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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A nossa aldeia

Cheira a carne. Feita no forno depois de marinar em vinho e temperada a pimentão doce e louro. Sabemos quem a faz, conhecemos quem mora atrás de cada porta e sabemos onde vão dar as ruas e que outras cortam para o mesmo sítio. Que para ir do ponto A para o ponto B passamos pela casa daquela que é irmã do outro, primo daquele tal que encontrámos no outro dia. E, já que falamos nisso: “que bem que a mãe dela fazia arroz-doce, até parecia o dos casamentos”.


Conversamos com quem encontramos, pagamos um café gelado ao que acabou de entrar e ficamos só mais um bocado. A ver o jogo, a conversar, a fazer companhia. E dizem lá de fora “as ruas desta aldeia não são para viver”, mas os de cá sabem que são as mesmas ruas que recebem quem faz delas a sua morada. As casas que ficam à sua sorte porque há quem diga que são pouco utilizadas, estendem os braços aos que viram crescer e a quem decide continuar a sua vida ali. Mais tarde ou mais cedo todos se conhecem pelo nome, apelido, alcunha e grau familiar. Ali, todos têm rosto, história, são alguém. Ninguém é só mais um.

A nossa aldeia fica longe das estradas cheias de carros e as que tem como suas estão cheias de buracos. Segundo nos dizem, virá o tapete novo quando houver oportunidade. Um dia. E nos entretantos, nós, que passamos ali todos os dias, já os conhecemos de cor. Tal como conhecemos as casas que foram erguidas pelos daqui, para que fossem de todos, e que agora ganham ervas e postes partidos. Ouvimos dizer que “vai ficar assim” porque “ninguém por ali anda”. Mas nós, que ali vivemos, que dali somos, ouvimos o riso dos miúdos enquanto andam aos pontapés na bola e aos encontrões uns nos outros. Ouvimos os pais a gritar "Tu vai, mas tem cuidado", não vá a bola cair lá para aquele lado de onde vem o cheiro que nos faz torcer o nariz porque é certo que não é de coscurão como a vizinha fazia.

Dizem que ali nada é utilizado, como se os nossos dias fossem passados à espera que a morte nos encontre. Como eles sabem pouco. Quem ali vive, sabe que o corpo puxa-nos para aquela terra, que nos chama a fazer mais. Um sentimento de pertença, de reconhecimento pelo que foi feito por quem veio antes, a vontade de fazer pelos que vão chegar. O coração bate e sempre se vai bater pelas ruas que dizem estar vazias. Se eles soubessem. É preciso passar por elas, vivê-las, todos os dias, todos os meses, para saber que ali se vive. Que ali, é a nossa aldeia. A nossa casa.


Versão completa do texto publicado na Revista Dada de Agosto de 2019

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Deve ter andado a enxofrar

Estava ali sentada desde cedo a embalar-se a si própria num sem fim de mágoas e tristezas que a cortavam por dentro. Foi assim que ele a encontrou. Encolhida, muda e ele, sem o dom da palavra, atirou-lhe com um 

- Estiveste a enxofrar ou quê, mulher? 

Dizia aquilo por dizer, porque era o que vinha à boca de todos quando a visão, fosse do próprio ou daqueles com quem se cruzava, ficava turva e as palavras fugiam da boca de quem achava que tinha de dizer alguma coisa. Vício de anos passado de geração em geração. A mesma conversa quando não se falava do resto. Foi por isso que ela não respondeu nem tão pouco o encarou. 

"Antes assim fosse", pensou com os seus botões, mas nem estava na altura do míldio ou de mal que lhe valha, aparecer nos campos. Antes fosse que a sabedoria de todas as bocas fosse certa e ela estivesse no meio das videiras, de enxofradeira na mão a correr a vinha de ponta a ponta enquanto tingia as folhas de um amarelo vigoroso para combater a brancura do bicho. Antes fosse um desses dias em que voltava a casa de olhos vermelhos e inchados sem distinguir se punha o pé no caminho certo ou se baldeava ribanceira abaixo. Todos aqueles que andavam metidos naquela vida voltavam assim para casa. Olhos inchados e a carne a cheirar a enxofre sem que eles o percebessem. Vendo. Bem as coisas, também devia ter subido ao altar num desses dias em que nem sabia se quem estava à sua frente era um padre ou um taberneiro.

Antes fosse que aquela água que lhe empapava os olhos e deixava a vista nublada tivesse causas que ela soubesse explicar. Que viesse de andar a enxofrar, de passar os dias mergulhada num nevoeiro sulfúrico. Pelo menos aí vinha com dinheiro no bolso, por muito pouco que fosse.

Pensou tudo para si e deixou-o sem resposta que não havia outra coisa a fazer. Ele, pouco habituado a preocupações e sem grande vontade de se entregar a elas, deixou-a consigo mesma naquele embalo marinado em lágrimas. 

- Devia ter andado a enxofrar - era o que qualquer um diria.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Minha terra é Vale da Pinta

É um viver que só conhece quem de lá vem. Um saber que passa de boca em boca, de mão em mão, sem cartilha que o explique ou lhe dê regras. É o que é, sem mais. Corre no sangue de quem deu os primeiros passos por aqui. De quem baldeou no lago da igreja e transformou a roupa de Domingo numa rodilha a precisar de ser espremida. De quem fugiu da maquia que lhe prometiam. 

Sabemos todos o mesmo. Sentimos o mesmo. Falamos um português que soa ao que o país fala, mas que só nós o percebemos. É a pronúncia que aparece quando os nervos tomam conta de nós, são as palavras que só têm significado para quem cresceu com elas. 

Cantamos esta terra que nos corre nas veias e gritamos que é nossa enquanto esperamos que as pétalas comecem a cair em cima do público. A nossa linda freguesia. Mais que todas as outras mesmo que seja só aos nossos olhos. 

