sexta-feira, 17 de junho de 2016

Para todo o serviço

Às vezes ainda nem tinham metro e meio de altura. Pequeninas e miudinhas, lá entravam elas na casa dos senhores de trouxa na mão.

Eram novas. Dez, onze anos, se tanto. Deixavam a casa dos pais, onde os filhos faziam mais falta a trabalhar do que a estudar, e entravam em casa dos patrões. Uma casa maior do que a que estavam habituadas e onde tinham tantos deveres que lhes perdiam a conta. 

Miúdas franzinas transformadas em criadas de servir. Muitas delas nem conheciam os bancos da escola, trabalhavam desde sempre. 

Aprendiam a regatear na praça, quando a senhora confiava o suficiente nelas para as mandar às compras. Lá iam, de cesta à cabeça e pés descalços, não importava se chovia ou fazia sol. Enceravam o chão. De joelhos. Cozinhavam os melhores manjares que sabiam. Comiam o que encontravam. 

Vestiam o traje de gala sempre que o jantar assim obrigava. A farda preta impunha o peso da idade que elas ainda não tinham. No avental branco não havia um único vinco e acentuava a cintura fina. Serviam os senhores e os convidados, carregavam com jarros de prata de peso insuportável e nunca perdiam a compostura. Eram para todo o serviço, fosse ele qual fosse. 

Dormiam depois de todos já estarem deitados. Quando já tinham deixado o fogão a brilhar, quando a casa cheirava a limpeza e não havia nada fora do sítio devido. 

Já os patrões dormiam o terceiro sono quando elas subiam as escadas até ao sótão para descansar. Acordavam quando a casa ainda estava em silêncio para preparar mais um dia. Os mesmos deveres à sua espera. 

Passavam os dias iguais sem que dessem por isso. Esperavam que chegasse o domingo e que não houvesse surpresas. Se corresse tudo como era suposto, tinham a tarde toda só para si.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

De pequenino

A pobreza é uma coisa que já se dá por garantida. Poucos são aqueles que têm mais do que o mínimo para sobreviver e a maior parte trabalha de sol a sol para comprar farinha para cozer pão. 

Os filhos aparecem quando Deus assim entende e o pouco que há estica mais um bocadinho. Depois aparece a má sorte que leva um ou outro. Não há família que não tenha conhecido a dor de enterrar aqueles que não tiveram tempo de crescer. 

O dinheiro não se multiplica da mesma maneira que os filhos vão aparecendo, é preciso ginástica e imaginação. Uma sardinha alimenta quatro bocas, uma sopa serve de refeição completa. A vida não é fácil, mas é o que se tem. 

São os caçulas que têm a sorte de conhecer os bancos da escola. Enquanto os mais velhos trabalham no que aparece, os mais novos aprendem a somar quando o que mais fazem é subtrair e escrevem o nome que poucas vezes assinam. Se a coisa correr bem, fazem a quarta classe, depois disso a escola está reservada aos mais afortunados. 

Um dia chegam a casa e, sem que nada o fizesse prever, são avisados do fim. 

- Amanhã já não vais à escola. 

A sentença foi lida sem direito a recurso. Não há discussão possível nem tentativa de ganhar mais um dia. Arrumam-se os sonhos e acorda-se para a vida adulta. Seja lá o que for que ela lhes reserva. 

Não se pergunta pelo trabalho. Há sempre um capataz à procura de alguém. Não importa a idade, ali há lugar para todos. Os que ainda não têm corpos de adulto também têm o que fazer. Está a chegar a época das plantações e é preciso apanhar a pedra que anda pelos campos. Há uma família abastada que precisa de uma criada de servir. 

- Tem de ser. 

De manhã, é ver os mais pequenos a caminharem descalços em direcção oposta à escola. São mais uns trocados que entram em casa e que pagam a conta que se ficou a dever na loja. 

A vida não é fácil, mas é de pequenino que se começa a perceber como ela é.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Peregrinação da Espiga

Hoje não se trabalha: é dia da espiga. Não há convite nem confirmação prévia, mas todos sabem que é dia de piquenique. Faça sol ou prometa chuva. 

Saem todos à rua, miúdos e graúdos. De cesta aviada com o farnel bem tapado com panos grossos e a manta aconchegada debaixo do braço. Há um ou outro garrafão para aquecer as almas. Fazem o caminho a pé, com cantorias e conversas, até ao campo que todos os anos os acolhe. 

Lá estão as sombras que lhes dão abrigo e o tanque onde se tomam uns banhos, se o tempo o permitir. 

Esticam as mantas assim que chegam. As mulheres, de olho nos miúdos que improvisam um jogo de futebol, deixam-se ficar na conversa. Por aqui e por ali, há quem se perda numa jogatana de cartas cheias de vincos. 

- Goooooolo! 

Conversas trocadas, gargalhadas, correrias e gritos de vitória. 

- Ó Gertrudes, mas tu sabias disto? 

