domingo, 20 de dezembro de 2015

Está zero a zero

Ouvem-se as vozes exaltadas e uma enxurrada de impropérios que visam única e exclusivamente a mão do senhor que está vestido de preto no meio das duas equipas. Pobre coitada, soubesse ela onde é que o filho se ia meter, mas uma pessoas não pode adivinhar.

- Olhe lá, quantos estão?

- Zero a zero e não ganha ninguém. Pelo menos por agora, mas isto ainda nem chegou a meio.

O campo está longe das relvas que se vê na televisão. Pó de pedra, daquele fino que salta assim que dão um pontapé na bola. Vinte e dois em campo, mais os três que ouvem comentários pouco próprios sobre quem os trouxe ao mundo.

Cá fora o jogo é outro. É a mãe que vem ver o filho jogar. Junta-se a nora e os netos, a amiga e a vizinha. e o resto da terra, ninguém fica em casa em dias destes. Ficam todos ali de pé durante uma tarde inteira. Parece um ritual cumprido à risca, vai toda gente ver a bola.

Os assadores estão a fazer brasa e no bar vão saindo minis para os mais velhos e garrafas de Sumol para os mais novos.

- Não vás correr para aí que ainda te magoas.

Ouvem-se os gritos das mães. Estão de pé, encostadas ao muro do campo e com os casacos dos miúdos dobrados no braço. Fala-se de tudo, deita-se um olho ao jogo, outro ao Zé que nem se sabe bem como, escorregou e esfolou a mão e o joelho.

- GOLO!

E pára o mundo. Não há quedas nem feridas ou árbitro que roube a alegria. É golo e é dos nossos. Faz-se a festa e os jogadores gritam. Não ganham nada com isto. Nada além de nódoas negras, cansaço e, nos dias mais complicados, uma visita às urgências do hospital. Mas vibram como se isto fosse o seu sustento.

É golo. É para festejar.

Bola ao centro e os couratos a assar. Cheira a gordura a fritar no assador de chapa e começam a sair os primeiros pães.

- Para a semana, o jogo é cá ou fora?

Vamos a pé ou de carro? Ou vai tudo de autocarro para fazer a festa no caminho? Seja qual for o resultado. Vamos todos.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Assim que chega ao frio

Era mesmo ali no fim de Novembro. Dezembro a espreitar e já um frio considerável na rua. Casacos quentes e manhãs de nevoeiro. Daquele nevoeiro tão cerrado que se podia esperar a chegada de D. Sebastião a qualquer momento.

Já cheirava a Natal. Cheirava a frio, a lareiras acesas em quase todas as casas e mantas quentinhas à nossa espera no sofá. Tínhamos por certo que as férias estavam a bater à porta.

Mas o Natal só chegava quando, ao acordar de manhã, a árvore já estava à nossa espera. Verde, gorda e a sujar a casa toda com resina. Árvores a sério. Daquelas que picam e que cheiram a verde e a natureza. Que cheiram a Natal.



O Natal começava quando ele saía cedo de casa. Casaco abotoado até cima e lá ia ele. Voltava já perto da hora de almoço. Às costas trazia dois pinheiros.

- Um para a tua casa e outra para aqui - dizia assim que chegava numa lengalenga repetida ano após ano.

Era ali que começava o Natal. Nos dois pinheiros deitados no chão. Mais redondos do que os desenhos que se fazia na escola e com um cheiro que enchia tudo à sua volta. Dois vasos cheios de areia e revestidos a papel de embrulho estavam preparados para os receber. Os sacos cheios de fitas e bolas de todas as cores e feitios saíam dos armários.

Estava nevoeiro e ameaçava chuva. Os casacos estavam abotoados e os cachecóis ficavam tão enrolados que só deixavam os olhos à vista. Os pinheiros, com direito a resina pelo chão, estavam preparados para a festividade e o ar cheirava a Natal. Uma mistura que ainda levava canela e fumo da lareira.

Era assim que começava o Natal quando eu tinha pouco mais de um metro de altura e o cabelo à Beatriz Costa. Com dois pinheiros apanhados de propósito para mim.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

As pancadas

A sala estava cheia e o portão ainda não tinha fechado. Havia quem ficasse lá para trás, de pé. Encostados ao balcão onde se serviam bebidas antes de começar o espectáculo. E durante, se fosse caso disso.

Era uma plateia improvisada, Com cadeiras de metal que primavam pelo desconforto. A sala era fria. Nas noites de Inverno fazia tanto frio como na rua. Quem aparecia já sabia ao que vinha. Apertavam mais o casaco, aconchegavam o cachecol e ficavam. Não havia desculpa para ficar em casa. Iam para se divertir e isso justificava tudo. Iam para ver aquele miúdo que tinha tanta graça que bastava entrar em palco para na sala rebentar numa gargalhada geral. Se ele quisesse podia ir longe, ouvia-se dizer.

A cortina, vermelha como manda a tradição, estava fechada. De vez em quando ouvia-se um riso do outro lado ou alguém espreitava.