Lembramos os saudosos tempos em que os caracóis eram servidos à mesa da taberna do Valentim e que os mais novos vinham do Zé d'Azoia com um cartucho de beijinhos escolhidos à mão. Aquele açúcar colorido que tinha sabor a inocência. A mesma inocência com que batiam à porta de um e de outro e desapareciam antes que se ouvissem passos do lado de lá. A porta abria para encher a rua vazia com o cheiro a refogado de alho e louro e só se ouviam os passos que fugiam ao longe. 

É assim que vai passando o tempo, quando damos por ele já perdemos a conta aos anos. Envelhecem os que dançaram na casa das canas sem ligar a quem sonhava de noite para dizer de dia. Aguentam-se os que ainda se fazem ao trabalho quando se ouve a pergunta que o tempo tornou ordem: "Toca a muca ou não toca a muca?". Ouvem-se os insultos quando o árbitro não está pelos nossos, os que sabemos que vão ganhar. Ficam as histórias vividas por uns que se tornam de todos com o passar de boca em boca. 

Pode chegar o dia em que seja só eu, tu e o Zé d'Azoia, ou que as estradas fiquem vazias, mas esta história será sempre nossa. Do orgulho que nos enche o peito e que se faz ouvir quando nos perguntam de onde somos. Do cumprimento que se dirige aos que nos viram crescer. 

- Ó gente de Vale da Pinta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

As rotinas de Setembro

Os dias já estão a mingar. As manhãs pedem casacos de malha que o final do dia não suporta. É este veste e despe que os deixa doentes. Isso e as correrias que lhes empapa a testa em suor. Deviam ter juízo, mas naquelas cabeças não entra nada.

Ainda fico à porta a vê-los desaparecer na curva lá do fundo e, de vez em quando, grito 

- Portem-se como deve ser. 

Eu sei que devia estar calada, mas não me consigo conter. Eles lá seguem sem olhar para trás. Todos os avisos que lhes faço entram por um ouvido para logo a seguir saírem pelo outro. Sei bem o que ali vai. Tal como sei que o mais certo é voltarem com uma constipação ou um nariz cheio de ranho que limpam nas mangas da camisa por muito que eu avise que não se faz. Lá está, não ouvem. Ou não querem ouvir. 

- Se correres ainda os apanhas. 

Há sempre um que se atrasa, mas lá vai a correr rua abaixo, ao encontro dos outros com a mochila a saltitar às costas. Fazem sempre isto. Vão descendo e apanhando mais um e outro, quando chegam ao portão da escola já vão mais de dez a gritar, não sabem falar de outra maneira. Até cansa a cabeça.

Pelo menos vão felizes. Antes assim do que no meu tempo em que íamos com medo da professora, entrávamos em sentido, erguiamos a mão ao peito para cantar o hino e ficávamos de boca calada a seguir. Bastava um suspiro a irritar a senhora professora e éramos chamados a suspirar de pé em frente ao quadro. Depois é que era o elas. Ainda me arrepio só de lembrar. Mão esticada, "como deve ser" frizava a professora, e a régua a bater na palma com toda a força. Estalava. Doía a mão e a alma cá dentro. E era um calor tão grande que só atenuava quando agarravamos o metal frio das pernas das mesas. 

- Que vos sirva de lição. 

Não servia. Quantas réguas se partiram assim e quantas canas da Índia foram substituídas ao canto da sala? Perdi-lhes a conta. 

Pelo menos os de agora vão divertidos. Saem de casa agasalhados e calçados e voltam umas duas horas depois da hora de saída. Não é que o caminho seja longo, é a conversa que é muita e a brincadeira não acaba. Mas digo e repito, antes assim.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O centro do mundo na taberna

Só quem por ali passou sabe como eram aqueles dias e aquilo que nunca chegou a ser só habitou a imaginação daqueles que nunca tiveram autorização para lá entrar. Não que houvesse uma lei escrita à porta ou uma placa que lhes indicasse que a sua entrada estava vedada, verdade seja dita que nem nunca se viu um polícia a rondar a porta, mas era uma questão de honra, de cada um saber o lugar a que pertencia. Era por isso que as mulheres só metiam um pé do lado de dentro quando a tarde era de matiné e os homens passavam a vida por lá sem razão aparente. 

O lá era um canto escuro que não havia janela aberta que conseguisse iluminar. Uma junção de chão de cimento que já tinha perdido a forma com uma sujidade que era parte das paredes e da mobília. Essa não abundava nem sequer era digna de grandes luxos. Mesas quadradas com tampos de madeira já manchados com círculos escuros e pingos que não houve água que lavasse, e uns quantos bancos rijos que se misturavam com as cadeiras que ajudavam a descansar as costas. Era por isso mesmo que não abundavam por ali, quando há descanso o corpo tem tendência a deixar-se ficar e o que por ali se queria era que fosse beber e voltar ao caminho. 

Do lado de lá do balcão estava ele e ela ficava do lado de lá da parede. Juntos na vida e no trabalho, nos dias bons e nos menos bons. Ele a passar um pano imundo pelo balcão e a deitar os copos no alguidar com água cor de vinho e ela agarrada aos tachos e às panelas. Os caracóis que ele comprava e que ela levava a lume alto em latas que podiam ter sido de muita coisa, mas nunca tinham sido pensadas para cozinhar, e que depois ele vendia a quem por ali andava. Um pires de caracóis bem aviado e mais um copo do que houvesse. 

As conversas ouviam-se na rua. A imaginação a tornar-se realidade quando as palavras se formavam na boca deste e chegava aos ouvidos dos outros. As verdades que nunca foram a valer mais do que a vida de todos os dias e a voz de algum a ganhar corpo para impôr algum respeito sem nunca deixar de atiçar o fogo da má língua. 

