeito. É ela que tem de fazer por isso que os homens vivem de instinto e são o que são. Não se controlam, são as mulheres que têm de se resguardar. De os deixar ser o que o instinto lhes pede. A ela só se exige que seja aquilo que deve.

O dever colado a esta coisa de ser mulher. Um sinal de nascença que mancha a pele e faz a cabeça tombar para a frente. O corpo cansado do dia de trabalho e que ainda tem de se fazer às vontades do homem. Aquele que as esperou no altar. Aquele que lhe fez o favor de a tornar mulher decente e honrada. A aliança a apertar mais do que os sacramentos de Deus.

Os pés descalços no terreno incerto, a cesta à cabeça, os braços à cintura. O trabalho ao lado dos homens. Não, nunca ao lado, sempre atrás. Em silêncio, na sombra. A tratar da casa, a parir filhos, a tratar dos pais e dos sogros.

A vida cansada quando se acabou de nascer. A sentença de se nascer assim quando isso não se escolhe. A condição de ser mulher.