- Opah, não podes jogar isso. 

O mundo parou naquele momento de descanso. 

Chega a hora de almoço e o farnel espalha-se pelas mantas dos convivas. Pastéis de bacalhau e frango assado no forno. Pão amassado à mão e bolacha maria. O que há é dividido por todos, sem restrições. O pouco que se tem, chega sempre para mais um. 

O dia não acaba sem um último passeio à procura da espiga. Oliveira e nespereira. Papoilas e malmequeres. Rosmaninho e espiga. Tudo contado como manda a tradição e transformado num ramo bem apertado com uma guita. Tem de durar até ao próximo ano. 

A vida é simples. É feita de certezas que não se marcam, de uma união que não é programada. 

- Até para o ano, se Deus quiser!

terça-feira, 26 de abril de 2016

O que nos move

Pai-nosso que estais no céu. 

Cheira a cera derretida e ouve-se o crepitar das velas que ainda ardem. Está frio, um desconforto que conforta quem procura aquela casa em busca de um alento que não encontra noutro lado. 

Elas cobrem a cabeça com o lenço de renda, delicado e tratado com o maior dos cuidados. Eles tiram o boné em sinal de respeito. Todos ajoelham em frente ao altar e fazem o sinal da cruz de cabeça baixa e a olhar o chão. 

Ouvem-se os murmúrios de rezas e de conversas trocadas. É a fé que move esta gente. Que reza antes de deitar e sempre que o coração pede. De joelhos, com o terço na mão, a correr o rosário que já se sabe de cor. 

Rogai por nós. 

Uma vida de culpa e remissão, uma confissão perpétua de pecados. A fé, a bíblia e Deus. Os sacramentos do santíssimo, a bênção do santo padre. 

Casam e baptizam os filhos. Vestem de festa no dia da comunhão. Acedem uma vela ou duas com pedidos de auxílio e de protecção. Aceitam o corpo de Deus que sacrificou o próprio filho para os salvar. 

Deus só nos dá aquilo que conseguimos aguentar.

É a certeza que Ele está lá, a ouvir, que os faz levantar no dia seguinte. Todos os dias que enfrentam fazem parte do plano que Deus guardou para eles. Batem com a mão no peito. 

Por minha culpa, minha tão grande culpa. 

Vem o domingo de ramos e a quarta-feira de cinzas. A Páscoa e a missa do Galo. As peregrinações a Fátima que deixam os pés em bolha e o cumprir promessas de joelhos no sítio onde Nossa Senhora se apresentou aos pastorinhos que a esperavam. 

É a fé que nos move na certeza de que Deus tem um plano superior para nós e que nada falha os seus desígnios. A espera pelo descanso divino quando Ele decidir levar-nos.

Perdoai-nos Senhor.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O ar do forno

Há uma bola de massa crua que tanto repousou durante uma semana que se transformou em fermento. A superfície ficou seca e áspera, o interior mole como quando foi guardada. Amanhã vem outra para o seu lugar. Hoje mistura-se esta com parte da farinha. 

Vai-se buscar o alguidar de barro já partido e marcado de tanto trabalho. Deita-se parte da farinha e a bola de uma semana e mistura-se num piscar de olhos. Sem grande ciência ou tempo a perder. Misturar e deixar repousar. 

O maior segredo é sempre uma junção de persistência com paciência. 

Quando o novo dia nasce, encontra o forno a aquecer. Ramos finos que vão queimando no forno de pedra que alimenta uma família e quem mais precisar. Fecha-se a porta e deixa-se o ar do forno chegar onde queremos que chegue. 


A massa está a descansar. Foi amassada até a respiração ficar pesada e os braços começarem a doer. De lenço na cabeça e bata já gasta, a mulher deu tudo por tudo para transformar a farinha em pão do bom. Até a massa chegar ao ponto. 

Depois, quando já repousou o que tinha a repousar e quando o fogo já chegou onde devia chegar, é cortar a massa à mão e moldar o pão com direito a bênção e oração. As mãos brancas da farinha formam pães e roscas para dar aos mais pequenos. Uma bola de massa crua fica a repousar para a semana seguinte que esta vida é feita de rotinas. Outras levam chouriço daquele que tinha ficado a secar na chaminé lá de casa.

Depois é esperar. A massa vai crescendo no forno. Já se adivinha a manteiga a derreter e o vapor do pão quente a queimar-nos a pele.

Começa a cheirar a pão quente e já se adivinha o pão estaladiço por fora e o interior branco e macio.  Para aproveitar o forno que ainda está quente, prepara-se um tabuleiro de sardinhas regadas a azeite e temperadas com cebola. 

Sai o pão a escaldar e entra o tabuleiro com o almoço. As rotinas cumpridas com o rigor que passa de geração para geração.

Parte-se o pão sem cerimónia nem faca. À mão. Meter faca em pão quente é tirar a força a quem o amassou e isso é coisa que não se quer. Daqui a uma semana começa tudo outra vez e não são corpos fracos que conseguem fazer pão. 