E mais um copo deitado abaixo, uma voz a prometer força de punhos e ele a sair de trás do balcão para fazer valer a sua posição enquanto ela lhe olhava os passos. Uma vida inteira numa taberna que dava vida a todos os que por ali deixavam passar os dias. O centro do mundo que ficava pela aldeia.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Quando a caça enchia a mesa

Era tempo dele. De se ouvir os tiros a ecoar pelos campos sem se saber bem de onde chegava. Dos homens sairem cedo e das mulheres os esperarem no trabalho de todos os dias. Era tempo da carne entrar em casa sem se contar os trocos que ficavam em falta.

Quando as espingardas se calavam, lá faziam o caminho de volta. O cão, um rafeiro que chegava de língua de fora que só recolhia quando baixava o focinho para cheirar o chão, vinha à frente a anunciar o retorno. O dono, de botins feitos lama e boné na mão enquanto limpava o suor da cara, vermelha, seguia-o. Em silêncio e de espingarda no braço. No cinto, os cartuchos chocalhavam a cada passo. 

Alertada pelo som que se aproximava acompanhado do ranger do portão improvisado, a mulher espera-o para receber o resultado da manhã de caça. Uma mão na cintura e outra na parede do barracão que lhe serve de cozinha. Sem falar, como sempre, agarra nos coelhos que o marido lhe estende e leva-os consigo deixando-o sozinho a desvencilhar-se da lama e tralha que carrega. 

De mangas arregaçadas, ela faz-se ao trabalho. Uma precisão cirúrgica, própria de quem quase nasceu a fazer aquilo. Desfaz-se da pele do animal e com as mãos nuas descobre os chumbos que lhe ditaram a sentença naquela manhã. O cabelo protegido por um qualquer pano que se aproveitou de uma camisa velha e as mãos a descobrir aquilo que a escuridão da cozinha não deixa que os olhos vejam.

Desfeito de miudezas e do pouco que não se aproveita, o que resta do coelho é preparado para a ceia. Panela ao lume e sangue a aguardar para dar cor ao arroz. Cor e sabor próprio de carne alimentada no campo. O cheiro a subir com o calor da comida a borbulhar e o garrafão do marido a esvaziar como remédio para a canseira. 

A caça traz para a mesa a carne que o dinheiro não consegue comprar. O coelho feito à caçador ou tostado no mesmo forno onde cresce o pão. O pombo transformado em canja que enche a barriga dos mais novos. As barrigas confortadas com a carne brava que não conheceu gaiolas. 

Uma noite de fartura para os estômagos tão habituados a não ter nada que já nem reclamam. É o tempo em que se ouve os tiros pelos campos.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Tornar a casa

Cresceram de pés descalços no quintal de casa. Com enxada na mão mais por divertimento do que a mando e tendo galinhas a correrem à sua volta. Livres. De sorriso que dava em gargalhada sem que fosse preciso muito.

Mas esse crescer já foi há tanto tempo que nem há calendário que o lembre. Foi o que foi e a memória não se lembra de tudo. Entretanto já se passou a vida, já as borbulhas deram em rugas e dores nas costas. Passou a vida, veio a idade. Já a morada mudou para a grande cidade,  ou para os arredores que por lá ficam, e foi-se o código postal que memorizaram antes de saber ler. A criança deu em homem, o pensamento quis mais do que a terra que os acompanhou desde da primeira hora.

Voltam porque assim tem de ser, porque os pais se recusam a ir dali. Almoçam com um pé na porta e de olho no carro estacionado na direcção da saída.

- Nem me quero lembrar desses tempos - deixam escapar quando alguém conta histórias de tempos já idos.

Preferem esquecer que se fizeram gente ali, numa aldeia que tinha pouco e que foi esse pouco que fez o muito que são hoje. Que em tempos, lancharam com as frutas desviadas do quintal do vizinho porque as casas eram feitas sem muros e os mais novos tinham sempre direito a livre passagem.

- Mas porque é que continuas aqui? - perguntam com ar incrédulo aos que decidiram ficar na terra de sempre.

Os outros, habituados ao ar de quem pensa saber mais, respondem com um sorriso discreto e nada mais dizem. Os que vão levam a certeza que aquele gesto não é mais do que a confirmação de que queriam mais do que têm. Os que ficam sabem que é melhor deixar a conversa por ali e responder com um sorriso que deixa o outro a acreditar exactamente naquilo que quer.

Para quem não quer perceber, não há como explicar que ali, a terra quente do sol cheira a vida.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Uns pelos outros

O trabalho fazia-se aos poucos. Quando chegava o fim-de-semana ou o calendário marcava dia feriado. Como era por boa vontade, até em dias santos estavam prontos a arregaçar as mangas. Só era preciso força de vontade para a coisa acontecer e isso eles tinham para dar e vender. Já lhes estava no sangue. 

Era sempre assim. Quando um precisava, apareciam todos. A troco de nada. Ou melhor, a troco de umas quantas cervejas e mais umas conversas que nunca se sabia como começavam. 

Conheciam-se desde miúdos. Nascidos no mesmo ano, primos ou amigos dos irmãos uns dos outros. Não havia justificação para a amizade. Tinham crescido juntos, só isso. Por isso, quando um deles anunciava intenções de subir ao altar, os outros juntavam-se para construir a casa. Era dar empreitada para as fundações e para erguer as paredes que eles tratavam do resto. Depois disso ainda havia tanto para tratar. 

Cada qual tinha o seu ofício e os que não o tinham também davam uma mão que havia sempre trabalho para mais um. O electricista e o pedreiro, o canalizador e o estucador. Até o que trabalhava mais bem vestido. Todos eles sabiam o que era dar serventia. Todos eles apareciam quando era preciso. 

- Por este andar ainda te casas antes do reboco estar terminado - diziam em tom de graçola. Toda gente sabia que quem casa precisa de casa, mas uma piada vinha sempre a calhar. 