- A casa está cheia - diziam lá para dentro.

No meio do corre-corre entre a maquilhagem e a roupa. Eram cotoveladas e "Chega para lá" que o espaço era pouco para todos os que iam entrar. Alguém olhava para o relógio só para confirmar as horas. Estava quase a começar. E a sala já estava cheia. Reviam falas e marcações. Olhavam ao espelho mais uma vez. As mãos tremiam. Era noite de estreia.



Do outro lado da cortina aproveitavam para pôr a conversa em dia e para escolher os últimos lugares. 

- Oh menina, sente-se aqui à frente que aí não vê nada. Eu troco consigo.

E lá se ajeitavam. Puxavam de um lado, encolhiam do outro. Cumprimentavam o vizinho e fazia-se silêncio assim que se apagava a luz. Esperavam pelo sinal.

Ouviam-se as pancadas secas na madeira. Estava na hora. O abrir apressado da cortina revelava o cenário e os actores, vizinhos de todos os dias, entravam em palco. Com outras histórias. Maquilhados e vestidos como outros que não eles.

Começava o espectáculo. A sala em silêncio. Todos atentos. Entrava o tal miúdo em palco e a gargalhada geral enche a sala.

- Se quisesse, podia ir longe - ouvia-se alguém dizer.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O homem do saco

Só reparei nele quando me baixei para apanhar o conteúdo da minha mala, que estava espalhado pelo chão da plataforma. As minhas coisas têm vontade própria e uma relação clandestina com as calçadas e estradas por onde vou passando.

Foi o saco verde fluorescente que chamou a minha atenção. Um daqueles sacos de compras com rodinhas e espaço ara levar meio supermercado lá dentro.

Ele, de cabeça baixa e metido na sua vida, estava sentado num dos bancos de metal da estação. Tinha umas calças vermelhas e um casaco abotoado até cima. O dia estava a amanhecer radioso, mas prometia frio. A barba, mais branca do que preta, escondia a cara magra. Os olhos, grandes e fundos, estavam fixos nas mãos calejadas que não paravam quietas.


O tilintar metálico ouvia-se ao longo da plataforma que estava completamente em silêncio, mas cheia de gente à espera. A uma hora daquelas não se fala porque o dia está a começar. Na viagem de volta a silêncio é justificado porque na manhã seguinte também é dia. Ele lá continuava e ninguém olhava para ele, fixo nas mãos e nas agulhas que tilintavam.

Parou para se debruçar sobre o saco. A idade não lhe tirava a agilidade ao corpo magro. Procurou durante tanto tempo que lhe perdi a conta. Quando encontrou o que precisava, voltou à sua vida. O tilintar soou pela estação e as pessoas à sua volta continuaram a tentar ganhar forças par ao dia que estava a chegar. Ele, de vez em quando, lá olhava de soslaio para eles. Eles, como sempre, apertavam mais o casaco e continuavam alheios a tudo à sua volta.

Uma voz rouca e distorcida avisou que o comboio daquela hora estava quase a chegar. Ele não esperou pelo segundo aviso. Arrumou as agulhas e tudo o que tinha no colo e fechou o saco. Puxou-o com uma mão e meteu a outra dentro do bolso do casaco. Bateu com os pés no chão, não sei se para afastar a dormência causada pelo tempo que passou sentado ou se queria meter medo ao frio.

Estava a nascer um daqueles dias de sol de Inverno que não aquece de maneira nenhuma. Pelo menos, o cachecol que ele tanto tricotava estava quase pronto.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Minha linda freguesia

Ajeita-se o lenço na cabeça e aperta-se o avental. A saia abaixo do joelho e os saiotes brancos passados com rigor.

Está calor, mas veste-se o traje a sério. Com direito a camisa, meias rendadas e sapatos fechados. Calças grossas para os homens e colete apertado até ao último botão. Não esquecer o chapéu e o barrete. Que se faça a festa.


Juntam-se os pares, os músicos preparados e os cestos cheios de flores. De todas as cores. Estão todos em posição. Braços esticados, passos marcados. Está tudo preparado, que comece a música.

O público junta-se, bate palmas e balança o corpo ao ritmo dos passos na madeira do palco.  Que venha a paródia que trabalho já há muito. Em cima de palco continuam a dançar, a saia vermelha roda e deixa a meia branca à vista. 

Separa-se o grupo. As mulheres ficam para trás. Os dois homens avançam. Barrete na cabeça e mão no colete. Frente a frente num duelo de música e ritmo. Ouve-se o fandango. Cronometrado, ensaiado ao milimetro. 

Juntam-se todos outros vez. Elas de cesto nos braços e mão na cintura. Está preparada a última dança. Ouvem-se as primeiras notas da música que já se conhece de cor e as flores são lançadas ao público. Os pares vão saindo. O acordeão e o clarinete ainda a tocar.