Não há nada que se compare à memória do cheiro a pão quente a encher a casa. A manteiga a escorrer pelas mãos e o sabor do pão amassado com a força de quem alimenta os que são seus. 

Parte-se quente, à mão e ficamos à espera que passe a semana.

terça-feira, 15 de março de 2016

O esquecimento

Há uma calma na vida fora da cidade. O silêncio é mais real. As fronteiras mais ténues. Não é por mal, é por hábito. Vem do tempo em que a chave ficava do lado de fora da porta. Quando, por muito pouco que houvesse na mesa, chegava sempre para mais um. 

Ouvem-se conversas, fala-se da vizinha. Esconde-se a vida num sítio onde todos sabem de todos, mas ninguém sabe de ninguém. É por isso que alguns fogem. Dizem que não interessa, que é pequeno demais para eles. Que falta horizonte.

Com o tempo as ruas ficam vazias, as portas fecham-se com duas voltas da chave e o silêncio lá dentro, as paredes começam a ruir. Fica a solidão. Os filhos partiram para a cidade, os netos não sabem o nome daquela terra. 

Voltam no Verão ou no Natal. Com sorte, conseguem aparecer num domingo perdido durante o ano para almoçar e voltar a fugir para longe daquele fim do mundo como lhe chamam. É só o tempo de almoçar contado ao segundo.

Ficam os mais velhos que se recusam a deixar para trás o pouco que ainda é seu.  Nada os demove da sua decisão. Aquele é o seu canto.

É escolher a nacional em detrimento da auto-estrada. Cortar pelas estradas mais estreitas e esburacadas. Descobrir o mundo que se esqueceu. As casas que caem. Os mais velhos a cumprirem as suas rotinas e a caminhar à beira da estrada sem tremer com a passagem dos carros que nem os vêem. 

Há um desapego para com o interior. Um desapego de quem vai e demora a voltar. Que com o tempo se esquece dos caminhos que chegaram a ser seus. 

Lá dentro, naquelas ruas esburacadas, há uma entrega à vida que não se consegue explicar. Uma força que acompanha até aqueles que parecem mais fracos. Uma vida cheia que a maior parte acha impossível de existir.

É na mesa do café mais antigo, aquele que nunca teria direito a aparecer em roteiros turísticos, que se contam as melhores histórias. Ali, entre cadeiras que se desfazem e balcões antigos, o passado torna-se presente. As histórias correm umas a seguir às outras sobre um tempo que não é nosso. 

O interior, aquele pedaço de terra com casas a cair, pode surpreender. Se nos apaixonarmos por ele descobrimos que a vida de quem tem rotinas de trabalho desde da infância é tão importante e tão cheia como a de quem acha que o sentido da vida está na indiferença dos prédios iguais. 

sábado, 5 de março de 2016

Água e Hortelã

Para lá do portão feito à mão com tábuas que sobravam disto e daquilo, ou do sítio onde devia estar um portão para o qual o dinheiro não chegava, há um outro mundo onde o trabalho começa antes do sol nascer. Seja dia de temporal ou haja aviso de seca.

A terra castanha e enlameada é trabalhada até estar pronta para receber as sementes e as regas. Um quadrado de terreno não pode ser desperdiçado. Antes pouco do que nada, que o pouco ainda alimenta e o nada deixa-nos de estômago vazio.

Homens de enxada às costas e mulheres com baldes à cabeça. O dia começa cedo. Trabalham na horta de casa, antes de partirem em romaria para os terrenos dos senhores, que lavram até ser noite. Os homens de boné e calças grossas. As mulheres de avental e lenço enrolado na cabeça. Eles de enxada. Elas de cesta à cabeça. Tal como em casa. 

É naquele terreno que chamam de seu, por muito ou pouco que desse, que se tira parte do sustento para a família. Não há dinheiro para gastar naquilo que se pode poupar. O descanso só vem nos dias santos. Nos dias que pertencem à fé não se trabalha que é assim que manda a tradição. Por respeito. 

Planta-se tudo o que o terreno permitir. Medem-se os canteiros ao milímetro. Guita de um lado ao outro e o rigor das medições de esquadro e régua feitas pelo olho treinado de quem faz aquilo desde que nasceu. Quando a horta começa a rebentar a obra de arte aparece em todo o seu esplendor. 

O feijão-verde trepa pelas canas que estão espetadas na terra. As batatas começam a florir. O tomate vai espreitando, vermelho e gordo, debaixo das folhas verdes e viçosas. 

E chega a época da colheita. De revirar as terras e colher o fruto do trabalho e da espera de tantos meses. Os barracões ficam cheios de batatas. Dos tectos pendem cachos de cebolas entrelaçadas umas nas outras. Apanha-se a couve para juntar às misturadas que iam alimentar a família naquela noite. E na outra a seguir. .

Que Deus nos dê água e um tranquinho de hortelã, a horta mata a fome de quem a semeia.