Eles lá continuavam até a chave estar na porta. Sempre que havia dias livres e que o tempo deixava. 

Começavam cedo que o corpo nem sabia ficar deitado até tarde e por ali ficavam até ser noite. Almoçavam juntos que a noiva e a família tratavam de lhes dar sustento. Toda gente sabe que de barriga vazia não se trabalha. Uma carne para dar força, um pão de ló para adoçar a boca, um copo para ajudar a engolir. 

- Ó pá, tu cala-te - diziam quando lhes perguntavam quanto queriam receber. 

Estavam ali para ajudar o outro que já os tinha ajudado a eles ou que também ia aparecer quando fosse a sua vez de fazer casa. 

Eram uns pelos outros e nem se falava mais nisso. Era por isso que ali estavam. Uns pelos outros. Para o que fosse preciso.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Sala de espera

Encontram-se ali como noutro tempo se encontravam a caminho do campo. As cantigas que nessa altura acompanhavam os pés descalços e a cesta à cabeça, dão lugar às conversas de dores e mazelas. 

Chega uma altura em que é assim. O corpo começa a acusar os anos e a vida de trabalho. As pernas já não respondem. Quem diria que houve um tempo em que corriam rua acima e rua abaixo vezes sem conta. Que, quando o pai dava autorização, dançavam nos bailaricos até ser horas de voltar a casa. Agora são as dores que lhes marcam os dias. Que descobrem ossos que não se sabia que existiam. Articulações que ameaçam desfazer-se ao mínimo esforço.

O ritual do amassar o pão ou o corpo curvado para trabalhar a terra dá lugar a um sem fim de medicamentos. Uns que acalmam a dor, outros que acertam o coração, mais uns que regulam a tensão e sobram uns quantos que nem se sabe para que servem. A memória já viu melhores dias. 

É a idade, dizem. Os mais novos acabam por reforçar a ideia dizendo que é um posto. Quase como se fosse uma graçola. Soubessem eles como o corpo se vai com o passar dos anos e nem queriam pensar que aquilo era um posto. Para a vida, ainda por cima. Sem retorno. 

E elas ali estavam. À espera que a sua vez chegasse. Que o seu nome se ouvisse. Enquanto faziam contas aos anos que a vida levava e às dores que trazia. Umas já usavam luto que o tempo não perdoa. Outras ainda tinham o alento de ter os seus ao seu lado. 

- Nem eu sei como é que ainda estou aqui. 

Chega uma altura que não se sabe. Faltam os amigos e a vida que se conhecia. Revive-se as memórias quando a cabeça o permite. Chegam as dores do corpo e as da alma. A vida que passa sem que se consiga acompanhar. 

Mas aguentam-se os dias. Tal como se aguentou a cruz que lhes saiu em sorte. E naquele bocadinho em que as cadeiras onde se espera agravam as dores, os dois dedos de conversa com quem é da sua geração têm efeito analgésico. Há coisas que só se pode recordar com quem as viveu. E o tempo já levou tantos dos que lá estavam. 

O altifalante acaba por chamar. Uma a uma. Levantam-se a custo, mordendo as súplicas do esforço e deixando escapar um último desabafo. 

- Ao que a gente chega. No que a gente se faz.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Não há desgoverno

No poupar é que está o ganho. Já os antigos diziam que as mulheres não podiam ser desgovernadas e eles respeitavam. Em sabedoria desta não se mexe. Aproveita daqui, poupa dali, corta nem se sabe bem onde e quando se dá por ela já se tem um avio por meio daquilo que não se fez. Gastar é só no que se deve que ninguém sabe o dia de amanhã e o corpo aguenta muita fome, mas há um dia que quebra. Sem saber ler nem escrever eram exímias na arte de somar em vez de sumir. 

- Comida não se deita fora. 

Lá resmungavam enquanto arrebanhavam o bacalhau que tinha ficado no prato. Uma posta em que ninguém tinha tocado, mais um bocadinho do lombo que alguém, com a mania que era rico, tinha deixado de lado juntavam-se ao que havia.

- Até é pecado estragar - ainda para mais quando o dinheiro faltava e a conta da loja do costume não tinha fim à vista. 

E lá juntavam tudo, fosse cozido só com sal ou feito no refogado da sopa. Depois de desfiado nem se sabia de onde vinha e com o tempero do refogado ganhava sabor. A fome falava mais alto que outras esquisitices. 

Elas metiam as mãos ao trabalho. O bacalhau sem espinhas e desfiado juntava-se à batata cozida. Mais a cebola e o ovo. Tudo misturado com o tempero para dar sabor. E no final o molho de salsa apanhada na horta de casa. Já andava o cheiro no ar e ainda nem o lume estava aceso. 

Era preciso arte para aquilo. Meter comida ao lume qualquer um faz, agora para cozinhar é preciso saber. Era preciso ter mão para fazer um manjar daquilo que alguém não quis. Depois eram duas colheres na luta uma com a outra até a massa desaparecer. O óleo já quente a ganhar vida quando a recebia. A atenção para os virar antes que ficassem queimados pela metade. Os pastéis de bacalhau a sair douradinhos e a crepitar. O cheiro a óleo quente e a massa quente chamavam pelo estômago. O melhor petisco feito com o que tinha sido deixado de lado. 

- Isto aqui não se estraga nada que não somos ricos.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A excursão

O autocarro parava sempre no mesmo sítio que assim não havia quem se perdesse. Era palavra passada de boca em boca e escrita numa folha de couve. 

Antes da hora marcada começava a agitação. Ainda o sol não tinha nascido por completo, já eles esperavam. Chegavam as crianças pela mão e as mulheres acompanhadas dos maridos. Apareciam todos bem arranjados dentro daquilo que os seus bolsos deixavam, e de cesta pronta debaixo do baço. Vinha cheia com o farnel que tinham preparado em casa que o que se quer é ser poupado. 