O público junta-se às vozes em cima de palco. Cantam todos enquanto os mais novos correm a apanhar as flores que vão caindo. Os dançarinos vão saindo enquanto acenam com os barretes e os cestos já vazios.

Mas continuam a cantar. Que seja assim. Cantemos todos, com alegria.




domingo, 15 de novembro de 2015

Ó de casa

- É para encher?

Grita o miúdo enquanto desce a rua. Calções de tecido, boné na cabeça e garrafa de vidro na mão. Entra na taberna sem hesitar e o taberneiro limita-se a perguntar:

- É para assentar no livro?

Nas mesas que andam por ali espalhadas ficam uns quantos com um copo de vinho à frente e cabeça caída com o peso do sono, outros jogam à bisca enquanto não é tempo de voltar a casa.


O miúdo corre rua acima sem fazer mais perguntas.

Uma janela de madeira abre-se. Uma miúda de lenço atado à cabeça espreita à janela, anda à procura do irmão que teima em não chegar. Do outro lado da rua, juntam-se as vizinhas em horas perdidas de conversa.

- O miúdo já aí vem - dizem-lhe sem perguntar o que procura.

E lá ficam elas encostadas à parede, de saia pelo tornozelo e cesta aos pés. Vestem luto carregado. Andam a ver quem passa e contam as novidades que sonharam no dia anterior. Apertam mais o xaile para as proteger e falam baixo para que ninguém dê por elas. Juram que sabem da vida de todos, mas pouco percebem do que passa do outro lado das portas.

Está na hora de despegar. Os homens aparecem ao cimo da rua com roupa de trabalho e enxada ao ombro com o saco do conduto pendurado. As botas vêm cheias de lama e as mangas da camisa arregaçadas. 

As mulheres e as crianças vêm mais atrás. Cestas equilibradas na cabeça e ar cansado de quem dá por terminado o dia. Ou parte dele. Espera-lhes o jantar, o inventar comida para as bocas que têm lá por casa. O rezar para que o marido não beba mais do que a conta.

- O teu homem anda pela taberna.

A mulher, cansada e com a pele marcada pelo trabalho no campo, olha de soslaio para a outra e segue caminho. Que a ignorância lhe sirva de lição, pensa. Devia ter vergonha da vida que leva, acredita a outra.


Vive-se paredes meias com uma aldeia inteira. Sabe-se de toda gente ou faz-se por saber. Reza-se pela alma do abençoado para sair a dizer mal de quem passou à sua frente. 

- A benção.

Se é que há benção que chegue neste mundo para tudo o que se vai passando por ali. Olha-se para a porta alheia porque é mais fácil apontar os dedos aos outros. 

Volta-se para a casa. Amanhã começa tudo outra vez. Mais um dia. Está tudo igual.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quentes e boas

No S. Martinho, vai à adega e prova o vinho. É o que se ouve dizer por aí.

A uma adega qualquer, nestes dias não é preciso convite. O que é preciso é sorte para encontrar uma que esteja aberta.

Tempos houve em que as adegas abriam os portões e ficavam à espera de quem quisesse entrar. Sem convites ou publicidade, era a tradição da porta aberta a quem viesse por bem.

Os homens juntavam-se, as mulheres ficavam recolhidas em casa. Boné aos quadrados na cabeça e copo de vidro na mão. Dos pequenos, é assim que pede o vinho.

Provava-se o vinho novo que ainda estava guardado em pipas. Das de madeira que enchiam aquele espaço em que o cheiro a álcool parecia estar colado às paredes a quem por lá passava. Juntavam-se amigos e conhecidos para cumprir o ritual de devoção a um santo.

Fazia-se a fogueira numa lata que andava por ali perdida. Era Novembro, o tempo estava frio e o vinho ainda demorava a fazer efeito. A fogueira ficava mesmo ali, no meio da adega. Aquecia os convivas do vento que entrava pelo telhado e pelas frestas da parede. Mais um copo de vinho que a fogueira começava a pegar.

Cortavam-se castanhas com os canivetes que andavam no bolso e o assador ia ao fogo. Era ver os homens a aquecerem-se na fogueira improvisada enquanto esperavam que o petisco ficasse pronto. Novos e velhos, sem distinção, Em dias de festa, o vinho era para todos.

Ouvia-se o abrir da torneira de madeira. Com esforço. Era só mais um copo de água-pé que era da boa. Tão boa que arde na garganta e aquece o corpo. É nova. Alguns começavam a ter dificuldade em manter-se em pé e o equilíbrio ia-lhes fugindo a cada copo que deitavam abaixo.

Queimavam-se as mãos enquanto se provavam as castanhas acabadas de sair do lume. Quentes e boas, como se quer. As vozes, arrastadas pelo peso do vinho, falavam de outros tempos tão antigos que se perdem na memória.

A noite terminava quando já nem se sabia que horas eram. A adega cheia de fumo e os corpos quentes da prova do vinho. Abriam-se os portões enquanto se bebia o último copo.

Só mais um. Para dar força para o caminho.