- Oh Maria, também vais? 

- ‎Ia lá ficar em casa. 

Meia dúzia de "olá. Estás bom?" e lá ficavam a dar à língua enquanto esperavam. Era para entreter. Assim que o autocarro parava, arrumavam o farnel e subiam à procura dos lugares. Os mais novos só paravam no banco do fundo enquanto os outros se iam arrumando onde calhava. O importante era ir que a vida não lhes dava muitas oportunidades de fugir aos caminhos de todos os dias. 

Aquilo era trabalho casa e vice-versa e não há alma que aguente. E assim lá iam eles. Animados. Faziam o caminho até à capital ou até onde os quisessem levar. O que era importante era ir e que não fosse para ver desgraças. Para isso já bastava a vida de todos os dias. A viagem passava entre cantorias e conversas que nunca chegavam a acabar. Falava-se de tudo e de todos. 

Quando a fome dava sinal, servia-se o farnel num qualquer canto que desse para estender a manta. O pão-de-ló e o frango corado mais umas pataniscas e uns pastéis. Uma pessoa é remediada, mas ainda enche o estômago. Mais um bocadinho de pão e um gole de vinho. Voltam quando o sol já se foi. Com um dos bonés a passar de banco em banco a recolher uns trocados que o motorista bem merece.

Amanhã voltam ao mesmo. Às preocupações e ao trabalho que a folia é boa, mas é só de vez em quando. 

- Oh Manela, na próxima também vamos? 

Então não? Nem a excursão se fazia se ficassem em terra.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ser o que se é

Era diferente. Sempre tinha sido. Não se lhe conhecia outra maneira de ser que não fosse fora do habitual. Fora do lhe era esperado. Era esperado de todos, mas havia quem não cumprisse. Quem fugisse do caminho que lhe estava destinado. Era assim que se tornava alvo do olhar de todos os que lhe cruzavam o caminho. Mesmo dos que já lhe conheciam a exuberância. 

- São as vaidades. 

Era o que diziam. As vaidades, a mania, o querer mostrar-se. A explicação nunca era simpática nem compreensiva. Não era o que procuravam. A verdade é que ou são como todos ou assim são. Não há outra opção. São regras daquelas que nunca chegaram a estar escritas. 

Mas continuava a ser diferente, mesmo com dedos apontados e olhares reprovadores. Mesmo que as conversas se continuassem a fazer ouvir nas suas costas. 

Comentava-se a vergonha que era tudo aquilo. A roupa que só se via na cidade. O chapéu em vez do boné. O vermelho da má fama nas unhas. Um sem fim de coisas que não eram permitidas. A voz dela que se ouvia à distância como se tivesse algo de importante a dizer e ele que parecia tão frágil que ninguém acreditava que nascera homem. 

- Mas é assim que uma pessoa se comporta? - os outros sempre com a preocupação na vida que não era sua. 

A culpa era dos diferentes, daquela mania de se ser o que é e não os que os outros querem. A falta de respeito pela mentalidade que oprime quem não vive refém dela. 

- Olha que as pessoas vão falar - diziam quando aconselhavam precaução, quando tentavam mostrar o caminho que tinham por certo. 

- Já não o fazem? 

- É melhor não dar mais razões. 

A culpa colada a quem nada fez. O esconder daquilo que se é. O ser tudo, desde que o tudo seja o que os outros querem. Até ao dia. Quando o julgamento se torna demasiado duro, quando se procura viver em vez de não fazer mais do que sobreviver. O dizer adeus sem o acompanhar de até um dia. 

Um dia fazem a estrada sem volta e deixam para trás as vozes que nunca se calam. 

- Nunca mais se viu por aqui - é o que dizem dos que foram enquanto apontam o dedo a mais um.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O nascer do novo ano

A banda dava sinal de alvorada assim que o dia amanhecia. Ano novo recebido com o bombo a marcar tempo e os músicos, mal protegidos do frio, a marchar rua abaixo e rua acima. Não era tempo de grandes alegrias e muito menos de festejos. Era só mais um mês que começava com o nascer de um novo dia. Mas este tinha direito a música e quando a banda toca há outro alento para o corpo. 

As pessoas apareciam às portas. Roupa de trazer todos os dias que a boa está guardada para os dias do senhor. Palmas a acompanhar as marchas e umas cantigas improvisadas. Os vizinhos que se encontravam à porta e falavam do mesmo de sempre.

- Então e o seu home

- Tá lá praquele lado - diziam elas indicando a direcção com um gesto largo e com o ar de que a pergunta nem se punha.

Juntavam-se una quantos ali no sítio do costume. Só os homens e os miúdos. Todos à roda do tronco que ainda ardia a bom ver. Fazia mais de uma semana que aquele fogo aquecia os corpos e puxava à conversa e à pinga. Alimentado a lenha que se apanhava por aqui e por ali e que aquecia as noites que gelavam os campos. Deixavam o chouriço a assar, o pão cortado com o velho canivete para acompanhar, o toucinho a pingar a gordura para o lume. Os bonés já a inclinar. O corpo a aquecer que o ano amanhece frio e o vinho só dá calor até certo ponto. Falam da vida de língua afiada, mas se lhes perguntarem dizem que só as mulheres é que falam assim. Pudera, os homens são sempre homens.

As mulheres estão recolhidas em casa com os miúdos de mama agarrados às saias e as miúdas agarradas ao trabalho que é de novas que aprendem. Há lá tempo para brincadeiras. Nem se sabe bem o que isso. Nem bonecas se encontram, quanto mais. É saber onde está o sabão e andar de olho vivo nos irmãos. 

O novo dia é só mais um dia. Em casa que o tempo não deixa ir para o campo. Que se ouça uma modinha que pelo menos isso anima e o corpo balança a tentar acompanhar o ritmo. Discreto que não se quer falatório.

Lá veio mais um ano. Se não for melhor, que pelo menos seja igual ao que passou que a esse, e às suas manhas, já há quem conheça. 

Venha o novo ano. Dias iguais a todos os outros, trabalho a moer o corpo e as preocupações a moer a cabeça. Que se bata umas palmas quando passa a banda, sempre alivia as cruzes que se carregam.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Natal a Servir

Antes da menina chegar vinda lá de Lisboa, chegava a mulher de todos os anos. Aquela que amassava as broas e os coscorões que iam à mesa na ceia de Natal e que adoçavam a boca da família. Só da família. Amassava sob o olhar atento da senhora e com a mão pronta da criada para ajudar. Era para trabalhar que ela lá estava. 

Miúda delgada que o corpo não conhecia comida que lhe enchesse as peles. Nem no Natal. A casa esperava a chegada da menina que vinha lá de Lisboa com a família. Eram eles que se lambuzavam com os doces que ela fazia. Ali, durante horas esquecidas. O fogão a lenha aceso o dia todo. O fogareiro a petróleo pronto para os escaldadinhos. O corpo dorido. 

Tinha sido a criada da menina que lhe tinha ensinado, mas era a sua mão doceira que encantava a família. A farinha e os ovos perfumados a limão e regados a aguardente. O óleo a borbulhar com o calor do fogareiro e ela ali, agachada, a queimar os braços enquanto virava os fritos. 

Mais um Natal. Mais um dia de trabalho que o corpo só descansa depois de tudo arrumado e limpo. Volta ao trabalho antes de perceber que descansou. Quando a senhora toca à sineta. Sete e meia da manhã em ponto. Era preciso estar de olho nas criadas de servir que já se sabe como são. 

E ela levantava-se, arrepiada com a corrente de ar frio que chegava lá de fora. Vestia a roupa de trabalho e lá ia ela. Na cozinha sentia-se o cheiro doce das broas que lhe moeram os braços. Ela não lhes tocava. Não tinha autorização para isso. Aquelas eram para a família. São para ela as olhar enquanto serve o jantar. Nada mais. 

Quando a menina voltar a Lisboa, a senhora vai guardar as que sobrarem. Fechadas à chave no armário da cozinha. Chave guardada onde só a senhora sabe. No próximo ano volta tudo a repetir-se e aí, só aí, a criada tem autorização de tocar nas broas que ajudou a amassar. As do ano anterior, perfumadas a bafio de doze meses e duras da madeira que as guardou. 

É a vida das que estão para todo o serviço. Só para o serviço. Até no Natal.


Texto publicado originalmente na Revista DADA de Dezembro de 2017

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Depois da época

E termina assim. A casa vazia depois de dois dias de barulho e correrias. As cadeiras que sobram para o dia-a-dia que ali se vive. A terra que diz adeus aos que já não se consideram seus. 

Foram para longe. Um longe que não se mede por quilómetros ou o que lhe valha, mas que vive no desinteresse que só esquecem quando se acendem as luzes da árvore e o bacalhau e as couves vão ao lume. 

Ouvem-se as brincadeiras dos mais novos que não conhecem aquelas ruas e que dali só sabem que é a terra. Assim, simples. Sem outro nome. Sem mais história ou amor. A terra, lá onde vivem os avós e aquelas pessoas que se dizem família, mas que eles não sabem quem são. 

Vai-se o Natal nos carros que partem sem olhar para trás porque para a frente é que fica o caminho. Na cidade, na vida que se mostra aos outros como se só aqueles que deixam a terra fossem gente digna de memória. Cheios de conhecimento na ponta dos dedos e de cabeça vazia de saber. 

Seguem com o corpo cheio de açúcar e óleo. O polvo e o bacalhau a brigar com o peru. Os movimentos presos com o excesso de comida dos últimos dias. 

- Mas para que é tanta comida? - dizem eles enquanto se servem uma e outra vez sem que tivessem dado um minuto que fosse para ajudar. É precioso o seu tempo, o dos outros é outra história. 

Dizem um adeus sem energia e um até já despachado. Esperam a visita nas avenidas movimentadas. Onde interessa. A aldeia fica para dali a um ano, quando o senhor de vermelho voltar a fazer uma visita. 

Ficam para trás as memórias e as histórias que são só suas e dos seus, mas que preferem que assim não seja. 

- Nem me lembres disso - dizem quando se fala da infância em tempos menos abundantes e de mais inocência. De pernas esfoladas e comportamentos que tinham o seu quê de palermas. 

Lá vão cheios das suas grandezas deixando para trás a certeza, que não chegam a conhecer, que diz que o melhor é aquilo que se esforçam por não recordar. 

É o Natal que devia ser todos os dias, mas que se escapa sem chegar a existir. Para os que assistem à partida ficam as casas mais vazias, os corações apertados de saudades, a distância a pesar nos dias que já são tão sós. 

Lá pela terra só sobram os que de lá não querem sair e que sabem tanto sem que os deixem mostrar. Foi-se o Natal, foi o que foi.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Lugar à mesa...de Natal

Mais um ano. O dia começa como todos os outros. Cedo. É assim para quem tem de alimentar a família. Não há dia santo que lhe valha, o trabalho está sempre à sua espera. E elas apresentam-se de bata vestida e lenço à cabeça. Sempre. 

O dia amanhece frio e a noite ainda não se foi por completo. Para espantar os arrepios acendem a lareira que dá outro alento à casa. O crepitar da lareira já garante meio sustento. Pegam no alguidar de barro, já marcado do uso, e deixam-no em cima do velho banco de madeira. Por baixo, uns panos feitos de restos para amparar as pancadas que o trabalho não é de brincadeiras. 

Juntam-se várias mãos. Diferentes gerações, o mesmo espírito, os mesmos braço feitos de força. Dois dedos de conversa e outros tantos de trabalho que assim, com companhia, até vai embalado.

Preparam as coisas a olho que as medidas só as usa quem não tem mãos treinadas. Deixa-se a margarina em banho-maria. Segue o resto para o alguidar. Um de farinha com fermento e outro tanto daquela que se encomendou ao padeiro. Sal. Açúcar nem vê-lo que a massa é assim mesmo. A raspa dos limões que se trouxe da vizinha, e da laranja que se foi buscar ao quintal. Mais o sumo que sempre adoça. 

Mete-se a cafeteira ao lume que o corpo pede o café, e as mãos vão ao trabalho. A manteiga derretida e é começar a juntar tudo. Com paciência e o seu quê de sabedoria. Um amassar com precisão que isto não se faz de qualquer maneira. É o saber que está pronto só de olhar. Passa a cafeteira para a borda da lareira enquanto se espera que a borra assente e verifica-se o tempero da massa. Quando está no ponto, passa para o balcão e é batida até o trabalho ser dado por feito. No meio de conversas e risos perdidos que a vida pode ser triste, mas ainda não levou a capacidade de sorrir. 

Massa estendida e o cheiro a cru a misturar-se com o café da borra. Óleo a aquecer na panela grande. O garfo próprio à espera. 

Cortam a massa sem hesitar e levam-na ao óleo quente. O borbulhar a crescer e o coscurão a ganhar forma. As bolhas da massa a rebentar. O cheiro a óleo quente e massa frita. Os braços a queimar. O açúcar e a canela prontos para o final. 

Ainda mal nasceu o dia e aqueles corpos já contam com horas de trabalho. O calor do lume a aquecer-lhes a cara. E uma travessa de coscorões pronta para a família e para quem quiser que comida é coisa que nunca se nega. 

Que venha a noite de Natal.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Não escapa uma

Ouvem-se as conversas cheias de certeza que a vida alheia é sempre certa na boca de quem a não vive. 

- É o que te digo. Vais rua acima e é tudo mulheres de má vida. Não escapa uma. Para baixo também há que se lhe diga.

Lá está. Sentença dada como se ali estivesse o pilar da retidão moral. Sem dúvidas. É assim e ponto final. Para os outros que quem tantas certezas não fala de si e muito menos dos seus. Se falasse diria que a sua porta era não na sua lenga-lenga. Não se esperava outra coisa. 

É o dedo espetado à vida alheia por uma língua afiada em relação a assuntos que não são seus. A pessoas que conhece a cara, a voz e as rotinas. Nada mais. Nenhum seu que nos seus não há maus exemplos nem pecadores. São pessoas com o amém na boca e a mão a bater no peito. Correctos. Como se quer. 

- Só digo a verdade - a sua pelo menos que a verdade dos outros conta pouco em situações destas. 

A sua está sempre contra os outros. Boca cheia para cuspir no caminho que os outros fazem.

Conversas de esquina e de bancos de igreja. De casa. Falam de boca cheia e visão bloqueada por palas que não deixam ver além das suas verdades. Se é que se podem chamar de verdades. 

- É só má vida, uma vergonha. 

Não tão grande como falar da vida alheia, mas isso são outros quinhentos e para esses não há razão que se aplique. Porque não se quer que assim seja. Porque olhar para dentro das paredes a que se chama casa implica olhar para os seus. Tal e qual como eles são. E quando se olha com atenção ainda se pode encontrar alguma coisa que não se queira ver. Com eles, os seus, não há mal dizer que entre. 

Os sorrisos para os que se cruzam consigo escondem as facas afiadas que espetam nas suas costas.É o ser menor do que aquilo que se pensa. A pequenez das palavras que se escolhe para atirar aos outros.

Afastam-se das mentes que dizem ser pequenas, da terra que acreditam não ser suficientes para eles. Falam dos que ficam para trás com uma altivez que só quem se acha melhor do que os outros pode ter. Deixam a terra, mas as ruas da má língua ficam-lhes coladas ao corpo. Uma doença crónica de mal dizer e nariz empinado como sintomas.

Qualquer dia foge-lhes a boca para a verdade e dão os seus como iguais aos outros. Dignos de juízos de valor e pecadores. Tal e qual como os da porta ao lado. Nem mais nem menos. Feitos a papel químico. Qualquer dia não há mão a bater no peito que lhes valha e nada que os salve de quem desenrolou a língua para falar de boca cheia daquilo que não conhece. Vai-se a ver e, qualquer dia, são eles que andam de facas espetadas nas costas.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lá pelo Instagram...à porta de casa

Ainda se encontram os sacos pendurados à porta enquanto esperam que alguém os vá buscar. De manhã, pela fresca, deixam-nos ali. Pendurados no portão e na porta. Alguns com um recado lá dentro, mas, além disso, estão vazios. Sacos de pano pendurados na porta, protegidos por um saco de plástico se o tempo ameaçar chuva. Sempre as mesmas casas. Ainda hoje. Todos os dias. 

 São rituais que ficam. O conforto da garantia de pão fresco mesmo quando não há ninguém em casa para responder ao apito. A confiança nos clientes de sempre. Os gostos e as manias que se conhecem de cor ao final de uns quantos anos. 

O aviso ouve-se quando ainda não se vê a carrinha branca. A buzina a encher a rua. O mesmo ritmo. Mais ou menos à mesma hora que esta profissão não exige pontualidade suíça. Pára no sítio de sempre. 

Tempos houve, daqueles que eu ainda me lembro, que as mulheres se juntavam à espera. Ficavam de pé, encostadas ao muro, de batas traçadas e sacos de pano na mão. Trocavam dois dedos de conversa, juntava-se mais uma e outra e esperavam que viesse o padeiro. No sítio de sempre. 



Hoje a rua está vazia e ele anda de casa em casa a recolher sacos. Mal cozido para uns, quase pretos para outros. Num dos sacos um pedido para mais uns daqueles queques do costume. “Vai ter a visita da neta”, pensa ele que já os conhece. 

As contas ficam à espera de acerto. Os clientes são de confiança e o pão não se nega a ninguém. Lá para ao fim-de-semana, quando tiver mais do que sacos na porta à sua espera, acertam os trocos. Trocam dois dedos de conversa que também fazem falta. Um “Como está a família?” ou algo do género. Por agora, lá vai ele. Rua acima com a buzina a anunciar a sua chegada. Bata branca, carrinha a cheirar a farinha e a forno de pão. 

Para trás fica a rua vazia e os portões adornados com sacos de plástico. Papossecos e bolas, queques e mais uns bolos.

Lá ficam, à espera, até que alguém volte a casa.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Azeitonas para a feira

Eram miúdos. Andavam todos pelas mesmas idades e nas suas cabeças só tinham a ideia de que a feira estava a chegar. Era o poço da morte e a banca dos tirinhos, mais o circo Mariani e um sem fim de coisas que os esperava sempre que Outubro começava a chegar ao fim e as mães preparavam-se para honrar os mortos.

Eles queriam feira, mas para isso era preciso dinheiro. A festa é bonita, mas os divertimentos têm bilhete e eles têm os bolsos vazios. E em tempos de vacas magras não podem esperar que alguém lhes dê uma moedinha para os carrosséis. As moedinhas são contadas até aos tostões.

Para pôr moedas nos bolsos, lá iam eles rua a cima de saca carregada de azeitonas. Acabadinhas de apanhar de árvores que não eram suas. Verdade seja dita, nem as ditas cujas eram deles nem os donos lhes tinham encomendado tal trabalho. Coisas de cachopos, é o que é.

Mas lá iam eles, esquecendo o pormenor que o conteúdo da saca não era seu, a caminho do lagar onde quem os recebia não perguntava quês ou porquês. Saca entregue e dinheiro recebido. Negócio feito e moedas no bolso. Era isso que interessava.

- 5 escudos para este dia...

Lá ficavam eles a contar os escudos e os tostões e a dividi-lo pelos dias da feira que é preciso fazer render o peixe. Se não for assim ainda gastam tudo de uma vez e depois como ficam? Não se foge ao resto da feira. 

Já se sente o sabor do pão com chouriço e o nervoso de ver as motas a rodar no poço. Venha de lá a feira que eles estão prontos. A contar os dias para a Feira dos Santos. 

Miúdos. Fazem-se ao caminho a pé que a distância não é assim tanta e não têm outra maneira de lá chegar. Lá vão eles, bem disposto e vestidos com a melhor roupa que têm, mesmo que alguma já tenha uns quantos remendos disfarçados. O caminho parece-lhes longo de mais porque o tempo que demoram a chegar é menos tempo que estão lá.

Já se avista ao longe. As lonas penduradas e o barulho. O cheiro a pão com chouriço a chamar para os comes e bebes que eles não trazem a cesta com a comida como os mais velhos. Os miúdos querem outras coisas e para este ano têm garantidos os trocos para feira. É tempo de festa.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O almoço da muca

A banda saía à rua de manhã cedo. Já o tempo estava frio e o casaco lá ajudava a compôr a farda. Iam dar os bons dias à população que abria a porta de casa só para os ver passar. Todos os anos a mesma coisa. Tão certo como o Natal ou a festa à Nossa Senhora. Vinha o Outono, as folhas deixavam as árvores e a banda desfilava no último fim-de-semana de Outubro.

-Lá iam eles em cumprimentos à aldeia. Tocavam o hino com o orgulho que só se tem naquilo que se vê crescer do nada. Naquilo em que se trabalha sempre que se pode para que se mantenha. Sem olhar ao tempo que se rouba à família. Sem pedir nada em troca. O bem de todos acima do pessoal. É para os outros, para os que ali estão e para os que ainda virão. Para que aquela casa abra as suas portas a muitos que ainda nem por aqui andam.

E a sala tornava-se pequena de mais para dar lugar a todos os que apareciam para o almoço. Mesas arrumadas ao lado umas das outras, cadeiras apertadas e que causavam um desconforto de que ninguém se queixava. Uma aldeia inteira e mais uns amigos a celebrar.

Da cozinha vinha o cheiro do almoço feito por quem nada recebia em ali estar. As mulheres dos directores, as mães, as tias e aqueles que só vinham ajudar. Panelões onde se cozinhava desde manhã cedo. As batas sujas e os pés doridos. O estômago em vazio que quem trabalha para alimentar os outros só come quando já pouco sobra. Os directores a servir à mesa. As tigelas da sopa, as travessas cheias de comida. O barulho dos talheres e as conversas gritadas a encher o espaço. A mesa dos músicos.

A festa que se prolongava pela tarde. A música que subia a palco. as marchas e os paso doble a animar o dia que já cheirava a frio. Os melhores do mundo aos ouvidos de quem os acompanhava. O beberete a receber a noite. A generosidade da população a encher uma mesa que dava de comer a quem se quisesse juntar. O frango assado que há coisas sem as quais os músicos não passam.

Chegava o final da festa e a sala que parecia tão apertada transformava-se num salão. Ficava quem ainda tinha de arrumar o que sobrava da festa. Limpar as mesas, arear os tachos, arrumar a loiça. Trinta por uma linha que, já diziam os antigos, quem quer festa sua-lhe a testa. 

E chegavam tarde a casa, mais uma vez. Prontos a cair na cama e com o cansaço a moer-lhes o corpo. O trabalho sem vencimento que lhes roubava horas à família e lhes acrescentava preocupações. O orgulho de ver a banda marchar rua acima. Mais um ano.